Newsletter: Edições Passadas

Uma vez por mês envio uma cartinha pro seu email, com uma conversa e links sobre alguma temática em torno da comida, da vida, dos afetos, das coisas que vi por aí. As vezes tem receita, mas o convite é mesmo pra prosear e refletir. Os textos das cartinhas não são publicados no blog. Se quiser conhecer o que já andei enviando, é só ir clicando nas imagens aí embaixo.

E pra receber as próximas edições, é só deixar seu email:

2017

newsletter_23  newsletter_22

newsletter_21  newsletter_20

newsletter_19  newsletter_18

newsletter_17  a_newsletter_16

b_newsletter_15  c_newsletter_14

 

 

2016

newsletter_13  newsletter_12  newsletter_11  newsletter_10  newsletter_09  newsletter_08  newsletter_07  newsletter_06  newsletter_05  newsletter_04  newsletter_03  newsletter_02  newsletter_01

 

 

 

 

Analfabetismo verde

Foto: G. Gazzola, 2013.

Saber ler as plantas ao redor se transformou numa habilidade razoavelmente rara nos grandes centros urbanos. Somos os novos analfabetos verdes.

Costumamos nos lembrar anedoticamente daquela história de que os esquimós possuiriam mais de 50 nomes para se referir à cor branca. Para o povo esquimó, seria uma questão de sobrevivência conseguir nomear nuances de brancos diferentes, seja para identificar ou comunicar probabilidades de cair num buraco ou de conseguir comida. Daí, eles não poderiam deixar de espressar os vários tons de branco na linguagem.

Embora essa história seja mesmo quase verdade, e que seja contada por muitas pessoas como uma curiosidade, eu nunca ouvi muita gente parando para pensar em como nós usamos as palavras para nos referirmos às cores. Segundo o professor e pesquisador John Warren, muitas das línguas ocidentais contemporâneas possuem uma gama imensa de palavras para se referir à nuances de uma cor em específico. Nem notamos, mas é provável que tenhamos mais palavras para uma cor do que qualquer outra: o verde.

Isso acontece, segundo Warren, porque vivemos em um planeta dominado pela cor verde, e portanto, faz sentido que as forças naturais de seleção tenham nos equipado com olhos que são particularmente sensíveis à luz verde do espectro.

É basicamente a mesma história do esquimó. Porém, Warren afirma que a adaptabilidade nesse caso não é somente linguística, mas também biológica. Teríamos maior sensibilidade na retina para a cor verde. Por termos essa sensibilidade, Warren afirma que também as nossas telas (como a TV, o cinema e as câmeras fotográficas, por exemplo) são calibradas para terem maior espectro verde, e assim, serem mais “reais”, mais da forma como estaríamos acostumados a ver.

Mas pense bem: se você é biologicamente adapatado para reconhecer o verde em todas as suas nuances, mas não consegue nem distinguir entre a salsa e o coentro na feira, será que você está aproveitando toda a potencialidade que a seleção natural te deu? A salsa e o coentro, claro, é só um pequeno exemplo. Pense no número de árvores espalhadas pela sua cidade. Os jardins. Uma praça. Pense ao menos no matinho que nasce no meio fio da calçada. Você consegue dizer o nome de quantas dessas plantas? Ou seriam todas elas “mato”, assim, sem nenhuma distinção?

Por essa lógica adaptativa, dá para pensar que quando não usamos essa aptidão estamos desperdiçando o que a natureza nos deu. Ficamos meio analfabetos. Não sabemos ler o ambiente no nosso entorno e por isso jogamos uma habilidade espetacular fora. Também é verdade que parece que precisamos cada vez menos saber distinguir entre espinafres e rúculas. O mundo no qual você nasceu é dominado de cinza, e dominado por pessoas que produzem os alimentos, os cosméticos, os remédios, as fibras do vestuário e uma infinidade de outros produtos vegetais para nós. É bem fácil mesmo nunca termos tido a chance desse aprendizado. Somos os meninos bobos da cidade grande. E tal e qual o roceiro precisou se alfabetizar ao migrar do campo para viver nas nossas metrópoles, a gente deveria ter de se alfabetizar para poder dar conta de viver com o verde. Principalmente porque o verde está — ou deveria estar — em todo lugar. Mesmo nas metrópoles mais cinzas, ele ainda resiste. Movimentos de guerrilas gardening, hortelões urbanos, entre outros, e a crescente preocupação com questões ambientais não me deixam mentir que essa resistência está aí, nos trend topics do mundo.


Quanto cinza, e quanto verde… Foto: Miss inoperative, 2015.

Há muita beleza escondida em conseguir desenvolver esse letramento verde. Comecei essa saga alfabetizante há algum tempo. Talvez há muito. Posso dizer que sou um pouco privilegiada. Talvez desde os tempos em que minha avó tinha um sítio e ia eu, menina, apreciar e cuidar da hortinha, esse aprendizado já tinha começado. Pode até parecer pouca coisa, mas acredite: existem crianças nos nossos dias que não sabem o nome dos legumes, verduras e frutas. Só que alfabetização verde vai além da feira, do supermercado, e mesmo da horta.

Você consegue identificar alguma planta nessa foto? Foto: Miss inoperative, 2015.

Quando falo de uma alfabetização verde, penso em conseguir identificar plantas numa paisagem qualquer. Há muito mais coisa para se conhecer do que temos noção. É uma coisa bonita de se apreciar alguém que consegue ler a paisagem, que sabe os usos, os gostos, os cheiros. Que anda por um mundo indistinto de folhagens e consegue dar significado para os verdes à sua volta. Não é muito diferente do mundo das letras e da habilidade de interpretar um texto.

Nessa minha saga, eu tenho me sentido como criança descobrindo as letras, formando as palavras e fazendo sentido. E por isso, acho que olho para as plantas com encantamento. Eu aponto e, não sem antes exibir um sorriso de canto de olho, me sinto importante porque sei o nome daquele “mato”.

Outro dia andando por uma praça, olhei uma árvore, reparei na folha, no porte, e também reparei num pendão com pequenas bolinhas avermelhadas que estavam por toda a sua copa. Liguei os pontos, me lembrei de uma foto de um livro meu — que comprei mesmo com o propósito de me ‘alfabetizar’ — e pensei: isso é pimenta rosa? Puxei um galho, provei uma das bolinhas. Bingo! Quanto tempo essa árvore estava ali? Um tempero que costuma ser vendido caro, frequentemente importado, ali, na praça. São dois quarteirões da minha casa. A árvore é bonita, e é usada em centros urbanos de maneira ornamental mesmo. Na semana seguinte dessa descoberta, fiz uma viagem, e encontrei um parque com dezenas de pés de pimenta rosa, que dessa vez reconheci de cara. Me deu a certeza de que já estava um pouco mais alfabetizada.


Quantas árvores de pimenta rosa devemos ter ignorado durante toda a nossa existência? E quantas vezes as nossas habilidades de dar significado para o mundo ficam adormecidas e nem nos damos conta?


View story at Medium.com

Sobre catar feijões

Feijões arroz. Foto: Miss Inoperative.

Catar feijões é uma tarefa grata. Ela te dá uma oportunidade de perceber o quanto estamos acostumados com tudo pronto.

Cada vez que vou ao caixa do supermercado pagar minhas compras, eu costumo me sentir bem orgulhosa pelas coisas que resolvi comprar. Sempre acho que consegui burlar a indústria, e fiz escolhas bem em consonância com esses valores. Costumo levar arroz, feijão, óleo, fécula de mandioca, alguma castanha, e é isso. Nada de hiperindustrializados, nada de qualquer coisa pronta, apenas alimentos que, para que eu possa usar, ainda vão me dar um bocado de trabalho. Esse orgulho, no entanto, dura pouco. Ele dura até que você resolva comprar feijão da roça, com alguém que plantou o feijão, e resolva catá-lo.

Catar feijões coloca em perspectiva o quão industrializada essas compras ainda são. Os feijões do supermercado são limpos, são selecionados, são bem parecidos uns com os outros. A uniformidade típica que só a industria pode dar a algo está lá. Uniformidade, que eu tanto abomino nessa vida, está lá no saco de arroz (e de feijões). Catar feijões te permite ver o quanto você ainda não preza pela não uniformidade do mundo.

Catar feijões deixa a mão suja. Ele te lembra do trabalho com a terra, que é indispensável para que aquele feijão exista. Te faz também ter de trabalhar um pouco para poder chegar até a hora dos feijões se transformarem em “mágicos”, comestíveis. Te faz valorizar aquilo que você está produzindo. Você sente que seu trabalho não pode ser em vão: desperdiçar é jogar seu tempo catando feijão fora.

Catar feijões te dá tempo pra pensar. Quanto mais impurezas e não uniformidades existem naquele feijão, mais você vai precisar mesmo de tempo. Você vai encontrar muitas pedrinhas, muitos feijões que serão necessários uma segunda olhada. Catar feijão te faz estar ali, pra perceber de verdade o que está naquele volume.

Catar feijão te faz estar presente. Seu pensamento pode viajar, mas não pode ser muito, nem pra muito longe, a ponto de você negligenciar o feijão e deixar as pedrinhas passarem. Você precisa estar ali. Precisa recusar todas as outras tarefas do mundo. Precisa pensar algum jeito de tornar aquilo mais fácil, ou mais rápido, ou mais seguro. Mas pra decidir, você tem de estar ali, e não em outro lugar qualquer.

Catar feijões te permite ter uma relação mais sensorial com os feijões. Especialmente se você resolve catar muitos de uma vez só. Aos poucos eles se juntam, e se transformam em muitos. Muitos feijões, aos montes, feitos para se afundar os dedos. Para se perder nas formas.

Catar feijão te permite sair brevemente da temporalidade do mundo.