Esta tarde eu comi morangos que plantei na minha varanda

Ano passado, quando me mudei pro interior do Paraná, resolvi comprar umas mudinhas de morangos. Já que era pra morar nessa lasqueira de frio, que eu aproveitasse as coisas boas que esse clima permite.

A tentiva de cultivar morangos, no entanto, foi um fracassão. Minhas mudinhas saiam uma folha, e em seguida alguma antiga morria. Depois foram parando de nascer novas folhas enquanto as vivas insistiam em continuar morrendo, até que o morangueiro desapareceu. Nunca vi nem flor.

Nesse novo inverno, no entanto, não me deixei desanimar pela experiência de fracasso do ano passado.

Tava tão corajosa que comprei 6 mudas ao invés das 3 do primeiro ano. E ó, tão aí os morangos. Comi hoje a tarde uma meia dúzia, e os pés continuam cheio de frutas verdes, pra me divertir nas próximas semanas.

Seis mudas distribuídas nesses quatro vasos: duas em cada um dos vasos maiores, e um em cada vaso de xícara.
 
Os morangueiros crescendo: as mudas recém plantadas, as primeiras folhas, depois as flores, e quando as pétalas da flor caem, os miolinhos amarelos vão esverdeando e se transformando em morangos (dá pra ver o primeiro morango na última foto)

Cuidar de plantas não tem nada daquela lenda do “dedo verde”. Tem muito mais a ver com estar a fim de fazer isso. Ter “dedo verde” nada mais é do que a gente ter um pouquinho de experiência de cultivar plantas. “Dedo verde”, eu acho, devia ser encarado só como um outro jeito de dizer hábito.

Por isso que o 1 ano que separam as duas experiências fizeram diferença. O hábito me ajudou a “escutar” melhor minhas plantas. Foi só ter presença, olhar bem de perto todo dia, e seguir cuidando. Foi fácil principalmente porque era uma coisa que eu estava com muita vontade de fazer.

Também foi importante ter noção que muita planta vai morrer nesse meio do caminho. Sério, não é culpa sua, nem é coisa minha. Se você tiver a oportunidade de conversar com alguém que planta pra viver vai ouvir isso: faz parte. Mesmo com toda experiência, plantar é cuidar de vida. E a vida está sempre sujeita às coisas imprevisíveis que acontecem no mundo.

Também é legal ter noção que cada planta que você aprende a cuidar se potencializa na possibilidade de cuidar de outras plantas mais difíceis. Cada manjericão que sobreviveu aumentou minha chance de dar conta desses morangos. E eles tão aí pra mostrar que pode dar certo.

Mas valeu a pena. Ver esse aprendizado florescendo junto com os morangos avermelhando é muito gratificante. Comi com gosto.

No final, o melhor de tudo nem foi comer os morangos. Foi transformar minha relação com o processo.

Beterrabas, lentilhas e como criar na cozinha experimentando a comida dos outros


Tire um tempo pra tentar entender de onde vem aqueles sabores

Um exercício muito legal que gosto de fazer quando como a comida que os outros me preparam é tentar entender como é que fizeram o prato.

As vezes, basta perguntar.

Quem cozinha gosta dessa demonstração tão concreta de atenção. Mas nem sempre tem jeito da gente conseguir a resposta. Pra esses casos, parar e prestar atenção é um jeito bem interessante de se fazer presente: você precisa se concentrar em tanta coisa pra tentar adivinhar o que foi colocado ali naquele prato, que não dá tempo do pensamento fugir. É um jeito de desenvolver a atenção plena, que toda a vida deveria merecer, mas que nem sempre é fácil de fazer com tanta coisa disputando nossa atenção.

Eu curto começar examinando o que dá pra ver. De preferência, gosto de falar sobre esses elementos, porque é a forma que acho mais fácil pra gravar minhas próprias percepções. Também é um jeito gostoso de continuar a conversa, de fazer quem come com você também estar ali contigo. A gente divide o prato, divide as impressões, e rimos juntos da brincadeira. Depois, passo pra textura, que pode sempre revelar mais alguma surpresa, até finalmente seguir pros temperos, ou pra algum elemento não visível, que são os mais difíceis. E aí da-lhe atenção, e criatividade.

Acho bem gostoso conversar sobre qualquer prato delicioso que experimento. Não me traz só a oportunidade de me concentrar no momento. É uma ótima forma de se aprender sobre combinações de sabores que à princípio não seriam as que eu faria. E também acho que funciona como um jeito bem interessante de guardar a lembrança daquele momento.

Esse é o jeito que encontrei pra recordar sabores não porque eu quero repetir perfeitamente os pratos. O mais gostoso é ver como eu acabo, de algum jeito as vezes inesperado, incorporando os pequenos momentos mais inesquecíveis no meu repertório culinário. Bem-vindo às minhas tentativas e erros, e principalmente às adaptações: pra incorporar é preciso tornar aquilo também seu. E não tenho a menor vergonha de admitir que aprendi muito comendo a comida dos outros.


Foi assim com essa salada de beterraba.

Experimentei esse prato em um restaurante persa que, feito eu, já nem existe mais em BH, porque mudou-se: eles pra São Paulo, e eu pro Paraná. Chamava-se Amigo do Rei. Não tenho ideia mais do nome do prato, e ele não está mais lá no cardápio pra eu tentar recuperar a memória.

Havia beterrabas cozidas, havia lentilhas e havia ovos. A textura era bem macia, e os temperos, naquele dia, me pareceram pra lá de inusitados. Hoje, acho que é o encontro mais bonito que eu posso pensar pras beterrabas. O cheiro que mais aparecia era doce, e eu apostava em noz moscada. Mas lá no fundo, dava pra perceber a pimenta do reino. E outras coisas que queriam puxar ainda mais o doce das beterrabas. Talvez funcho, talvez mel. Ou talvez eu já não me lembre de mais nada.

Refiz essa salada em casa, e tenho plena consciência que é apenas uma vaga inspiração daquele dia. Retirei os ovos, que não me agradam muito, e também o funcho, porque eu nem sei se ele um dia esteve lá. É uma das minhas saladas favoritas:

1 beterraba grande cozida, ralada em ralo grosso
1 xíc. (de café) de lentilhas cozidas (deixe de molho na noite anterior)
1 generosa colher de sopa de mel
Bastante noz-moscada, ralada na hora
Pimenta-do-reino (sugiro pouca, suave, mas fique à vontade)
Uma pitada de sal (não é pra salgar, é só pra realçar os sabores)

Sem segredos: misture tudo, sirva com outras deliciosas saladas. Aproveite a doçura e a picância desta pra equilibrar com outros sabores mais azedos, e também mais salgados. Coma ainda quente também, porque não? Ou crie sua própria versão, como se fosse uma celebração das gostosuras que outras mãos tiveram o carinho de digitar e preparar pra você.

E de tudo, não se importe se esquecer as receitas e os detalhes dos pratos que você provar. Só não se esqueça de uma única coisa: esteja sempre presente nas oportunidades maravilhosas que alguém lhe fizer um prato. Sempre vale a pena.

Basta estar lá!

Este texto foi escrito especialmente pro Marcos, que ganhou de mim um maço de beterrabas que ele ainda não sabe bem como vai usar. Em troca, eu ganhei (mais) um almoço.


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A sazonalidade me tornou mais criativa


Entender a sazonalidade é mais complicado do que prestar atenção no preço. Mas ó, também é mais bonito.

Pra mim esse método nunca funcionou: “compre legumes-verduras-frutas da época porque é mais barato e de melhor qualidade”. Você já ouviu esse conselho. O que não te contaram é que a dificuldade de seguir esse conselho não é exclusivo seu. Eu não só sempre me senti perdida (o que é mesmo que está mais barato do que normalmente é?) como essa lógica nunca serviu pra que, de fato, eu aprendesse as épocas das frutas e legumes.

Entender a sazonalidade é mais complicado do que prestar atenção no preço. Mas ó, também é mais bonito.

No domingo passado, enquanto almoçava, compartilhei na mesa a história de como havia “inventado” um dos pratos que estávamos comendo. Era pesto de agrião. Não sei se isso existe, se mais alguém já fez (é claro que provavelmente já), mas a verdade é que eu fiz sem ter jogado no google ou lido em algum lugar. E essa história tem tudo a ver com ter conseguido, de verdade, me conectar com a sazonalidade. Essa é a minha história de como eu descobri e me conectei com as estações e o que elas produzem, e de como essa sazonalidade, ao invés de ser limitante, se tornou uma coisa muito prazerosa.


É época de quê?

Pra começo de conversa, vamos deixar bem claro: não é culpa sua que você não saiba o que dá em cada época. Não é. E eu também não sabia. Se você vem de um contexto parecido com o meu, é difícil mesmo saber. A verdade é que numa capital, ou melhor, numa cidade, a gente tem à nossa disposição tudo o tempo todo, e isso inclui o que nem produz direito no Brasil. O limite pras compras de coisas frescas nesses lugares é praticamente o tamanho do bolso.

É claro que eu não vou dizer que isso seja uma coisa ruim. Ter um leque de sabores à disposição do seu desejo é realmente uma coisa boa, cômoda. E rica de possibilidades.

Porém, é bom colocar as coisas em perspectiva. A possibilidade de ter tudo o ano inteiro é uma coisa muito recente. Para termos uma produção de todo tipo de hortaliças e olericulturas o tempo todo foi preciso que fossem inventadas algumas técnicas de agricultura, e esse conjunto de técnicas a gente dá o nome de Revolução Verde. Os agroquímicos, a produção em estufa, adubos sintéticos, mecanização do campo: esses são alguns dos responsáveis por essa fartura que a gente vê nas gôndolas.

Só que tudo tem seu preço. Nos tornamos mais dependentes do petróleo, que é usado pra fabricar pesticidas, herbicidas, fertilizantes sintéticos, diesel e gasolina para dirigir o maquinário que planta, colhe e aplica todos os “remédios” que uma produção em larga escala precisa. A longo prazo, nada disso é muito sustentável. Mas valia a pena tentar. É que a Revolução Verde prometia algo imenso: acabar com a fome do mundo. Só que isso nunca se cumpriu. A Revolução Verde trouxe junto com o aumento da produção um desequilíbrio ainda maior em concentração de terras; mudou a forma biodiversa como pequenos agricultores cultivavam, e trocou por monoculturas; tornou os produtores mais dependentes de insumos e menos confiantes no conhecimento que eles tinham. A fome, os revolucionários não sabiam, não era exatamente culpa de falta de comida, mas da falta de equilíbrio, da desigualdade econômica entre as pessoas.

A existência de mercados no superlativo também é uma novidade. Os primeiros supermercados do mundo datam de 1930, e os primeiros supermercados brasileiros apareceram na década de 50, em São Paulo. Eles só fazem sentido em um mundo no qual os meios de transporte e a energia são baratos, em que os combustíveis e os meios de transporte são acessíveis e disseminados. O mundo em que isso existe é o mundo depois da segunda revolução industrial, depois do petróleo.

Esse mundo começou ontem: coisa de 50 anos no Brasil. Nós somos das primeiras gerações em que essa é a realidade desde que nascemos. Pra gente, a sazonalidade é uma coisa que simplesmente não existe. Fruta-legume-verdura não tem época. Sazonalidade é uma coisa quase mística, de fé, porque a bem da verdade você nunca viu.

E como você sabe, fugir do mais comum nesse mundo que nos cerca dá um pouco de trabalho. Foi prestando atenção em coisas à minha volta que comecei a experimentar algumas coisas diferentes com relação às comidas e seus tempos. E que não tinha nada ver com esse lance de “comprar o que tiver mais barato”. Dinheiro é uma coisa tão arbitrária que pode ser completamente esvaziado de sentido. Afinal, é a gente que diz se 10 reais vale muito ou vale pouco. Somos nós que damos valor pro dinheiro. Por isso, saber o que está mais barato é, em grande medida, uma questão de percepção individual. Daí, pra fugir de toda essa subjetividade, o único jeito seria montar uma planilha e atualizar toda semana metodicamente ou decorar de cabeça os preços. O que, convenhamos, não vai acontecer pra imensa maioria de nós: o dia-a-dia não funciona nesse grau de objetividade.

Entender sazonalidade não pode ser decorar preços. Nem decorar o que dá em que mês ou estação. Não é a toa que isso não ligava a chave da minha atenção.

Do mesmo jeito que a gente fala que pra aprender (qualquer assunto) é preciso que as coisas façam sentido, compreender a sazonalidade também precisa dessa compreensão, de que a coisa ganhe significado pra você. Você precisa se conectar com isso de alguma forma.


A história da minha conexão com a sazonalidade

Eu ia começar a contar de como me conectei com as estações e a produção de cada época por um clichê: a época em que eu morei no exterior, e um monte de coisa foi colocada em perspectiva na minha vida. Mas é mentira. Essa conexão já tinha acontecido muito antes.


Eu vejo um embrião disso quando me lembro do sítio da minha avó. Meus avós foram pessoas urbanas. Minha avó nasceu em Belo Horizonte, mas com a ascensão econômica que eles tiveram, e com meu avó tendo sido uma pessoa um pouco mais ligada à terra, eles compraram um terreno no entorno de BH e construíram um sítio. Não era pra morar, nem pra produzir nossa comida. Era lazer, classe média, coisa e tal. Mas essa possibilidade sempre me ofereceu lampejos de que as coisas tinham época. Não era só uma coisa que os mais velhos me contavam. Dezembro era regada a sacolas de mangas, que invariavelmente se perdiam. Eu, aliás, odiava aquela montanha de mangas. Goiabas apareciam no fim do verão, e com elas também vinham algumas goiabadas, feitas em tacho de cobre pela minha avó. É, eu também não gostava porque tinha um certo pavor de doces. Gostava menos ainda dos bichos nas goiabas: goiaba boa era comprada. Já a alface me deixava com raiva: produz fácil e muito no inverno porque não chove tanto… mas eu não queria comer salada quando estava frio. Essas coisas todas fui entendendo pela proximidade — mínima — que existia entre a menina da cidade grande que eu fui e a terra. E repare bem: eu não gostava tanto desse contato. Aquilo estava muito longe das coisas que eu estava acostumada.

Mas é verdade que muitos anos depois, já com mais de 30, eu passei um ano na cidade de Coimbra, em Portugal e outras chaves foram ligando. Naquele ano, passei a frequentar o mercado Pedro V nos sábados de manhã. Sábado era dia em que as senhorinhas do entorno de Coimbra montavam as banquinhas pelo mercado e aquilo se tornava uma espécie de feira livre. Ali eu comecei a perceber a sazonalidade, que num país de clima temperado é mais pronunciado do que no clima subtropical ameno de Belo Horizonte.

Então, quando cheguei no início do verão, todas as bancas estavam cheias de cerejas e morangos. Não era mais barato: era o que tinha. E é claro, isso ficou gravado em mim porque eu me esbaldei de comê-las.

Enquanto o verão ia terminando, apareceram as uvas, seguidas das ameixas e dos diospiros (isso é o nome do caqui naquelas bandas). Depois vieram os figos e as castanhas portuguesas no alto do outono, e no inverno só haviam maças, de um monte de tipos, e frutas secas: os mesmos figos, as mesmas uvas e ameixas da estação passada, mas agora secos. Fazia todo sentido.

Não é uma coisa que eu precisei decorar. Era visível. Porque essa foi a primeira vez que tive oportunidade de comprar de quem também plantava. Essa foi a minha segunda conexão com a terra.

Apesar de ter frequentado esse mercado naquele ano em Coimbra, eu não deixei de comprar em outros lugares. Eu comprava também nas outras bancas, que tinham tudo o tempo todo, incluindo bananas da Madeira e mangas do Brasil. A verdade é que essa experiência me fez apenas enxergar a sazonalidade, e não exatamente seguí-la.



Sabe aquele encanto que a gente tem ao olhar as coisas pela primeira vez? Eu voltei pra casa com o frescor dessa sensação. E estava um bocado determinada a conhecer do mesmo jeito o meu entorno, o meu país.

Fiz algumas mudanças. Não foi da noite pro dia. Elas levaram certo tempo pra tomar forma, quase um ano. Essa mudanças me levaram a me conectar com produtores orgânicos em BH. E de novo, passei a me relacionar com as estações.

Era, de novo, verão. Vieram os maracujás. Muitos maracujás. Dessa vez, eu estava mais disposta a experimentar seguir a estação. Foram tantos meses de maracujás que a certa altura eu precisei repensá-los.

No início, eu fazia suco de maracujá quase todos os dias.

E então comecei a colocar capim limão no suco de maracujá. Testei também com cidreira de folha. E aí, veio o suco de maracujá com caju — que também era época. Fiz mousse de maracujá. Tudo de maracujá. Era necessário criar.

Nesse segundo ano, embora eu estivesse muito mais disposta a encarar a sazonalidade, eu confesso: ainda comprava com certa frequência em outros lugares. E por isso, toda vez que eu queria determinado ingrediente, eu estava salva. Eu estava pronta, mas nem tanto. E tudo bem.


O aprendizado é um processo. Não se constrói sentido da noite para o dia. Foi só no terceiro ano dessa história que eu realmente me senti conectada de vez com as estações.

Um novo ciclo desse processo começou quando me mudei para Pato Branco, no interior do Paraná. Agora era inverno.

Comecei, de novo, me conectando a pessoas. Aos sábados, passei a frequentar a Feira dos Produtores de Pato Branco, onde os pequenos agricultores da região vendem sua produção. Fui conhecendo aquele lugar, o nome das pessoas que plantavam minha comida, as coisas que eles vendiam, as coisas que se passavam com eles.

E vou ser sincera: senti um pouco de medo. A cada semana ficava ansiosa com o que iria achar. Tinha um pouco de vergonha de conversar com os agricultores, e tinha medo de não comer mais as coisas que eu gostava.

Me lembro de querer muito ter alguns tomates para fazer molho e comer com massa. Mas descobri que tomate se plantava em agosto-setembro. Eu estava bem distante de conseguir tomates, já que era o início do inverno. Então pensei que uma solução fosse fazer pesto. Mas eu, que continuava não entendendo de sazonalidade, e nem do clima frio do sudoeste do Paraná, não encontrei manjericão. O manjericão morre nas geadas, feito o tomate. Só iria aparecer no meio da primavera também.

Eu seguia comprando o que encontrava. E fazendo comida com o que aparecia.

Uma das verduras que tinha muito no inverno era o agrião. E olha, eu nem gosto de agrião: acho ardido demais. Sempre comi cru, em saladas. Pra mim, comer agrião desse jeito com o frio que fazia era um de um descabimento sem tamanho. Mas era das verduras que eu mais via. Eu comprava, e passei a inventar. Passei a fazer agrião refogado. Depois, refoguei no óleo de gergelim torrado. Depois, no óleo de gergelim torrado com muito gengibre cortadinho em palitinhos. E num dia, resolvi fazer pesto de agrião.

Estávamos desanimados — mudanças, nos primeiros meses, podem ser muito solitárias. E eu resolvi cozinhar algo especial, pra dar aquela cara de almoço de domingo, só pra nós dois. Fui para a cozinha sozinha. E resolvi experimentar jogar o agrião no processador, junto com castanhas. Era como a receita que conto nessa crônica sobre pestos, apenas trocando o manjericão por agrião cru mesmo. O mais interessante: fiz para servir sobre o arroz integral, acompanhando alguns legumes grelhados. Nem era pra servir como molho de massa.

Gostamos tanto que a primeira vez que recebemos os nossos novos amigos na cidade, esse foi o prato que escolhemos fazer: massa fresca com pesto de agrião. Eu não sabia, mas acho que naquele dia eu estava inventando uma nova vida. Descobri o sabor da sazonalidade. Foi apenas uma criação despretensiosa, mas a ela seguiram-se outras, muitas, com muitos outros ingredientes que sucederam o agrião.

Por um ciclo inteiro — um ano — segui experimentando estar conectada com esta terra onde agora moro e as pessoas dessa terra. Este texto aqui que você está lendo é um pouco como uma celebração: passei por todas as estações, e é inverno outra vez. Este foi o primeiro ano que experimentei a sazonalidade.


Liberdade criativa

Por mais incrível que pareça, há algo interessante também em não ter tudo à sua disposição o tempo todo.

Não é tão repetitivo como a princípio parece. A cada estação, se renovam os gostos, os sabores que predominam variam. Quando o ciclo se inicia, você fica doida por aquele “novo” ingrediente, que não estava lá nos meses passados. Come-se com a boca mais boa, sem precisar de quase nenhum preparo. Em seguida, ele se repete. E é aí que você precisa redescobrí-lo. Você precisa renovar, a cada dia, o sentido. Passei a me sentir incrivelmente criativa na cozinha. A relação não era mais de “descoberta de receitas”, fria, em um índice de um livro ou no google. Era uma coisa muito mais tátil. Com semanas de um mesmo ingrediente na geladeira, você começa a se perguntar o que pode fazer de diferente hoje. E não descobre mais só lendo, pois é algo pra hoje. No dia seguinte, tem aquele mesmo ingrediente de novo. E de novo. Por alguns meses. E aí, você experimenta. Você cria. Você faz. Como sempre se fez. Você se conecta ao que tem, de verdade. E isso é de fato experimentar a sazonalidade.

Não é preciso decorar uma lista. Você se lembra dos ingredientes pela sua memória afetiva, pelas criações, pelas histórias.

Talvez você tenha achado essa ideia de sazonalidade um pouco sem graça. Poxa, a mesma coisa todo dia? A grande sacada é que nunca é a mesma coisa. Penso que, desse jeito, todo dia eu estou contando uma história com a comida. A história que eu escrevo claramente não é uma história das receitas, mas a história dessas descobertas. Só isso já valeria a pena. Mas a verdade é que pra mim, essa conexão me deu limites claros, e me mostrou com o que eu precisava me conectar enquanto cozinhava. Isso significou pra mim uma imensa liberdade criativa. Além da criatividade, a sazonalidade me ensinou que a graça não está em saber como são as estações e sua produção, nem em “seguir a sazonalidade”, só por seguir. A graça está no processo. A graça está na descoberta, na invenção, na experiência.


Talvez isso seja só coisa minha. Toda história ganha sentido mesmo quando a gente mergulha nela. Essa é a minha versão da história: a sazonalidade me conectou com a minha criatividade na cozinha. Talvez pra você a sazonalidade traga outras coisas interessantes. E vai ser ótimo se depois você quiser me contar a sua versão da dessa experiência.

Ilustrações: Carla Soares, usando usando artes digitais da mohaafterdark

Cozinha subversiva

Coração em chamas. Bordado (subversivo) e fotografia: Carla Soares

Uma das lembranças mais bonitas que tenho da temporada morando em Portugal é do contato que tive com os “fazeres femininos” do bordado. Coloco fazeres femininos entre aspas pra lembrar que nada, a não ser a história, é capaz de colar esta produção exclusivamente às mulheres. Mas também não devemos esconder a história.

Foi nesse período que eu aprendi a técnica do arraiolo em tardes ouvindo fado e teci um tapete. Eu ia para uma loja forrada de lãs coloridas que pareciam uma imensa escala pantone que te cercava por todos os lados, e ficava sentada ao pé de uma senhorinha, bordando, enquanto ela reformava tapetes e vendia lãs. E conversava, escutava música, e aprendia. Fui guiada pelas mãos experientes dessa moçambicana de nome quase igual ao meu — era Clara — que vivia a mais de 30 anos em terras portuguesas. Dividiu comigo seus saberes, e também afeto. Me contou histórias de outras mulheres, e também de homens, que bordavam aqueles tapetes, e que cantavam aqueles fados que ouvíamos toda tarde. Fui também a diferentes museus que se dedicavam ao tema dos arraiolos e outras tapeçarias, da produção de lãs, das vestimentas, da ourivesaria e de bordados; conheci publicações, dissertações e historiadores que queriam entender a história desses fazeres. Foi uma vivência muito prazerosa e intensa, e que me fez pensar um bocado.

Um desses escritos sobre bordados que entrei em contato era um livro assinado por Ana Pires, farta e lindamente ilustrado. Ela destacava o quanto esse tipo de produção, por lá, ficou relegada durante muitos anos ao ambiente doméstico. Era visto como mero passatempo, e com pouca valorização. Foi preciso que uma mulher o trouxesse para outros espaços e o transformasse em negócio, em meados da primeira guerra, para que o bordado ganhasse valor.

É bem fácil perceber que parte dessa desvalorização rolava porque bordados são tidos como “trabalho feminino”. Repare bem no tamanho do buraco: é pior que “literatura feminina”, que já arrasta em si um tom pejorativo dado pela necessidade do adjetivo “feminina” pra poder existir, mas que ainda assim consegue manter a alcunha de “literatura”. O bordado não é nem mesmo “arte feminina”. É artesanato, é trabalho, produção, mas não chega a ser arte. Os trabalhos belíssimos, ricos, intrincados, que exigiam um treino muscular repetido com as mãos, tão análogo ao que precisam passar os músicos, que traziam desenhos característicos que se repetiam ao longo do tempo e que contavam histórias sobre grupos e povoados, não são arte. Por que não são?

No fundo, tanto faz a resposta. Isso não vai mudar o fato de que bordados não foram, no passado, vistos como arte, mesmo que a gente reconsidere esse status no futuro. Por isso, acho que a gente pode fazer uma pergunta mais útil, uma que possibilite rever nossa relação com a arte. Eu prefiro perguntar por que é preciso ser arte pra ter valor?


Tenho a impressão que, independente de qualquer status, tem havido uma preocupação em resgatar, valorizar, e exibir esses trabalhos. Uma preocupação em se falar sobre bordados. E o que vale, definitivamente, é o reconhecimento.

Apesar do meu contato mais intenso ter acontecido em Portugal, essa narrativa sobre bordados não tem sido valorizada só por lá. Há uma crescente retomada de bordados no Brasil, no circuito jovem, e em outros países, feita por artesãs que estão lendo e valorizando aquilo que este trabalho já foi e, a partir daí se reapropriam dele, ressignificam, modificam e multiplicam suas possibilidades. Esse movimento não se resume a isso, mas gosto de chamá-lo de bordado subversivo.

Eu dou esse nome, que não corresponde ao todo do movimento de valorização do bordado, porque ele ressoa em mim. Subversão fala de mudança, transgressão, de alterar o que está dado por aí. E pronto: o efeito é que nem quero mais brigar pra que bordado seja arte. A subversão pode ser muito mais interessante.


Escrever e reescrever essa história — que é mal documentada, mal contada, como grande parte do que as mulheres produziram no mundo, mas é tão rica — é um primeiro passo para que ele possa ganhar existência no mundo. É assim também que se existe. Colocar uma coisa em palavras tem o poder incrível, quase inacreditável, de tornar essa coisa real.

E quando a coisa passa a existir, quando ela é real, fica mais fácil de conseguir entender, transformar e produzir algo novo.

Tenho, como essas pessoas que estão resgatando e continuando a história dos bordados, escrito sobre um assunto muito (historicamente) feminino: a cozinha. O que eu gosto de fazer é falar de histórias, e também de afetos. Tenho certeza que muitos vão enxergar minhas narrativas como sendo de uma perspectiva “feminina”, seja lá o que isso signifique. Eu não falo de receitas; eu falo de partilha, da realidade que está à minha volta, de ingredientes que precisam ser mais valorizados porque são nossos. Eu falo de soberania alimentar, e de soberania no cuidado de si. Eu falo de cotidiano.

E como nada é mais cotidiano que relações de poder, eu falo ali, sobretudo, é de política. Eu falo de PANCs como se fossem ingredientes novos, mas que são mais do que velhos. Falo da redescoberta do prazer de plantar, das tradições da fermentação, de conhecimentos de antigamente. É claro que quando eu faço isso, termino por reescrever e transformar essas ideias. Eu enxergo esse saber e esse fazer com os olhos do meu mundo, e por isso acabo construindo outros valores e relações pra esses mesmos ingredientes. É por isso que dei esse nome pro projeto: outra cozinha. Ela é como qualquer outra, mas também não é a mesma.


Blogs sobre comida não são nenhuma novidade, mas tenho a impressão que a cozinha só tem ganhado valor porque soube se tornar espetáculo — nas fotos bem produzidas dos blogs, nas lojas embelezadas que vendem velhos quitutes repaginados com o nome de gourmet, e em realities show em outros espaços. A cozinha se tornou pública e ganhou visibilidade midiática. Ela virou espaço de competição, de trabalho duro e profissionalização, e de um quê de glamourização — isso, que em conjunto se materializa nessa espécie de “gourmetização da vida cotidiana”. O sintoma: não se deseja ser cozinheiro, se deseja ser chef. Não se deseja comer comida boa: se deseja ter “a” experiência, como se comida não fosse cotidiano. Aliás, dizer que uma comida pode ser gourmet é equiparar seu fazer com o das artes: “gourmet” é supostamente alta gastronomia, arte culinária. Por que cozinha também pode ser uma espécie de arte, não é mesmo?

Pois do mesmo jeito que propus outra pergunta sobre arte e bordados, também não vejo muito sentido nessa. Eu prefiro outra: por que é preciso que seja arte para que cozinha seja importante e valha a pena ser discutida?


Eu percebo essa minha escrita como uma oportunidade de reconstruir esses discursos sobre comida. Toda cozinha importa, importa sobretudo discutir cozinha. Escrever sobre comida é uma oportunidade de reivindicar valor ao que historicamente foi desenvolvido por mulheres — mas que eu gostaria que daqui pra frente fosse assunto de todos. Sinto que a resposta não está em transformar o status desse fazer (em arte, por exemplo), nem em terceirizar os cuidados de si (a outras ou à indústria), mas em falar e valorizar o fazer doméstico como algo de todos, do coletivo — especialmente por ser uma necessidade tão básica.

Escrever sobre cozinha é valorizar essa história. Assim como os bordados, não é preciso que dêem determinado status ao que faço e ao que escrevo para que tenha valor. Aliás: não é preciso também que legitimem minha escrita como artística pra que eu seja escritora. Escrever sobre comida é nobre o suficiente. Narrar qualquer história e fazer parte dela tem valor porque a torna real, com significado no mundo. É importante continuar escrevendo e dando visibilidade a esses “assuntos femininos”, e bem assim mesmo, entre aspas. Porque eles não são femininos. Eles apenas foram relegados a mulheres, porque acharam que isso não tinha a menor importância no mundo, feito elas. E se nós não reconhecermos sua importância, vamos apenas reafirmar que o trabalho dessas mulheres não teve valor.

Escrever sobre comida também é uma forma de fazer com que esses assuntos deixem de ser femininos e se tornem assuntos do mundo.

E o que você acha de chamarmos esse movimento de cozinha subversiva?

Carla Soares escreve sobre comida no projeto outracozinha.com.br. É mestre em comunicação social, e também já escreveu como acadêmica e como jornalista.

Texto originalmente publicado na Newsletter Mulheres que Escrevem.

Trabalho inútil




Abrir muitas cascas de amendoim exige um pouco de esforço.

Tirei a tarde pra fazer reparos nas roupas de cama. Remendos, cerzidos, costuras a mão. O tipo da coisa que ninguém mais faz hoje em dia. Tomei a decisão de fazer isso hoje porque ontem uma fronha que tinha um rasguinho acabou cedendo e rasgando de cima a baixo. Não via como consertar. Fiquei triste, pesarosa pela perda da fronha. Queria evitar perder qualquer outra coisa. Gustavo ponderou se não deveríamos arrumar um jogo de cama novo. Não respondi nada.

Peguei um cestinho improvisado de costuras, e todas as roupas de cama que estavam no cesto de roupa suja. Eram uns 3 jogos. Pilhas de jogos sem lavar. Onde eu moro no inverno só faz chover e esfriar e está impossível secar qualquer coisa. Mas até que foi providencial: é mais fácil reparar com as roupas sujas, pra não ter de dobrar de novo.

A primeira fronha que fui reparar tinha um rasgo de bom tamanho, e resolvi fazer com cuidado. Peguei um livro que tenho guardado, e que foi da minha mãe, e o encontrei por acaso nas coisas do meu pai quando ele morreu. Guardei, pensando ter sido da mãe dele. E só fui saber que era da minha mãe quando um dia falei qualquer coisa dele por telefone com ela. Apesar do livro ter pertencido a apenas uma geração antes da minha, eu não cresci aprendendo a reparar nada, e não sei fazer reparos bem feitos. Abri e fui tentando entender o que eu deveria avaliar, e que tipo de pontos a mão iam garantir um resultado melhor.

Enquanto fazia os reparos — eram muitos pequenos furos, e alguns rasgos mesmos, causados pelos gatos que sobem correndo e perseguindo uns aos outros — pensei num interlocutor imaginário que me diria o quanto era inútil o que eu estava fazendo. Obviamente era mais simples ir até qualquer loja e comprar um jogo de cama novo.


Da cadeira de balanço, estendi os olhos pra mesa de apoio na cozinha. Um pacote grande de amendoim nas cascas. Era outra tarefa pro dia, que eu estava adiando a semana inteira. Quando resolvo fazer, é chato, mas também é sempre alegria. O gato Croquete fica animado com o barulho do pacote e dos amendoins chacoalhando nas cascas. Costuma subir no meu colo tentando colocar a pata no pacote e pegar alguma casca. Quando finalmente consegue, persegue o amendoim pela casa como se fosse um outro bicho. Eventualmente ele se cansa, ou o amendoim se perde, e ele volta pro colo, tenta pegar outra casca e a brincadeira recomeça. Meus dedos vão ficando cansados, meio doloridos, meio sujos de terra. Abrir muitas cascas de amendoim exige um pouco de esforço. Nas noites mais quentes acho um pouco mais fácil: deito na varanda na rede, aproveito a brisa, o céu que as vezes tem estrelas, os vasos de plantas e perco meu tempo abrindo casquinhas e nas brincadeiras com croquete. No frio, sobra apenas essa coisa quase meditativa, de ir se concentrar em abrir as cascas e não errar as vasilhas que separam as cascas e os amendoins. Se seu pensamento voa, os amendoins somem na montanha de cascas. E pensar que tanta gente tem aplicativo em smartphone pra meditar.


Quando termina, não termina: é hora de torrar o amendoim. Forno ligado bem baixo, vigia constante. Qualquer minuto a mais e o amendoim passa do ponto. Abro várias vezes o forno, pego um, enfio na boca: não ainda. O cheiro invade a casa. Amendoim torrado, um que meio terroso, parecido também com lenha. O sabor exato eu só sei provando. Confio mais em mim que no relógio. E é hora de não resistir. Como ainda quente, vários, não porque eu mereço depois de tanto trabalho, mas porque estão irresistíveis. Uma delícia. Não se parece em nada com os do supermercado, mesmo quando frios. Enquanto como os amendoins recém saídos do forno, penso em falar pro meu interlocutor imaginário o quanto era inútil o que o supermercado estava fazendo. Obviamente era mais negócio tirar as cascas, meditar, sentir a brisa, brincar com o croquete, e comer amendoim recém-torrado ainda quente.

Acho que, pelo menos por agora, eu não preciso de roupas de cama novas.

Folha de cenoura se come?

Como duas irmãs podem ser tão diferentes? Enquanto eu sempre gostei de verduras e legumes, e de experimentar coisas novas, minha irmã sempre deu muito trabalho pra comer esses três itens.

Ela ainda dá. Receber ela em casa, embora eu sempre fique muito feliz, também é garantia de descompasso. É que eu também tenho minhas preferências, e rejeito quase tudo ultra industrializado (ou aceito só pra agradar o anfitrião). Eu também posso ser um bocado chata com essa mania.

Enquanto éramos pequenas, e minha mãe precisava fazer com que ela provasse as comidas e comesse verduras (não é isso que os pais fazem?), ela sempre tentava alguns truques. Muitas vezes isso só serviu pra deixar a minha irmã mais e mais cabrera de experimentar coisas novas. Mas teve vez que funcionou.

Com uns 4–5 anos de idade, minha irmã não queria provar rocambole. Torcia o nariz mesmo e não adiantava dizer que era doce ou qualquer coisa assim. Daí minha mãe desistiu do rocambole e resolveu apresentar um prato novo pra ela: o “bolo enrolado”. Fez o bolo. Colocou na forma. Mostrou pra minha irmã que estava colocando pra assar. Ensinou e mostrou pra ela como se fazia pro bolo ficar enrolado. Serviu e… ela provou e adorou. Claro, quando ela contou que aquilo era o rocambole, já tinha pego a menina pelo estômago. Mas em outras ocasiões, isso não funcionou tão bem. Misturar outras verduras na couve — uma verdura que a minha irmã comia — era das que menos funcionava. Por fim, ela parou de comer couve.

Só que havia uma verdura que minha irmã gostava, além da couve, e que nunca precisou de qualquer enrolação. Era a folha de cenoura.

Folha de cenoura é um pouco dura pra você simplesmente refogar. É bom cozinhar um pouco mais. Minha mãe fazia um bolinho frito, desses bem dia-a-dia, feito no olho, juntando farinha, leite e ovos com as folhas da cenoura picadas. Fazia um sucesso danado.

O caso é que lá em casa sempre tivemos por hábito comer folhas de cenoura. E me surpreendo quando entendo que as pessoas não o fazem. E que algumas nem sabem que isso é de comer. Além do bolinho, eu costumava fazer omeletes (quando eu comia ovo), e por fim, nesse último ano, o que mais faço é uma torta de liquidificador com folhas de cenoura, porque tenho preguiça de fazer fritura. É assim:

1 maço de folhas de cenoura (a quantidade da foto)
1 copo de farinha de trigo
1 copo de farinha de trigo integral
1 colher de sopa de linhaça deixada de molho em 2 colheres de água
1 e 1/4 copo de água (ou soro de leite, ou leite. o que tiver. já testei todas as versões e todas dão certo)
3/4 copo de óleo
1 cenoura cortada em cubos
1 mão cheia de passas
1/2 colher de chá de bicarbonato
1/4 colher de chá de suco de limão
gergelim, pra finalizar por cima da torta

Pique as folhas de cenoura, que são bem facinhas por já serem muito recortadas, a cenoura e reserve numa vasilha, junto com as passas. De resto, é como qualquer torta de liquidificador: meta tudo no aparelho e aperte o play.

Sim, saborosa!

Se vc quiser uma torta maior ou menor, ajustar é moleza. Repare que pra cada copo de farinha há um copo de líquido, metade com água, metade com óleo. Dá pra colocar mais um de farinha, junto com outro de líquido meio a meio.

A linhaça na água forma uma mucilagem que é equivalente ao efeito de emulsificação do ovo. Se colocar mais um copo de farinha, pode acrescentar mais uma colher de linhaça que não se erra. E adoro colocar um bocado de gergelim por cima de tudo, depois de colocar na forma untada. Faz uma casquinha incrivelmente saborosa.

Linhaça na água, para soltar uma mucilagem antes de ir pra torta

Ponha muita folha de cenoura, porque você vai querer que a torta tenha gosto. Dá também pra colocar qualquer outro legume nessa base que eu sugeri. Eu escolho cenoura porque acho que fica genial: é que depois de 40 minutos no forno, o sabor da cenoura-raiz começa a adocicar bastante, bem diferente do aroma das folhas. No fundo, cenoura e folha de cenoura são duas irmãs, filhas da mesma semente, com sabores bem diferentes. E ainda assim, tão parecidas…

Enquanto pico as folhas, o aroma é incrível. Aliás, se você ver algumas folhas dessas no mercado, belisque. É incrível. Tem cheiro de cenoura, mas ao mesmo tempo tem um cheiro fresco, como convém a uma folha. E o cheiro convence muito mais do que minha receita.

É tão gostoso que nem a irmã que não gosta de verduras conseguiu resistir. E ninguém nunca precisou mentir. Não é nesse texto que eu ia começar.