O peso das dietas

Eu escrevo sobre comida de um modo compassivo porque essa sempre foi uma coisa da qual senti falta: minha relação com a comida nunca foi muito pacífica. E é enternecedor encontrar outras pessoas que também se movimentam em direção a essa compaixão, a uma aceitação radical das dificuldades porque eu mesma já vivi transformações causadas por conta dessa visão mais sensível.

Encontrar um livro como O Peso das dietas é um desses pequenos alentos. A autora, Sophie Deram, trabalha com atendimento nutricional e o livro é uma espécie de introdução anti-dieta, com pequenas pitadas anti-gordofobia. O mote principal da coisa é mostrar como as dietas, ao contrário do interesse e empolgação exibidas sobre o tema nas conversas cotidianas, são nocivas. E se concentrar na perda de peso e não na saúde é um equívoco sem tamanho (com o perdão do trocadilho).

Nesse sentido, acho que o subtítulo do livro – Emagreça de forma sustentável dizendo não às dietas – me pareceu equivocado, já que a proposta é se preocupar menos com o peso e mais com a sua relação com seu corpo e a comida à partir da valorização da observação pessoal das suas sensações, e da aceitação radical das suas vontades.

O que a Sophie Deram faz nesse livro é um convite a se ter uma relação de mais paz com seu corpo e com a alimentação. Esqueça o que você sabe sobre nutrientes, esqueça qualquer prescrição que tente delimitar o que você deve comer amanhã às seis horas da tarde. Nem você, de antemão, sabe. Ouça o seu corpo, suas vontades, como é a sensação física de fome e de saciedade, as variações que diversos contextos provocam. É um salto de confiança porque nos acostumamos tanto a achar que uma abordagem controladora e restritiva, com porções de tamanhos definidos e preocupações com nutrientes e calorias é o que devemos ter com a comida pra sermos saudáveis. Mas essa abordagem é falha porque se esquece completamente da subjetividade, do que é ser uma pessoa, de como é singular cada corpo, com seus gostos e variações ao longo do tempo. Nosso corpo é sábio, tem mecanismos pra se regular e o comer deve ser intuitivo. E essa é a proposta que tem sido levantada por diversos profissionais e estudiosos da nutrição nos últimos anos.

Um paradoxo que a autora conta, a partir de pesquisas: quanto mais uma população sabe sobre nutrição, mais ela engorda. A preocupação com macronutrientes, vitaminas e sais minerais é um tiro no pé. Ela gera ansiedade, insegurança e não raro um pensamento restritivo. Ninguém precisa saber sobre eles nas situações cotidianas. A grande questão é que muitas vezes as pessoas se agarram a eles porque se sentem perdidas no que significa comer bem. Ouvem – dos profissionais e dos leigos, na mídia e na rua – e endossam que precisam de menos carboidrato, menos gordura ou mais proteína (em cada década temos o vilão e o herói da vez), ou que é preciso cortar o glúten ou a lactose mesmo na ausência de qualquer evidência de que isso faça bem a elas, quando na verdade todos os macro e micro nutrientes são importantes.

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O efeito desse conceito estilhaçado de nutrição, que se concentra em nutrientes em vez de olhar pro alimento ou pros comportamentos e padrões alimentares, são pessoas sofrendo, algumas com transtornos alimentares, ciclos compulsivos repetitivos dos quais não conseguem escapar, ou mesmo o comer transtornado – que é quando comer se torna carregado de culpa, excessivamente preocupado com o conteúdo nutricional ou com um “comer corretamente” e, mesmo não preenchendo os critérios de um transtorno alimentar traz muito sofrimento pra quem o experiencia.

Deixar de se preocupar com nutrientes, não focar no peso (pois existe saúde em todos os tamanhos) e definitivamente NÃO FAZER DIETA (assim, em letras garrafais) são premissas muito importantes.

Não é raro que eu receba emails de pessoas perguntando se uma determinada planta é capaz de curar algo, ou comentários associando algum ingrediente a uma propriedade milagrosa (incluindo, é claro, a de emagrecer). No instagram também vejo algumas pessoas que parecem ter a intenção de completar alguma postagem minha, informando nos comentários se uma planta é rica em determinadas vitaminas. Como a Sophie, eu também acredito num comer mais intuitivo, e particularmente acredito que essa obsessão por nutrientes definitivamente não é algo que eu queira alimentar. Existem muitos outros aspectos da comida que são importantes, e eu negligencio os aspectos nutricionais em tudo que publico de maneira proposital, pois assim como a autora, acredito que são outros os pressupostos do que significa comer bem.

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Um registro meu com a Sophie Deram durante o II Congresso de Mindful Eating, que aconteceu em nov/2019. Na oportunidade ela autografou livros e eu ofereci uma oficina

Acho que também é válido dizer que a linguagem do livro é muito acessível – algumas vezes cheguei a considerar condescendente, o que pode não ser a melhor abordagem para pessoas que estejam mais familiarizadas com a discussão do comer intuitivo ou do ativismo anti-gordofobia, mas entendo que ela considera seu público de uma maneira mais ampla, com pouquíssimo conhecimento dessa abordagem – e certamente é fácil se sentir confortável com a leitura. O livro é, no geral, mais acessível do que excessivamente explicativo.

A parte final do livro conta com um compilado de receitas, já que a autora também reconhece que cozinhar no dia-a-dia é importante pra retomar uma relação mais pacífica com o corpo, mas que também não é simples: precisa de organização, repertório e muitas vezes simplificações. Vale pontuar que as receitas são onívoras.

O psicólogo humanista Carl Rogers tem um aforisma curioso que gosto muito, que diz: “Quando me aceito como sou, então posso mudar”. Acho que é dentro desse espírito que encaixo esse livro: ele convida que a gente faça uma tentativa de curar certas coisas com a aceitação radical da nossa intuição, dos nossos desejos e dos nossos tamanhos pra poder construir uma mudança na nossa relação com a comida. Já não era hora. Isso é muito bem-vindo.

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