A tirania do quantificável

Comprei uma caixa de sabão de pó. Eu sei que parece estranho anunciar assim já que sabão em pó é provavelmente uma das coisas mais ordinárias desse mundo, mas eu não comprava uma já tinha 3 anos. Também troquei os lençóis da minha cama – os meus anteriores foram remendados por mim tantas e tantas vezes até que o tecido não tivesse mais conserto – e esses novos estão tão bons e sedosos que me fizeram lembrar que tinha muito tempo que eu não deitava em uma cama tão aconchegante assim.

Senti um saudosismo dessas coisas banais que pra quase todo mundo com condições semelhantes às minhas são corriqueiras, mas que eu acabo me convencendo que poderia fazer diferente. Eu fechei os olhos sentindo o cheiro do sabão em pó e das roupas de cama imaculadas e cheirosas, e nessa experiência sensorial cheguei a pensar “minha deusa, eu mereço coisas boas, eu mereço demais”. Enquanto me sentia deslumbrada por poder lavar as roupas com menos trabalho e perfumá-las de um jeito tão mais fácil, além de deitar em uma cama macia com roupas novas, eu fiquei me perguntando a dimensão do propósito de se tentar criar uma vivência diferente.

Eu faço meu sabão tem uns 3 anos. Não é uma coisa que me deixa triste, e não entendo esse fazer como privação. Pelo contrário. Eu gosto dos eventos de fazer sabão – criei uma prática de chamar os amigos e transformo isso numa festinha, com direito à cerveja, música, um tempo ao ar livre, e essas coisas importantes. Gosto de ver a transformação acontecendo na minha frente e de ser uma parte tão ativa nesse processo. Me sinto bem sendo capaz de calcular os componentes. E embora essa sabão funcione suficientemente bem – eu ralo ele fininho depois de seco, junto com a mesma quantidade de bicarbonato e voilà, sabão em pó pro mês inteiro – ele também tem suas questões. A última fornada (que faço pra durar o ano todo) ficou com uma quantidade de umidade muito alta e não ficou seco o suficiente pra ralar, e por isso precisei dissolver o sabão todas as vezes numa caneca de água quente no fogão. Isso toma tempo. E como o meu sabão não tem branqueador óptico na fórmula – esse é um componente químico que faz o branco parecer mais branco porque “mancha” o tecido de um tom de azul quase imperceptível – minhas roupas brancas tendem a ficar ligeiramente amareladas em comparação com as do resto da humanidade usadoura de sabão em pó.

Talvez seja mesquinho demais, mas eu me sinto levemente envergonhada com as roupas de cama não tão brancas quando alguém vem dormir uns dias na minha casa. Nunca havia pensado que talvez exista um padrão de branco pra roupas, mas acho que existe, e senti um alívio de que agora eu fazia parte dele. Também senti como um descanso não precisar fazer uma pré-lavagem caprichada das manchas e debaixo dos braços, foi só abrir a máquina, jogar o sabão e ligar. Isso também me fez pensar sobre o tempo que levo pra lavar roupas no meu método. Só mesmo tendo muito tempo pra dar conta de escolher fazer assim.

O fato é que todas essas coisas são somente até certo ponto uma escolha. Quem se preocupa com sustentabilidade costuma fazer muitos esforços pra poder levar uma vida compatível com as coisas que acredita, mas essa não é uma tarefa fácil. Nem sempre esses esforços são guiados pela alegria de descobertas de novos processos, mas principalmente por culpas e medos e tristezas. E também por contingências, pois por mais que estejamos conscientes e motivados, algumas mudanças nos exigem tanto que se tornam inalcançáveis. Ainda que nem todas as modificações sejam tão impossíveis ou dessaborosas, algumas delas deixam o gosto amargo de parecerem pequenas demais, e aquela sensação de estar constantemente enxugando gelo e chegando a lugar nenhum.

Esse sentimento de desgaste pela dificuldade e a sensação de que se é pouco efetivo nas ações pessoais buscando respeitar a natureza de que somos parte é tão generalizado que começaram a dar nome pra descrever esse tipo de situação. Que bom. Dar nome às coisas é um ótimo caminho pra que uma coisa comece a se tornar evidente, real, com uma forma definida e possamos falar melhor do que está acontecendo. É aquele momento do ufa, não estou sozinha.

Cucurbita-work-in-progress

Ecodemagogia é essa forma simplista de pensar a ecologia, que apela aos indivíduos principalmente enquanto consumidores, e isenta os grandes responsáveis pela degradação ambiental. É o que nos faz acreditar que talvez a sua e a minha intenção e tentativas ainda não tenham sido suficientes, mas se fizermos nossa parte tudo ou quase tudo poderá ser resolvido. É partir do princípio de que na solução pra crise ambiental que vivemos é possível um consumo ético dentro do sistema, e que se a gente tomar as decisões corretas vão aparecer produtos e empresas corretas e o mundo pode ser salvo.

Isso é demagógico não só porque nos desvia da real questão (a exploração do capitalismo), mas também porque esse é um dos mecanismos pelos quais o sistema, na verdade, se mantém e segue intacto. Em vez de entendermos que o problema é o sistema, seguimos numa roda de hamster achando que o problema somos nós, que precisamos usar menos canudos, sabão em pó ou placas de energia solar pra mudar as coisas. É aquele cartaz cheio de boas intenções colado no elevador do prédio pedindo por gentileza pra que você tome banho de no máximo 5 minutos pois estamos no meio de uma crise hídrica, mas que se esquece de avisar que o consumo doméstico é responsável por minúsculos 8% do uso total do recurso. É aquela lei bacana que proíbe o uso de canudos plásticos – ignorando que talvez ele possa ser importante para algumas pessoas – enquanto se continua a produzir sacolas, copos, talheres e todos os objetos descartáveis ou praticamente descartáveis com esse material. É também aquele pacote de café que estão vendendo no mercado, orgânico, de comércio justo, mas que é inacessível ainda pra uma imensa parcela da população que não tem dinheiro pra comprar porque  – veja que ironia! – não é remunerada justamente ou não mora nas grandes cidades onde esse tipo de produto costuma estar disponível.

Não é que eu não acredite em ações individuais. Comprar o café de remuneração justa me parece ao menos remunerar alguém com justiça. Levar minha sacola de pano pro supermercado é tão fácil que não sei porque não o faria. Fazer comida em casa é tão especial que não sinto que preciso levantar a bandeira do menos um lixo das embalagens. Cuidar do meu entorno é muito bom e recompensador por si, e faço isso muitas e muitas vezes.  É o principal lugar onde eu posso agir e não tenho razão para não tentar. Mas também não é uma novidade que o capitalismo nos arraste a pensar hiperbolicamente nesses termos individuais. Na história que costumam contar, parece que a vitória é única e exclusivamente fruto de um esforço e persistência solitários, nunca há pessoas pelo caminho. Então a gente segue acreditando que tudo o que é preciso é fazer mais e não que tem algo errado com um sistema que esconde tantas coisas e pessoas destruídas pelo caminho. E que a desproporção entre mim e o dono de uma fazenda de gado que ocupa metade do amazonas é só econômica, quando na real ela é de poder.

A AnneMarie Bonneau, autora do ótimo ZeroWaste Chef, escreveu algumas vezes sobre como lidar com o que ela chamou de Síndrome da Culpa Ambiental. Ela descreve como acontece com a maioria de nós: em algum ponto, acontece um “despertar” pra essas questões. Pode ser parecido com um despertar espiritual, mas se você preferir, também pode pensar que é como naquela cena de Matrix em que Neo escolhe tomar a pilula vermelha. Em todo caso, não tem volta. Depois disso você começa a enxergar um cem número de atrocidades cotidianas que a gente normaliza e as perguntas começam automaticamente a pipocar na sua cabeça: é justa essa embalagem inútil de redinha em volta desse melão? Será que não tem um destino melhor que posso dar pra essas garrafas de vidro de cerveja tão boas que não são mais retornáveis? Será que preciso mesmo de mais essa bugiganga supostamente ecofriendly feita de plástico?

Mas adivinhe: nem no catolicismo, budismo, umbanda ou qualquer religião você terá como zerar os seus pecados, desejos ou qualquer coisa errada rodando a roda da causa e efeito. Isso também não quer dizer que você deveria sair matando, roubando ou odiando o próximo só porque não dá pra ser perfeito. O que fazemos é seguirmos com o que é possível, tentando melhorar, refletir, honrar as forças e sabedorias que nos cercam porque isso é o que é necessário. Isso nos faz bem.

O mundo capitalista se tornou um lugar tão inóspito que nós nos sentimos mal com muitas coisas. Talvez com coisas demais. E é incrível porque o nosso mal estar não é só com o mundo em que vivemos e com nós mesmos mas também com as decisões que o colega do lado toma. Eu fujo como o diabo foge da cruz de gente que tenta me fazer sentir mal porque hoje não vou fazer comida e sim pedir uma pizza, com embalagem, entrega com gasolina, e o que for. Saio em debandada dos que dizem que “é só levantar a bunda da cadeira”. Corro como uma doida de quem diz que é simples, que não é nenhum trabalho, porque é injusto e raso e quase sempre irreal. Eu não consigo ser sustentável nem boazinha sempre.

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Fico pensando que essas pessoas se acostumaram a pensar no céu – de qualquer religião mas também o “céu” dos ambientalistas – como um grande escritório de contabilidade de ações boas ou ruins. Não é por acaso que é assim que o céu aparece na popular série The Good Place. Também não por acaso, os personagens descobrem que nos últimos 500 anos ninguém entrou no lado bom porque não é possível vencer o sistema contábil. Estamos sempre em dívida porque o sistema em que vivemos é essencialmente um sistema de exploração e escassez. Não adianta seguirmos somando migalhas de boas escolhas porque não existe escolha ética o suficiente no capitalismo. Você vai sempre ficar devendo algo.

Enquanto não conseguimos encontrar um novo caminho como coletivo, talvez um dos grandes alívios que podemos fazer por nós mesmos seja repensar esse sistema contábil incessante, que aplicamos a tudo que tocamos: calorias, nutrientes, peso, saúde, produtividade, dinheiro, sucesso, seguidores, mas também boas ações e por que não, lixo. A historiadora e ensaísta Rebecca Solnit no seu livro Os homens explicam tudo pra mim, chama isso de a tirania do quantificável: “tudo o que pode ser medido tem sempre precedência sobre o que não é mensurável: o lucro privado sobre o bem público; a velocidade e a eficiência sobre o prazer e a qualidade, o utilitário sobre os mistérios e significados que são mais úteis para a nossa sobrevivência – e para vidas que tenham algum propósito e valor, e que sobrevivam para além de nós a fim de construir uma civilização que valha a pena existir.” A tirania do quantificável diz da nossa incapacidade de conviver com um lugar de incerteza, com o insondável e o escuro, e deixa muito evidente a compulsão de tentar controlar as coisas à nossa volta. É muito difícil dar valor a algo que não conseguimos definir direito o que é, mas é especialmente difícil quando o sistema nos ensina que não vale a pena avaliar várias coisas que realmente importam apenas porque não podemos ter uma ideia mais exata.

Contabilizar o que fazemos de certo ou errado é apenas reforçar a tirania do quantificável em vez de começar a dar valor a coisas menos palpáveis mas que realmente importam. O que conta não é o que fazemos individualmente. Não é usar uma caixa de sabão em pó que vai mudar o sistema. Mas as tentativas – ainda que algumas vezes frustradas e outras tantas frustrantes – e principalmente a ideia de que existem outras formas de se lavar roupa e levar a vida que interessam bastante.


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As fotografias do post são parte do trabalho The Cultivar Series, do artista alemão Uli Westfal, que fotografa desde 2006 espécies diferentes de vegetais. O apelo estético é muito evidente, mas as imagens também documentam a imensa diversidade de variedades cultivadas, que são postas de lado pela indústria agrícola em função do cultivo de só uma ou algumas variedades por espécie, levando ao desaparecimento das demais. Elas são um ótimo exemplo de que ainda que estejamos falando de quantidades, importa menos a contabilidade e muito mais o impacto de se enxergar o conjunto da fotografia.

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