Essas tais plantas tóxicas

Vira e mexe alguém me pergunta sobre a acariçoba, pois eu já publiquei aqui que ela é uma planta comestível, mas você encontra em muitos lugares por aí a referência de que ela na verdade se trata de uma planta tóxica. Essa é uma pergunta boa de ser feita não por conta da acariçoba em si, mas porque a gente pode pensar o que é que quer dizer essa coisa de falar que uma planta é tóxica?

A primeira coisa que é bom lembrar é que a gente usa muitas plantas que têm uma toxidade ou compostos tóxicos corriqueiramente, mas nem por isso a gente chama elas simplesmente de “plantas tóxicas”. E não é porque elas são pouco perigosas não.

Folha de acariçoba com alguns buquezinhos de flores apontando. O formato redondo lembra um pouco a capuchinha, mas são bem diferentes

Um exemplo é o espinafre. O espinafre é uma planta que tem um teor de ácido oxálico considerável. Essa molécula se liga ao ferro e ao cálcio, e aí ela se transforma em cristais de oxalato de cálcio e de ferro, cujo acúmulo leva à formação de horríveis e dolorosos cálculos renais.

Oxalato de cálcio, esse que acumula no rim, é outra substância muito séria. Quando ingerida em grande quantidade (e não metabolizada pelo organismo) ela mata por asfixia. E sim, nós também comemos alimentos com oxalato de cálcio, como o inhame ou a taioba.

Mas aí o que a gente faz? A gente faz o preparo adequado: não se recomenda que se coma espinafre cru, é preciso fazer o branquamento antes de consumir o espinafre. A taioba e o inhame é mesma coisa, é preciso cozinhar pra eliminar o oxalato de cálcio até tirar aquela sensação de garganta pinicando. O suco de inhame que virou moda como detox na verdade é um detona – e ainda assim, ninguém chama o coitado dessa forma.

Saindo da terra uma deliciosa e tóxica batata de inhame

Outro exemplo bom de como não é o caso de só chamar de tóxico o que é muito tóxico mesmo é o da folha da mandioca, que é usada pra preparar a maniçoba paraense. A folha da mandioca contém um teor muito alto de ácido cianídrico, outra substância perigosa que mata por asfixia. Isso estranhamente não foi impeditivo pra que os indígenas criassem um prato que com ela. No entanto, antes de comer é preciso um preparo que envolve o cozimento longuíssimo, por 7 dias, mas que torna a substância neutralizada a ponto da gente poder fazer a ingestão.

No caso da acariçoba, e de todas as outras plantas e coisas que a gente ouve assim que são tóxicas, a primeira coisa que a gente precisa aprender é a dar qualidade pra essa toxidade, como fiz com todas essas plantas. Comece se perguntando: tóxica como? que negócio é esse?

No caso da acariçoba, é fácil descobrir. A substância que a acariçoba tem que é considera tóxica é a cumarina. A cumarina é uma substância que é broncodilatadora e anticoagulante, e por isso pode afetar nosso sistema respiratório e circulatório de um modo nocivo. Algumas pessoas são mais sensíveis que outras. Mas as cumarinas também estão presentes em várias outras coisas que a gente consome.

Acho que o melhor exemplo é o cumaru, que é uma especiaria amazônica, uma semente cheirosa usada em confeitaria, que se rala na hora, como fazemos com a noz moscada. É internacionalmente conhecida, apesar da gente não fazer um uso muito costumeiro e nem ser tão fácil de encontrar pra comprar, pois o uso do cumaru é envolto em alguma controvérsia. É usada (ainda que em alguns lugares seja de forma escondida) e admirada no mundo inteiro – e costuma ser chamada de fava tonka. Mas fato é que o cumaru tem esse nome porque ele tem uma altíssima concentração de… cumarina.

Sementes de Cumaru. Essas vieram da minha visita ao Ver-o-peso, em Belém

O que é que se recomenda? Sempre se fala que tem que fazer um uso cauteloso, não exagerar na quantidade nem na frequência. Mas isso é até intuitivo no caso do cumaru: uma especiaria você não vai usar em grande quantidade, você quer que fique um aroma, que deixe um rastro mas sem dominar o prato.

De mais a mais, tem outras coisas que também contém cumarinas e que a gente usa bastante: a camomila, a erva doce, a lavanda, o guaco.

Agora já dá pra pensar: quando a gente tá falando da toxidade da acariçoba, a gente tá falando de cumarina. O uso que se faz dela na alimentação, no entanto, é como o de uma erva aromática, já que o cheiro e sabor lembram muito a salsa. É algo que se usa em pequenas quantidades. Mesmo ela tendo essa substância, a maioria de nós consegue lidar de alguma forma.

Chamar uma planta de tóxica é um pouco aquela história que o famoso alquimista Paracelso já contava, de que a diferença entre o veneno e o remédio é a dosagem. E é algo pra se pensar quando falamos sobre determinada coisa ser tóxica. Elementos que nos agridem estão presentes em todas as coisas do mundo – as comestíveis e também as que não são. Melhor do que se regular pelo medo ou resolver eliminar tudo que nos afronta, a gente tem que aprender a observar, se perguntar e e entender como lidar com elas. Muitas vezes a resposta será mesmo eliminar e manter distância, mas nem sempre. Vale pras plantas, mas também pra muitas outras coisas da vida.


Durante 4 semanas, os posts do OutraCozinha farão parte do Estação Blogagem. O tema dessa semana é inspirado no naipe de espadas do tarô: A racionalidade e a lógica, e também os problemas que estão apenas na nossa cabeça