Leitura para adiar o fim do mundo

“Você precisa dar um título para a sua palestra”. Eu estava tão envolvido com as minhas atividades no quintal que respondi: “Ideias para adiar o fim do mundo“. A pessoa levou a sério e colocou isso no programa. Depois de uns três meses, me ligaram: “É amanhã, você está com sua passagem de avião para Brasília?”. “Amanhã?” “É, amanhã você vai fazer aquela palestra sobre as ideias para adiar o fim do mundo”

No dia seguinte estava chovendo, e eu pensei: “Que ótimo, não vai aparecer ninguém”. Mas, para minha surpresa, o auditório estava lotado. Perguntei: “Mas todo esse pessoal está no mestrado?”. Meus amigos disseram “Que nada, alunos do campus todos estão aqui querendo saber essa história de adiar o fim do mundo”. Eu respondi: “eu também”.

Nós todos estamos. Esse tem sido um pensamento muito frequente – a de que o mundo está acabando – e nós ficamos ricocheteando entre achar que não dá pra fazer nada e uma tentativa meio desastrada de tentar fazer qualquer coisa.

Talvez por esse título que fala tanto conosco é que esse livro tem aparecido na lista de mais vendidos – é inegável que muitos de nós estamos acuados e sofrendo várias consequências do apocalipse iminente, e o céu escurecido em São Paulo as 3h da tarde pelas queimadas na amazônia deixaram um sabor agridoce do que nos espera. Mas agora que eu li posso dizer que não é só o título provocativo e urgente.  As palavras do Ailton Krenak conseguem ser apaziguadoras e nos fazer mexer ao mesmo tempo tempo.

Foi uma sensação muito parecida com a que tive com o livro da Isabelle Stengers, No tempo das catástrofes, sobre o qual também escrevi. Não se trata de ter medo do que vai acontecer no futuro, as mudanças já estão acontecendo. Mas não é o pânico que vai nos ajudar a lidar com a situação. Ainda que o mundo esteja mesmo acabando, contemplar o fim parece mais inteligente do que se apavorar ou causar desespero nos outros.

Uma ensaísta que admiro muito, a Gabriela Ventura, tinha escrito um texto atravessado por ideias desse livro – e foi o que acabou me levando a também lê-lo. Gabriela parte daquela frase d”O fim está próximo” tirada dos arautos do apocalipse, até chegar na sua forma contemporânea irônica: o meme “Vem, meteoro”. Em parte o meme é uma brincadeira pra lidar com a avalanche de coisas desgracentas que acontecem, das mais prosaicas e bestas às mais dolorosas. Mas ele também traduz um pouco o nosso desejo, pois parece que o fim repentino é mais animador do que qualquer aniquilação lenta e dolorosa. No entanto a frequência com que essa brincadeira aparece também é uma forma de nos fazer desistir dos nossos sonhos. Ou, como ela coloca: parece “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

A questão é que tem muita coisa que nos assombra e muito a ser feito, mas não existe uma resposta simples a ser dada. O que Ailton Krenak, mas também Isabelle Stengers, a Gabriela Ventura, eu e tantos outros estamos tentando fazer é escutar pralém do medo e dos discursos fatalistas de “não há outra maneira” o que é que pode ser feito.

Existem muitas formas de se viver diferentes, mas o capitalismo nos faz pensar que só existe um tamanho único. E essa é a dificuldade de se achar uma saída porque ela precisa dar conta de tudo. Talvez por isso seja tão fundamental escutar o que um pensador indígena como Krenak tem a dizer. Ele é um condutor muito interessante pra gente perceber que existem outras concepções de mundo, outras crenças, e outras formas de nos relacionarmos com os seres à nossa volta que não tem nada a ver com o modo predatório e competitivo no qual nós vivemos.

Essa ampliação de modos de ser me trouxe um alento imenso, uma espécie de apaziguamento – que é algo raro e muito caro no atual cenário em que vivemos. São muitas as vezes que eu me sinto muito inadequada por não ser ambiciosa, ou por nunca estar ocupada demais correndo, nem desejando um emprego, ou um tipo de vivência na capital (e no capital) que eu acho que eu supostamente deveria estar desejando.

Mas esse apaziguamento não é desmobilizador. Ao contrário disso, Ailton nos convoca pra que a gente mantenha as nossas visões e poéticas sobre a existência. Que a gente use essa sensação de que estamos caindo pra construir paraquedas coloridos e aproveitemos a viagem. Que usemos a nossa subjetividade pra vivermos com a liberdade que formos capazes de inventar em vez de botar ela no mercado. E que sejamos capazes de reconhecer que nós não somos as únicas pessoas interessantes na Terra: não é só a visão indígena ou de outros povos que vale a pena ser escutada; outros seres vivos também tem muito a nos ensinar sobre ela (eu certamente aprendo muito observando as plantinhas).

O livro é bem pequeno – em formato bolso, com 85 páginas -, coisa que pra dá pra você terminar com 1 ou 2h de leitura. O texto é o registro escrito de três diferentes falas de Krenak que aconteceram entre 2017 e 2019. No primeiro deles, que também leva o título do livro, Aiton oferece uma resposta inusitada pra combater a prostração que a sensação de fim iminente provoca. O segundo ensaio, Do sonho e da Terra, fala da tragédia em Mariana provocada pela Vale no Rio Doce, e da nossa ligação com a terra. E em A humanidade que pensamos ser, Ailton parece olhar pro abismo do Antropoceno e nos contar das imagens que vê lá: o contraste entre a terra como mãe, que permeia várias civilizações, e contrasta com essa lógica masculina de exploração e depredação; a ciência e o conhecimento, que pra ele já não é mais livre e está sempre sendo transformada em mercadoria; e os desastres do colonialismo, que continuam assombrando diversas formas de vida, não só as humanas.

 

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