Beterrabas, lentilhas e como criar na cozinha experimentando a comida dos outros


Tire um tempo pra tentar entender de onde vem aqueles sabores

Um exercício muito legal que gosto de fazer quando como a comida que os outros me preparam é tentar entender como é que fizeram o prato.

As vezes, basta perguntar.

Quem cozinha gosta dessa demonstração tão concreta de atenção. Mas nem sempre tem jeito da gente conseguir a resposta. Pra esses casos, parar e prestar atenção é um jeito bem interessante de se fazer presente: você precisa se concentrar em tanta coisa pra tentar adivinhar o que foi colocado ali naquele prato, que não dá tempo do pensamento fugir. É um jeito de desenvolver a atenção plena, que toda a vida deveria merecer, mas que nem sempre é fácil de fazer com tanta coisa disputando nossa atenção.

Eu curto começar examinando o que dá pra ver. De preferência, gosto de falar sobre esses elementos, porque é a forma que acho mais fácil pra gravar minhas próprias percepções. Também é um jeito gostoso de continuar a conversa, de fazer quem come com você também estar ali contigo. A gente divide o prato, divide as impressões, e rimos juntos da brincadeira. Depois, passo pra textura, que pode sempre revelar mais alguma surpresa, até finalmente seguir pros temperos, ou pra algum elemento não visível, que são os mais difíceis. E aí da-lhe atenção, e criatividade.

Acho bem gostoso conversar sobre qualquer prato delicioso que experimento. Não me traz só a oportunidade de me concentrar no momento. É uma ótima forma de se aprender sobre combinações de sabores que à princípio não seriam as que eu faria. E também acho que funciona como um jeito bem interessante de guardar a lembrança daquele momento.

Esse é o jeito que encontrei pra recordar sabores não porque eu quero repetir perfeitamente os pratos. O mais gostoso é ver como eu acabo, de algum jeito as vezes inesperado, incorporando os pequenos momentos mais inesquecíveis no meu repertório culinário. Bem-vindo às minhas tentativas e erros, e principalmente às adaptações: pra incorporar é preciso tornar aquilo também seu. E não tenho a menor vergonha de admitir que aprendi muito comendo a comida dos outros.


Foi assim com essa salada de beterraba.

Experimentei esse prato em um restaurante persa que, feito eu, já nem existe mais em BH, porque mudou-se: eles pra São Paulo, e eu pro Paraná. Chamava-se Amigo do Rei. Não tenho ideia mais do nome do prato, e ele não está mais lá no cardápio pra eu tentar recuperar a memória.

Havia beterrabas cozidas, havia lentilhas e havia ovos. A textura era bem macia, e os temperos, naquele dia, me pareceram pra lá de inusitados. Hoje, acho que é o encontro mais bonito que eu posso pensar pras beterrabas. O cheiro que mais aparecia era doce, e eu apostava em noz moscada. Mas lá no fundo, dava pra perceber a pimenta do reino. E outras coisas que queriam puxar ainda mais o doce das beterrabas. Talvez funcho, talvez mel. Ou talvez eu já não me lembre de mais nada.

Refiz essa salada em casa, e tenho plena consciência que é apenas uma vaga inspiração daquele dia. Retirei os ovos, que não me agradam muito, e também o funcho, porque eu nem sei se ele um dia esteve lá. É uma das minhas saladas favoritas:

1 beterraba grande cozida, ralada em ralo grosso
1 xíc. (de café) de lentilhas cozidas (deixe de molho na noite anterior)
1 generosa colher de sopa de mel
Bastante noz-moscada, ralada na hora
Pimenta-do-reino (sugiro pouca, suave, mas fique à vontade)
Uma pitada de sal (não é pra salgar, é só pra realçar os sabores)

Sem segredos: misture tudo, sirva com outras deliciosas saladas. Aproveite a doçura e a picância desta pra equilibrar com outros sabores mais azedos, e também mais salgados. Coma ainda quente também, porque não? Ou crie sua própria versão, como se fosse uma celebração das gostosuras que outras mãos tiveram o carinho de digitar e preparar pra você.

E de tudo, não se importe se esquecer as receitas e os detalhes dos pratos que você provar. Só não se esqueça de uma única coisa: esteja sempre presente nas oportunidades maravilhosas que alguém lhe fizer um prato. Sempre vale a pena.

Basta estar lá!

Este texto foi escrito especialmente pro Marcos, que ganhou de mim um maço de beterrabas que ele ainda não sabe bem como vai usar. Em troca, eu ganhei (mais) um almoço.


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