Outros olhares sobre a natureza

Alguns anos atrás, me deparei com a proposta de que devíamos ler mais mulheres.

Num primeiro momento, a minha reação foi de pensar que eu já lia mulheres, e de que isso nunca havia sido uma questão determinante pra que eu escolhesse um livro. Porém, quis olhar mais de perto o que estava sendo proposto. Resolvi olhar de verdade pra minha estante. Dizer em voz alta os nomes dos autores que me tocaram ao longo da minha história, os livros que eu tinha carinho e os que eu estava interessada em conhecer; fui pensar de fato sobre o assunto. E eu me surpreendi: a imensa maioria dos meus livros tinham mesmo sido escritos por homens, sem que eu nunca tivesse me dado conta.

Foi tomada por essa percepção, e pelo fato de progressivamente me reconhecer como alguém que também escreve (e claro, deseja ser lida), que me juntei à proposta do #LeiaMulheres. E pode parecer pequeno, mas isso mudou muito a forma como eu me relaciono com os livros.

Lorraine Anderson, uma escritora norte-americana, conta uma história muito parecida com a que acabei de narrar.

Ela conta no prefácio do livro Sisters of Earth – woman prose and poetry about nature que a nossa relação com a natureza era uma temática que a atraia muito. A natureza era pra ela colo, inspiração, aventura, deleite; uma casa, uma professora, uma companheira. Um dia, ela folheava uma revista literária que particularmente a tinha atraído e que proclamava na capa Wild should remain wild (o selvagem deve permanecer não-domesticado), e no miolo trazia vários textos e frases de escritores que saiam em defesa do mundo natural que nos cerca. Aldo Leopold, Henry David Thoreau, Nathaniel Hawthorne, Walt Whitman, John Muir, Edward Abbey. Foi então que de repente, uma questão apareceu na sua cabeça:

Aonde estão as vozes das mulheres?

Lorraine fez o mesmo movimento que eu e várias outras mulheres nesses dias temos feito, e foi olhar nas suas anotações bibliográficas da época que estudou na faculdade, entrou em bibliotecas, olhou pra sua própria estante, e percebeu como as vozes das mulheres ainda eram pouco ouvidas. O ano, no entanto, está distante quase 30 anos dos dias de hoje: era 1991.

Sisters of Earth é a resposta que Lorraine Anderson produziu pra lidar com esse apagamento. O livro é um apanhado maravilhoso de pequenos trechos dos mais variados gêneros, escritos por mulheres, sobre sua relação com o mundo natural.

Lendo fica muito claro que o problema não é que as mulheres não tenham falado/escrito/produzido pensamentos muito importantes sobre isso; o problema é que não demos a atenção devida.

Como o livro é todo composto por fragmentos, minha experiência tem sido a de mantê-lo como um livro de cabeceira. A noite, antes de dormir, escolho algum trecho pelo título, por uma palavra que atravessou meu dia, ou só abro em uma página e leio. Como  quase sempre escolho pelo título, nunca nem mesmo sei se virá uma poesia, um trecho de um ensaio, um conto ficcional. Têm funcionado como pequenos encontros deliciosos antes que o dia termine.

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Até na dedicatória tive espaço pra me emocionar com a singela homenagem ao companheiro felino da autora

Outro efeito maravilhoso do livro é você construir um catálogo de autoras e obras que te interessam mas que você não tinha ideia de que existiam, já que muitas delas não recebem a devida atenção das mídias, da crítica ou do mercado apenas por serem mulheres. Antes de cada trecho, Lorraine Anderson apresenta a autora, conta da sua trajetória e localiza o trecho dentro de uma obra. Minha lista de coisas que gostaria de ler não para de aumentar a cada noite.

Fico muito feliz de ter sido encontrada por esse livro. Foi um presente que ganhei da Daniela, do Correndo entre livros, e que me deixou muito emocionada, pela delicadeza de me presentear sem uma razão (apenas por afeto – mas que razão melhor podia existir, afinal?), pela sensibilidade de escolher uma leitura tão acertada e que fala tanto comigo. Quis dividir esse carinho deixando registrado por aqui pra que outras pessoas também possam ter a oportunidade de ouvir a voz desta e de outras mulheres falando sobre cuidado, atenção, afeto, abusos, cura, presença animal e vegetal nas nossas vidas, equilíbrio, e convivência com a natureza que vive em cada um de nós.

Uma resposta para “Outros olhares sobre a natureza”

  1. Vou ver se encontro esse livro. Nunca tinha ouvido falar desse movimento mas de facto já “leio” muitas mulheres. Laura Esquivel é das minhas favoritas pois nos livros dela tem aquela ligação profunda com a cozinha e com a comida e eu identifico-me.

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