Catar feijões

Cada vez que vou ao caixa do supermercado pagar minhas compras, costumo me sentir bem pelas coisas que resolvo comprar. Acho que consigo burlar um pouquinho a indústria, e faço escolhas em consonância com outros valores que não os que a indústria quer que eu tenha. Costumo levar arroz, feijão, óleo, fécula de mandioca, alguma castanha, e é isso. Nada de hiperindustrializados, nada de qualquer coisa pronta, apenas alimentos que, pra que eu possa usar ainda vão me dar um bocado de trabalho.

Esse sentimento, no entanto, dura pouco. Ele dura até que eu resolvo comprar feijão da roça, com alguém que plantou o feijão. Aí eu percebo a diferença: é preciso catá-los.

Catar feijões coloca em perspectiva o quão industrializada minhas compras ainda são. Os feijões do supermercado são limpos, são selecionados, são bem parecidos uns com os outros. A uniformidade típica que só a industria pode dar a algo está lá. Catar feijões te permite ver o quanto você ainda não dá conta da não uniformidade do mundo. E que o mundo é muito mais diverso em cores e formatos que os pacotes do supermercado.

Catar feijões deixa a mão suja. Ele te lembra do trabalho com a terra, que é indispensável para que aquele feijão exista. Faz também com que você tenha que trabalhar um pouco para poder chegar até a hora dos feijões se transformarem em “mágicos”, comestíveis. Você acaba por reconhecer e valorizar aquilo que você está produzindo. Você sente que seu trabalho não pode ser em vão: desperdiçar é jogar seu tempo catando feijão fora.

Catar feijões te dá tempo pra pensar. Quanto mais impurezas e não uniformidades existem naquele feijão, mais você vai precisar de tempo. Você vai encontrar muitas pedrinhas, muitos feijões que serão necessários uma segunda olhada. Catar feijão te faz estar ali, pra perceber de verdade o que está na sua frente.

Catar feijão te faz estar presente. Seu pensamento pode viajar, mas não pode ser muito, nem pra muito longe, a ponto de você negligenciar o feijão e deixar os feijões com discretas marcas de carunchos passarem. Você precisa estar ali. Precisa recusar todas as outras tarefas do mundo. Precisa pensar algum jeito de tornar aquilo mais fácil, ou mais rápido, ou mais seguro. Mas pra decidir, você tem de estar ali.

Catar feijões te permite ter uma relação mais sensorial com os feijões. Especialmente se você resolve catar muitos de uma vez só. Aos poucos eles se juntam, e se transformam em muitos. Muitos feijões, aos montes, feitos para se afundar os dedos. Para se perder nas formas.

Catar feijão te permite sair brevemente da correria do mundo.

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