Os fracassos que não exibimos






Uma série de fotografias, pra escolher alguma melhorzinha e mostrar ao mundo.

as listas de melhores não são um bom resumo de qualquer ano

No final de ano, quando as listas de melhores (livros, filmes, séries, fotos, momentos, etc) começam a aparecer, sempre me sinto um pouquinho peixe fora d’agua. Sou lembrada de que é humanamente impossível dar conta de todas as coisas, e invariavelmente tem sempre coisas que não vi, não li, e nem ouvi falar.

Acredito que listas de melhores são feitas com boas intenções, e podem ser úteis como referência pro próximo ano. Mas não consigo evitar o sentimento de que estou um pouco atrasada, e perdi algumas coisas que parecem legais. Sempre fico um pouco encolhida, pensando se simplesmente não estou fazendo escolhas erradas.

Semana passada fui escrever sobre uma tarefa que me dei em 2016 — a de escrever todos os meses sobre minhas experiências lendo livros. Falei um pouco de como esses escritos foram gratificantes pra mim, e como eu espero que eles possam ter sido interessantes pra quem lê do outro lado da tela. Fechei meu texto fazendo algumas listas, que não eram dos melhores livros, porque não consigo acreditar que existem “os melhores”. Se o que eu estava fazendo nos textos era falar de experiência, conclui que minha lista, além de pessoal, também é uma nota sobre o momento que vivo. E seria difícil escolher o melhor momento, pois todos se somam pra formar o que experimentei.

Difícil comparar entre minhas próprias leituras; imagine então comparar com as leituras alheias. Listas de melhores não seriam simplesmente arbitrárias, mas tarefa impossível sem considerar o contexto da escolha. Melhor em quê, pra quem?

Resolvi essa questão criando um pouco de contexto. Fiz listas que chamei de aletórias, nas quais separei livros que abandonei, que não tive coragem de abandonar, livros que li que falavam sobre comida, livros que li enquanto viajava, ou que indiquei a alguém pelas mais diversas razões que não somente porque ele era “o melhor”. Tentei não pensar em nenhum tipo de hierarquia, pra diminuir o nível de competitividade e o sentimento de estar meio por fora de qualquer um que topasse com meu texto por aí.

Quando escrevo sobre comida, involuntariamente estou desenhando um pequeno ponto de uma lista de coisas que sei fazer bem, que gosto de fazer, ou que me sinto à vontade para falar sobre. É compreensível. Não falamos daquilo que fazemos mal, das coisas que não entendemos ao menos um pouco ou daquilo que deu errado. Como uma lista de melhores de final de ano, um blog sobre comida é uma lista pronta, pensada durante todo o tempo, pra mostrar coisas interessantes.

Não acho que mostramos nossos melhores, e escondemos nossos piores só por respeito à quem vem em busca de ideias, aprendizagem ou boa conversa. Também não acredito que reconhecer o fracasso é importante porque pra termos sucesso temos que ter tido milhares de fracassos antes. Os fracassos são mais que isso: são partes da vida, das nossas experiências, e não pedras no meio do caminho pro sucesso que uma hora podemos alcançar. O sucesso não é o fim, e pode inclusive nunca vir (o que é sucesso, aliás?). A lista de melhores, portanto, não é um bom resumo de qualquer ano.

Sempre tenho esperança de que as coisas que publico possam deixar uma vontade de se pensar sobre o ato de cozinhar, e todas as coisas que ele envolve: a importância das nossas microescolhas na cadeia cultural, afetiva, econômica, e a importância política de um trabalho que quase nunca é visto como um trabalho. Sempre me pergunto se consigo (ou conseguirei algum dia) fazer germinar essas ideias em atos práticos, de encorajamento, que levem outras pessoas não só a pensar sobre comida, mas a efetivamente valorizá-la, e fazê-la.

Mas em que medida, enquanto falo sobre as coisas que eu mesma faço eu não intimido? Quanto mais insisto em me mostrar, ou mostrar o meu melhor, mais a cozinha pode parecer distante, e impossível de ser feita. A minha lista de melhores, ou tudo aquilo que eu publico, é também uma lista que precisa de contexto: as melhores coisas que eu, a carla que mora em Pato Branco, não tem um emprego formal, cozinha há 20 anos, e se interessa pelo assunto, consegue fazer (e achar fácil).

Tive um blog há quase 10 anos atrás, que também não tinha receitas: eu só fotografava tudo o que cozinhava, contava os ingredientes, e esperava que aquelas ideias servissem de inspiração pra quem me lia. Embora muitas coisas tenham mudado nesse tempo, eu ainda penso muito sobre não criar regras sobre comida, e sobre receitas tão abertas quanto qualquer texto literário. Acima de tudo, nesses anos todos, continuo achando importante falar do assunto. Cozinhar exige certa coragem de arriscar, mesmo sabendo que o resultado pode sair errado. Nenhuma receita garante nada: é que nem na vida. Se o que eu publico tocar quem lê, fizer ter mais coragem, e se sentir mais livre pra errar e também acertar, vou conseguir aquilo que queria. E isso realmente não depende de que eu mostre apenas o que dá certo.

Como um antídoto pontual, contraponto das listas de melhores internet afora, e da lista contínua dos meus melhores que vou publicando a conta-gotas por aqui, resolvi fechar o ano falando das coisas que não deram certo. Aquelas coisas que fiz e que não ficaram boas, e não contei, mas que fazem parte da vida, porque mesmo que qualquer sucesso seja possível, elas continuarão a existir. Precisamos aprender a conviver com elas. Falar foi o jeito que encontrei pra pensar sobre esse ano:

Foco no lugar errado, escura, mas divertida: tirei na mesma sessão das fotografias que abriram a postagem. Você imaginaria que perto da comida tinha uma gata danada, em cima da mesa?

Seis pratos difíceis de engolir que inventei de cozinhar em 2016:

1.Caldo verde feito com almeirão pão-de-açúcar — Em minha defesa, quero dizer que eu gosto de verduras mais amargas. E não tinha couve em casa. Tentei colocar esse almeirão de nome irônico, e achei que poderia sair um prato interessante, mas nossa. Foi como tomar uma sopa de purgante. Ficou horrível, o caldo inteiro ganhou um sabor muito amargo. Melhor nem fazer se não tiver couve.

2. Api — Em janeiro de 2016, aproveitando minha posição privilegiada de moradora quase da fronteira, passei 15 dias numa viagem de carro rumo ao noroeste Argentino, nas províncias de Salta e Jujuy. Trouxe de lá Api, que no meu portunhol sofrível, parecia farinha de milho vermelho, que eu deveria usar pra fazer uma bebida fermentada. Não era isso. Era um preparado em pó (feito suco em pó) de milho vermelho, mas cheio de açúcar e nem imagino mais o quê. Nada parecido com as Chichas que tomei por lá. Andei 1500km com meu achadinho, pra jogar tudo fora no Brasil.

3. Chuños — Nessa mesma viagem, comprei umas batatas desidratadas chamadas chuños. É um método de conservação dos incas, fiquei muito curiosa. A senhora que me vendeu tentou me avisar: era difícil fazê-las. Não escutei, trouxe, e ficaram parecendo papel cozido. Não sei se não soube usar, pois nem sei que gosto deveriam ter. A internet não foi capaz de me ensinar.

4. Massa fresca para 4 pessoas — Tem mais de um ano que só como macarrão feito em casa. O mais frequente, claro, é que eu faça só pra mim e pro meu companheiro. Fica muito bom, e a gente faz uma propaganda danada. Convidamos amigos pra participar do almoço, e erramos o ponto do macarrão horrivelmente: cozinhou demais, ficou grudento, parecia que a gente nem sabia fazer o negócio. blé.

5. Fermentado de amora — Comprei umas duas caixas de amoras, por pura gulodice. Uma delas foi ficando na geladeira, e achei que o melhor seria fazer um suco e deixar fermentar, pra ficar gaseificado. Não sei o que aconteceu, mas a consistência ficou levemente gelatinosa. Sentimos nojo enquanto bebíamos. irc!

6. Keffir — Ganhei mudas de keffir, uma colônia que fermenta leite e transforma em uma bebida parecida com iogurte (mas diferente). Trouxe de Belo Horizonte até o interior do Parará. Me animei a fazer, mas… não me animei a comer. Eu não gosto de leite, e o resultado final me deixou torcendo o nariz pro cheiro e pra aparência, e fiquei me perguntando: porque diabos inventei de fazer isso?


Que venham as experiências boas e ruins de 2017!

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Geléia de pêssego, pessegada e mensagens jogadas ao mar em garrafas

Os pêssegos que ganhei em uma foto um pouco desfocada

Não há nada errado em escrever sobre comida

Ganhei duas sacolas imensas de pêssego. Havia muito tempo que eu não ganhava frutas assim, de época, de quem tem quintal, sítio, e árvores frutíferas.

Nunca tinha ganhado pêssegos, de modo que nunca precisei saber o que fazer com muitos deles.

A primeira ideia que tive foi de fazer uma geléia, porque já fiz geléia de outras frutas e sabia que o processo era o mesmo pra todas.

Descasquei os pêssegos, e fui com carinho colocando cada um deles em uma vasilha com água com meio limão espremido — pra não deixar que os pêssegos escureçam enquanto descascava. Pesei os pêssegos — eu tinha 1,5kg, assim, limpos — , e pesei em seguida 1/3 do que tinha de pêssegos em açúcar. Levei tudo na panela, pus a outra metade do limão que sobrou — essencial pra dar o ponto de geléia. Abri um a um meus potes com especiarias, e quando cheirei o cravo da índia tive a intuição de que era aquele o que iria bem com os pêssegos. O líquido no fogo aos poucos engrossou, e a gotinha que tirei com a colher da panela caiu num pires sem se espalhar, e tive certeza que minhas frutas tinham virado geléia.

Mas eram muitos pêssegos mesmo. E eu precisava ir além do que eu sabia fazer assim, de cor-ação.

Joguei no google, e achei essa receita. O blog se chamava Quitandas de Minas, e mineira que sou, achei por bem tomar isso como um sinal dos céus. Segui a receita da anônima Tia Cecy, de Entre Rios de Minas, não sem antes dar minha modificada. Achei inútil o passo de ferver os pêssegos e por isso ignorei. E embora eu tenha mesmo uma peneira de taquara que a receita adverte que eu deveria usar, a minha é um enfeite muito amado, comprado no mercado central de BH, e que fica pendurado na parede da sala. Assim, acabei usando um passe-vite, um instrumento manual que se usa pra amassar legumes e fazer sopa, e estava resolvida. Apreciei especialmente as instruções da receita sobre o ponto da pessegada, e fiquei muito sorridente quando enfiei a faca no doce que ferveu por horas no fogão e o ele não se soltou da faca nas costas da minha mão.

Virei tudo improvisadamente numa forma de bambu japonesa forrada previamente com papel manteiga, que via de regra só uso pra cozinhar legumes ao estilo oriental. Achei bonito. Parei, tirei uma fotografia. Joguei no twitter.

Ainda não cortei o doce, mas desde então não sai da minha cabeça o blog aleatório em que confiei pra fazer essa pessegada.

Eu me furto muitas e muitas vezes de escrever receitas, modos de fazer, ou mesmo histórias sobre comida simplesmente porque julgo que quem lê pode enxergar nessa escrita uma coisa menor, pequena. Talvez nem achem que falar de comida, ou escrever histórias de receitas é escrita. E aí pensei nesse blog, tão aleatório, e assim mesmo tão relevante pra mim naquele dia. Pensei na Tia Cecy, e na Rosaly Senra, a autora do blog que até então jamais antes tinha ouvido falar. Me dei conta do quanto aquela receita de pessegada se parecia com uma mensagem numa garrafa jogada ao mar, escrita assim, despretensiosamente, como quem envia beijos, desejos, pedidos de socorro ou saudades mar afora, e espera quem a encontre. Ou não se espera nada, apenas que a garrafa flutue e navegue pelas águas.

Senti uma vontade súbita de agradecer pelas mensagens na garrafa que encontro mundo afora. E de soltar algumas outras mensagens por aí. Não sei quem apanhará, apenas acredito que vai existir alguém por aí que não vai ficar indiferente ao que escrevi. Alguém que vai achar que receitas podem ser formas bonitas de escritas, que cozinha não é assunto menor, e que o cotidiano é tão significante e insignificante ao mesmo tempo, como somos todos nós.

Não, não há nada errado em escrever receitas ou histórias de receitas. Não há nada errado ou menor em escrever sobre comida. Assim sendo, deixo aqui minhas garrafas boiando, levanto da cadeira, e só resta me deliciar com essa pessegada.


Escrevo outras mensagens na garrafa sobre comida na minha newsletter. Se sentir vontade de apanhar alguma por aí nesse mar, é só assinar: http://eepurl.com/bY94QL

Cozinhe, simplesmente porque você pode


Gastamos tempo demais pensando sobre o que poderá acontecer se a gente fizer as coisas que queremos.

Uma vez eu achei uma receita de um pão de cebola com missô que parecia muito simples de ser feita, apesar de me sentir intimidada com a sova. Eu fiquei com vontade de fazer, mas como nunca tinha tentado fazer pão, e pão sempre me parecia uma coisa difícil de se fazer, eu deixei pra lá.

Muito tempo depois, quando eu já tinha aprendido a fazer pão, eu me lembrei daquela receita perdida, e resolvi tentar, agora já mais segura de que aquilo ali podia dar certo.

Fui confiante tentar a receita, mas quando fui fazer deu tudo errado. Apesar de ter ficado com um gosto muito bom, o pão embatumou, não cresceu quase nada. Eu nem sabia muito bem dizer o que tinha dado errado. Precisei criar mais coragem e tentar outra vez, até que desse certo.

Fiquei pensando sobre todo o tempo que esperei pra ter as habilidades e o conhecimento necessário pra me “atrever” a fazer aquele pão. E que mesmo assim, aquilo não tinha sido suficiente pra produzir algo perfeito. Todo o atraso na minha tentativa se resumia às minhas expectativas. Eu esperava que fazer pão ia ser uma tarefa difícil, e por isso tinha deixado de tentar. Não tinha certeza de que eu tinha habilidade suficiente pra experimentar, e por isso, eu não tentava. Eu tinha medo de que o pão não desse certo, e isso me fez desistir. E quando criei coragem real, nem o fracasso da primeira tentativa me fez desistir daquela receita. Eu continuei fazendo até que fiquei satisfeita.

Nós não precisamos de nenhuma razão concreta pra tentar fazer as coisas, nem na cozinha, e nem na vida. Gastamos muito tempo tentando ter certeza de que tudo dará certo, de que temos as razões e as habilidades certas que vão garantir que o resultado será bom. Mas a verdade é que não existe nenhuma garantia. Nem receita, nem balança, nem termômetro. Essas coisas só servem pra nos dar uma sensação de segurança, mas mesmo cercados de todas elas, estamos sempre sujeitos ao fracasso. Não temos controle de nada.

Acho que qualquer um que já seguiu uma receita sabe do que eu estou falando.

Escrevi na minha última newsletter que cozinhar nunca é sobre fazer o melhor prato. Cozinhar é sempre sobre nós mesmos e como nos colocamos nesse mundo. Digo isso porque apesar de tentarem nos convencer do contrário, a graça de cozinhar nunca esteve no resultado. Comida gostosa é só uma consequência, do qual a gente nunca vai ter inteiro controle. O gesto de fazer comida, no entanto, é libertador: nos damos conta de que o que importa não é o que sai das nossas cozinhas, mas as nossas tentativas, erros, ousadias, e acertos. O que importa é sentir-se livre pra fazer. Isso sim é ser livre.


Todas os meses, na minha newsletter eu convido quem está nessa conversa comigo a agir e experimentar alguma coisa na prática, pra vivenciar um pouco do que estou falando por lá. Nesse mês, em que falei de se livrar das expectativas, não quis convidar a fazer nada específico, mas apenas a fazer. Fazer, assim, sem complemento. Cozinhar, apenas porque podemos.

Você não precisa de razões para tentar. Não perca tempo procurando as razões. Faça, simplesmente porque você pode. Apenas faça. Não importa se é porque você acha que ficará bom, ou que dará certo. Não gaste tempo pensando se você vai gostar, ou se os outros vão gostar do que você vai tirar do seu forno. Tempo nenhum fará você ter mais certeza de que o resultado será favorável pra você. Você não precisa se concentrar nos resultados pra ter coragem de tentar. A vontade de fazer é suficiente pra que você tente.

Esse movimento começa pequeno, dentro das nossas cozinhas, mas é uma atitude que depois de experimentada nos faz pensar sobre as outras coisas que não tentamos no mundo. Tudo bem sentir medo de que seu prato não vai ficar bom, ou um pouco de vergonha do que sair de lá. Mas se você não tentar, realmente você não vai sentir vergonha, nem medo, mas também não vai ter a oportunidade de estar lá fazendo, rindo e experimentando.

Vá, cozinhe. Faça, simplesmente porque você pode.


Ah, sim. Meu convite pra você fazer se estende pra você também experimentar minha newsletter. Você pode ler a edição de novembro e depois assinar.

Ginger Ale e o mundo invisível

Quando era pequena, eu e minha irmã ganhamos um daqueles kits de química que vinham com vários materiais, tubos de ensaio, e cartões dizendo o-quê-misturar-com-o-quê pra dar um composto novo.

A gente nunca teve muita paciência com os cartões e via de regra a gente misturava tudo-com-tudo.

Talvez a gente só tenha sido crianças normais querendo brincar de fazer os próprios experimentos ao invés de seguir os experimentos da caixa. Mas eu gosto mais de pensar que isso diz muito sobre o nosso gosto por experiências. Ou que foi ali que eu comecei a confiar que o “mundo invisível” iria agir e transformar tudo numa coisa linda.

As vezes saíam compostos bem fedorentos e desagradáveis, é verdade, mas a gente fazia tudo outra vez porque gostava do processo, acima de tudo.

Fazer Ginger Ale lembra muito a brincadeira dos kits de química porque a gente coloca tudo no tubo de ensaio, espera reagir e … depois de uns dias aparecem borbulhas!

O Ginger ale é uma bebida gaseificada naturalmente, feita com limão e gengibre. É bem popular nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. O “processo mágico” que está no seu feitio que faz as bolhas aparecerem é a fermentação.

Existem muitas receitas nesse mundo chamado internet, e, como eu nunca curti os cartões do brinquedo, vivo testando novos jeitos meus de fazer as coisas. A essa altura, eu até tenho um jeito preferido, mas vou partir do princípio que você também vai gostar de brincar de fazer o seu Ginger Ale sem os cartões. Por isso, eu vou explicar pra que serve cada coisa, e daí você monta seu experimento. Vou sugerir umas quantidades lá no fim, mas por favor, não se prenda a elas. Brinque.

O que você vai precisar pro experimento

 

Uma garrafa vazia — Eu uso uma garrafa de vidro de suco de uva reaproveitada. É essa verde que você está vendo nas fotos e ela tem capacidade pra 1,5l. Você pode usar uma PET de plástico de 2l, ou qualquer outra vasilha com tampa. O importante é você saber que como vai rolar uma reação química que vai produzir gás carbônico — as tais  borbulhas que eu tinha mencionado  — você sempre precisará deixar um espaço vazio no alto. Nessa garrafa de 1,5l, por exemplo, eu acabo produzindo só 1l de Ginger ale. Além disso, é bom saber que as garrafas de plástico vão sofrer deformação quando o gás começar a se formar. Nas de vidro, a pressão deve se concentrar na tampa, de modo que ela talvez estufe. Em ambas vale a pena ficar atento e eventualmente liberar o gás que se forma pra não correr risco de acidentes.

Não é preciso ter medo. A garrafa de vidro não vai explodir: a pressão na tampa é muito maior do que a pressão no restante da garrafa. Apenas vigie, e abra a tampa rapidamente pra liberar o gás durante o processo uma única vez, e o risco será mínimo.

Funil — não é indispensável, mas facilita de você colocar os ingredientes na garrafa.

Gengibre — o gengibre é o que vai dar o gosto do Ginger Ale (ok, era óbvio, mas eu precisava dizer). Tem quem goste muito de gengibre, tem quem não curta tanto o sabor picante dele e prefira as coisa mais suaves. Corte um pedaço e rale. Não se importe com as fibras: use tudo porque no final vamos coar. Esse da foto é o tamanho que ponho na garrafa de 1,5l.

Limão — o limão é usado por dois motivos: a) pra dar gosto; b) pra criar um meio ácido que facilita a multiplicação do “mundo invisível” dos microorganismos, tornando mais rápido o processo. A gente está tentando selecionar as bactérias que provocarão a fermentação. O limão é amigo das bactérias que a gente quer, e inimigo de bactérias que a gente não quer. Ele está aqui pra dar uma mão pra gente. Pra 1l eu uso suco de 2–3 limões (dá 1/4 de xícara de chá).

Açúcar — Aqui a opção não é única. Você pode colocar açúcar branco ou açúcar mascavo; pode colocar melado, rapadura, ou mesmo mel. A ideia desse ingrediente é ser “comida pro mundo invisível”. As bactérias irão processar os açúcares, e transformá-los em ácido láctico e gás carbônico. O resultado disso é que seu Ginger Ale ficará mais azedinho e menos doce com o tempo, e vai se tornar progressivamente gaseificado como um subproduto do processamento. Se tiver um pouco mais de paciência e ousadia, você pode esperar mais alguns dias e deixar que o mundo invisível também produza álcool pra você. Pra isso, não é preciso fazer mais nada além do que estou explicando. Só deixar um pouco mais de tempo a garrafa fermentando.

Quanto mais processado o açúcar, mais rápida é a reação, e mais rápido o Ginger Ale vai ficar pronto. Eu sou paciente (ou gosto de pensar que sou), e por isso prefiro fazer com mel. Se você também quiser exercitar a paciência, o mel é uma ótima escolha por conta do gosto que ele acaba adicionando. No verão o processo todo com mel leva 4–5 dias. Com açúcar branco, seu Ginger Ale deve ficar pronto em 2 dias.

Água — É só colocar na garrafa, nada demais. Na garrafa de 1,5l eu uso 1l de água.

Tem uma única coisa que, caso você esteja se sentindo à vontade na brincadeira, pode ser legal considerar. Pra fazer Ginger ale é melhor quando a água não tem cloro. Isso é um pequeno problema, pois a água que sai das nossas torneiras têm cloro por conta do processo de tratamento que elas passam. Faz todo sentido: o cloro é inibidor do processo bacteriano. Se a gente põe água com cloro, a gente mata as bactérias nocivas, mas isso também afeta em alguma medida o “mundo invisível” que a gente gosta do nosso Ginger Ale. A solução é bem simples: use água que passou por filtro de carvão aditivado. O elemento filtrante dos filtros comuns, aqueles de barro, fazem isso. Se você tiver um desses, sua água do filtro já é declorada. Se não tiver, da próxima vez que for comprar o elemento filtrante, você pode prestar atenção nisso. Outra alternativa — menos sustentável — é usar água mineral.

Mas ó: se hoje você não tiver como arrumar água sem cloro em casa, faça Ginger ale assim mesmo. Lembra do espirito de misturar tudo com tudo e confiar, né? Vai dar certo também, e eu já fiz assim, viu.

Sal marinho não-iodado — Esse é o item mais difícil de se arrumar. Mas caso você não tenha sal não-iodado, a solução é das mais simples: pule esse ingrediente da receita. Ele é dispensável, e eu já brinquei de fazer uma garrafa com sal e outra sem pra ver o que acontecia. As duas viram Ginger ale. Os sabores são diferentes, e eu gosto do resultado com sal, de modo que me sinto tentada a te oferecer a melhor versão do meu experimento. Só por isso pus esse item exótico aqui. E vou te explicar o porquê do sal (e porque ele deveria ser sem iodo pra esses casos).

Pela legislação brasileira, todo sal comercializado deve ser iodado pra prevenir o bócio endêmico. O iodo, no entanto, também funciona como um inibidor bacteriano. Você já viu tintura de iodo na farmácia, ou mesmo o mertiolate? O iodo neles previne infecções bacterianas em machucados. Só que aqui a gente não quer “prevenir bactérias”; a gente precisa delas. Por isso, o sal a ser adicionado deveria ser sem iodo. A sua função é ajudar a formar um meio favorável para as bactérias pra produção de CO2. Os sabor final do Ginger ale que levou sal costuma ser mais pungente.

Se a legislação brasileira proíbe, como conseguir sal sem iodo? Você pode comprar sal importado — o sal rosa do himalaia é razoavelmente encontrável, embora não seja barato — ou você pode comprar pela internet. Quem mora em cidade com salinas também tem facilidade de conseguir o produto. Gasta pouquinho: pra 1l, uso 1/2 colher de chá.

Fermento ou “o mundo invisível” — Minha sugestão é que você use fermento biológico seco, daqueles que se usam para fazer pão. Coisa simples de achar em qualquer mercado, e dá um bom resultado. 1/2 colher de chá é suficiente pra 1l. Se você estiver se sentindo mais valente, use soro de leite. Eu sempre tenho aqui em casa, e é o que eu uso, porque faço queijo e iogurte. Pra entender como você pode conseguir soro de leite, eu explico aqui. 2 colheres de soro pra 1l funciona bem.

Soro de leite ou fermento fresco de pão dão resultados diferentes de Ginger Ale. O fermento de pão costuma fazer um Ginger Ale bastante gaseificado. Já o soro de leite é mais sutil, mas o Ginger Ale parece que fica mais saboroso. O negócio é brincar (e descobrir de que experimento você gosta mais).

A experiência

A garrafa com tudo dentro, no fundo.

Jogue tudo na garrafa, tampe com uma tampa que vede e deixe em um lugar fresco, longe do sol. E fique de olho, porque em alguns dias o líquido vai começar a formar gás. Como o processo é variável, e você pode escolher diferentes ingredientes pra ter diferentes resultados, sua principal tarefa vai ser prestar atenção todos os dias. Aperte a tampa, veja se ela estufou. Ou mais fácil: abra-a para se certificar. Se ouvir o tsssss do gás, é sinal de que seu Ginger Ale está evoluindo e já começou a fermentar. Se não sair gás, espere mais alguns dias. O tempo mínimo pra ficar pronto é de 2 dias. Não há tempo certo, pois você é quem escolhe o ponto que acha mais interessante. Não tem perigo também de passar do ponto. O máximo que vai acontecer de errado é seu Ginger Ale se transformar em um delicioso vinagre de gengibre. E isso levaria pelo menos 2 meses, aliás.

Não se assuste se a garrafa de plástico der uma leve deformada. Isso é sinal de que o mundo invisível muda mais coisas do que a gente imagina.

Quando decidir que está pronto, coloque a garrafa na geladeira. No ambiente gelado, o processo de fermentação diminuirá, e você pode levar vários dias até beber. Quando achar que é hora de saborear, abra e coe com uma peneira antes de servir no copo.

Faça mais vezes e permita-se ser criativo. O gostoso é sempre experimentar. Nada é fixo por aqui. Até ginger ale sem gengibre é possível! Quem decide até onde a brincadeira vai é você.

Não se esqueça do brinde. O de hoje é dedicado às bonitas transformações que o mundo invisível traz pra gente. Tim-tim!


Uma listinha pra sua consulta rápida

Para uma garrafa de 1,5

1 pedaço de 3 cm de gengibre, ralado
1/4 de xícara de suco de limão
1/2 xícara de mel
1/2 colher de chá de sal não-iodado (ou pule essa parte!)
1/2 col de chá de fermento biológico seco OU 2 col de sopa de soro de leite
1l de água

E não se prenda à listinha! Faça sua versão.

Beterrabas, lentilhas e como criar na cozinha experimentando a comida dos outros


Tire um tempo pra tentar entender de onde vem aqueles sabores

Um exercício muito legal que gosto de fazer quando como a comida que os outros me preparam é tentar entender como é que fizeram o prato.

As vezes, basta perguntar.

Quem cozinha gosta dessa demonstração tão concreta de atenção. Mas nem sempre tem jeito da gente conseguir a resposta. Pra esses casos, parar e prestar atenção é um jeito bem interessante de se fazer presente: você precisa se concentrar em tanta coisa pra tentar adivinhar o que foi colocado ali naquele prato, que não dá tempo do pensamento fugir. É um jeito de desenvolver a atenção plena, que toda a vida deveria merecer, mas que nem sempre é fácil de fazer com tanta coisa disputando nossa atenção.

Eu curto começar examinando o que dá pra ver. De preferência, gosto de falar sobre esses elementos, porque é a forma que acho mais fácil pra gravar minhas próprias percepções. Também é um jeito gostoso de continuar a conversa, de fazer quem come com você também estar ali contigo. A gente divide o prato, divide as impressões, e rimos juntos da brincadeira. Depois, passo pra textura, que pode sempre revelar mais alguma surpresa, até finalmente seguir pros temperos, ou pra algum elemento não visível, que são os mais difíceis. E aí da-lhe atenção, e criatividade.

Acho bem gostoso conversar sobre qualquer prato delicioso que experimento. Não me traz só a oportunidade de me concentrar no momento. É uma ótima forma de se aprender sobre combinações de sabores que à princípio não seriam as que eu faria. E também acho que funciona como um jeito bem interessante de guardar a lembrança daquele momento.

Esse é o jeito que encontrei pra recordar sabores não porque eu quero repetir perfeitamente os pratos. O mais gostoso é ver como eu acabo, de algum jeito as vezes inesperado, incorporando os pequenos momentos mais inesquecíveis no meu repertório culinário. Bem-vindo às minhas tentativas e erros, e principalmente às adaptações: pra incorporar é preciso tornar aquilo também seu. E não tenho a menor vergonha de admitir que aprendi muito comendo a comida dos outros.


Foi assim com essa salada de beterraba.

Experimentei esse prato em um restaurante persa que, feito eu, já nem existe mais em BH, porque mudou-se: eles pra São Paulo, e eu pro Paraná. Chamava-se Amigo do Rei. Não tenho ideia mais do nome do prato, e ele não está mais lá no cardápio pra eu tentar recuperar a memória.

Havia beterrabas cozidas, havia lentilhas e havia ovos. A textura era bem macia, e os temperos, naquele dia, me pareceram pra lá de inusitados. Hoje, acho que é o encontro mais bonito que eu posso pensar pras beterrabas. O cheiro que mais aparecia era doce, e eu apostava em noz moscada. Mas lá no fundo, dava pra perceber a pimenta do reino. E outras coisas que queriam puxar ainda mais o doce das beterrabas. Talvez funcho, talvez mel. Ou talvez eu já não me lembre de mais nada.

Refiz essa salada em casa, e tenho plena consciência que é apenas uma vaga inspiração daquele dia. Retirei os ovos, que não me agradam muito, e também o funcho, porque eu nem sei se ele um dia esteve lá. É uma das minhas saladas favoritas:

1 beterraba grande cozida, ralada em ralo grosso
1 xíc. (de café) de lentilhas cozidas (deixe de molho na noite anterior)
1 generosa colher de sopa de mel
Bastante noz-moscada, ralada na hora
Pimenta-do-reino (sugiro pouca, suave, mas fique à vontade)
Uma pitada de sal (não é pra salgar, é só pra realçar os sabores)

Sem segredos: misture tudo, sirva com outras deliciosas saladas. Aproveite a doçura e a picância desta pra equilibrar com outros sabores mais azedos, e também mais salgados. Coma ainda quente também, porque não? Ou crie sua própria versão, como se fosse uma celebração das gostosuras que outras mãos tiveram o carinho de digitar e preparar pra você.

E de tudo, não se importe se esquecer as receitas e os detalhes dos pratos que você provar. Só não se esqueça de uma única coisa: esteja sempre presente nas oportunidades maravilhosas que alguém lhe fizer um prato. Sempre vale a pena.

Basta estar lá!

Este texto foi escrito especialmente pro Marcos, que ganhou de mim um maço de beterrabas que ele ainda não sabe bem como vai usar. Em troca, eu ganhei (mais) um almoço.


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A sazonalidade me tornou mais criativa


Entender a sazonalidade é mais complicado do que prestar atenção no preço. Mas ó, também é mais bonito.

Pra mim esse método nunca funcionou: “compre legumes-verduras-frutas da época porque é mais barato e de melhor qualidade”. Você já ouviu esse conselho. O que não te contaram é que a dificuldade de seguir esse conselho não é exclusivo seu. Eu não só sempre me senti perdida (o que é mesmo que está mais barato do que normalmente é?) como essa lógica nunca serviu pra que, de fato, eu aprendesse as épocas das frutas e legumes.

Entender a sazonalidade é mais complicado do que prestar atenção no preço. Mas ó, também é mais bonito.

No domingo passado, enquanto almoçava, compartilhei na mesa a história de como havia “inventado” um dos pratos que estávamos comendo. Era pesto de agrião. Não sei se isso existe, se mais alguém já fez (é claro que provavelmente já), mas a verdade é que eu fiz sem ter jogado no google ou lido em algum lugar. E essa história tem tudo a ver com ter conseguido, de verdade, me conectar com a sazonalidade. Essa é a minha história de como eu descobri e me conectei com as estações e o que elas produzem, e de como essa sazonalidade, ao invés de ser limitante, se tornou uma coisa muito prazerosa.


É época de quê?

Pra começo de conversa, vamos deixar bem claro: não é culpa sua que você não saiba o que dá em cada época. Não é. E eu também não sabia. Se você vem de um contexto parecido com o meu, é difícil mesmo saber. A verdade é que numa capital, ou melhor, numa cidade, a gente tem à nossa disposição tudo o tempo todo, e isso inclui o que nem produz direito no Brasil. O limite pras compras de coisas frescas nesses lugares é praticamente o tamanho do bolso.

É claro que eu não vou dizer que isso seja uma coisa ruim. Ter um leque de sabores à disposição do seu desejo é realmente uma coisa boa, cômoda. E rica de possibilidades.

Porém, é bom colocar as coisas em perspectiva. A possibilidade de ter tudo o ano inteiro é uma coisa muito recente. Para termos uma produção de todo tipo de hortaliças e olericulturas o tempo todo foi preciso que fossem inventadas algumas técnicas de agricultura, e esse conjunto de técnicas a gente dá o nome de Revolução Verde. Os agroquímicos, a produção em estufa, adubos sintéticos, mecanização do campo: esses são alguns dos responsáveis por essa fartura que a gente vê nas gôndolas.

Só que tudo tem seu preço. Nos tornamos mais dependentes do petróleo, que é usado pra fabricar pesticidas, herbicidas, fertilizantes sintéticos, diesel e gasolina para dirigir o maquinário que planta, colhe e aplica todos os “remédios” que uma produção em larga escala precisa. A longo prazo, nada disso é muito sustentável. Mas valia a pena tentar. É que a Revolução Verde prometia algo imenso: acabar com a fome do mundo. Só que isso nunca se cumpriu. A Revolução Verde trouxe junto com o aumento da produção um desequilíbrio ainda maior em concentração de terras; mudou a forma biodiversa como pequenos agricultores cultivavam, e trocou por monoculturas; tornou os produtores mais dependentes de insumos e menos confiantes no conhecimento que eles tinham. A fome, os revolucionários não sabiam, não era exatamente culpa de falta de comida, mas da falta de equilíbrio, da desigualdade econômica entre as pessoas.

A existência de mercados no superlativo também é uma novidade. Os primeiros supermercados do mundo datam de 1930, e os primeiros supermercados brasileiros apareceram na década de 50, em São Paulo. Eles só fazem sentido em um mundo no qual os meios de transporte e a energia são baratos, em que os combustíveis e os meios de transporte são acessíveis e disseminados. O mundo em que isso existe é o mundo depois da segunda revolução industrial, depois do petróleo.

Esse mundo começou ontem: coisa de 50 anos no Brasil. Nós somos das primeiras gerações em que essa é a realidade desde que nascemos. Pra gente, a sazonalidade é uma coisa que simplesmente não existe. Fruta-legume-verdura não tem época. Sazonalidade é uma coisa quase mística, de fé, porque a bem da verdade você nunca viu.

E como você sabe, fugir do mais comum nesse mundo que nos cerca dá um pouco de trabalho. Foi prestando atenção em coisas à minha volta que comecei a experimentar algumas coisas diferentes com relação às comidas e seus tempos. E que não tinha nada ver com esse lance de “comprar o que tiver mais barato”. Dinheiro é uma coisa tão arbitrária que pode ser completamente esvaziado de sentido. Afinal, é a gente que diz se 10 reais vale muito ou vale pouco. Somos nós que damos valor pro dinheiro. Por isso, saber o que está mais barato é, em grande medida, uma questão de percepção individual. Daí, pra fugir de toda essa subjetividade, o único jeito seria montar uma planilha e atualizar toda semana metodicamente ou decorar de cabeça os preços. O que, convenhamos, não vai acontecer pra imensa maioria de nós: o dia-a-dia não funciona nesse grau de objetividade.

Entender sazonalidade não pode ser decorar preços. Nem decorar o que dá em que mês ou estação. Não é a toa que isso não ligava a chave da minha atenção.

Do mesmo jeito que a gente fala que pra aprender (qualquer assunto) é preciso que as coisas façam sentido, compreender a sazonalidade também precisa dessa compreensão, de que a coisa ganhe significado pra você. Você precisa se conectar com isso de alguma forma.


A história da minha conexão com a sazonalidade

Eu ia começar a contar de como me conectei com as estações e a produção de cada época por um clichê: a época em que eu morei no exterior, e um monte de coisa foi colocada em perspectiva na minha vida. Mas é mentira. Essa conexão já tinha acontecido muito antes.


Eu vejo um embrião disso quando me lembro do sítio da minha avó. Meus avós foram pessoas urbanas. Minha avó nasceu em Belo Horizonte, mas com a ascensão econômica que eles tiveram, e com meu avó tendo sido uma pessoa um pouco mais ligada à terra, eles compraram um terreno no entorno de BH e construíram um sítio. Não era pra morar, nem pra produzir nossa comida. Era lazer, classe média, coisa e tal. Mas essa possibilidade sempre me ofereceu lampejos de que as coisas tinham época. Não era só uma coisa que os mais velhos me contavam. Dezembro era regada a sacolas de mangas, que invariavelmente se perdiam. Eu, aliás, odiava aquela montanha de mangas. Goiabas apareciam no fim do verão, e com elas também vinham algumas goiabadas, feitas em tacho de cobre pela minha avó. É, eu também não gostava porque tinha um certo pavor de doces. Gostava menos ainda dos bichos nas goiabas: goiaba boa era comprada. Já a alface me deixava com raiva: produz fácil e muito no inverno porque não chove tanto… mas eu não queria comer salada quando estava frio. Essas coisas todas fui entendendo pela proximidade — mínima — que existia entre a menina da cidade grande que eu fui e a terra. E repare bem: eu não gostava tanto desse contato. Aquilo estava muito longe das coisas que eu estava acostumada.

Mas é verdade que muitos anos depois, já com mais de 30, eu passei um ano na cidade de Coimbra, em Portugal e outras chaves foram ligando. Naquele ano, passei a frequentar o mercado Pedro V nos sábados de manhã. Sábado era dia em que as senhorinhas do entorno de Coimbra montavam as banquinhas pelo mercado e aquilo se tornava uma espécie de feira livre. Ali eu comecei a perceber a sazonalidade, que num país de clima temperado é mais pronunciado do que no clima subtropical ameno de Belo Horizonte.

Então, quando cheguei no início do verão, todas as bancas estavam cheias de cerejas e morangos. Não era mais barato: era o que tinha. E é claro, isso ficou gravado em mim porque eu me esbaldei de comê-las.

Enquanto o verão ia terminando, apareceram as uvas, seguidas das ameixas e dos diospiros (isso é o nome do caqui naquelas bandas). Depois vieram os figos e as castanhas portuguesas no alto do outono, e no inverno só haviam maças, de um monte de tipos, e frutas secas: os mesmos figos, as mesmas uvas e ameixas da estação passada, mas agora secos. Fazia todo sentido.

Não é uma coisa que eu precisei decorar. Era visível. Porque essa foi a primeira vez que tive oportunidade de comprar de quem também plantava. Essa foi a minha segunda conexão com a terra.

Apesar de ter frequentado esse mercado naquele ano em Coimbra, eu não deixei de comprar em outros lugares. Eu comprava também nas outras bancas, que tinham tudo o tempo todo, incluindo bananas da Madeira e mangas do Brasil. A verdade é que essa experiência me fez apenas enxergar a sazonalidade, e não exatamente seguí-la.



Sabe aquele encanto que a gente tem ao olhar as coisas pela primeira vez? Eu voltei pra casa com o frescor dessa sensação. E estava um bocado determinada a conhecer do mesmo jeito o meu entorno, o meu país.

Fiz algumas mudanças. Não foi da noite pro dia. Elas levaram certo tempo pra tomar forma, quase um ano. Essa mudanças me levaram a me conectar com produtores orgânicos em BH. E de novo, passei a me relacionar com as estações.

Era, de novo, verão. Vieram os maracujás. Muitos maracujás. Dessa vez, eu estava mais disposta a experimentar seguir a estação. Foram tantos meses de maracujás que a certa altura eu precisei repensá-los.

No início, eu fazia suco de maracujá quase todos os dias.

E então comecei a colocar capim limão no suco de maracujá. Testei também com cidreira de folha. E aí, veio o suco de maracujá com caju — que também era época. Fiz mousse de maracujá. Tudo de maracujá. Era necessário criar.

Nesse segundo ano, embora eu estivesse muito mais disposta a encarar a sazonalidade, eu confesso: ainda comprava com certa frequência em outros lugares. E por isso, toda vez que eu queria determinado ingrediente, eu estava salva. Eu estava pronta, mas nem tanto. E tudo bem.


O aprendizado é um processo. Não se constrói sentido da noite para o dia. Foi só no terceiro ano dessa história que eu realmente me senti conectada de vez com as estações.

Um novo ciclo desse processo começou quando me mudei para Pato Branco, no interior do Paraná. Agora era inverno.

Comecei, de novo, me conectando a pessoas. Aos sábados, passei a frequentar a Feira dos Produtores de Pato Branco, onde os pequenos agricultores da região vendem sua produção. Fui conhecendo aquele lugar, o nome das pessoas que plantavam minha comida, as coisas que eles vendiam, as coisas que se passavam com eles.

E vou ser sincera: senti um pouco de medo. A cada semana ficava ansiosa com o que iria achar. Tinha um pouco de vergonha de conversar com os agricultores, e tinha medo de não comer mais as coisas que eu gostava.

Me lembro de querer muito ter alguns tomates para fazer molho e comer com massa. Mas descobri que tomate se plantava em agosto-setembro. Eu estava bem distante de conseguir tomates, já que era o início do inverno. Então pensei que uma solução fosse fazer pesto. Mas eu, que continuava não entendendo de sazonalidade, e nem do clima frio do sudoeste do Paraná, não encontrei manjericão. O manjericão morre nas geadas, feito o tomate. Só iria aparecer no meio da primavera também.

Eu seguia comprando o que encontrava. E fazendo comida com o que aparecia.

Uma das verduras que tinha muito no inverno era o agrião. E olha, eu nem gosto de agrião: acho ardido demais. Sempre comi cru, em saladas. Pra mim, comer agrião desse jeito com o frio que fazia era um de um descabimento sem tamanho. Mas era das verduras que eu mais via. Eu comprava, e passei a inventar. Passei a fazer agrião refogado. Depois, refoguei no óleo de gergelim torrado. Depois, no óleo de gergelim torrado com muito gengibre cortadinho em palitinhos. E num dia, resolvi fazer pesto de agrião.

Estávamos desanimados — mudanças, nos primeiros meses, podem ser muito solitárias. E eu resolvi cozinhar algo especial, pra dar aquela cara de almoço de domingo, só pra nós dois. Fui para a cozinha sozinha. E resolvi experimentar jogar o agrião no processador, junto com castanhas. Era como a receita que conto nessa crônica sobre pestos, apenas trocando o manjericão por agrião cru mesmo. O mais interessante: fiz para servir sobre o arroz integral, acompanhando alguns legumes grelhados. Nem era pra servir como molho de massa.

Gostamos tanto que a primeira vez que recebemos os nossos novos amigos na cidade, esse foi o prato que escolhemos fazer: massa fresca com pesto de agrião. Eu não sabia, mas acho que naquele dia eu estava inventando uma nova vida. Descobri o sabor da sazonalidade. Foi apenas uma criação despretensiosa, mas a ela seguiram-se outras, muitas, com muitos outros ingredientes que sucederam o agrião.

Por um ciclo inteiro — um ano — segui experimentando estar conectada com esta terra onde agora moro e as pessoas dessa terra. Este texto aqui que você está lendo é um pouco como uma celebração: passei por todas as estações, e é inverno outra vez. Este foi o primeiro ano que experimentei a sazonalidade.


Liberdade criativa

Por mais incrível que pareça, há algo interessante também em não ter tudo à sua disposição o tempo todo.

Não é tão repetitivo como a princípio parece. A cada estação, se renovam os gostos, os sabores que predominam variam. Quando o ciclo se inicia, você fica doida por aquele “novo” ingrediente, que não estava lá nos meses passados. Come-se com a boca mais boa, sem precisar de quase nenhum preparo. Em seguida, ele se repete. E é aí que você precisa redescobrí-lo. Você precisa renovar, a cada dia, o sentido. Passei a me sentir incrivelmente criativa na cozinha. A relação não era mais de “descoberta de receitas”, fria, em um índice de um livro ou no google. Era uma coisa muito mais tátil. Com semanas de um mesmo ingrediente na geladeira, você começa a se perguntar o que pode fazer de diferente hoje. E não descobre mais só lendo, pois é algo pra hoje. No dia seguinte, tem aquele mesmo ingrediente de novo. E de novo. Por alguns meses. E aí, você experimenta. Você cria. Você faz. Como sempre se fez. Você se conecta ao que tem, de verdade. E isso é de fato experimentar a sazonalidade.

Não é preciso decorar uma lista. Você se lembra dos ingredientes pela sua memória afetiva, pelas criações, pelas histórias.

Talvez você tenha achado essa ideia de sazonalidade um pouco sem graça. Poxa, a mesma coisa todo dia? A grande sacada é que nunca é a mesma coisa. Penso que, desse jeito, todo dia eu estou contando uma história com a comida. A história que eu escrevo claramente não é uma história das receitas, mas a história dessas descobertas. Só isso já valeria a pena. Mas a verdade é que pra mim, essa conexão me deu limites claros, e me mostrou com o que eu precisava me conectar enquanto cozinhava. Isso significou pra mim uma imensa liberdade criativa. Além da criatividade, a sazonalidade me ensinou que a graça não está em saber como são as estações e sua produção, nem em “seguir a sazonalidade”, só por seguir. A graça está no processo. A graça está na descoberta, na invenção, na experiência.


Talvez isso seja só coisa minha. Toda história ganha sentido mesmo quando a gente mergulha nela. Essa é a minha versão da história: a sazonalidade me conectou com a minha criatividade na cozinha. Talvez pra você a sazonalidade traga outras coisas interessantes. E vai ser ótimo se depois você quiser me contar a sua versão da dessa experiência.

Ilustrações: Carla Soares, usando usando artes digitais da mohaafterdark