Como substituir o fermento químico

Há alguns anos que não compro mais nada no supermercado que leve milho ou soja. Quase a totalidade dos produtos que levam esses ingredientes são transgênicos, e tem muitos rótulos que nem nos avisam. Por essas e outras, nesses anos eu comecei a aprender alternativas a vários produtos que vinham com aquele T macabro na embalagem. Uma delas é o fermento químico, aquele que a gente usa pra fazer bolos.

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Eu sinto arrepio na nuca quando vejo esse símbolo

Não é só pelo pânico de não haver estudos e tempo suficiente pra entender as consequências da transgenia –  que, aliás, me parece ser um pânico pertinente. A rejeição a esses produtos é também uma questão política. É difícil encontrar milho sem ser transgênico mesmo aqui na minha cidadezinha de 70mil habitantes, junto do produtor rural familiar, porque eles não conseguem comprar outras sementes que não as transgênicas. O monopólio das empresas de sementes é assustador. Sementes transgênicas não podem ser guardadas para serem plantadas no ano seguinte – elas são estéreis -, e por isso os agricultores estão sempre à mercê de compras repetidas. Obviamente que isso acarreta custos na produção, e diminui a autonomia dos agricultores. Sem contar os agrotóxicos: a transgenia é feita exatamente para a planta aguentar maior volume de químicos e ter menos chance de morrer por pragas ou envenenamento no meio do caminho até nosso prato. Isso também é uma forma de tornar o alimento mais caro – e pavoroso.

Apesar desse cenário apocalíptico, ainda dá pra pensar alternativas.

No caso do fermento químico, a troca se resume basicamente em usar bicarbonato de sódio no lugar. É isso que você compra nos pacotes, inclusive.

Num fermento químico do supermercado, o que eles fazem é colocar o bicarbonato de sódio com um ácido em pó. Quando em contato com um meio ácido, o bicarbonato reage formando bolhas de ar, e é esse ar que faz o bolo “crescer”. Você pode brincar jogando limão num pouco de bicarbonato pra entender do que estou falando,  recomendo a divertida experiência.

Essa reação, no entanto, precisa de um meio líquido pra acontecer. Por isso que junto do bicarbonato e do ácido vai um pouquinho de amido de milho, (que agora é, via de regra, transgênico): pra evitar que a umidade do ar faça a reação química acontecer e mande seu fermento pro espaço. Ele só vai reagir quando você misturar no bolo, líquido. É por isso que também a vovó sempre guardou o fermento aberto na geladeira: geladeira tem ar seco lá dentro, e evita a umidade que a reação bicarbonato + ácido precisa pra rolar.

A fórmula dos fermentos, então, é assim:

2 partes de bicarbonato de sódio
1 parte de ácido: limão (nos comprados prontos é cremor tártaro, um subproduto da produção de vinhos; você encontra em lojas que vendem artigos para confeitaria)
1 parte de amido de milho

No ácido, já usei o cremor tártaro, mas atualmente tenho usado suco de limão no lugar e o resultado é o mesmo. Ainda tem a vantagem de ser barato e não gerar o lixo das embalagens (só lixo orgânico, fácil de compostar). Não se preocupe que a quantidade de limão nunca é suficiente pra deixar gosto (e se deixar, vamos combinar, não vai ser ruim).

Note também que o amido de milho transgênico é bem supérfluo nessa equação, a não ser que você queira montar um supermercado.

O que faço aqui é a cada receita usar essa fórmula para substituir as colheradas de fermento químico em bolos, bolinhos e tortas. Por exemplo: 1 colher de chá = 1/4 +1/4 de colher de chá de bicarbonato + 1/4 de colher de chá de suco de limão. Ignoro completamente o 1/4 de amido, pois não vou estocar, vou colocar essa fórmula na receita. Ajuda muito ter aquelas colheres medidoras.

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A colherzinha medidora de 1/4 de colher de chá é aquela mão na roda ❤

Lembre-se de não deixar o bicarbonato entrar em contato com o ácido antes de ser misturado. A reação tem que acontecer depois, e não antes de ser colocado.

É possível também fazer uma quantidade maior usando essa proporção e estocar. Nesse caso, você vai precisar mesmo do cremor tártaro, e poderá usar um outro tipo de amido (por exemplo, fécula de araruta ou mandioca). Mas para produção caseira, a estocagem nem sempre é uma vantagem. Fresquinho é sempre melhor.

 

Guia Prático de PANCs

A querida Sofia Soter me deu a dica, e achei tão boa que quis registrar por aqui. O Instituto Kairós, uma entidade sem fins lucrativos que fomenta o desenvolvimento da Economia solidária e a Agricultura Camponesa/Familiar disponibilizou uma cartilha gratuita e muito bonitinha sobre PANCs.

Na abertura da cartilha, tem uma sessão bacana de perguntas e respostas com dúvidas comuns: toda PANC vai pra salada? Vai ter gosto ruim/amargo? O consumo das PANCs é seguro? entre outras.

No miolo, fotografias coloridas que ajudam a identificar as plantas e suas parte não-convencionais e um texto rapidinho sobre o gosto e os modos mais comuns de consumo (cru, cozido, como tempero, etc).

Muito explicativo também é esse gráfico, que encontrei por lá:

comaPANC

Ele ajuda a entender o quanto de uniformidade existe por trás da aparente variedade do supermercado. E também é um ótimo lembrete pra gente perder o medo de experimentar: olha quantos sabores existem que a gente não conhece. Mas tá em tempo!

A curadoria de plantas e textos da cartilha é do Guilherme Ranieri, do blog Matos de Comer. Vale também acompanhar o blog dele.

O nome que a gente dá pras coisas

Durante o trajeto de ida da viagem, enquanto olhávamos a paisagem passando pelas janelas do carro, falamos um bom tempo sobre como em cada lugar damos nomes diferentes a uma mesma coisa. Uma plantação de bergamota em Minas Gerais não existe: é plantação de mexerica. Um potreiro no sul se transforma num pasto no sudeste. E tá vendo ali aquele jipão? Pois ele é fogão de lenha, construído de alvenaria, porque os de ferro que são mais comuns no sul nem se encontram mais pra cima.

Essas curiosidades me faziam pensar sobre a quantidade de pequenas dobras linguísticas que acabo sendo obrigada a fazer por morar em outro lugar. São pequenas, quase sempre invisíveis, e parecem mera curiosidade, motivo de riso, mas também são lembranças do quanto estou fora do meu lugar. Dobre a língua, menina, antes de falar.

Tirei essa foto dos limões em BH, no Mercado Central, como mais uma lembrança dos tortuosos caminhos das palavras. Em BH, esse limãozinho é difícil de encontrar. Certo mesmo, que eu soubesse, só no Mercado Central, mas as vezes via em feiras, as vezes ele aparecia vindo de algum sítio.  Eu ouvia chamarem que nem mostra a placa, de capeta, e sempre me fazia pensar que esse limão era mais ácido que o outro, aquele verde que a gente achava em qualquer lugar.

Aqui no interior do Paraná chamam ele de “limão”. Assim, sem nenhum adjetivo, porque ele é besta, comum, quase todo mundo tem um pé no quintal. Adjetivo quem merece são os outros, mais raros e por isso mais ilustres.

Andei perguntando no twitter que nome as pessoas davam a esse limão e adorei as respostas que apareceram: limão rosa, que descreve bem a cor laranja-rosado da casca; limão cravo, e acho um nome muito bom, porque me fala do quanto ele é aromático; limão galego, que muita gente ficou em dúvida se era ou não certo, mas se tanta gente dá esse nome, certo fica sendo; e teve até quem me dissesse que no RS isso se chama limão gaúcho, e me fez achar graça do conhecido bairrismo desse povo (mineiro não pode falar muito pois também somos bem bairristas, então melhor eu ficar quieta).

Gosto de ficar olhando pra essas diferenças linguísticas porque elas dizem de jeitos diferentes de conceber e viver as coisas. Enfatizam alguma coisa em especial: a pungência, a cor, o aroma, a frequência ou o apreço pelo regionalismo.

Os motivos pra se nomear algo nunca são puramente linguísticos. Nas PANCs a gente percebe bem uma característica desse processo de dar nome às coisas. Se várias espécies consideradas PANC recebem nomes que terminam com “do mato”, “de anta”, “de macaco”, “de pobre” é porque carregam uma desvalorização em vista de outras plantas, mas que não condizem com a realidade dos seus sabores, texturas e cores.  A ênfase, como se vê, fica em outros aspectos. Nomear algo, afinal, é uma ferramenta poderosa para ordenar e estruturar como percebemos o mundo. Diferente do limão, os nomes de PANC não enchem os sentidos, mas sim nossa cabeça de desconfianças. Então, pra conhecer e falar do gosto, do cheiro, da riqueza ou do uso é preciso superar o destaque dado na frequência, na relação econômica e na vulgaridade que os nomes sugerem pra gente. Conhecer os nomes é bom, mas também engana. Nesses casos, é preciso botar o nomeado na mão, no nariz, na boca, no prato.

 

Batatinha quando nasce

No inverno do ano passado, eu resolvi misturar algumas cascas e folhas secas num vaso grande em que tenho um pé de louro, pra servir de adubo quando chegasse a primavera. Uns meses depois, começou a crescer alguma coisa junto do louro, e fui observando a folha. Era batata-doce. Algum pedacinho de casca que joguei resolveu virar uma planta nova ao invés de se decompor. E eu teimei junto com a planta. Joguei água, guiei as ramas das folhas que vinham, ia deixando aquela planta crescer.

Depois de um ano, era hora de podar e adubar de novo – esse ritual de inverno de todo mundo que resolve ser jardineiro. E aí decidi que era hora de cavucar pra chegar nas batatinhas.

Eu sei, não vai matar a fome nem nada, mas tem tanta coisa bonita que eu experimentei ao ver essa batatinha crescendo, que eu me sinto alimentada. Penso na relação diferente com a jardinagem, que as vezes deixa a gente com tanto medo de matar as plantinhas, mas se mostra ali quase uma coisa inexplicável, tão viva. No jeito diferente de perceber o lixo, que pode ser aproveitado nos vasos, mas tem tanto valor que pode se transformar numa nova planta e em alimento. Na resiliência da casca, no tamanho do ciclo pra se produzir uma batata – lá se foi um ano! Na mão suja de terra procurando as batatas e as unhas pretas, que me lembraram que plantar dá trabalho e é bem diferente do que se vê no supermercado. No querer muito cozinhar também as folhas – elas são uma PANC incrível, macia, saborosa – porque você não quer perder nada dessa experiência assombrosa de ter conseguido produzir uma batata-doce, umazinha que seja, num vaso em casa.

Insistir em ter plantas comestíveis em casa é das coisas mais gratificantes que eu consigo pensar.

Como era pouca, eu assei com junto com outras batatas-doces compradas, temperadas com curry, sal e azeite. Eu separei as batatas que nasceram aqui em casa pra saber quando comesse, estava curiosa. E é claro que a minha batata era a mais macia e a mais gostosa.

O coração do chuchu e dos nossos hábitos

Você come essa parte branco-amarelada aí do meiozinho do chuchu, o caroço?

Na minha casa sempre tiramos e jogamos fora. Aprendi que era assim que se fazia, e que isso era duro e amargava.

Conversando com uma amiga esses dias, aprendi outra coisa. Ela me contou que na casa dela rolava uma pequena disputa pra ver quem ficava com o coração do chuchu. Era a parte nobre do legume, o coração do dito cujo. Fiquei intrigada, não entendi nada!

A curiosidade foi tanta que na mesma semana resolvi experimentar. Fiz uma sopa – anda frio esses dias – e dessa vez não tirei o miolo escavando, como sempre fiz. Piquei tudo em cubos e joguei na panela, com aquele sentimento de estranheza de quem faz uma coisa meio errada. Tantos anos desprezando aquela parte. Quando provei, achei que a textura do coração do chuchu lembrava palmito fresco. Era uma delícia mesmo.

A gente faz tanta coisa por hábito, por nunca parar pra se perguntar por que é que a gente faz assim mesmo. Mas cada vez que conseguimos nos perguntar por que é mesmo que é assim, a gente acaba parando, refletindo, tentando de outros jeitos. As mudanças aparecem é de sabermos fazer as perguntas muito mais do que de saber dar respostas.

A gente aprende muito com a experiência dos outros porque cada um tem uma experiência. Perguntando no twitter, descobri que um monte de gente já comia o coração do chuchu, outro tanto não. E porque a experiência é tão variada, tem coisas que nós mesmos é que temos que experimentar e decidir o que é bom pra gente.

Coração de chuchu aqui em casa, a partir de agora, se come sim.

 
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