O causo do maracujá da flor branca

Nem tudo que reluz é ouro.

Esse é o maracujazinho espontâneo que nasceu aqui no meu #jardimcomestível, finalmente maduro. Quando eu o descobri, era uma trepadeirinha pequena com uma flor branca muito característica – aquele formato arredondado com várias fimbrias em volta do miolo, que são chamadas de flores da paixão (passiflora, que é também o nome do gênero) porque lembram a coroa da paixão de Cristo. Eu logo entendi que era maracujá, e curiosa, deixei florir, alastrar e ver no que ia dar.

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A flor branca do maracujá espontâneo que brotou no meu Jardim Comestível

Estudei um monte sobre maracujás enquanto esperava as frutinhas madurarem. Documentos técnicos da Embrapa me ensinaram que no Brasil tem mais de 150 espécies de maracujás nativos, mas desses só alguns são comestíveis e só um é explorado em grande escala comercial (o maracujá azedo passiflora edulis), embora outros tenham ganho incentivo (o Pérola do cerrado, também conhecido como Maracujá de cobra, cultivado na região de Brasília, é um deles). Artigos científicos me mostraram que tem pelo menos 16 tipos de folhas diferentes de maracujá – por isso as vezes você ver só uma parte da planta isolada, como as folhas, não costuma ser suficiente pra você identificar – você chega, no máximo, a grupos.

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A folha tri-lobulada com as pontas arredondadas do maracujá da flor branca

O que eu fiz foi pacientemente esperar o fruto madurar. Juntando a informação da flor branca, o tipo, cor e textura da folha e a carinha do fruto, cheguei a uma resposta: esse aqui é o White flower passiflora, Maracujá da flor branca, cujo nome da espécie é Passiflora subpeltata. É uma planta bastante estudada porque apesar de ser nativa da América do sul, se tornou uma séria daninha na Austrália. E infelizmente, ele NÃO é comestível.

Reparem bem na aparência. Nada diz que vai dar ruim. O cheiro dele é doce, lembra ligeiramente o araticum (porém mais suave). E o gosto na língua também é doce, não lembra em nada o azedo do maracujá. Mas o Maracujá da flor branca tem ácido cianídrico em pequena quantidade – não é letal comer um, mas bem, você não deveria. A substância é um dos venenos letais humanos mais potentes já descobertos. Também não precisa de pânico, esse maracujá não é exatamente uma arma química: Tem ácido cianídrico nas sementes das maçãs, na castanha que fica dentro do caroço de pêssegos, ameixas, e até na amêndoa. O negócio é entender com o que a gente está lidando.

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O fruto ainda verde dependurado no pé de erva doce (que aliás, também nasceu espontâneo)
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Maracujás da flor branca maduros. Infelizmente, apesar da aparência apetitosa e do cheiro adocicado que solta, NÃO são comestíveis

Apesar de triste pois imagina que fantástico ter maracujás espontâneos no quintal, a trepadeira é bonita e continua se alastrando subindo sobre um pé de erva doce, e me deu uma oportunidade de aprender sobre maracujás. Eu gosto de me concentrar em estudar o que aparece em volta mesmo que não possa botar na boca. Coisa fantástica é entender e apreciar o que convive todo dia com você.

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