Comer, dormir e respirar

Observe como você está sentado. Isso, agora, antes de continuar a ler, observe como você está sentado. Procure perceber se alguma parte do seu corpo está tensa ou contraída, e tente se ajeitar numa posição mais confortável. Descruze as pernas se elas estiverem cruzadas. Desgrude os lábios, abra a boca, solte a mandíbula. Deixe também os braços soltos, relaxados. Gire os ombros e depois solte. Puxe o ar pelo nariz, devagar, mas com vontade. Solte o ar lentamente pela boca deixando sair fazendo som e soltando os ombros. No final da respiração solte os músculos da barriga, deixando ela ocupar inteiramente o espaço que é dela.

Respirar de maneira consciente é uma das coisas mais eficientes, controláveis e ainda assim simples que podemos fazer pra lidar com os redemoinhos que as vezes tomam de assalto a nossa cabeça e que parecem impossíveis de irem embora. E pra maioria de nós isso nunca nem foi ensinado. Respirar parece tão automático que essa é a última coisa que passa pela nossa cabeça – ainda que a gente diga de brincadeira “respira, não pira”, nem sempre isso toma a forma concreta de se parar pra respirar por alguns minutos do dia assim, de maneira consciente.

Não me parece a toa que não damos atenção a isso. Agora que uma série de domínios já foram incorporados pelo sistema – tantos espaços e interesses privados na mão de quem tem poder, o que inevitavelmente significa dinheiroa última fronteira da colonização capitalista são as coisas mais básicas da nossa biologia: respirar, dormir, comer.

A ansiedade já é lugar comum. Com ela, a respiração frequentemente fica alterada, curta e no alto do peito, e os pensamentos por consequência, confusos, desordenados, ameaçadores. E nós nem mesmo nos damos conta da ligação entre emoções e respiração, e da importância de se prestar atenção nisso.

Junto com a respiração, a necessidade de repouso é outra que a gente não tem como ignorar se a gente quiser. E embora isso seja um fato da vida, muitos de nós negligenciamos essa relação, e subestimamos frequentemente nossa necessidade de descanso.

Entre uma epidemia de pessoas insones, com dificuldades pra dormir – conectadíssima com esse aspecto da respiração e da ansiedade – há ainda uma pressão pela não necessidade do sono. Isso passa por posts (pseudo)motivacionais já devidamente transformados em risíveis memes do tipo “trabalhe enquanto eles dormem”. Pode vir também na forma do conselho de acordar 1h mais cedo – como se dormir fosse algo que pudéssemos deixar de lado, e 1h de sono fosse um luxo caro demais pra você manter. Ou ainda também aparece em declarações como as do ex-prefeito de São Paulo, João Doria, que à época gostava de divulgar pra imprensa que dormia apenas 3h por noite enquanto distribuia complexos vitamínicos pros seus funcionários como forma de convidá-los a se tornarem também supra-humanos, como convém à imagem que se queria dar pro seu governo neoliberal.

O caso da comida me parece ainda mais emblemático, e possivelmente de todos os três talvez o que já esteja numa estado mais avançado de colonização. Comer se tornou uma tarefa tão complicada e dolorida pra tantos de nós que é preciso o tempo todo ouvir e se consultar com especialistas  – que estão nos consultórios, na mídia, na rua, e até desinteressadamente nos aconselhando nas prateleiras do supermercado, vestindo os produtos. É uma inversão surpreendente pra uma tarefa que deveria ser intuitiva, corriqueira e perfeitamente natural. São tantos os conselhos que nós nos sentimos espremidos, constantemente fazendo algo errado, e justamente por já ter sido alvo há mais tempo do capital, tornou-se difícil escapar dessa lógica.

Nós somos ensinados a ignorar a sabedoria do corpo ainda pequenininhos. Não há espaço pra um dia em que se coma muito, e outro que se quer quase nada – mães e pais frequentemente são bombardeados por informações muito rígidas sobre porções, horários, e nutrientes; são cercados também de olhares julgadores e sobrecarga de trabalho (incluindo o das refeições) por todos os lados. E aí não sobra espaço pros nossos pequenos aprenderem a ouvir, conviver e confiar nas suas intuições. E esse ciclo desregulatório vai se repetindo vida afora, com pessoas que sabem muito de nutrição mas não sabem nada do seu próprio corpo, e acabam comendo coisas por obrigação em vez de saber ouvir os sinais.

O efeito desse lógica perversa, que se concentra em desmandos externos em vez de olhar pra dentro, pro alimento, pros comportamentos ou pros contextos, são pessoas sofrendo, algumas com transtornos alimentares, ciclos compulsivos repetitivos dos quais não conseguem escapar, ou mesmo o comer transtornado – que é quando comer se torna carregado de culpa, excessivamente preocupado com o conteúdo nutricional ou com um “comer corretamente” que pode assumir as mais diversas formas e, mesmo não preenchendo os critérios de um transtorno alimentar traz muito sofrimento pra quem o experiencia.

Nos três casos – respirar, dormir e comer -, o que esse embaralhamento nos tira é a possibilidade de prestarmos atenção em nós mesmos. Não tem muito diferença entre estar tão aflito e sobrecarregado que sequer se lembra de respirar, ou de estar tão atento no que os outros fazem pra poder ter a mínima chance de competir a ponto de não poder fechar os olhos pra dormir. Comer acelerado ou com os olhos grudados nas informações nutricionais ou no relógio ou na etiqueta de preço ou na telinha do celular torna praticamente impossível a tarefa de perceber como você se sente, o que a comida te causa, ou até mesmo os cheiros, o gosto, as situações à sua volta.

Tem uma cena que repetidamente vem à minha lembrança de uma vez que soquei um pacote de pão de forma. Eu estava na praia com meu namorado e minha mãe, e ambos sabiam como podia ser difícil pra mim me permitir comer adequadamente. Então eles faziam um tremendo esforço pra me oferecer um ambiente pouco ameaçador, e compravam pra mim um pão em que a tabela nutricional gravada no pacote indicava que eram as fatias com o menor número de calorias do mercado. Deu trabalho achar, eles tiveram que ir a mais de um supermercado, e encontraram o tal pacote no supermercado mais longe de onde estávamos hospedados. Era uma forma deles me oferecerem um pouquinho de alívio. Embora eu fosse capaz de enxergar o esforço deles, e conseguisse sentir uma ternura pelo cuidado que eles estavam tendo com os meus medos, eu fui tomada por uma raiva imensa. Eu me sentia presa àquele pacote de pão, o único que eu me permitia comer, mesmo naquela situação de um dia memorável na praia. Eu me sentia tão constrangedoramente inadequada. Comer o pão era inadequado, não comer era inadequado, comer outro pão era inadequado. Pra mim parecia uma situação tão sem saída, e eu me sentia incapaz de colocar esse cheque-mate que eu tinha tomado em palavras. O máximo que consegui foi dar um soco no pacote. Um soco grande, imenso, que deixou os pães completamente amassados. Pode não ter sido muito eficiente em comunicar exatamente o que se passava comigo, mas ainda assim era uma tentativa de lidar com a prisão em que eu me sentia. Era uma expressão mais genuína do que me resignar a viver da forma como eu vivia.

A perversidade maior de todo esse processo é que todo esse trabalho de procurar “o pão correto” emulam muito bem a lógica de dar atenção à comida. Você parece ter justificavas pra fazer isso, e estar munido das melhores informações e intenções. E no entanto, toda essa atenção na verdade é só controle. Diferentemente da atenção, o controle não permite que as coisas nos atravessem, e nos faz perder completamente o momento. Elas não deixam que se entre em contato com o seu corpo, seu contexto, nem com a brisa do mar, porque fica tudo esvaziado por um domínio e um saber que é alheio, externo. É aquela imagem de banana que quanto mais eu aperto, mais ela me escapa nos dedos.

Nossa relação com a comida anda tão esfarelada que além do controle, tem os que se colocam no extremo oposto do espectro e parecem não ligar pra absolutamente nada quando o assunto é comida. Comem por comer, só porque é preciso, pra matar a fome, procurando ter que lidar o mínimo possível com aquilo.

Dentre os que se posicionam dessa forma, tem pelo menos dois processos que explicam a escolha. Tem os que se sentem tão apavorados, que reconhecem que os excessos propostos pelos discursos do controle são tão aversivos que desistem de fazer qualquer tentativa mais elaborada. E tem os que decidem não ligar porque captam o pouco valor que se dá pra essa coisa de se fazer comida. Nessa ponta, estão as pessoas que mesmo sem perceber, estão cobertas por algumas camadas de machismo, que ditam que cozinhar não é trabalho, não precisa ser remunerado, pode ser facilmente feito por qualquer pessoa ou até pelas máquinas.

Esse pensamento também agrada muito ao sistema porque significa que uma pessoa desinteressada está totalmente satisfeita em transferir seu controle pra quem oferecer o menor preço. Não é por um acaso que os algoritmos adoram e incentivam que a gente vá pra extremos.

Uma vez, depois de reclamar sobre como minha casa tinha as refeições sempre tão desorganizadas que parecia que ninguém se importava, ouvi de uma acupunturista um conselho: – Comece limpando o seu espaço. Se a mesa estiver cheia de papéis e outros objetos (e ela sempre estava), coloque-os de lado ou retire os objetos ao menos do lugar onde você pretende usar. Coloque um jogo americano, um pequeno forro de mesa, faça um prato e posicione os talheres, mas não deixe de arrumar o espaço pra você.

Sair do piloto automático é desesperadoramente difícil porque é quase como pedir pra se encontrar uma saída do próprio sistema. Parece estranho ter de falar pra alguém se importar com uma coisa que a gente não tem como dispensar. Mas no capitalismo, enquanto a gente está extremamente preocupado com o quanto produzimos, com o quanto acumulamos, ou com o que é que vai nos faltar, nos desligamos completamente de coisas básicas como de ser o que a gente é.


Esse texto foi originalmente enviado na newsletter do OutraCozinha. Pra receber as próximas, deixe seu email:

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