Eu só queria ter do mato um gosto de framboesa

Semana passada achei na feira um senhor que vendia umas florezinhas amarradas num pacote de redinha. Tive a impressão que sabia do que se tratava, mas nunca as tinha visto ao vivo. Resolvi perguntar se era vinagreira, mas o feirante me disse que se chamavam capilé, e que nem todo mundo conhecia porque quem cultivava por aqui eram somente os colonos italianos. Vinagreira ou capilé, eu quis experimentar. Perguntei como ele preparava: me disse pra tirar as sementes do meio, e bater no liquidificador com água. Sem complicações.

037d9-1b1ymy603m4uxo1itx8m4rg
O amarrado de flores que enxerguei na feira, agora recém-chegado na minha casa.

Quando cheguei em casa, fui procurar no meu livro sobre PANCs e ela estava lá: era capilé, mas também era vinagreira, hibisco, rosela, groselha, groselheira, caruru-azedo, quiabo-azedo, e eu não duvido se ainda tiver outros nomes. No fundo, nenhum nome me pareceu muito adequado: todos eles possuem alguma outra planta com esse mesmo nome. Há uma verdura que também tem o nome de vinagreira, e groselha é uma fruta que não dá no Brasil. Apesar de também ser chamado de hibisco, não é o mesmo hibisco mais comum — aquele que é uma árvore e que a gente vê pelas cidades (aqueles outro hibiscos também são comestíveis, mas confesso que nunca experimentei). Mas gostei mais do nome hibisco porque as duas flores são ambas da mesma família. O nome científico das flores que eu comprei é Hibiscus sabdariffa

   

Pelas fotos, dá pra ver que esse hibisco é um arbusto pequeno, com poucos ramos, em que você colhe as flores antes que elas abram. O feirante me disse que a planta, por aqui na região sul do país, morre no inverno com as geadas frequentes. Provavelmente nas demais regiões a planta deve vingar o ano inteiro. No sul-sudeste do Brasil consome-se apenas os cálices florais. Uma forma de consumo muito popular nessas regiões, dentro das comunidades japonesas, é a conserva em sal, que se assemelha muito às umeboshi (ameixa japonesa). Já na região norte-nordeste, é mais comum o consumo da folha, que também pode ser encontrada à venda em feiras livres. O arroz de cuxá, por exemplo, é um prato tradicional do Maranhão que leva as folhas dessa planta.

A sugestão de como usar o hibisco no livro, no entanto, era diferente da que me deu o feirante. Enquanto o feirante me falou pra bater as folhas em água apenas, o livro me sugeriu fazer um chá bem concentrado. Para tirar a prova, resolvi experimentar fazer dos dois jeitos. E no fim dessa experiência, propus uma terceira sugestão de bebida: um “refrigerante” caseiro, uma bebida fermentada de hibisco, que se gaseifica naturalmente.


Teste 1: Chá-suco de hibisco

Comecei retirando o fundo dos cálices das flores com uma faquinha. É só contornar o fundo que o meio da flor sai. Nesse meio estão as sementes, que eu salvei pra depois se transformarem em novos pés de hibisco. Deu também pra entender a ideia do nome “quiabo azedo”: esse meio da flor se parece um pouco com o quiabo na textura. É um pouco aveludado, mas que quase espinha. E lá dentro está cheio de sementes brancas arredondadas— como o quiabo.

Os cálices (vermelhos) e as sementes (verdes) já separadas.

Para fazer o chá, eu não tinha noção das proporções, arrisquei assim  e gostei:

100g de hibisco (sem as sementes — em torno de 20 flores)
1l de água
4 colheres de sopa de mel

Fiz o chá: esquentei água, pus as flores, deixei por 10 minutos, coei. Botei na geladeira pra gelar. Na hora de servir, pus uma colher de mel pra adoçar. A cor ficou incrível: um rosado difícil de se encontrar. O gosto é azedinho suave (e daí dá pra entender o nome vinagreira), e lembra mesmo frutas vermelhas, como a framboesa. E se eu não soubesse como foi feito eu diria que não era um chá, e sim um suco.


Teste 2: Suco batido de pétalas de hibisco

A segunda tentativa —seguindo a sugestão do feirante — foi feita na mesma proporção do chá-suco. Bati tudo em um liquidificador e coei. O sabor e a cor ficaram mais suaves, e com isso o suco pareceu ser mais refrescante. O rendimento foi ainda melhor porque o que ficou sólido na peneira, eu coloquei pra fazer outro chá com um pouco menos de água (um 1/2l). O chá feito com as sobras do suco, como era de se esperar, também ficou mais suave do que o chá com os cálices íntegros.

A gata Farofa não resistiu e veio dar uma olhada no meu copo de chá-suco e nas fotos que eu batia.

Teste 3: Refrigerante caseiro de hibisco fermentado

Bebidas fermentadas são bebidas que a gente deixa uma cultura de bactérias boas crescer, e enquanto elas se desenvolvem, consomem o açúcar que está disponível nesse líquido. Como subproduto do consumo desse açúcar, essas bactérias produzem gás carbônico, gaseificando naturalmente a bebida, e também produzem álcool, dependendo da quantidade de tempo que você as deixa fermentar. A quantidade de álcool também varia de acordo com o tipo de bactéria que está fermentando a sua bebida. É assim, por exemplo, que se fazem vinho, cerveja, espumantes. Mas a minha intenção não era produzir uma bebida alcoólica e sim um refresco gaseificado. E isso não só é possível, como também essas bebidas são consideradas benéficas para a saúde.

Minha bebida fermentada pode ser chamada de refrigerante pela semelhança na aparência: é uma bebida adocicada e gaseificada. Porém, as semelhanças acabam aqui. Meu fermentado de hibisco é um refrigerante com pouco açúcar (as bactérias vão consumindo uma boa parte dele), e com os benefícios que você pode imaginar que existem em comer “lactobacilos vivos” — porque eles estão nessa bebida. A cultura que usei para fermentar foi soro de leite: isso é o que sobra quando a gente faz iogurte caseiro, e depois coa esse iogurte, usando um pano. Você também consegue soro de leite colocando um pote de iogurte comprado em um pano. O que pinga do outro lado é um líquido claro, quase transparente. Isso é o soro do leite (e o que sobrou em cima no pano é iogurte grego. O de verdade, e não o que nos vendem engrossado com espessantes).

Para o fermentado de hibisco, resolvi fazer assim:

1/2 xíc. de mel
1l de chá-suco de hibisco (feito na receita anterior)
suco de meio limão
1 col. de café de sal (sem ser iodado — se não encontrar, não coloque o sal!)
2 col. de sopa de soro de leite

Coloquei tudo em uma garrafa vazia de 1,5l, e tampei. É importante arrumar uma garrafa que tenha uma capacidade maior do que a quantidade de bebida que você está produzindo, pois durante a fermentação haverá produção de gás. O espaço que sobra, então, serve para não aumentar demais a pressão na garrafa: o gás vai ocupá-lo. Eu usei uma garrafa reaproveitada de suco de uva — que de quebra, é bem bonita — , mas você pode usar um pet de refrigerante também. Use o que estiver à mão.

Colocando o mel na garrafa (e todos os outros ingredientes em seguida).

Deixei por 4 dias em temperatura ambiente. O tempo pode variar, pois depende da temperatura: em dias mais quentes a fermentação acontece mais rápido, e em dias mais frios é mais lenta. O tempo estava bem quente por aqui. O que me auxilia a saber se já fermentou o suficiente é que a tampa da garrafa estufa, fica durinha ao se apertar. Quando isso acontece, significa que foi produzido gás lá dentro, e é isso que deixou a tampa mais firme. Quando vejo isso, coloco a garrafa na geladeira — o que vai diminuir o ritmo da fermentação — e abro quando está gelada e nos apetece. Pode ficar na geladeira vários dias, sem nenhum problema.

Se você deixar de colocar a garrafa na geladeira nesse período, o que vai acontecer é que a bebida vai se transformar em uma bebida alcoólica. E se continuar ainda a deixar fermentando, no próximo estágio você vai ter vinagre caseiro. É bem divertido. Mas eu queria a bebida gaseificada, e por isso resolvi parar nesse estágio inicial.

A bebida fermentada de hibisco é das melhores bebidas fermentadas que eu já fiz. A cor ficou ainda mais intensa que nos sucos — um rosa inacreditável — e o sabor se acentuou. Não ficou mais azedinho, mas sim mais saboroso. Geralmente é o que a fermentação faz: adiciona sabor e equilibra o açúcar. O gaseificado também ajudou a dar uma graça deliciosa, dando aquelas cócegas na língua enquanto a gente bebe, e que parecem tornar a bebida viva. Tim-tim!

31c85-1p0hlnmn6jskjbw_ope-gbg

Tereré e chimarrão

As tardes paranaenses. Foto: Gustavo Gazzola

Nas tardes de verão paranaense

Quando me mudei de Belo Horizonte para o sudoeste do Paraná, tudo o que eu sentia era a falta. Falta inclusive, do que eu nunca senti a presença. Saudades do queijo minas, que por anos eu rejeitei. Saudades de doce-de-leite, que eu quase nunca como porque não sou muito afeita a doces. Saudades do cheiro de café, dos restaurantes que eu comia em BH, do pastel frito de queijo minas, ou do quentão feito com pinga.

Eu não conseguia, por muito tempo, encontrar as coisas que me farão sentir saudades do Paraná, se um dia eu sair daqui.

De uma certa forma, é como se gostar dessas coisas novas significasse um abandono das coisas velhas. Me tornaria um pouco mais paranaense, e um pouco menos mineira, um pouco menos do que eu acho que sou.

Uma das primeiras coisas que consegui gostar foram os pinhões. Eu me mudei no início de junho, no meio da época em que eles estão em toda parte. Comprei um pacote cozido ainda na estrada, enquanto íamos com a mudança e nossos três gatos dentro do carro. Desses, eu gostei de cara. Talvez porque naquela oportunidade gostar da comida do lugar parecesse menos ameaçador: parecia ainda um passeio, uma aventura, e não uma coisa definitiva.

Já instalada aqui, tudo me parecia insosso. Passei a chamar o estado de Paranada. Não enxergava cultura, não enxergava identidade, e o que me aparecia não me apetecia. O quentão de vinho tomado na festa junina da cidade, mesmo me parecendo genialmente local, ainda assim só me fez sentir saudades do quentão de pinga. As batatas de taioba que achei na feira naquele inverno me pareceram também uma ideia comestível genialmente inédita, e eu só conseguia sentir a falta dos refogados de folha de taioba que abundam em Minas. O queijo colonial, meu deus, o queijo colonial. Que saudades do queijo minas.

Achei por bem bordar esse quadro com a famosa frase do (mineiro) Drummond. Dependurei na minha sala, ao lado de uma foto de Belo Horizonte (Belo Horizonte agora é só um retrato na parede).

Mas minha maior resistência, sem dúvida, estava num dos elementos mais identitário da região: o chimarrão. No sudoeste paranaense, todo impregnado da cultura gauchesca, a cuia é elemento onipresente. E me parece um hábito bizarro, não decifrável. Não entendia qual a gostosura dele. Perdi a conta de quantas vezes me ofereceram chimarrão e eu não quis nem provar. Chimarrão, meus amigos, não. Eu sou do povo do café.

Sem perceber, no entanto, eu comecei a curtir algumas coisas. Comecei a gostar dos amigos, do ritmo da vida. Da possibilidade de conhecer quem planta minha comida. Da disponibilidade pra conversa, dos cafés — que assim seja, respeitando quem eu ainda acho que sou. E por conta desse ir gostando, o inverno da estação e da alma passou, e eu resolvi experimentar um tereré.

Os gaúchos vão achar uma heresia, mas foi por aí que eu me rendi. O elemento é menos gauchesco, e talvez por isso, fiquei com menos medo. Tereré é a versão paraguaia (do Paraguai mesmo, e não “falsificada”) do mate, com a particularidade de que se bebe com água gelada. Muitas vezes se adiciona limão, hortelã, ou boldo junto à erva. A bomba (o “canudinho” metálico para se tomar o tereré ou chimarrão) é colocada no copo, seguida da erva, e depois se completa com a água. A erva mate do tereré é triturada bem mais grossa em comparação com a do chimarrão, e deve preencher enquanto seca entre metade e 2/3 do copo. Também é diferente o recipiente utilizado: não é preciso a cuia de purungo — que é uma espécie de cabaça — para apreciar a bebida. A cuia do tereré é chamada de guampa, que também significa “cuia” mas costuma ser feita de chifre de boi. No entanto, ao menos por essas bandas, dá pra usar um copo tranquilamente sem parecer um absurdo. E como por aqui o tereré não é sinônimo exatamente de tradição, também aparece a liberdade de se avacalhar: tem quem ponha suco de pozinho, refrigerante e outras coisas (equivocadas, diga-se de passagem) do gênero.

Socialmente, beber tereré é bem parecido com beber chimarrão. O copo ou a guampa circula entre os que conversam, e cada um que pega o copo o completa com a água gelada, e bebe até terminá-la. Chegando ao fim, passa ao próximo, que faz de novo a mesma coisa. Ah! E nunca, não, em tempo algum, por favor, não mexa na bomba. Mexer na bomba pode levar a um entupimento dela e estragar a diversão. E parece, também quebra a tradição.

Tive coragem de aceitar o tereré pela primeira vez na casa de um amigo, numa roda de umas 8 pessoas que conversavam sentadas no quintal, no fim de uma tarde de verão. Era uma tarde fresca, na qual havia um pão assado por esse amigo, e uma torta salgada e uma pasta de berinjela que eu levei para o encontro. Abrimos primeiro um vinho branco, e tudo parecia tão bucólico e descontraído. Quando a garrafa de vinho acabou, apareceu um copo de tereré, e não sei se foi efeito do vinho, ou ter me sentido tão parte de tudo que me levou a provar a bebida.

Depois desse dia, passei a perguntar um pouco mais sobre como preparar tereré, e que erva comprar, ou como escolher uma bomba. E quando achei que aprendi, passei a incorporar um copo de tereré às minhas tardes, enquanto lia e escrevia.


Me dei conta do quanto pode ser difícil se render às tradições do gosto quando minha mãe veio passar suas férias conosco. Eu tinha uma caixa de erva para tereré, e ofereci da gente tomar. Ela aceitou, provou, e gostou. Pediu no outro dia outro copo. Assim, ó: “faz outro tereré pra mim”. Não havia nada demais naquele copo. Era só o compartilhar de uma descoberta com a filha. A partilha, logo ela, que é o coração dessa tradição de cuias e bombas, foi quem deixou mais claro porque eu tinha tanta aversão em provar chimarrão, e qual era o meu medo: me dissolver no novo e ficar perdida, entre o que se foi e o que será, entre minas e o paraná, e não ser absolutamente nada. Paranada.

As férias da minha mãe coincidiram com o fim do verão. Eu já estava com medo dos dias frios voltarem, e pra falar a verdade a essa altura eu me ressentia de não ter aproveitado mais tempo as tardes de verão paranaenses com tereré. Mas para contrariar as expectativas, o outono não deu as caras quando era sua vez e esses dias de férias foram muito quentes, uma rebarba do verão. A gente pôde saborear vários tererés. Era um pouco a mistura do novo e do velho: a estação que passou na estação que já deveria ter vindo, e a família mineira curtindo as tarde paranaenses, tomando tereré com um pedaço de queijo. Nem tudo desaparece sem deixar rastro quando o novo chega, embora as vezes possa ser meio difícil engolir o novo. Mas ao que tudo indica, no próximo inverno, pode ser que eu finalmente aceite algum convite pra compartilhar o chimarrão. Torçam por mim, ou me convidem.

Vá plantar com a Sementeria


Site de troca e doação de sementes, pra quem gosta de fazer comida do zero, literalmente.

Por um mundo mais verde: esse é o mote do Sementeria, site de troca e doação de sementes criado pelo casal gaúcho Rosana Kunst e Thiago Locks. Uma ótima tanto pra quem não tem medo de botar a mão na terra e procura cultivos diferentes e raros, quanto pra dar um empurrão em quem está começando — mesmo que tenha aquele medo de matar todas as plantas.

O Sementeria ainda é novo — foi ao ar na primeira quinzena de fevereiro de 2016 — mas já tem possibilitado boas experiências. O funcionamento é muito simples: você cria um perfil, e coloca as sementes que você tem disponível: uma descrição, a foto da planta ou da semente, e se aceita somente troca ou se as doa. E está pronto.

A gente conversou com a Rosana Kunst, uma das desenvolvedoras do Sementeria. Segundo ela, de fevereiro até hoje já se inscreveram 1019 usuários e são 376 sementes cadastradas. A ideia surgiu a partir de uma disciplina de Linguagem de Programação Java, que o Thiago, seu parceiro em uma empresa de TI e companheiro, cursava na faculdade de Sistemas para Internet:

ele queria fazer algum projeto que fosse útil. Como sempre conversávamos muito sobre horta/orgânicos e sempre enfrentávamos problemas em conseguir sementes orgânicas, acabamos chegando nessa ideia. Nos inspiramos em algumas bibliotecas de sementes que lemos na internet que existem pelo mundo, mas nenhuma em específico. E só uma adendo: antes de lançarmos, Thiago refez todo o site em outra tecnologia porque não gostou de Java.

Apesar de ser muito jovem — são pouco mais de dois meses no ar — Rosana e Thiago estão animados com a continuidade da proposta: “já listamos diversas melhorias a serem feitas.”, conta Rosana. “Para se ter uma ideia, a curto prazo temos 22 itens de melhorias previstos. Como o site é sem fins lucrativos, conseguimos mexer só em nosso tempo livre, então a coisa anda mais devagar do que gostaríamos. Mas a ideia é deixá-lo o mais autossuficiente possível.”. Experiência os dois tem de sobra. Além do Sementeria e da sociedade na Zira (uma pequena empresa de desenvolvimento web), Rosana também administra o site Como Fazer Horta.

A ideia do Sementeria é interessante porque possibilita algo que os agricultores sempre fizeram, mas que tem se tornado difícil no mundo contemporâneo: salvar as sementes para cultivo no ano seguinte, e trocar com os vizinhos do campo as variedades cultivadas. O mundo contemporâneo passou a ser dominado pela agroindústria, no qual há o predomínio de monoculturas, e muitas variedades acabam perdendo espaço. Nesse cenário, as sementes, de modo geral, são controladas por empresas gigantes que as patenteiam e vendem. E essas sementes não podem ser salvas para a próxima safra, seja por regulação estatal, ou porque as sementes não geram novas sementes férteis (como é o caso dos transgênicos). Salvar suas próprias sementes, nessa lógica, é um ato subversivo.

No contexto em que algumas pessoas têm se voltado para as coisas essenciais, a alimentação e o cultivo têm ganhado proeminência e os movimentos de hortas urbanas também têm crescido. O Sementeria oferece um jeito de encontrar pessoas que se interessam por cultivo, e facilitar essas trocas de espécies diferentes. Parece um ótimo jeito de semear encontros.




Minhas sementes disponíveis no Sementeria: coentro, milho preto de pipoca colonial e tagetes.

Minha experiência no Sementeria

Estou testando a ferramenta desde o seu lançamento. Cadastrei 4 sementes que eu tinha disponível: coentro comum, endro (ou dill), milho preto de pipoca colonial, e tagetes. Coloquei inicialmente como doação, pois no momento tenho mais semente que espaço pra plantar. Logo nas primeiras horas recebi pedidos. O grande problema é que foram muitos pedidos (3 no primeiro dia, outros 5 ou 6 no segundo) e em todos eles as pessoas não me mandavam nem ao menos mensagens… Chegava apenas a mensagem padrão. Achei isso um pouco chato. Fiquei com o pé atrás, mas a sensação era de que as pessoas não sabem muito bem lidar com aquilo que é dado de graça. A facilidade do site também ajudava. Bastava clicar no botão “eu quero” que o pedido chegava no meu email. Resolvi esse problema disponibilizando as sementes como troca. Geralmente nesses casos, as pessoas acabavam me escrevendo algo, e o número de pedidos diminuiu drasticamente. Do meu ponto de vista, essa relação pode ser melhorada pela mediação do Sementeria, e eu suponho que seja alguma das propostas de modificação que a Rosana nos contou. De toda forma, enviei alguns envelopes com sementes, e também recebi algumas. Minhas escolhas foram todas de espécies mais raras: recebi feijão lab lab (PANC), manjericão tailandês (que tem gosto de anis), e almeirão roxo (também considerada PANC). Duas delas vou deixar para semear na próxima primavera, e uma já semeei na última semana. O site, no entanto, tem semente para todos os gostos, como ervas, hortaliças, e flores — (incluindo sementes comuns que se compram em pacotinhos) e sementes de árvores frutíferas — que são chamados de pés-francos, e em geral, não costumam ser boas escolhas para se plantar. Pés-francos podem não produzir, e quando produzem demoram mais de 10 anos para começar. O que quero dizer é que, embora eu ache que o site é uma boa para quem está começando a se aventurar na jardinagem e cultivo de alimentos em pequena escala, entender um pouco de cultivo também torna as interações mais efetivas: você vai oferecer sementes melhores, e pedir sementes com mais possibilidades de dar certo.

De toda forma, gosto muito da possibilidade de doar excedentes de sementes, e também de encontrar sementes raras. Como efeito colateral, o Sementeria também me motivou a manter minha caixa de sementes mais organizada (sim, eu já tinha uma antes do site) para poder fazer futuras trocas. Vale a pena experimentar!

http://sementeria.com.br/

Caldo verde

Quadro na cozinha. O desenho fiz quando me meti a lembrar d’Os Maias, de Eça de Queiroz. Minha cozinha agora pode ser descrita como a d’O ramalhete.

com a textura da memória afetiva

Contamos enquanto comíamos: lá se vão 3 anos. Tive poucas oportunidades de experimentar caldo verde em Portugal, pois na maioria das vezes ele vinha com chouriço. E eu sou vegetariana.

Das vezes que tive a oportunidade de provar, a maioria das vezes creio que tenha sido no restaurante universitário da Universidade de Coimbra. Claro, nenhum primor, como seria de se supor. Era sempre ralinho, mas muito do meu gosto: adoro sopa rala. O tempero era suave, como parece sempre apetecer aos portugueses temperar tudo. Era servido sempre com broa de milho ou algum pão: “Sem pão no almoço, o que é que se come?” foi o que perguntou um estudante da universidade a outro que já esteve em Porto Alegre em intercâmbio, e se assustou com a ausência de pão nas refeições brasileiras. Ora, todo o resto! — eu responderia.

Outro caldo verde que mais me lembro de comer em Portugal é o meu próprio. Comprava couve na feira — que já vem picadinha, pois eles a passam nas máquinas na sua frente. E comprei um passevite, já que não tinha nenhum utensílio que servisse para fazer sopa. Não queria gastar em nenhum eletrônico, porque eu tinha algumas coisas já no Brasil, e foi assim que esse instrumento apareceu na minha vida. Não tem nenhum segredo: colocam-se as batatas cozidas, roda-se a manivela, e aos poucos a batata (ou qualquer outro legume) vai passando amassada pelos furinhos. A textura final do caldo, no entanto, é a minha maior memória afetiva desses dias. Não fica homogênea como se batido por liquidificador ou mixer; pequenos pedacinhos acabam restando, e parecem pequenos concentrados de sabor. Longe de ser uma falha na sopa, é uma delícia que deixa brincar de adivinhar do que ela é feita.

Esse é o meu passevite, que trouxe da minha estada em Coimbra.

E vejam, que lindo: ele tem uma alcinha que é feita para se acoplar à panela, que vai recebendo a batata amassada sobre o alho dourando. Nada mais caseiro, com cara de cozinha do dia-a-dia.

Aqui no Brasil, para mim, o caldo verde sempre costumava ser de mandioca, e na maioria das vezes é assim mesmo que eu faço. Mas no domingo sobraram 3 batatas cozidas de bom tamanho, tinha couve e um vidro de azeite português, o último, que trouxe da vez que estive por lá por 10 dias no ano passado. Foi assim que esse caldo surgiu:

4 batatas médias (em torno de 400g)
1 maço de couve
1–2 dente de alho
sal
azeite, quando o prato já estiver pronto

O pão de acompanhamento, dessa vez, faltou. As batatas, pra falar a verdade, também estavam poucas, mas eu tinha alguns cará-moelas. Cozinhei dois deles e usei para completar. Não alteraram muito o gosto, embora se notasse lá no fundo que algo estava diferente. Mas é bom que a sopa não seja sempre a mesma, embora, é claro, é sempre bom ver um elemento ou outro que se perdure ao longo do tempo. A memória afetiva é um pouco assim, desse jeito: é uma delícia recordar, e a gente tem medo que aquele tempo bom não volte nunca mais. É uma delícia poder lembrar desse tempo em Portugal, mas eu espero que novas memórias deliciosas apareçam. E só tem um jeito de deixar que isso aconteça: é experienciando coisas novas. É pensando nisso que eu tento não ter medo de olhar fotos daqueles dias, e de comer essa comida com a textura da memória afetiva. E da próxima vez, vou torcer pra eu conseguir fazer um caldo verde só de cará-moelas.



Três momentos afetivos e saborosos: eu, cheia de carrapichos depois de entrar no mato para catar figos num passeio pelo rio Dão; namorado no piquenique na beira do mondego; e eu segurando uma castanha portuguesa catada na beira de uma estrada no alentejo (e vários vovôs com seus netos faziam o mesmo)

Ao molho pesto

Manjericões recém-colhidos da varanda e meio desfocados, tudo culpa minha

Pra te acompanhar

Não há nada melhor do que chegar em casa e ter uma coisa gostosa pra comer esperando você. Era a coisa que eu mais gostava quando chegava dos dias longos dando aulas. Tinha uma ansiedade tremenda; imaginava que só podia se parecer com a sensação dos atores antes de entrar no palco. Era sempre assim, mas nalguns dias minha “peça de teatro” parecia mais difícil de se encenar. Nesses dias, tudo o que eu queria era um prato de comida gostosa, uma boa conversa, uma bebida pra acompanhar.

Desde a mudança para o interior, esse fardo das apresentações teatrais da sala de aula não mais ficaram ao meu cargo, mas nas mãos do meu companheiro. Não contracenamos, mas nem por isso deixo de pensar no seu espetáculo. Particularmente essas últimas duas semanas, tudo parecia meio arrastado. E nada melhor do que… fazer o que eu mais gostava que fizessem por mim. Escolhi macarrão com pesto. Macarrão porque se tornou uma comida especial depois que a gente sempre faz a massa fresca em casa. E é muito bom que seja assim. Pesto porque é um molho fácil, gostoso e tinha muito manjericão no jardim-varanda da casa.

O pesto original, diz a lenda, é uma criação da região de gênova, na Itália. A criação deu tão certo, que passou a ser copiada por várias outras regiões, alterando as proporções. É uma receita simples, camponesa, e que foi inventada pra se usar o que tinha à mão. Chama-se assim por que remete ao verbo pestare, de macerar, triturar, espremer. Era feito colocando o manjericão num pilão e socando junto com castanhas, alho e queijo. As castanhas da receita eram os pinoles, um tipo de castanha bem miúda que cresce por lá. Aqui, o melhor é replicar não com os pinoles, nem com pilão, mas com tudo o que se tem à disposição. O ingrediente mais indispensável dessa receita eu te conto: a simplicidade.

Já testamos várias castanhas em substituição e a ganhadora foi a castanha de caju. O sabor é um pouco mais doce, mas muito agradável, e a textura é bem aceitável comparada aos pinoles. E usamos um processador, mas valeria testar também um liquidificador, porque não? O que vale é manter essa essência de não tornar a vida mais complicada do que precisa.

Você pode também fazer uma testagem como a nossa – eu garanto que essa é uma experiência divertida. Pra gente, a castanha do pará e a macadâmia tem uma textura muito farinhenta, que não ficou boa não. A amêndoa, se você tirar a pele antes de usar, é bem razoável como substituição, mas é importada (e trabalhosa, já que é preciso tirar a pele); as nozes (pecãs ou comuns) são amargas demais. Por isso, venceu o caju.

Você pode ir mais longe nessa comparação e se divertir um pouco mais: pode fazer um concurso de pestos com os amigos. Já tivemos essa ideia, e tenho que admitir, nosso pesto foi o ganhador entre outros 3. Não é pra encher minha bola não. O que vale é fazer, afinal. A receita aí é pra dois, que éramos os que estavam em casa hoje:

2 molhos de manjericão
1 dente grande de alho
2 col. sopa cheias de castanha de caju
1 col. sopa de parmesão
azeite até cobrir



No processador, a quantidade de manjericão; o molho pronto, para ser servido; e a quantidade de azeite, bem de pertinho.

Eu falei de palco, representações e teatro; eu sou uma mentira mesmo. Essas quantidades aí: inventei agora. Eu detesto cozinhar com medida. Mas mais ou menos como guia essas quantidades servem, viu. E o queijo, eu nem sempre ponho. Hoje eu não pus. O pesto pode ser sem laticínios – vegan – e não precisa de nada mais pra ficar delicioso. Nosso segredo, além da já mencionada simplicidade, é deixar que o manjericão seja o ingrediente mais abundante, e mais aromático.

Você também pode estar se perguntando: e a simplicidade de se fazer a massa em casa, não é outra mentira que complica o que podia ser simplificado? Não dava pra comprar pronto? Tem coisa que parece simples na prateleira do supermercado, mas na verdade ó, nem é. Fica pra outro dia essa prosa.

Newsletter: Edições Passadas

Uma vez por mês envio uma cartinha pro seu email, com uma conversa e links sobre alguma temática em torno da comida, da vida, dos afetos, das coisas que vi por aí. As vezes tem receita, mas o convite é mesmo pra prosear e refletir. Os textos das cartinhas não são publicados no blog. Se quiser conhecer o que já andei enviando, é só ir clicando nas imagens aí embaixo.

E pra receber as próximas edições, é só deixar seu email:

2017

newsletter_23  newsletter_22

newsletter_21  newsletter_20

newsletter_19  newsletter_18

newsletter_17  a_newsletter_16

b_newsletter_15  c_newsletter_14

 

 

2016

newsletter_13  newsletter_12  newsletter_11  newsletter_10  newsletter_09  newsletter_08  newsletter_07  newsletter_06  newsletter_05  newsletter_04  newsletter_03  newsletter_02  newsletter_01