Geléia de pêssego, pessegada e mensagens jogadas ao mar em garrafas

Os pêssegos que ganhei em uma foto um pouco desfocada

Não há nada errado em escrever sobre comida

Ganhei duas sacolas imensas de pêssego. Havia muito tempo que eu não ganhava frutas assim, de época, de quem tem quintal, sítio, e árvores frutíferas.

Nunca tinha ganhado pêssegos, de modo que nunca precisei saber o que fazer com muitos deles.

A primeira ideia que tive foi de fazer uma geléia, porque já fiz geléia de outras frutas e sabia que o processo era o mesmo pra todas.

Descasquei os pêssegos, e fui com carinho colocando cada um deles em uma vasilha com água com meio limão espremido — pra não deixar que os pêssegos escureçam enquanto descascava. Pesei os pêssegos — eu tinha 1,5kg, assim, limpos — , e pesei em seguida 1/3 do que tinha de pêssegos em açúcar. Levei tudo na panela, pus a outra metade do limão que sobrou — essencial pra dar o ponto de geléia. Abri um a um meus potes com especiarias, e quando cheirei o cravo da índia tive a intuição de que era aquele o que iria bem com os pêssegos. O líquido no fogo aos poucos engrossou, e a gotinha que tirei com a colher da panela caiu num pires sem se espalhar, e tive certeza que minhas frutas tinham virado geléia.

Mas eram muitos pêssegos mesmo. E eu precisava ir além do que eu sabia fazer assim, de cor-ação.

Joguei no google, e achei essa receita. O blog se chamava Quitandas de Minas, e mineira que sou, achei por bem tomar isso como um sinal dos céus. Segui a receita da anônima Tia Cecy, de Entre Rios de Minas, não sem antes dar minha modificada. Achei inútil o passo de ferver os pêssegos e por isso ignorei. E embora eu tenha mesmo uma peneira de taquara que a receita adverte que eu deveria usar, a minha é um enfeite muito amado, comprado no mercado central de BH, e que fica pendurado na parede da sala. Assim, acabei usando um passe-vite, um instrumento manual que se usa pra amassar legumes e fazer sopa, e estava resolvida. Apreciei especialmente as instruções da receita sobre o ponto da pessegada, e fiquei muito sorridente quando enfiei a faca no doce que ferveu por horas no fogão e o ele não se soltou da faca nas costas da minha mão.

Virei tudo improvisadamente numa forma de bambu japonesa forrada previamente com papel manteiga, que via de regra só uso pra cozinhar legumes ao estilo oriental. Achei bonito. Parei, tirei uma fotografia. Joguei no twitter.

Ainda não cortei o doce, mas desde então não sai da minha cabeça o blog aleatório em que confiei pra fazer essa pessegada.

Eu me furto muitas e muitas vezes de escrever receitas, modos de fazer, ou mesmo histórias sobre comida simplesmente porque julgo que quem lê pode enxergar nessa escrita uma coisa menor, pequena. Talvez nem achem que falar de comida, ou escrever histórias de receitas é escrita. E aí pensei nesse blog, tão aleatório, e assim mesmo tão relevante pra mim naquele dia. Pensei na Tia Cecy, e na Rosaly Senra, a autora do blog que até então jamais antes tinha ouvido falar. Me dei conta do quanto aquela receita de pessegada se parecia com uma mensagem numa garrafa jogada ao mar, escrita assim, despretensiosamente, como quem envia beijos, desejos, pedidos de socorro ou saudades mar afora, e espera quem a encontre. Ou não se espera nada, apenas que a garrafa flutue e navegue pelas águas.

Senti uma vontade súbita de agradecer pelas mensagens na garrafa que encontro mundo afora. E de soltar algumas outras mensagens por aí. Não sei quem apanhará, apenas acredito que vai existir alguém por aí que não vai ficar indiferente ao que escrevi. Alguém que vai achar que receitas podem ser formas bonitas de escritas, que cozinha não é assunto menor, e que o cotidiano é tão significante e insignificante ao mesmo tempo, como somos todos nós.

Não, não há nada errado em escrever receitas ou histórias de receitas. Não há nada errado ou menor em escrever sobre comida. Assim sendo, deixo aqui minhas garrafas boiando, levanto da cadeira, e só resta me deliciar com essa pessegada.


Escrevo outras mensagens na garrafa sobre comida na minha newsletter. Se sentir vontade de apanhar alguma por aí nesse mar, é só assinar: http://eepurl.com/bY94QL

Trabalho inútil




Abrir muitas cascas de amendoim exige um pouco de esforço.

Tirei a tarde pra fazer reparos nas roupas de cama. Remendos, cerzidos, costuras a mão. O tipo da coisa que ninguém mais faz hoje em dia. Tomei a decisão de fazer isso hoje porque ontem uma fronha que tinha um rasguinho acabou cedendo e rasgando de cima a baixo. Não via como consertar. Fiquei triste, pesarosa pela perda da fronha. Queria evitar perder qualquer outra coisa. Gustavo ponderou se não deveríamos arrumar um jogo de cama novo. Não respondi nada.

Peguei um cestinho improvisado de costuras, e todas as roupas de cama que estavam no cesto de roupa suja. Eram uns 3 jogos. Pilhas de jogos sem lavar. Onde eu moro no inverno só faz chover e esfriar e está impossível secar qualquer coisa. Mas até que foi providencial: é mais fácil reparar com as roupas sujas, pra não ter de dobrar de novo.

A primeira fronha que fui reparar tinha um rasgo de bom tamanho, e resolvi fazer com cuidado. Peguei um livro que tenho guardado, e que foi da minha mãe, e o encontrei por acaso nas coisas do meu pai quando ele morreu. Guardei, pensando ter sido da mãe dele. E só fui saber que era da minha mãe quando um dia falei qualquer coisa dele por telefone com ela. Apesar do livro ter pertencido a apenas uma geração antes da minha, eu não cresci aprendendo a reparar nada, e não sei fazer reparos bem feitos. Abri e fui tentando entender o que eu deveria avaliar, e que tipo de pontos a mão iam garantir um resultado melhor.

Enquanto fazia os reparos — eram muitos pequenos furos, e alguns rasgos mesmos, causados pelos gatos que sobem correndo e perseguindo uns aos outros — pensei num interlocutor imaginário que me diria o quanto era inútil o que eu estava fazendo. Obviamente era mais simples ir até qualquer loja e comprar um jogo de cama novo.


Da cadeira de balanço, estendi os olhos pra mesa de apoio na cozinha. Um pacote grande de amendoim nas cascas. Era outra tarefa pro dia, que eu estava adiando a semana inteira. Quando resolvo fazer, é chato, mas também é sempre alegria. O gato Croquete fica animado com o barulho do pacote e dos amendoins chacoalhando nas cascas. Costuma subir no meu colo tentando colocar a pata no pacote e pegar alguma casca. Quando finalmente consegue, persegue o amendoim pela casa como se fosse um outro bicho. Eventualmente ele se cansa, ou o amendoim se perde, e ele volta pro colo, tenta pegar outra casca e a brincadeira recomeça. Meus dedos vão ficando cansados, meio doloridos, meio sujos de terra. Abrir muitas cascas de amendoim exige um pouco de esforço. Nas noites mais quentes acho um pouco mais fácil: deito na varanda na rede, aproveito a brisa, o céu que as vezes tem estrelas, os vasos de plantas e perco meu tempo abrindo casquinhas e nas brincadeiras com croquete. No frio, sobra apenas essa coisa quase meditativa, de ir se concentrar em abrir as cascas e não errar as vasilhas que separam as cascas e os amendoins. Se seu pensamento voa, os amendoins somem na montanha de cascas. E pensar que tanta gente tem aplicativo em smartphone pra meditar.


Quando termina, não termina: é hora de torrar o amendoim. Forno ligado bem baixo, vigia constante. Qualquer minuto a mais e o amendoim passa do ponto. Abro várias vezes o forno, pego um, enfio na boca: não ainda. O cheiro invade a casa. Amendoim torrado, um que meio terroso, parecido também com lenha. O sabor exato eu só sei provando. Confio mais em mim que no relógio. E é hora de não resistir. Como ainda quente, vários, não porque eu mereço depois de tanto trabalho, mas porque estão irresistíveis. Uma delícia. Não se parece em nada com os do supermercado, mesmo quando frios. Enquanto como os amendoins recém saídos do forno, penso em falar pro meu interlocutor imaginário o quanto era inútil o que o supermercado estava fazendo. Obviamente era mais negócio tirar as cascas, meditar, sentir a brisa, brincar com o croquete, e comer amendoim recém-torrado ainda quente.

Acho que, pelo menos por agora, eu não preciso de roupas de cama novas.

Folha de cenoura se come?

Como duas irmãs podem ser tão diferentes? Enquanto eu sempre gostei de verduras e legumes, e de experimentar coisas novas, minha irmã sempre deu muito trabalho pra comer esses três itens.

Ela ainda dá. Receber ela em casa, embora eu sempre fique muito feliz, também é garantia de descompasso. É que eu também tenho minhas preferências, e rejeito quase tudo ultra industrializado (ou aceito só pra agradar o anfitrião). Eu também posso ser um bocado chata com essa mania.

Enquanto éramos pequenas, e minha mãe precisava fazer com que ela provasse as comidas e comesse verduras (não é isso que os pais fazem?), ela sempre tentava alguns truques. Muitas vezes isso só serviu pra deixar a minha irmã mais e mais cabrera de experimentar coisas novas. Mas teve vez que funcionou.

Com uns 4–5 anos de idade, minha irmã não queria provar rocambole. Torcia o nariz mesmo e não adiantava dizer que era doce ou qualquer coisa assim. Daí minha mãe desistiu do rocambole e resolveu apresentar um prato novo pra ela: o “bolo enrolado”. Fez o bolo. Colocou na forma. Mostrou pra minha irmã que estava colocando pra assar. Ensinou e mostrou pra ela como se fazia pro bolo ficar enrolado. Serviu e… ela provou e adorou. Claro, quando ela contou que aquilo era o rocambole, já tinha pego a menina pelo estômago. Mas em outras ocasiões, isso não funcionou tão bem. Misturar outras verduras na couve — uma verdura que a minha irmã comia — era das que menos funcionava. Por fim, ela parou de comer couve.

Só que havia uma verdura que minha irmã gostava, além da couve, e que nunca precisou de qualquer enrolação. Era a folha de cenoura.

Folha de cenoura é um pouco dura pra você simplesmente refogar. É bom cozinhar um pouco mais. Minha mãe fazia um bolinho frito, desses bem dia-a-dia, feito no olho, juntando farinha, leite e ovos com as folhas da cenoura picadas. Fazia um sucesso danado.

O caso é que lá em casa sempre tivemos por hábito comer folhas de cenoura. E me surpreendo quando entendo que as pessoas não o fazem. E que algumas nem sabem que isso é de comer. Além do bolinho, eu costumava fazer omeletes (quando eu comia ovo), e por fim, nesse último ano, o que mais faço é uma torta de liquidificador com folhas de cenoura, porque tenho preguiça de fazer fritura. É assim:

1 maço de folhas de cenoura (a quantidade da foto)
1 copo de farinha de trigo
1 copo de farinha de trigo integral
1 colher de sopa de linhaça deixada de molho em 2 colheres de água
1 e 1/4 copo de água (ou soro de leite, ou leite. o que tiver. já testei todas as versões e todas dão certo)
3/4 copo de óleo
1 cenoura cortada em cubos
1 mão cheia de passas
1/2 colher de chá de bicarbonato
1/4 colher de chá de suco de limão
gergelim, pra finalizar por cima da torta

Pique as folhas de cenoura, que são bem facinhas por já serem muito recortadas, a cenoura e reserve numa vasilha, junto com as passas. De resto, é como qualquer torta de liquidificador: meta tudo no aparelho e aperte o play.

Sim, saborosa!

Se vc quiser uma torta maior ou menor, ajustar é moleza. Repare que pra cada copo de farinha há um copo de líquido, metade com água, metade com óleo. Dá pra colocar mais um de farinha, junto com outro de líquido meio a meio.

A linhaça na água forma uma mucilagem que é equivalente ao efeito de emulsificação do ovo. Se colocar mais um copo de farinha, pode acrescentar mais uma colher de linhaça que não se erra. E adoro colocar um bocado de gergelim por cima de tudo, depois de colocar na forma untada. Faz uma casquinha incrivelmente saborosa.

Linhaça na água, para soltar uma mucilagem antes de ir pra torta

Ponha muita folha de cenoura, porque você vai querer que a torta tenha gosto. Dá também pra colocar qualquer outro legume nessa base que eu sugeri. Eu escolho cenoura porque acho que fica genial: é que depois de 40 minutos no forno, o sabor da cenoura-raiz começa a adocicar bastante, bem diferente do aroma das folhas. No fundo, cenoura e folha de cenoura são duas irmãs, filhas da mesma semente, com sabores bem diferentes. E ainda assim, tão parecidas…

Enquanto pico as folhas, o aroma é incrível. Aliás, se você ver algumas folhas dessas no mercado, belisque. É incrível. Tem cheiro de cenoura, mas ao mesmo tempo tem um cheiro fresco, como convém a uma folha. E o cheiro convence muito mais do que minha receita.

É tão gostoso que nem a irmã que não gosta de verduras conseguiu resistir. E ninguém nunca precisou mentir. Não é nesse texto que eu ia começar.

Segredos de família e biscoitos de cerveja

Não tenho muitas receitas que eu considere de família, mas acumulei algumas “doadas” por outras famílias que me aceitaram como parte das suas vidas.

A primeira receita legado que recebi foi a de uma torta de limão que era esperada a cada festividade na família do meu ex-namorado. Não tem nada demais no feitio da torta, e a massa é clássica de patisserie francesa. O segredo nunca está na receita, mas na mão de quem faz, nas lembranças das vezes que se comeu, na ocasião em que um prato é servido.

A outra receita de família que guardo com carinho são dos biscoitinhos de cerveja da vó do meu marido. Esse é um biscoito que ela sempre faz quando ele vai a Três Corações visitá-la — geralmente perto das festas de fim de ano, ou alguma outra comemoração. A mesa fica abarrotada, mas os biscoitos de cerveja são sempre pra ele. São biscoitos amanteigados, que não levam açúcar na massa, e que por isso e porque a vó sempre insiste que você pegue mais um, come-se uma quantidade maior do que se deveria.

Foi Tia Cátia quem me contou como se fazia. Ela dava tanto valor a essas receitas da sua mãe que a certa altura resolveu organizá-las por escrito. Com medo de que isso um dia se perdesse, resolveu ir escrevendo as receitas de sua mãe, que quase sempre eram feitas de cabeça, ou estavam em papéis dispersos. Ela ia perguntando, anotando, e depois digitou tudo.

Foi assim que recebi a receita dos biscoitos de cerveja:

500g de farinha de trigo
250g de manteiga
1/2 copo de cerveja
Açúcar para passar em volta dos biscoitos depois de assados

Mistura-se os 3 ingrediente com a mão até ficar uniforme e é isso. O mais trabalhoso é enrolar os biscoitos para assar. Tem que se fazer uma tirinha fina rolando por uma superfície lisa, e depois juntar as duas pontas dos biscoitos e torcer, pra ficarem num formato de infinito, feito os da foto. E não precisa untar, que a quantidade grande de manteiga que a receita pede não vão deixá-lo grudar em lugar algum. Assam rapidinho, é preciso vigiar o forno: 15–20 minutos num forno médio e já estão bons.

Tem que colocar os biscoito num prato com o açúcar ainda quente, pra que o açucar grude naturalmente em volta de cada biscoitinho.

Pra receita dar certo ter mãos frias ajudam a enrolar os biscoitos sem deixar que eles fiquem moles, mas o que faz diferença mesmo é ter um pouco de paciência. Não se molda apenas biscoitos, mas toda uma experiência. Quando se faz uma receita querida que já comemos mas nunca executamos, é aí que adicionamos uma outra camada de significado nas coisas que já amamos.

Tereré e chimarrão

As tardes paranaenses. Foto: Gustavo Gazzola

Nas tardes de verão paranaense

Quando me mudei de Belo Horizonte para o sudoeste do Paraná, tudo o que eu sentia era a falta. Falta inclusive, do que eu nunca senti a presença. Saudades do queijo minas, que por anos eu rejeitei. Saudades de doce-de-leite, que eu quase nunca como porque não sou muito afeita a doces. Saudades do cheiro de café, dos restaurantes que eu comia em BH, do pastel frito de queijo minas, ou do quentão feito com pinga.

Eu não conseguia, por muito tempo, encontrar as coisas que me farão sentir saudades do Paraná, se um dia eu sair daqui.

De uma certa forma, é como se gostar dessas coisas novas significasse um abandono das coisas velhas. Me tornaria um pouco mais paranaense, e um pouco menos mineira, um pouco menos do que eu acho que sou.

Uma das primeiras coisas que consegui gostar foram os pinhões. Eu me mudei no início de junho, no meio da época em que eles estão em toda parte. Comprei um pacote cozido ainda na estrada, enquanto íamos com a mudança e nossos três gatos dentro do carro. Desses, eu gostei de cara. Talvez porque naquela oportunidade gostar da comida do lugar parecesse menos ameaçador: parecia ainda um passeio, uma aventura, e não uma coisa definitiva.

Já instalada aqui, tudo me parecia insosso. Passei a chamar o estado de Paranada. Não enxergava cultura, não enxergava identidade, e o que me aparecia não me apetecia. O quentão de vinho tomado na festa junina da cidade, mesmo me parecendo genialmente local, ainda assim só me fez sentir saudades do quentão de pinga. As batatas de taioba que achei na feira naquele inverno me pareceram também uma ideia comestível genialmente inédita, e eu só conseguia sentir a falta dos refogados de folha de taioba que abundam em Minas. O queijo colonial, meu deus, o queijo colonial. Que saudades do queijo minas.

Achei por bem bordar esse quadro com a famosa frase do (mineiro) Drummond. Dependurei na minha sala, ao lado de uma foto de Belo Horizonte (Belo Horizonte agora é só um retrato na parede).

Mas minha maior resistência, sem dúvida, estava num dos elementos mais identitário da região: o chimarrão. No sudoeste paranaense, todo impregnado da cultura gauchesca, a cuia é elemento onipresente. E me parece um hábito bizarro, não decifrável. Não entendia qual a gostosura dele. Perdi a conta de quantas vezes me ofereceram chimarrão e eu não quis nem provar. Chimarrão, meus amigos, não. Eu sou do povo do café.

Sem perceber, no entanto, eu comecei a curtir algumas coisas. Comecei a gostar dos amigos, do ritmo da vida. Da possibilidade de conhecer quem planta minha comida. Da disponibilidade pra conversa, dos cafés — que assim seja, respeitando quem eu ainda acho que sou. E por conta desse ir gostando, o inverno da estação e da alma passou, e eu resolvi experimentar um tereré.

Os gaúchos vão achar uma heresia, mas foi por aí que eu me rendi. O elemento é menos gauchesco, e talvez por isso, fiquei com menos medo. Tereré é a versão paraguaia (do Paraguai mesmo, e não “falsificada”) do mate, com a particularidade de que se bebe com água gelada. Muitas vezes se adiciona limão, hortelã, ou boldo junto à erva. A bomba (o “canudinho” metálico para se tomar o tereré ou chimarrão) é colocada no copo, seguida da erva, e depois se completa com a água. A erva mate do tereré é triturada bem mais grossa em comparação com a do chimarrão, e deve preencher enquanto seca entre metade e 2/3 do copo. Também é diferente o recipiente utilizado: não é preciso a cuia de purungo — que é uma espécie de cabaça — para apreciar a bebida. A cuia do tereré é chamada de guampa, que também significa “cuia” mas costuma ser feita de chifre de boi. No entanto, ao menos por essas bandas, dá pra usar um copo tranquilamente sem parecer um absurdo. E como por aqui o tereré não é sinônimo exatamente de tradição, também aparece a liberdade de se avacalhar: tem quem ponha suco de pozinho, refrigerante e outras coisas (equivocadas, diga-se de passagem) do gênero.

Socialmente, beber tereré é bem parecido com beber chimarrão. O copo ou a guampa circula entre os que conversam, e cada um que pega o copo o completa com a água gelada, e bebe até terminá-la. Chegando ao fim, passa ao próximo, que faz de novo a mesma coisa. Ah! E nunca, não, em tempo algum, por favor, não mexa na bomba. Mexer na bomba pode levar a um entupimento dela e estragar a diversão. E parece, também quebra a tradição.

Tive coragem de aceitar o tereré pela primeira vez na casa de um amigo, numa roda de umas 8 pessoas que conversavam sentadas no quintal, no fim de uma tarde de verão. Era uma tarde fresca, na qual havia um pão assado por esse amigo, e uma torta salgada e uma pasta de berinjela que eu levei para o encontro. Abrimos primeiro um vinho branco, e tudo parecia tão bucólico e descontraído. Quando a garrafa de vinho acabou, apareceu um copo de tereré, e não sei se foi efeito do vinho, ou ter me sentido tão parte de tudo que me levou a provar a bebida.

Depois desse dia, passei a perguntar um pouco mais sobre como preparar tereré, e que erva comprar, ou como escolher uma bomba. E quando achei que aprendi, passei a incorporar um copo de tereré às minhas tardes, enquanto lia e escrevia.


Me dei conta do quanto pode ser difícil se render às tradições do gosto quando minha mãe veio passar suas férias conosco. Eu tinha uma caixa de erva para tereré, e ofereci da gente tomar. Ela aceitou, provou, e gostou. Pediu no outro dia outro copo. Assim, ó: “faz outro tereré pra mim”. Não havia nada demais naquele copo. Era só o compartilhar de uma descoberta com a filha. A partilha, logo ela, que é o coração dessa tradição de cuias e bombas, foi quem deixou mais claro porque eu tinha tanta aversão em provar chimarrão, e qual era o meu medo: me dissolver no novo e ficar perdida, entre o que se foi e o que será, entre minas e o paraná, e não ser absolutamente nada. Paranada.

As férias da minha mãe coincidiram com o fim do verão. Eu já estava com medo dos dias frios voltarem, e pra falar a verdade a essa altura eu me ressentia de não ter aproveitado mais tempo as tardes de verão paranaenses com tereré. Mas para contrariar as expectativas, o outono não deu as caras quando era sua vez e esses dias de férias foram muito quentes, uma rebarba do verão. A gente pôde saborear vários tererés. Era um pouco a mistura do novo e do velho: a estação que passou na estação que já deveria ter vindo, e a família mineira curtindo as tarde paranaenses, tomando tereré com um pedaço de queijo. Nem tudo desaparece sem deixar rastro quando o novo chega, embora as vezes possa ser meio difícil engolir o novo. Mas ao que tudo indica, no próximo inverno, pode ser que eu finalmente aceite algum convite pra compartilhar o chimarrão. Torçam por mim, ou me convidem.

Caldo verde

Quadro na cozinha. O desenho fiz quando me meti a lembrar d’Os Maias, de Eça de Queiroz. Minha cozinha agora pode ser descrita como a d’O ramalhete.

com a textura da memória afetiva

Contamos enquanto comíamos: lá se vão 3 anos. Tive poucas oportunidades de experimentar caldo verde em Portugal, pois na maioria das vezes ele vinha com chouriço. E eu sou vegetariana.

Das vezes que tive a oportunidade de provar, a maioria das vezes creio que tenha sido no restaurante universitário da Universidade de Coimbra. Claro, nenhum primor, como seria de se supor. Era sempre ralinho, mas muito do meu gosto: adoro sopa rala. O tempero era suave, como parece sempre apetecer aos portugueses temperar tudo. Era servido sempre com broa de milho ou algum pão: “Sem pão no almoço, o que é que se come?” foi o que perguntou um estudante da universidade a outro que já esteve em Porto Alegre em intercâmbio, e se assustou com a ausência de pão nas refeições brasileiras. Ora, todo o resto! — eu responderia.

Outro caldo verde que mais me lembro de comer em Portugal é o meu próprio. Comprava couve na feira — que já vem picadinha, pois eles a passam nas máquinas na sua frente. E comprei um passevite, já que não tinha nenhum utensílio que servisse para fazer sopa. Não queria gastar em nenhum eletrônico, porque eu tinha algumas coisas já no Brasil, e foi assim que esse instrumento apareceu na minha vida. Não tem nenhum segredo: colocam-se as batatas cozidas, roda-se a manivela, e aos poucos a batata (ou qualquer outro legume) vai passando amassada pelos furinhos. A textura final do caldo, no entanto, é a minha maior memória afetiva desses dias. Não fica homogênea como se batido por liquidificador ou mixer; pequenos pedacinhos acabam restando, e parecem pequenos concentrados de sabor. Longe de ser uma falha na sopa, é uma delícia que deixa brincar de adivinhar do que ela é feita.

Esse é o meu passevite, que trouxe da minha estada em Coimbra.

E vejam, que lindo: ele tem uma alcinha que é feita para se acoplar à panela, que vai recebendo a batata amassada sobre o alho dourando. Nada mais caseiro, com cara de cozinha do dia-a-dia.

Aqui no Brasil, para mim, o caldo verde sempre costumava ser de mandioca, e na maioria das vezes é assim mesmo que eu faço. Mas no domingo sobraram 3 batatas cozidas de bom tamanho, tinha couve e um vidro de azeite português, o último, que trouxe da vez que estive por lá por 10 dias no ano passado. Foi assim que esse caldo surgiu:

4 batatas médias (em torno de 400g)
1 maço de couve
1–2 dente de alho
sal
azeite, quando o prato já estiver pronto

O pão de acompanhamento, dessa vez, faltou. As batatas, pra falar a verdade, também estavam poucas, mas eu tinha alguns cará-moelas. Cozinhei dois deles e usei para completar. Não alteraram muito o gosto, embora se notasse lá no fundo que algo estava diferente. Mas é bom que a sopa não seja sempre a mesma, embora, é claro, é sempre bom ver um elemento ou outro que se perdure ao longo do tempo. A memória afetiva é um pouco assim, desse jeito: é uma delícia recordar, e a gente tem medo que aquele tempo bom não volte nunca mais. É uma delícia poder lembrar desse tempo em Portugal, mas eu espero que novas memórias deliciosas apareçam. E só tem um jeito de deixar que isso aconteça: é experienciando coisas novas. É pensando nisso que eu tento não ter medo de olhar fotos daqueles dias, e de comer essa comida com a textura da memória afetiva. E da próxima vez, vou torcer pra eu conseguir fazer um caldo verde só de cará-moelas.



Três momentos afetivos e saborosos: eu, cheia de carrapichos depois de entrar no mato para catar figos num passeio pelo rio Dão; namorado no piquenique na beira do mondego; e eu segurando uma castanha portuguesa catada na beira de uma estrada no alentejo (e vários vovôs com seus netos faziam o mesmo)