Segredos de família e biscoitos de cerveja

Pote no fim. Eles acabam rápido.

Tenho apenas duas mãos (frias) e todo o sentimento do mundo

Minha família nunca teve nenhum segredo. Ao menos, não um segredo na cozinha. Minha avó não gosta de fazer comida, e minha mãe se considera criativa, mas particularmente não vai pro fogão com muita frequência não. Acho que do lado da minha mãe, sou a primeira a gostar genuinamente de fazer isso. Do lado do meu pai, sei que não sou a primeira, mas sobre eles não sei falar muito. É que é por aí que moram os segredos na minha família.

Mas se eu nunca recebi de herança receitas, sei que acumulei algumas “doadas” por outras famílias que me aceitaram como parte das suas vidas.

A primeira que recebi foi a de uma torta de limão que era esperada a cada aniversário, a cada festividade na família do meu ex-namorado. É feita com massa clássica de patisserie francesa. Imagine: é o segredo de família mais mal guardado do mundo. Ainda hoje, é o doce que mais sei fazer bem feito — em parte pela simplicidade e infalibilidade da receita, em parte porque também treinei. Faço uso sempre que eu preciso de um doce que impressione, como essas tias que me ensinaram faziam. Executei tantas vezes que passou a ser a minha torta de limão, feita de cabeça, mas nunca me esqueço dos conselhos no feitio que tornavam aquela torta irresistível, e que me foram passadas por elas.

A outra receita de família que guardo com carinho são dos biscoitinhos de cerveja da vó do meu marido. Esse é um biscoito que ela sempre faz quando ele vai a Três Corações visitá-la — geralmente perto das festas de fim de ano, ou alguma outra comemoração. A mesa fica abarrotada, mas os biscoitos de cerveja são sempre pra ele. São biscoitos amanteigados, que não levam açúcar na massa, e que por isso e porque a vó sempre insiste que você pegue mais um, come-se uma quantidade maior do que se deveria.

Também recebi a receita da tia dele, depois de já morarmos juntos. Tia Cátia dava tanto valor a essas receitas que a certa altura resolveu organizá-las por escrito. Numa conversa na cozinha da vó em um julho qualquer, falávamos sobre canjica, biscoito de cerveja, pão de queijo, lasanha e outras receitas de família. Falamos sobre as preferidas, aqueles sabores que eram de receitas de todos, mas ao mesmo tempo eram receitas só deles. Aquelas receitas eram unanimidade entre todos os irmãos. Tia Cátia contou que com medo de que isso um dia se perdesse, resolveu ir escrevendo as receitas de sua mãe, que quase sempre eram feitas de cabeça, ou estavam em papéis dispersos. Ela ia perguntando, e anotando, e depois digitou tudo. Resolveu, naquele dia, me enviar essas receitas por email, como um legado de família. Foi assim que recebi a receita dos biscoitos de cerveja:

500g de farinha de trigo
250g de manteiga
1/2 copo de cerveja

Açúcar para passar em volta dos biscoitos depois de assados

Não tem muito erro: 3 ingredientes sem mistério, que são misturados com a mão até ficar uniforme. O mais difícil, no entanto, é fazer o formato. Quer dizer, eu não acho difícil. O moço da família mesmo, aquele que mora comigo e adora fazer pão, ironicamente acha impossível. É só fazer uma tirinha fina rolando por uma superfície lisa, e depois torcer as duas pontas dos biscoitos, pra ficarem num formato de infinito, feito os da foto. E não precisa untar, que a quantidade grande de manteiga que a receita pede não vão deixá-lo grudar em lugar algum. Assam rapidinho, é preciso vigiar o forno: 15–20 minutos num forno médio e já estão bons. E ainda quente, tem que se colocar num prato com o açúcar, pra que ele grude naturalmente em volta de cada biscoitinho.


O que mais gosto quando faço esses biscoitos é perceber que enquanto deslizo pequenas bolinhas por alguma superfície até virarem uma cobrinha, sabe-se lá porque minha mão fica mais e mais fria, e não quente, como deveria acontecer por conta do atrito. Isso faz com que a massa nunca fique muito mole, e eu consiga abrir todos os biscoitos de modo bem feito. Isso me lembra que eu não recebi receitas, mas ainda tenho alguns legados da minha família: meu avô também era dessas pessoas friorentas, que nunca se esquentam, e estava sempre com um casaco na mão, faça chuva ou faça sol. Fui eu quem recebi essa herança, e agora a uso na cozinha pra abrir biscoitos com perfeição.

Pra receita dar certo as mãos frias até ajudam, mas o que vale mesmo é ter um pouco de paciência. A paciência deveria ser maior, pois pra falar a verdade, essa quantidade aí em cima é apenas meia receita. Sabe como é: receita de vó que se preze nunca é pequena, mas a gente adapta pros dias de famílias menores e tempos efêmeros. A única coisa que não se pode deixar de lado são esses pequenos tesouros que os que vieram antes da gente cultivaram com todo carinho até chegar em nós. Não se pode deixar de agradecer que ainda existam pessoas que cultivem segredos culinários de família, e todo o sentimento do mundo. Obrigada vó Marisa e tia Cátia!


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