Caldo verde

Quadro na cozinha. O desenho fiz quando me meti a lembrar d’Os Maias, de Eça de Queiroz. Minha cozinha agora pode ser descrita como a d’O ramalhete.

com a textura da memória afetiva

Contamos enquanto comíamos: lá se vão 3 anos. Tive poucas oportunidades de experimentar caldo verde em Portugal, pois na maioria das vezes ele vinha com chouriço. E eu sou vegetariana.

Das vezes que tive a oportunidade de provar, a maioria das vezes creio que tenha sido no restaurante universitário da Universidade de Coimbra. Claro, nenhum primor, como seria de se supor. Era sempre ralinho, mas muito do meu gosto: adoro sopa rala. O tempero era suave, como parece sempre apetecer aos portugueses temperar tudo. Era servido sempre com broa de milho ou algum pão: “Sem pão no almoço, o que é que se come?” foi o que perguntou um estudante da universidade a outro que já esteve em Porto Alegre em intercâmbio, e se assustou com a ausência de pão nas refeições brasileiras. Ora, todo o resto! — eu responderia.

Outro caldo verde que mais me lembro de comer em Portugal é o meu próprio. Comprava couve na feira — que já vem picadinha, pois eles a passam nas máquinas na sua frente. E comprei um passevite, já que não tinha nenhum utensílio que servisse para fazer sopa. Não queria gastar em nenhum eletrônico, porque eu tinha algumas coisas já no Brasil, e foi assim que esse instrumento apareceu na minha vida. Não tem nenhum segredo: colocam-se as batatas cozidas, roda-se a manivela, e aos poucos a batata (ou qualquer outro legume) vai passando amassada pelos furinhos. A textura final do caldo, no entanto, é a minha maior memória afetiva desses dias. Não fica homogênea como se batido por liquidificador ou mixer; pequenos pedacinhos acabam restando, e parecem pequenos concentrados de sabor. Longe de ser uma falha na sopa, é uma delícia que deixa brincar de adivinhar do que ela é feita.

Esse é o meu passevite, que trouxe da minha estada em Coimbra.

E vejam, que lindo: ele tem uma alcinha que é feita para se acoplar à panela, que vai recebendo a batata amassada sobre o alho dourando. Nada mais caseiro, com cara de cozinha do dia-a-dia.

Aqui no Brasil, para mim, o caldo verde sempre costumava ser de mandioca, e na maioria das vezes é assim mesmo que eu faço. Mas no domingo sobraram 3 batatas cozidas de bom tamanho, tinha couve e um vidro de azeite português, o último, que trouxe da vez que estive por lá por 10 dias no ano passado. Foi assim que esse caldo surgiu:

4 batatas médias (em torno de 400g)
1 maço de couve
1–2 dente de alho
sal
azeite, quando o prato já estiver pronto

O pão de acompanhamento, dessa vez, faltou. As batatas, pra falar a verdade, também estavam poucas, mas eu tinha alguns cará-moelas. Cozinhei dois deles e usei para completar. Não alteraram muito o gosto, embora se notasse lá no fundo que algo estava diferente. Mas é bom que a sopa não seja sempre a mesma, embora, é claro, é sempre bom ver um elemento ou outro que se perdure ao longo do tempo. A memória afetiva é um pouco assim, desse jeito: é uma delícia recordar, e a gente tem medo que aquele tempo bom não volte nunca mais. É uma delícia poder lembrar desse tempo em Portugal, mas eu espero que novas memórias deliciosas apareçam. E só tem um jeito de deixar que isso aconteça: é experienciando coisas novas. É pensando nisso que eu tento não ter medo de olhar fotos daqueles dias, e de comer essa comida com a textura da memória afetiva. E da próxima vez, vou torcer pra eu conseguir fazer um caldo verde só de cará-moelas.



Três momentos afetivos e saborosos: eu, cheia de carrapichos depois de entrar no mato para catar figos num passeio pelo rio Dão; namorado no piquenique na beira do mondego; e eu segurando uma castanha portuguesa catada na beira de uma estrada no alentejo (e vários vovôs com seus netos faziam o mesmo)

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