Sobre catar feijões

Feijões arroz. Foto: Miss Inoperative.

Catar feijões é uma tarefa grata. Ela te dá uma oportunidade de perceber o quanto estamos acostumados com tudo pronto.

Cada vez que vou ao caixa do supermercado pagar minhas compras, eu costumo me sentir bem orgulhosa pelas coisas que resolvi comprar. Sempre acho que consegui burlar a indústria, e fiz escolhas bem em consonância com esses valores. Costumo levar arroz, feijão, óleo, fécula de mandioca, alguma castanha, e é isso. Nada de hiperindustrializados, nada de qualquer coisa pronta, apenas alimentos que, para que eu possa usar, ainda vão me dar um bocado de trabalho. Esse orgulho, no entanto, dura pouco. Ele dura até que você resolva comprar feijão da roça, com alguém que plantou o feijão, e resolva catá-lo.

Catar feijões coloca em perspectiva o quão industrializada essas compras ainda são. Os feijões do supermercado são limpos, são selecionados, são bem parecidos uns com os outros. A uniformidade típica que só a industria pode dar a algo está lá. Uniformidade, que eu tanto abomino nessa vida, está lá no saco de arroz (e de feijões). Catar feijões te permite ver o quanto você ainda não preza pela não uniformidade do mundo.

Catar feijões deixa a mão suja. Ele te lembra do trabalho com a terra, que é indispensável para que aquele feijão exista. Te faz também ter de trabalhar um pouco para poder chegar até a hora dos feijões se transformarem em “mágicos”, comestíveis. Te faz valorizar aquilo que você está produzindo. Você sente que seu trabalho não pode ser em vão: desperdiçar é jogar seu tempo catando feijão fora.

Catar feijões te dá tempo pra pensar. Quanto mais impurezas e não uniformidades existem naquele feijão, mais você vai precisar mesmo de tempo. Você vai encontrar muitas pedrinhas, muitos feijões que serão necessários uma segunda olhada. Catar feijão te faz estar ali, pra perceber de verdade o que está naquele volume.

Catar feijão te faz estar presente. Seu pensamento pode viajar, mas não pode ser muito, nem pra muito longe, a ponto de você negligenciar o feijão e deixar as pedrinhas passarem. Você precisa estar ali. Precisa recusar todas as outras tarefas do mundo. Precisa pensar algum jeito de tornar aquilo mais fácil, ou mais rápido, ou mais seguro. Mas pra decidir, você tem de estar ali, e não em outro lugar qualquer.

Catar feijões te permite ter uma relação mais sensorial com os feijões. Especialmente se você resolve catar muitos de uma vez só. Aos poucos eles se juntam, e se transformam em muitos. Muitos feijões, aos montes, feitos para se afundar os dedos. Para se perder nas formas.

Catar feijão te permite sair brevemente da temporalidade do mundo.

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