O coração do chuchu e dos nossos hábitos

Você come essa parte branco-amarelada aí do meiozinho do chuchu, o caroço?

Na minha casa sempre tiramos e jogamos fora. Aprendi que era assim que se fazia, e que isso era duro e amargava.

Conversando com uma amiga esses dias, aprendi outra coisa. Ela me contou que na casa dela rolava uma pequena disputa pra ver quem ficava com o coração do chuchu. Era a parte nobre do legume, o coração do dito cujo. Fiquei intrigada, não entendi nada!

A curiosidade foi tanta que na mesma semana resolvi experimentar. Fiz uma sopa – anda frio esses dias – e dessa vez não tirei o miolo escavando, como sempre fiz. Piquei tudo em cubos e joguei na panela, com aquele sentimento de estranheza de quem faz uma coisa meio errada. Tantos anos desprezando aquela parte. Quando provei, achei que a textura do coração do chuchu lembrava palmito fresco. Era uma delícia mesmo.

A gente faz tanta coisa por hábito, por nunca parar pra se perguntar por que é que a gente faz assim mesmo. Mas cada vez que conseguimos nos perguntar por que é mesmo que é assim, a gente acaba parando, refletindo, tentando de outros jeitos. As mudanças aparecem é de sabermos fazer as perguntas muito mais do que de saber dar respostas.

A gente aprende muito com a experiência dos outros porque cada um tem uma experiência. Perguntando no twitter, descobri que um monte de gente já comia o coração do chuchu, outro tanto não. E porque a experiência é tão variada, tem coisas que nós mesmos é que temos que experimentar e decidir o que é bom pra gente.

Coração de chuchu aqui em casa, a partir de agora, se come sim.

Deixe as coisas germinarem por aí: faça brotos de lentilha

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Uma amiga me escreveu contando que a sua filha Alice, de 6 anos, resolveu que não vai mais comer carne — exceto no molho a bolonhesa.

Fiquei com uma imensa simpatia pela menina, não porque agora esteja vegetariana como eu, mas porque achei bonita essa ideia de estar aberta ao novo, mesmo tendo aqui e ali alguma falta de convicção ou excesso de amor por certos tipos de molho de macarrão.

Ser vegetariana, pra mim, tem mais a ver com fazer perguntas do que com certezas e convicções arraigadas. As coisas não tem de ser como são porque são. Podemos nos comprometer apenas em fazer tentativas, duvidar que as coisas sejam imutáveis, e descobrir outros sabores. E abrir exceções pro que a gente achar que precisa abrir, porque o mais importante nunca foram as certezas e sim como conseguimos formular nossas dúvidas.

Fiquei com vontade de que essa ideia tão bonita da Alice pudesse fazer brotar por aí essa simpatia pela pergunta, e por isso, resolvi compartilhar como se faz pra germinar lentilhas. Germinar lentilhas faz a gente voltar a se sentir um pouco Alice: nosso compromisso é o de brincar de ver os grãos se transformarem em plantas. E não precisa de equipamentos ou ingredientes especiais, nem de trabalheira, só um pouco de presença e vontade:

  1. Coloque uma xícara de café de lentilhas de molho em água por umas 8h (da noite pro dia). Uma xicrinha, acredite, vai render um monte;
  2. Pela manhã escorra a água e deixe num vidro inclinado coberto com um filó, tule ou um pano qualquer bem poroso. Eu deixo o meu no meu escorredor de pratos mesmo;
  3. Molhe ao menos umas 3x por dia — manhã, tarde, noite. (molhar = encher o vidro de água e escorrer);
Um vidro reaproveitado, um saco de filó e um elástico – materiais improvisados pra fazer os brotos
O vidro descansando no escorredor de pratos; e molhando os brotos pra eles crescerem.

Em +ou- 24h depois do início do processo, os grão já apontaram um narizinho (é a raiz) e são comestíveis crus. Eles ficam como na foto que abriu esse post. Em 3 dias, eles terão uma folhinha, e é o limite pra você comer.

O mesmo processo também dá pra usar com grão de bico, se você quiser experimentar mais. Gosto de misturar com outros ingredientes crus, criando saladas e combinando sabores. O gosto não se parece com os brotos que compramos no supermercado, especialmente porque você não tem ideia da delícia que é ver a sementinha brotar, a raiz crescer, a primeira folha sair. Sem contar o efeito colateral: ver como é fácil deixar as coisas brotarem me faz ter vontade de que as coisas continuem germinando por aí.

A “autêntica” alegria dos pepinos japoneses agridoces

Uma das últimas coisas que fiz antes de mudar de cidade foi levar minhas plantas de presente pra minha mãe, e deixar um papel com a receita dos pepinos japoneses com ela, porque essa era uma das coisas que ela adorava que eu fizesse pra ela. Minha mãe nunca gostou de comida japonesa.

As vezes tendemos a pensar numa determinada comida em um único lugar, sem enxergar as potencialidades que os sabores tem de ser realocados, repensados, conjugados.

Os sunomonos, aqueles pepinos japoneses agridoces que sempre acompanham os pratos frios japoneses, são um caso interessante pra você brincar de misturar o sabor de uma culinária com outras comidas que não a de origem.

Gosto muito de servi-los como uma salada, junto com outras. O sabor agridoce que caracteriza os sunomonos serve como tempero interessante pra saladas de folhas verdes, se servidos em conjunto. Outras saladas mais salgadas também vão bem como acompanhamento desse prato.

E o melhor de tudo é que os pepinos são fáceis de fazer, não precisam de ingredientes caros e especiais e se conservam bem por vários dias. Eles levam pepinos, açúcar, shoyo, sal e vinagre. Gergelim e gengibre vão bem, mas são opcionais.

Minhas anotações originais. Escrevi em inglês porque pesquisava em sites estrangeiros. Fui fazendo pequenas correções misturando várias sugestões de receitas, e ainda risquei mais vezes depois que fiz e aperfeiçoei ao meu gosto.
  1. Comece fatiando os pepinos. Aqui dou as quantidades de molho pra 2 ou 3 pepinos, modifique conforme sua necessidade. O ideal é fatiar em um processador, pra te economizar tempo, esforço, e deixar as fatias o mais uniforme possível. Usar um fatiador manual, ou cortar as fatias com uma faca também são viáveis, claro. Faça o corte mais fino que for possível em todas essas situações.
  2. Depois, coloque bastante sal sobre os pepinos em um escorredor. Deixe escorrer por 20 minutos e em seguida aperte os pepinos pra espremer a água. Não tenha medo, eles não irão se desfazer. O segredo desse pepino é essa etapa. Drenando bem a água do pepino, aumentamos sua durabilidade, e os deixamos crocantes, mesmo que eles fiquem alguns dias na geladeira.
  3. Enquanto você espera que a água do pepino escorra, faça em outra vasilha o molho que deverá cobrir os pepinos assim que eles estiverem drenados. Misture assim:

    3 col de sopa de vinagre
    2 col de sopa de açúcar
    1/2 col de sopa de shoyo
    Um pouco de gengibre picado bem miudinho (opcional)
    Gergelim a gosto, salpicado por cima

Na primeira imagem, pepinos fatiados sobre o escorredor com sal (antes de misturar). Na segunda, a água que espremi dos pepinos (sai bastante mesmo). E na última, o molho agridoce esperando para se misturar aos pepinos.

Quando fizer o molho, não se esqueça de mexer pra dissolver o açúcar. Depois é só derramar sobre os pepinos drenados, misturando com o gengibre (caso você tenha utilizado), e salpicando gergelim por cima.

Use o vinagre que você quiser. Quanto melhor o vinagre, mais gostoso será seu sunomono. Na última vez que fiz, usei um vinagre de maçã bem bom. Naturalmente que se você tiver vinagre de arroz, comum na culinária japonesa, o resultado poderá ser mais “autêntico”. Mas quer saber? Autêntica é toda comida que a gente faz com alegria, que alimenta não só o corpo mas também a alma. Toda vez que faço sunomono eu me lembro da expressão de alegria da minha mãe ao comer os pepinos, mesmo nunca tendo gostado de comida japonesa; e de ter me despedido dela entregando essa receita. E são esses sentimentos genuínos que alegram nossos corações.

O sorvete de banana mais fácil e delicioso do mundo

O truque é velho, mas ninguém nasce sabendo. Por isso, eu resolvi compartilhar a receita mais fácil e deliciosa de sorvete de banana que eu conheço (e também porque é verão e é bom se refrescar).

Eu adoro a reação das pessoas quando sirvo esse sorvete. Elas logo imaginam que é a coisa mais trabalhosa do mundo, quando na verdade é uma receita pra dias em que o calor deixa a gente mole de preguiça. O resultado impressiona mesmo.

Você vai precisar de:

Banana

E o que mais? Mais nada. Só bananas. De preferência, aquelas que estão começando a passar. Tenho nervoso de comer banana muito madura, e sempre que tenho bananas assim, elas viram sorvete por aqui, e nunca mais perdi banana. O sorvete fica melhor ainda com bananas pra lá de maduras, porque fica bem docinho. E qualquer machucadinho que houver nelas, você nem precisa se preocupar.

Tire a casca das bananas, e coloque elas inteiras no congelador. Assim ó:

Numa vasilha, direto pra congelador

Depois de congeladas (conte aí ao menos umas 4h pra isso acontecer), tire do congelador e coloque num liquidificador ou processador. Vale a pena esperar uns 5-10 minutos em temperatura ambiente antes de bater, pra não judiar das máquinas, tadinhas.

No processador: é só ligar e esperar

Aos poucos, de um purê mal-ajambrado, com a banana toda picotada, a consistência vai ficando pastosa até se transformar na consistência exata de um sorvete, bem cremoso. E é só.

Pode armazenar normal no congelador, como faz com qualquer sorvete comprado. Não vai formar cristais de gelo porque não tem água nessa receita.

E dá pra caprichar mais, se você estiver se sentindo corajoso. Algumas sugestões bem boas que eu já fiz:

  • Servir com mel e canela (como na foto que abre a postagem)
  • Bater junto com a banana uma colherinha de cacau em pó e jogar umas castanhas picadas por cima
  • Bater junto com a banana um pouco de damascos secos e cardamomo

Use sua criatividade e o que estiver à mão. Ou só bata a banana congelada mesmo, e experimente. Não tenha vergonha de ficar com um pouco de preguiça. Receitas preguiçosas também são deliciosas.

Os fracassos que não exibimos






Uma série de fotografias, pra escolher alguma melhorzinha e mostrar ao mundo.

as listas de melhores não são um bom resumo de qualquer ano

No final de ano, quando as listas de melhores (livros, filmes, séries, fotos, momentos, etc) começam a aparecer, sempre me sinto um pouquinho peixe fora d’agua. Sou lembrada de que é humanamente impossível dar conta de todas as coisas, e invariavelmente tem sempre coisas que não vi, não li, e nem ouvi falar.

Acredito que listas de melhores são feitas com boas intenções, e podem ser úteis como referência pro próximo ano. Mas não consigo evitar o sentimento de que estou um pouco atrasada, e perdi algumas coisas que parecem legais. Sempre fico um pouco encolhida, pensando se simplesmente não estou fazendo escolhas erradas.

Semana passada fui escrever sobre uma tarefa que me dei em 2016 — a de escrever todos os meses sobre minhas experiências lendo livros. Falei um pouco de como esses escritos foram gratificantes pra mim, e como eu espero que eles possam ter sido interessantes pra quem lê do outro lado da tela. Fechei meu texto fazendo algumas listas, que não eram dos melhores livros, porque não consigo acreditar que existem “os melhores”. Se o que eu estava fazendo nos textos era falar de experiência, conclui que minha lista, além de pessoal, também é uma nota sobre o momento que vivo. E seria difícil escolher o melhor momento, pois todos se somam pra formar o que experimentei.

Difícil comparar entre minhas próprias leituras; imagine então comparar com as leituras alheias. Listas de melhores não seriam simplesmente arbitrárias, mas tarefa impossível sem considerar o contexto da escolha. Melhor em quê, pra quem?

Resolvi essa questão criando um pouco de contexto. Fiz listas que chamei de aletórias, nas quais separei livros que abandonei, que não tive coragem de abandonar, livros que li que falavam sobre comida, livros que li enquanto viajava, ou que indiquei a alguém pelas mais diversas razões que não somente porque ele era “o melhor”. Tentei não pensar em nenhum tipo de hierarquia, pra diminuir o nível de competitividade e o sentimento de estar meio por fora de qualquer um que topasse com meu texto por aí.

Quando escrevo sobre comida, involuntariamente estou desenhando um pequeno ponto de uma lista de coisas que sei fazer bem, que gosto de fazer, ou que me sinto à vontade para falar sobre. É compreensível. Não falamos daquilo que fazemos mal, das coisas que não entendemos ao menos um pouco ou daquilo que deu errado. Como uma lista de melhores de final de ano, um blog sobre comida é uma lista pronta, pensada durante todo o tempo, pra mostrar coisas interessantes.

Não acho que mostramos nossos melhores, e escondemos nossos piores só por respeito à quem vem em busca de ideias, aprendizagem ou boa conversa. Também não acredito que reconhecer o fracasso é importante porque pra termos sucesso temos que ter tido milhares de fracassos antes. Os fracassos são mais que isso: são partes da vida, das nossas experiências, e não pedras no meio do caminho pro sucesso que uma hora podemos alcançar. O sucesso não é o fim, e pode inclusive nunca vir (o que é sucesso, aliás?). A lista de melhores, portanto, não é um bom resumo de qualquer ano.

Sempre tenho esperança de que as coisas que publico possam deixar uma vontade de se pensar sobre o ato de cozinhar, e todas as coisas que ele envolve: a importância das nossas microescolhas na cadeia cultural, afetiva, econômica, e a importância política de um trabalho que quase nunca é visto como um trabalho. Sempre me pergunto se consigo (ou conseguirei algum dia) fazer germinar essas ideias em atos práticos, de encorajamento, que levem outras pessoas não só a pensar sobre comida, mas a efetivamente valorizá-la, e fazê-la.

Mas em que medida, enquanto falo sobre as coisas que eu mesma faço eu não intimido? Quanto mais insisto em me mostrar, ou mostrar o meu melhor, mais a cozinha pode parecer distante, e impossível de ser feita. A minha lista de melhores, ou tudo aquilo que eu publico, é também uma lista que precisa de contexto: as melhores coisas que eu, a carla que mora em Pato Branco, não tem um emprego formal, cozinha há 20 anos, e se interessa pelo assunto, consegue fazer (e achar fácil).

Tive um blog há quase 10 anos atrás, que também não tinha receitas: eu só fotografava tudo o que cozinhava, contava os ingredientes, e esperava que aquelas ideias servissem de inspiração pra quem me lia. Embora muitas coisas tenham mudado nesse tempo, eu ainda penso muito sobre não criar regras sobre comida, e sobre receitas tão abertas quanto qualquer texto literário. Acima de tudo, nesses anos todos, continuo achando importante falar do assunto. Cozinhar exige certa coragem de arriscar, mesmo sabendo que o resultado pode sair errado. Nenhuma receita garante nada: é que nem na vida. Se o que eu publico tocar quem lê, fizer ter mais coragem, e se sentir mais livre pra errar e também acertar, vou conseguir aquilo que queria. E isso realmente não depende de que eu mostre apenas o que dá certo.

Como um antídoto pontual, contraponto das listas de melhores internet afora, e da lista contínua dos meus melhores que vou publicando a conta-gotas por aqui, resolvi fechar o ano falando das coisas que não deram certo. Aquelas coisas que fiz e que não ficaram boas, e não contei, mas que fazem parte da vida, porque mesmo que qualquer sucesso seja possível, elas continuarão a existir. Precisamos aprender a conviver com elas. Falar foi o jeito que encontrei pra pensar sobre esse ano:

Foco no lugar errado, escura, mas divertida: tirei na mesma sessão das fotografias que abriram a postagem. Você imaginaria que perto da comida tinha uma gata danada, em cima da mesa?

Seis pratos difíceis de engolir que inventei de cozinhar em 2016:

1.Caldo verde feito com almeirão pão-de-açúcar — Em minha defesa, quero dizer que eu gosto de verduras mais amargas. E não tinha couve em casa. Tentei colocar esse almeirão de nome irônico, e achei que poderia sair um prato interessante, mas nossa. Foi como tomar uma sopa de purgante. Ficou horrível, o caldo inteiro ganhou um sabor muito amargo. Melhor nem fazer se não tiver couve.

2. Api — Em janeiro de 2016, aproveitando minha posição privilegiada de moradora quase da fronteira, passei 15 dias numa viagem de carro rumo ao noroeste Argentino, nas províncias de Salta e Jujuy. Trouxe de lá Api, que no meu portunhol sofrível, parecia farinha de milho vermelho, que eu deveria usar pra fazer uma bebida fermentada. Não era isso. Era um preparado em pó (feito suco em pó) de milho vermelho, mas cheio de açúcar e nem imagino mais o quê. Nada parecido com as Chichas que tomei por lá. Andei 1500km com meu achadinho, pra jogar tudo fora no Brasil.

3. Chuños — Nessa mesma viagem, comprei umas batatas desidratadas chamadas chuños. É um método de conservação dos incas, fiquei muito curiosa. A senhora que me vendeu tentou me avisar: era difícil fazê-las. Não escutei, trouxe, e ficaram parecendo papel cozido. Não sei se não soube usar, pois nem sei que gosto deveriam ter. A internet não foi capaz de me ensinar.

4. Massa fresca para 4 pessoas — Tem mais de um ano que só como macarrão feito em casa. O mais frequente, claro, é que eu faça só pra mim e pro meu companheiro. Fica muito bom, e a gente faz uma propaganda danada. Convidamos amigos pra participar do almoço, e erramos o ponto do macarrão horrivelmente: cozinhou demais, ficou grudento, parecia que a gente nem sabia fazer o negócio. blé.

5. Fermentado de amora — Comprei umas duas caixas de amoras, por pura gulodice. Uma delas foi ficando na geladeira, e achei que o melhor seria fazer um suco e deixar fermentar, pra ficar gaseificado. Não sei o que aconteceu, mas a consistência ficou levemente gelatinosa. Sentimos nojo enquanto bebíamos. irc!

6. Keffir — Ganhei mudas de keffir, uma colônia que fermenta leite e transforma em uma bebida parecida com iogurte (mas diferente). Trouxe de Belo Horizonte até o interior do Parará. Me animei a fazer, mas… não me animei a comer. Eu não gosto de leite, e o resultado final me deixou torcendo o nariz pro cheiro e pra aparência, e fiquei me perguntando: porque diabos inventei de fazer isso?


Que venham as experiências boas e ruins de 2017!

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Geléia de pêssego, pessegada e mensagens jogadas ao mar em garrafas

Os pêssegos que ganhei em uma foto um pouco desfocada

Não há nada errado em escrever sobre comida

Ganhei duas sacolas imensas de pêssego. Havia muito tempo que eu não ganhava frutas assim, de época, de quem tem quintal, sítio, e árvores frutíferas.

Nunca tinha ganhado pêssegos, de modo que nunca precisei saber o que fazer com muitos deles.

A primeira ideia que tive foi de fazer uma geléia, porque já fiz geléia de outras frutas e sabia que o processo era o mesmo pra todas.

Descasquei os pêssegos, e fui com carinho colocando cada um deles em uma vasilha com água com meio limão espremido — pra não deixar que os pêssegos escureçam enquanto descascava. Pesei os pêssegos — eu tinha 1,5kg, assim, limpos — , e pesei em seguida 1/3 do que tinha de pêssegos em açúcar. Levei tudo na panela, pus a outra metade do limão que sobrou — essencial pra dar o ponto de geléia. Abri um a um meus potes com especiarias, e quando cheirei o cravo da índia tive a intuição de que era aquele o que iria bem com os pêssegos. O líquido no fogo aos poucos engrossou, e a gotinha que tirei com a colher da panela caiu num pires sem se espalhar, e tive certeza que minhas frutas tinham virado geléia.

Mas eram muitos pêssegos mesmo. E eu precisava ir além do que eu sabia fazer assim, de cor-ação.

Joguei no google, e achei essa receita. O blog se chamava Quitandas de Minas, e mineira que sou, achei por bem tomar isso como um sinal dos céus. Segui a receita da anônima Tia Cecy, de Entre Rios de Minas, não sem antes dar minha modificada. Achei inútil o passo de ferver os pêssegos e por isso ignorei. E embora eu tenha mesmo uma peneira de taquara que a receita adverte que eu deveria usar, a minha é um enfeite muito amado, comprado no mercado central de BH, e que fica pendurado na parede da sala. Assim, acabei usando um passe-vite, um instrumento manual que se usa pra amassar legumes e fazer sopa, e estava resolvida. Apreciei especialmente as instruções da receita sobre o ponto da pessegada, e fiquei muito sorridente quando enfiei a faca no doce que ferveu por horas no fogão e o ele não se soltou da faca nas costas da minha mão.

Virei tudo improvisadamente numa forma de bambu japonesa forrada previamente com papel manteiga, que via de regra só uso pra cozinhar legumes ao estilo oriental. Achei bonito. Parei, tirei uma fotografia. Joguei no twitter.

Ainda não cortei o doce, mas desde então não sai da minha cabeça o blog aleatório em que confiei pra fazer essa pessegada.

Eu me furto muitas e muitas vezes de escrever receitas, modos de fazer, ou mesmo histórias sobre comida simplesmente porque julgo que quem lê pode enxergar nessa escrita uma coisa menor, pequena. Talvez nem achem que falar de comida, ou escrever histórias de receitas é escrita. E aí pensei nesse blog, tão aleatório, e assim mesmo tão relevante pra mim naquele dia. Pensei na Tia Cecy, e na Rosaly Senra, a autora do blog que até então jamais antes tinha ouvido falar. Me dei conta do quanto aquela receita de pessegada se parecia com uma mensagem numa garrafa jogada ao mar, escrita assim, despretensiosamente, como quem envia beijos, desejos, pedidos de socorro ou saudades mar afora, e espera quem a encontre. Ou não se espera nada, apenas que a garrafa flutue e navegue pelas águas.

Senti uma vontade súbita de agradecer pelas mensagens na garrafa que encontro mundo afora. E de soltar algumas outras mensagens por aí. Não sei quem apanhará, apenas acredito que vai existir alguém por aí que não vai ficar indiferente ao que escrevi. Alguém que vai achar que receitas podem ser formas bonitas de escritas, que cozinha não é assunto menor, e que o cotidiano é tão significante e insignificante ao mesmo tempo, como somos todos nós.

Não, não há nada errado em escrever receitas ou histórias de receitas. Não há nada errado ou menor em escrever sobre comida. Assim sendo, deixo aqui minhas garrafas boiando, levanto da cadeira, e só resta me deliciar com essa pessegada.


Escrevo outras mensagens na garrafa sobre comida na minha newsletter. Se sentir vontade de apanhar alguma por aí nesse mar, é só assinar: http://eepurl.com/bY94QL