Sua casa é um lugar sagrado

A casa é um espaço de refúgio. É onde começamos o dia, o lugar pra onde vamos quando precisamos de um refresco e de recarregarmos, ao que recorremos quando precisamos de nos proteger. Fazer dela um lugar sagrado é uma forma de honrar e alimentar a si mesmo. Neste último ano, em que estamos atravessando uma pandemia e precisamos mais do que nunca nos recolhermos, pra muitas pessoas ficou bem mais evidente a importância de cultivar esse espaço.

Essa é a proposta do livro The House Witch, escrito por Arin Murphy-Hiscock e ainda sem tradução, e com o qual fiquei encantada pois ser capaz de olhar pra sua casa de uma forma espiritualizada e compassiva num mundo tão atarefado nem sempre é tarefa simples de se colocar em prática, ainda que a gente reconheça a importância.

Eu queria escrever sobre esse livro tem bastante tempo. Mas comecei a sentir dificuldade porque eu mesma estou vivendo um processo muito difícil de dessacralização do meu espaço, e decidindo por uma mudança radical de rumo que envolve essa restauração. Nesse período tenho percebido que nunca de fato me senti em casa nessa cidade, e embora sempre tenha me esforçado pra tornar minha casa um espaço sagrado, essa possibilidade ainda é atravessada o tempo todo por esse não me sentir em casa de um modo mais amplo. Por isso preciso agora sair em busca de um lugar em que sinta que eu caiba melhor.

O lugar em que estamos molda de muitas formas quem somos e as possibilidades que temos. Gosto dessa ideia principalmente porque ela nos faz perceber o quanto a vida é tão mais regional do que estamos acostumados a pensar – e isso vale pro uso e observação das plantas espontâneas que fazemos uso na cozinha, como eu gosto tanto de falar por aqui, mas também pra todo e qualquer uso mágico desse espaço.

The House Witch é um livro que te faz lembrar como é importante se sentir em casa e honrar esse sentimento de uma maneira muito própria.

É um livro sobre magia natural – essa parte da magia que muitos consideram menor e por isso as vezes recebe o rótulo pejorativo de “magia baixa”, mas que na verdade é mais um reflexo do preconceito dos praticamentes de outras sistemas esotéricos do que realmente um demérito próprio desse sistema, como conta Frater Abstru, nO Zigurate, que é um site que recomendo muito a quem tem interesse em práticas mágicas mas não sabe bem ainda por onde começar.

Em The House Witch a autora convida a gente a construir práticas mágicas dentro de casa e para a casa – que invariavelmente acabam envolvendo a cozinha porque ela é o coração da casa, o lugar de onde emana o calor (físico mas também emocional e espiritual). Essa prática passa pelo lugar da bruxaria, do uso de objetos mágicos e de plantas, mas vai naquilo que é a base do conhecimento mágico: são indispensáveis a atenção plena, o estar presente, e a intenção que colocamos naquilo que fazemos nesse espaço.

O que é sagrado pra você?

Uma das coisas que mais gosto em The House Witch é que ele não é apenas um manual de rituais muito estruturados, embora sim, tenha alguns desse tipo no livro. O mérito do livro, pra mim, é que ele incentiva que você se faça perguntas sobre o que é sagrado pra você. Quando você consegue construir um significado próprio de sacralidade é muito mais fácil conseguir encontrar um caminho que te conecte a uma espiritualidade ou prática mágica que te satisfaça.

Isso não quer dizer que você possa fazer qualquer coisa e chamar de sagrado, mas sim que essa é uma prática, antes de tudo, de conexão.

Além da discussão sobre sacralidade, o livro também apresenta objetos mágicos domésticos – como o caldeirão e a sua importância mitológica, ou a colher de pau. Apresenta rapidamente algumas entidades e deidades da casa; traz instruções e ideias pra construir um altar na cozinha usando elementos do dia-a-dia como especiarias e plantas; e discute a importância de agir com atenção plena e intenção enquanto cozinha. Ensina técnicas de observação da energia dos espaços da casa pra que você possa modificar e restaurar o que for necessário – sabe aquele cômodo que ninguém fica? pode ser que ele se beneficie de uma atenção mágica. E traz alguns rituais protetivos e de purificação pra casa inteira que podem envolver coisas simples como ervas, óleos, limpeza, ou agulha e linha.

Vale também dizer que o livro é bem bonito. Na versão física ele tem capa dura, tem uma diagramação e tipografia que me agradam, mas é uma pena que ele não seja todo ilustrado pois é quase como se ele pedisse por isso. De toda forma, significa que a versão em ebook acaba não tendo muito prejuízo.

Além de The House Witch, a autora também tem outros títulos semelhantes. The Green Witch também tem esse mesmo intuito de ser um guia de magia natural, mas o foco em vez de ser na casa se concentra na relação com as plantas e ervas com funções mágicas, restaurativas e protetoras para fins diversos que o tempo todo conversam com o ambiente doméstico. Traz chás, banhos e outras receitas mistas entre a culinária e a magia. Gosto muito dele também, mas acho que o que mais gostei foi de perceber como a minha energia é mais de uma bruxa da casa (que valoriza muito o uso e a relação mágica com as plantas) do que exatamente de uma bruxa das ervas.

Pra quem se interessa pela vivência mágica na cozinha mas não tem ainda uma prática, uma forma de experimentar é preparar um chá yogi como sugiro nesse post do link. É uma maneira de perceber que essas práticas podem ser simples mas muito aconchegantes e capazes de provocar uma incrível mudança de ares.

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