Intuição num mundo desencantado

Isso que eu vou te contar não é pra me gabar de ter acertado, nem pra sugerir que você faça igual – eu jamais acho que a gente deva fazer igual a ninguém, nunca mesmo, é importante demais entender e buscar o próprio caminho.

Eu achei essa planta no meio de um emaranhado de plantas do meu quintal, agora tão abandonado por mim que estou na iminência de partir, mas crescendo e sobrevivendo do seu modo, que também é lindo. Era um arbusto baixo, na altura do meu joelho, o tronco é bem firme e grossinho, sustentando perfeitamente a arvorezinha com as frutinhas.

Elas eram bolinhas vermelhas bonitas e brilhantes, e geralmente sou atrevida, eu não deveria mas boto coisas na boca como faz qualquer criança. Não sei bem a razão mas no instante que a vi eu soube: essas não são de comer. Eu não tinha nada racional concreto pra dizer isso naquele momento.

Só então me abaixei e segui analisando. Entendi pelo jeitão da planta que devia ser uma solanácea – o fruto com as sementes dispersas na polpa feito physalis não tinham como mentir pra mim.

Os frutos da planta misteriosa abertos. Lembram muito a physalis, com suas sementes dispersas na polpa, mas também um tomate (embora suas folhas sejam completamente diferentes)

A primeira planta que pensei que aquela podia ser foi batata – planta que nunca vi ao vivo mas que sabia que produzia frutos vermelhos assim, parecidos com tomates (outra solanácea), e que sim, nesse caso os frutos são comestíveis. Abri o celular, digitei ‘batata planta’, e não, não era, as folhas eram diferentes, os frutos da batata também se abriam em cachos, o que não era o caso. Fiz umas fotos procurando partes diferentes da planta e fui pra dentro de casa jogar palavras chaves, olhar imagens e tentar identificar que planta era essa.

A flor branca da planta, uma das partes que prestei atenção pra tentar identificar quem era ela

Uma hora eu topei com ela: a Laranjinha de jardim (Solanum pseudocapsicum), ou Tomate ornamental, Gingeira do Brasil, entre outros nomes populares. Planta da mata atlântica ou do cerrado, tinha nascido naquele pedaço porque está sombreado, bem do jeito que ela gosta. Descobri ainda que é vendida como ornamental, o que é fácil de entender, basta olhar com carinho pra quase tudo que nasce espontâneo num quintal.

Contrariando o que geralmente estou procurando – encontrar plantas comestíveis – , essa não era. Porém, quando descobri abri um sorriso. Não só por ter identificado – porque é um trabalho difícil, que envolve muita tentativa e erro ainda mais pra alguém que não é botânica como eu – mas porque era realmente como eu tinha intuido: aquela não era mesmo uma planta comestível.

Laranjinha de jardim (Solanum pseudocapsicum). Não, essa não é de comer.

Eu não sei como faço essas coisas. Mas sei que é real. Numa sociedade em que a gente valoriza unicamente a razão, esse tipo de história parece sem pé nem cabeça, coisa de outro mundo e de gente doida. Mas não é. Emoções, sensações e intuições também são formas válidas que nos permitem navegar pelo mundo, embora a gente esteja tão acostumado a desprezá-las.

Em O Calibã e a Bruxa, Silvia Federici lembra que embora a caça às bruxas fosse dirigida a uma gama muito grande de práticas femininas, foi principalmente por conta de capacidades como essas, que envolvem a intuição e o conhecimento sobre o imprevisível mundo natural que elas foram perseguidas. Não há nada mais ameaçador a esse mundo produtivista, que valoriza tanto o trabalho, do que alguma coisa que se sabe ou se consegue de modo quase divino, ou sem muito esforço. Por isso a magia – e também a intuição, e esses saberes que temos mas que não sabemos precisar de onde vêm – eram tão temidos dentro da nova ordem que se tentava instaurar e precisaram ser extirpados:

Ao tentar controlar a natureza, a organização capitalista do trabalho devia rejeitar o imprevisível que está implícito na prática da magia, assim como a possibilidade de se estabelecer uma relação privilegiada com os elementos naturais e a crença na existência de poderes a que somente alguns indivíduos tinham acesso, não sendo, portanto, facilmente generalizáveis e exploráveis. (…) Sobretudo, a magia parecia uma forma de rejeição do trabalho, de insubordinação, e um instrumento de resistência de base ao poder. O mundo devia ser ‘desencantado’ para poder ser dominado.” (Federici, O Calibã e a Bruxa, p. 313)

Situações como essa, em que me vêm espontâneamente que dessa vez não devo ser atrevida com uma fruta porque ela não deve ser comida, me lembram de que há algo importante que carrego comigo e que, mesmo que eu não saiba nomear, ela é uma fonte de sabedoria. Esse conhecimento é tão importante que anos atrás nos ensinaram à temê-lo, e a ignorá-lo. Mas essas coisas ainda estão conosco e se quisermos que as coisas sejam diferentes, talvez seja indispensável voltar a reconhecermos e honrarmos essas forças pra transformar o mundo, de novo, em um lugar encantado.


Durante 4 semanas, os posts do OutraCozinha farão parte do Estação Blogagem. O tema dessa semana é inspirado no naipe de paus do tarô: O que te sustenta? O que te estimula? O que te dá paixão?