O trevinho e a infância

Com a estação saindo do inverno e entrando no verão, as mudanças pelas ruas e pelos lotes já começaram a ficar visíveis. As serralhas, nabiças e o mentruz começaram a dar espaço pra uma diversidade enorme de matos. Essa é uma época super farta de delícias.

Mas há coisas mais sutis que a proliferação de matos que acontece nessa sucessão de estações. Uma dessas sutilezas são os trevinhos (Oxalis latifolia), aqueles com três folhas em forma de coração, que estão por aí o ano todo, mas que nessa época começam a florir.

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Essa é a flor do trevinho: vem num pendão com flores bem miúdas, com tons de rosa e violeta

É dessas sutilezas que a gente, que passa correndo pelas mesmas ruas com a cabeça cheia pensando em qualquer outra coisa muito-muito-importante que nem vagamente tem a ver com estar ali, não vê. Prestar atenção no mato já é raro; reparar que o mato tem flores tão pequenas e discretas com as florzinhas do trevinho é coisa de quem consegue enxergar o mundo com o olhar de criança, deslumbrado com toda descoberta que faz.

Trevinhos, aliás, acho que é uma planta que tem muito a ver com a infância. Quase todo mundo tem alguma história de colocar plantinhas na boca – colocar as coisas na boca é um dos primeiros jeitos pelos quais a gente tenta experimentar o mundo. E o trevinho é uma dessas plantas que costumam atrair pela curiosidade da forma e depois pelo azedinho agradável na boca.

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Trevinhos molhados de orvalho: que tal colocar alguns no meio de outras folhas verdes da salada? Num suco verde? Ou só brincar de experimentar o sabor azedinho comendo um recém arrancado?

É claro que no meio do caminho sempre aparece alguém pra ensinar a não colocar plantas desconhecidas na boca, e arrancam da gente essa experiência muito curiosa e sensorial. E eles têm razão mesmo, pode ser perigoso botar na boca o que a gente não conhece. A questão não é a interdição. O triste é que a gente não saiba, que não nos ensinem, que a gente não tenha uma alfabetização verde de fato. Convivemos tão pouco com as plantas a ponto de não as reconhecermos e termos medo delas.

Um dos efeitos colaterais mais bonitos da gente conhecer um pouco mais de plantas – e saber nomear, aprender a reconhecer a forma, as épocas e as preferências de cada uma delas, além de poder apontar as que são comestíveis e dizer do sabor – é que esse é um jeito também de alterar a vivência da infância. Dar espaço pras crianças poderem experimentar sabores e conhecer plantas é reconhecer que a aprender é uma brincadeira natural.

A sutileza dos trevinhos floridos da primavera são uma oportunidade. Uma oportunidade de aprender sobre o terreno ou o vaso onde eles aparecem – trevinhos que brotam espontaneamente são bioindicadores muito seguros de uma alta quantidade de matéria orgânica em um vaso. Eles só vêm quando há matéria orgânica em excesso. É também uma oportunidade de provar uma flor comestível. Assim como os próprios trevinhos, elas podem ser comidas – apesar de terem ácido oxálico, como várias outras espécies (cacau, carambola, tomate, pra ficar apenas em coisas bem comuns) elas são perfeitamente seguras, desde que não sejam um alimento diário. São uma ótima chance da gente poder voltar a brincar com a comida. Que tal enfeitando docinhos? Ou só pra colocar na boca meio de brincadeira?

Mas a maior oportunidade de reparar e ficar curiosa com trevinhos é que esse é um jeito também de resgatar a infância.

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