Salpicão vegetariano com batata yacon

Ando muito entusiasmada com a batata yacon, e como está sendo a época de colheita dela por aqui, estou tendo isso em casa direto. E aí haja experimentação com elas.

Tinha contado em outro post sobre a yacon como o gosto lembra uma maçã menos ácida e perfumada com jambo, e por isso, facilmente consigo pensar de colocar a batata em quase toda receita que leva maçã. Foi assim que acabei criando esse salpicão com yacon.

Por muito tempo torci o nariz pra nomes de receita que imitavam o nome de um prato tradicional com carne (estrogonofe vegetariano, bobó vegetariano, picadinho de carne vegetal e por aí vai), porque de uma certa maneira isso significa que ainda estamos tendo a carne como centralidade dos nossos pratos, e o vegetarianismo é só uma alternativa a esse sistema, e não uma maneira nova de pensar como se relacionar com a comida. Então sempre preferi criar outros nomes, falar de outro jeito, pra marcar uma outra lógica.

Ser vegetariano, no entanto, nunca me pareceu ser cheio de certezas e sim estar constantemente fazendo perguntas.

Ao longo do tempo, percebi que os nomes que apropriamos de pratos que já existem são jeitos da gente também se sentir um pouco parte do mundo. Comida tem esse lado afetivo de pertencimento importante, e usar um nome comum pra falar de uma comida é um jeito de tentar ser compreendida, de dizer que não somos tão diferentes assim. Fazer parte é uma coisa boa, um desejo completamente humano, então não há nada tão errado em chamar as comidas pelos nomes de pratos semelhantes que já existem.

Você pode chamar esse prato de outra coisa se quiser, mas com certeza existe uma semelhança com o salpicão. Além da substituição do frango pelo broto de feijão, também fiz outras modificações (a batata yacon no lugar das maçãs é uma delas). Sei que receita de salpicão é o tipo da coisa cada um tem o seu, então sempre é válido fazer do seu jeito.  Esse que fiz é um prato rápido de executar, se sustenta praticamente sozinho na mesa, é muito colorido (tem coisa mais linda que prato colorido?), e um jeito muito interessante de usar a yacon. Vale muito a experiência:

 

SALPICÃO VEGETARIANO COM BATATA YACON

2 cenouras raladas
1 espiga de milho cozida (cerca de 1/2 lata de milho, caso prefira usar o de lata)
1 batata yacon grande ralada
3 colheres de sopa de passas
1 mão cheia de broto de feijão (que dá pra fazer em casa)
Salsinha e cebolinha picada miúda
1 copo de iogurte natural (que também dá pra fazer em casa)
sal e azeite à gosto

Batata palha para servir

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Como fica o salpicão no final

1. Comece ralando as cenouras e a batata yacon, em ralo grosso;

2. Debulhe uma espiga de milho usando uma faca. Geralmente esse é um truque que sempre faço: toda vez que cozinho milho pra comer de lanche, tento fazer uma quantidade maior. As espigas que sobram eu debulho com a faca e congelo. Assim, quando quero milho ele está sempre à mão, tão prático quanto os de lata, mas sem conservantes, sem gerar lixo, mais barato, e sem ser transgênico. Nem é preciso se preocupar com fazer porções adequadas porque descongelar é bem simples. Os milhos congelados se soltam fácil, então dá pra quebrar com as mãos a quantidade que você precisa na hora;

milho

3. Acrescente o broto de feijão, as passas e a cebolinha.

4. Despeje o iogurte por cima, o sal e o azeite à gosto e misture bem. O iogurte é minha alternativa no lugar da maionese, pra uma versão mais leve, e é surpreendente o quanto fica bom.

5. Sirva à mesa com uma vasilha com batatas palha. Você pode opcionalmente também colocar por cima do salpicão pronto, mas não recomendo misturadas. Assim elas ficam mais crocantes.

Som Tam, uma salada tailandesa feita com mamão verde

Uma coisa muito boa de se fazer pra aprender a se relacionar com ingredientes que não são convencionais pra gente é olhar outras culturas. Muitas vezes aquilo que é exótico e bizarro pra gente é uma coisa comum em outro lugar. Aprender a olhar com carinho pra essas diferenças nos ensina a aumentar nosso repertório, e entender que não tem um jeito certo de fazer uso dos ingredientes.

Uma receita que acho sensacional pra perceber isso é a do Som tam. É uma salada tradicional tailandesa, feita de mamão verde com um molho bem apimentado. Apesar de parecer estranha, os ingredientes são muito familiares pra gente: todos são comuns no Brasil, mas a gente usa eles de um jeito bem diferente.

Mamão verde ainda é considerado não convencional por aqui, mas a verdade é que a gente também usa pra fazer algumas coisas. A mais conhecida é a compota do doce de mamão verde, um doce tradicional que é feito com muito esmero em Minas Gerais usando tacho de cobre pra que as tirinhas mantenham o tom verde brilhante bem atraente. Outro uso do mamão verde, na roça, que aprendi a fazer com a minha avó, era tirar a casca, cortar em cubinhos pra refogar na cebola, e jogar cheiro verde por cima. É como a gente faz com o chuchu – e o gosto, inclusive, fica bem parecido.

Mas assim cru, como salada, é um uso que dificilmente a gente imagina. E fica delicioso, levemente crocante na boca.

Além do mamão verde, um outro legume considerado PANC é usado no Som tam: o feijão-de-metro. Ele é uma vagem comprida, mais macia do que as vagens mais comuns que a gente encontra por aí, e tem uma particularidade que a torna muito interessante pra usar nessa receita: ela é macia a ponto da gente poder comer crua.

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Estas são as vagens verdes do feijão-de-metro

O feijão-de-metro (ou vagem-de-metro) é uma subespécie do feijão-de-corda (ambos são da espécie vigna unguiculata), este sim um feijão mais conhecido e consumido no norte e nordeste do país, mas que geralmente aproveitamos mais os feijões do que as vagens verdes.

Se você não tiver acesso ao feijão-de-metro, pode experimentar fazer o som tam com vagem manteiga que também dá certo (já experimentei). Mas não custa procurar e valorizar essas culturas menos conhecidas.

A receita que estou reproduzindo aqui não é minha, mas uma tradução da receita do Instituto culinário May Kaidee, que fica em Bangkok, que foi onde aprendi a fazer esse e alguns outros pratos. O livro da May Kaidee, aliás, é uma pequenas pérola que recomendo muito. As receitas são todas veganas, simples de executar, os ingredientes não são complicados (alguns a gente encontra em empórios orientais, e outros a gente vai adaptando, e o livro até sugere possíveis substituições) e ela, no curso, ainda incentivava que a gente cozinhasse cantando.  Como não amar, né? Dá pra comprar a versão digital do livro (em inglês) no link.

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Eu aprendendo algum prato na May Kaidee (certamente não o Som tam, que não vai fogo)

 

SOM TAM (SALADA TAILANDESA DE MAMÃO VERDE)

1 ou 2 pimentas chilis frescas
4 vagens de feijão-de-metro (pode substituir por outra vagem caso não tenha acesso)
5 ou 6 tomatinhos cereja cortados ao meio
2 dentes de alho pequeno
1 colher de sopa de castanha de caju quebrada
2 colheres de sopa de suco de limão
2 colheres de sopa de shoyo
1 colher de sopa de açúcar
1/2 mamão papaia verde ralado
2 cenouras médias raladas

  1. Comece preparando o molho. Coloque em um pilão as pimentas frescas e o alho, e soque até fazer uma pasta. Em seguida coloque os tomates, as castanhas e as vagens e esmague-os junto com a pasta de alho e pimenta, misturando tudo.
  2. Acrescente ainda no pilão o suco de limão, o açúcar e o molho shoyo, e misture bem.

 

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O molho deve ficar mais ou menos assim no pilão

3. Coloque o mamão verde e as cenouras raladas em ralo grosso ou mandolin em uma vasilha para servir, e despeje o molho por cima. Misture incorporando o molho. Sirva puro ou acompanhando arroz jasmine ou arroz japonês.

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Aparência final do Som tam, com algumas castanhas extras por cima por minha conta. Bom apetite!

Como fazer Hanaume, uma conserva salgada de hibisco

É temporada de hibisco por aqui, e estou me esbaldando em fazer muito suco fermentado, chazinho de noite, geleia e até encomendei as folhas pra provar o famoso arroz de cuxá, um prato típico maranhense feito com elas.

Uma coisa que gostamos muito de experimentar no ano passado e também estamos repetindo foi a conserva de hibisco salgado. É uma preparação simples, que começou a ser feita pelos imigrantes japoneses quando não conseguiam importar as umeboshis (ameixas japonesas curtidas em sal e shissô) e que caiu no gosto da comunidade. O gosto das umeboshis é salgado, azedo e levemente picante, e fica delicioso pra comer com arroz japonês e outros legumes cozidos no vapor. A conserva de hibisco salgado é conhecida como hanaume, e em alguns lugares o próprio hibisco é chamado de ume pela semelhança com as tais ameixas.

Eu aprendi a fazer hanaume no blog da Marisa Ono. O processo é muito simples, mas como lá não tinha um registro fotográfico dele, e fermentação é um processo que poucas pessoas estão familiarizadas, as vezes ficamos inseguros. Resolvi então fazer um registro fotográfico do passo a passo, pra que mais gente se anime a experimentar, pois é delicioso:

  1. Comece limpando as flores do hibisco. É só você cortar o fundo das flores e puxar pra tirar o centro delas. Essa forma ovalada verde ou marrom (varia de acordo com a “madurância” das flores)  guardam as sementes. Aproveite e guarde, seque, e plante na próxima primavera.DSC_0364.JPG
  2. Lave as flores e coloque em um recipiente de vidro que tenha tampa, e coloque sal. Você deve colocar sal na proporção de 10% a 15% do peso das flores. Nesse vidro pequeno couberam cerca de 55 flores (vale espremer levemente). Isso equivale a cerca de 150g de flores. Assim, acrescentei 15-20g de sal grosso não-iodado (preferencialmente, pois o iodo inibe a fermentação que queremos fazer, mas se você não tiver acesso a esse tipo de sal, faça com o que tiver). Isso equivale a 1 colher de sopa. Faça as contas da quantidade de sal para quantidade de hanaume que você quiser fazer.DSC_0379.JPG
  3. Aguarde alguns dias. As flores vão murchar e soltar líquido lentamente. Este processo é bem variável pois depende do frescor das flores, do clima que está fazendo, etc. 
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    Dia 2. Repare como o sal foi absorvido e as flores murcharam e soltaram água

     

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    Dia 3. Aquele vidro cheio virou um só um tiquinho de flor compactada no fundo

     

  4. Quando as flores tiverem murchado bem (em torno de 3 dias, aperte-as ao fundo. Verifique a quantidade de água que soltou. Pode ser que você precise acrescentar um pouco mais de salmoura pra que as flores fiquem totalmente cobertas. Use a proporção da conserva: 10-15% de sal na quantidade de água. Para segurar as flores submersas você pode utilizar alguma outra coisa de vidro. Aqui utilizei um copinho de licor. Esse processo é importante pra que as flores não mofem eventualmente, e assim, durem por meses.

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    Acrescentei salmoura e um copinho de vidro, pra manter as flores submersas
  5. Fica pronto para comer depois de mais ou menos uma semana do início do processo. Você pode armazenar na geladeira, ou também pode deixar fora. Bom apetite!

O nome que a gente dá pras coisas

Durante o trajeto de ida da viagem, enquanto olhávamos a paisagem passando pelas janelas do carro, falamos um bom tempo sobre como em cada lugar damos nomes diferentes a uma mesma coisa. Uma plantação de bergamota em Minas Gerais não existe: é plantação de mexerica. Um potreiro no sul se transforma num pasto no sudeste. E tá vendo ali aquele jipão? Pois ele é fogão de lenha, construído de alvenaria, porque os de ferro que são mais comuns no sul nem se encontram mais pra cima.

Essas curiosidades me faziam pensar sobre a quantidade de pequenas dobras linguísticas que acabo sendo obrigada a fazer por morar em outro lugar. São pequenas, quase sempre invisíveis, e parecem mera curiosidade, motivo de riso, mas também são lembranças do quanto estou fora do meu lugar. Dobre a língua, menina, antes de falar.

Tirei essa foto dos limões em BH, no Mercado Central, como mais uma lembrança dos tortuosos caminhos das palavras. Em BH, esse limãozinho é difícil de encontrar. Certo mesmo, que eu soubesse, só no Mercado Central, mas as vezes via em feiras, as vezes ele aparecia vindo de algum sítio.  Eu ouvia chamarem que nem mostra a placa, de capeta, e sempre me fazia pensar que esse limão era mais ácido que o outro, aquele verde que a gente achava em qualquer lugar.

Aqui no interior do Paraná chamam ele de “limão”. Assim, sem nenhum adjetivo, porque ele é besta, comum, quase todo mundo tem um pé no quintal. Adjetivo quem merece são os outros, mais raros e por isso mais ilustres.

Andei perguntando no twitter que nome as pessoas davam a esse limão e adorei as respostas que apareceram: limão rosa, que descreve bem a cor laranja-rosado da casca; limão cravo, e acho um nome muito bom, porque me fala do quanto ele é aromático; limão galego, que muita gente ficou em dúvida se era ou não certo, mas se tanta gente dá esse nome, certo fica sendo; e teve até quem me dissesse que no RS isso se chama limão gaúcho, e me fez achar graça do conhecido bairrismo desse povo (mineiro não pode falar muito pois também somos bem bairristas, então melhor eu ficar quieta).

Gosto de ficar olhando pra essas diferenças linguísticas porque elas dizem de jeitos diferentes de conceber e viver as coisas. Enfatizam alguma coisa em especial: a pungência, a cor, o aroma, a frequência ou o apreço pelo regionalismo.

Os motivos pra se nomear algo nunca são puramente linguísticos. Nas PANCs a gente percebe bem uma característica desse processo de dar nome às coisas. Se várias espécies consideradas PANC recebem nomes que terminam com “do mato”, “de anta”, “de macaco”, “de pobre” é porque carregam uma desvalorização em vista de outras plantas, mas que não condizem com a realidade dos seus sabores, texturas e cores.  A ênfase, como se vê, fica em outros aspectos. Nomear algo, afinal, é uma ferramenta poderosa para ordenar e estruturar como percebemos o mundo. Diferente do limão, os nomes de PANC não enchem os sentidos, mas sim nossa cabeça de desconfianças. Então, pra conhecer e falar do gosto, do cheiro, da riqueza ou do uso é preciso superar o destaque dado na frequência, na relação econômica e na vulgaridade que os nomes sugerem pra gente. Conhecer os nomes é bom, mas também engana. Nesses casos, é preciso botar o nomeado na mão, no nariz, na boca, no prato.

 

A “autêntica” alegria dos pepinos japoneses agridoces

Uma das últimas coisas que fiz antes de mudar de cidade foi levar minhas plantas de presente pra minha mãe, e deixar um papel com a receita dos pepinos japoneses com ela, porque essa era uma das coisas que ela adorava que eu fizesse pra ela. Minha mãe nunca gostou de comida japonesa.

As vezes tendemos a pensar numa determinada comida em um único lugar, sem enxergar as potencialidades que os sabores tem de ser realocados, repensados, conjugados.

Os sunomonos, aqueles pepinos japoneses agridoces que sempre acompanham os pratos frios japoneses, são um caso interessante pra você brincar de misturar o sabor de uma culinária com outras comidas que não a de origem.

Gosto muito de servi-los como uma salada, junto com outras. O sabor agridoce que caracteriza os sunomonos serve como tempero interessante pra saladas de folhas verdes, se servidos em conjunto. Outras saladas mais salgadas também vão bem como acompanhamento desse prato.

E o melhor de tudo é que os pepinos são fáceis de fazer, não precisam de ingredientes caros e especiais e se conservam bem por vários dias. Eles levam pepinos, açúcar, shoyo, sal e vinagre. Gergelim e gengibre vão bem, mas são opcionais.

Minhas anotações originais. Escrevi em inglês porque pesquisava em sites estrangeiros. Fui fazendo pequenas correções misturando várias sugestões de receitas, e ainda risquei mais vezes depois que fiz e aperfeiçoei ao meu gosto.
  1. Comece fatiando os pepinos. Aqui dou as quantidades de molho pra 2 ou 3 pepinos, modifique conforme sua necessidade. O ideal é fatiar em um processador, pra te economizar tempo, esforço, e deixar as fatias o mais uniforme possível. Usar um fatiador manual, ou cortar as fatias com uma faca também são viáveis, claro. Faça o corte mais fino que for possível em todas essas situações.
  2. Depois, coloque bastante sal sobre os pepinos em um escorredor. Deixe escorrer por 20 minutos e em seguida aperte os pepinos pra espremer a água. Não tenha medo, eles não irão se desfazer. O segredo desse pepino é essa etapa. Drenando bem a água do pepino, aumentamos sua durabilidade, e os deixamos crocantes, mesmo que eles fiquem alguns dias na geladeira.
  3. Enquanto você espera que a água do pepino escorra, faça em outra vasilha o molho que deverá cobrir os pepinos assim que eles estiverem drenados. Misture assim:

    3 col de sopa de vinagre
    2 col de sopa de açúcar
    1/2 col de sopa de shoyo
    Um pouco de gengibre picado bem miudinho (opcional)
    Gergelim a gosto, salpicado por cima

Na primeira imagem, pepinos fatiados sobre o escorredor com sal (antes de misturar). Na segunda, a água que espremi dos pepinos (sai bastante mesmo). E na última, o molho agridoce esperando para se misturar aos pepinos.

Quando fizer o molho, não se esqueça de mexer pra dissolver o açúcar. Depois é só derramar sobre os pepinos drenados, misturando com o gengibre (caso você tenha utilizado), e salpicando gergelim por cima.

Use o vinagre que você quiser. Quanto melhor o vinagre, mais gostoso será seu sunomono. Na última vez que fiz, usei um vinagre de maçã bem bom. Naturalmente que se você tiver vinagre de arroz, comum na culinária japonesa, o resultado poderá ser mais “autêntico”. Mas quer saber? Autêntica é toda comida que a gente faz com alegria, que alimenta não só o corpo mas também a alma. Toda vez que faço sunomono eu me lembro da expressão de alegria da minha mãe ao comer os pepinos, mesmo nunca tendo gostado de comida japonesa; e de ter me despedido dela entregando essa receita. E são esses sentimentos genuínos que alegram nossos corações.

Tereré e chimarrão

Quando me mudei de Belo Horizonte para o sudoeste do Paraná, tudo o que eu sentia era a falta. Falta inclusive, do que eu nunca senti saudades. Falta do queijo minas, que por anos eu rejeitei. Saudades de doce-de-leite, que eu quase nunca como porque não sou muito afeita a doces. Saudades do cheiro de café, dos restaurantes que eu comia em BH, do pastel frito de queijo minas, e do quentão feito com pinga.

Eu não conseguia, por muito tempo, encontrar as coisas que me farão sentir saudades do Paraná, se um dia eu sair daqui.

De uma certa forma, é como se gostar dessas coisas novas significasse um abandono das coisas velhas. Me tornaria um pouco mais paranaense, e um pouco menos mineira, um pouco menos do que eu acho que sou.

Uma das primeiras coisas que consegui gostar foram os pinhões. Eu me mudei no início de junho, no meio da época em que eles estão em toda parte. Comprei um pacote cozido ainda na estrada, enquanto íamos com a mudança e nossos três gatos dentro do carro. Desses, eu gostei de cara. Talvez porque naquela oportunidade gostar da comida do lugar parecesse menos ameaçador: dentro do carro ainda parecia um passeio, uma aventura, e não uma coisa definitiva.

Já instalada aqui, tudo me parecia insosso. Passei a chamar o estado de Paranada. Eu mal conseguia entender e apontar o que era daqui de verdade, e o que me parecia ser não me dava curiosidade. O quentão de vinho tomado na festa junina da cidade, mesmo me parecendo genial, ainda assim só me fez sentir saudades do quentão de pinga. As batatas de taioba que achei na feira naquele inverno me pareceram também uma ideia comestível inédita, e eu só conseguia sentir a falta dos refogados de folha de taioba que eu comia em Minas. O queijo colonial, meu deus, o queijo colonial. Que saudades do queijo minas.

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Mas minha maior resistência, sem dúvida, estava num dos elementos mais identitário da região: o chimarrão. No sudoeste paranaense, todo impregnado da cultura indígena e gauchesca, a cuia é elemento onipresente. E me parece um hábito bizarro, que eu não conseguia entender. Eu não via como aquilo ali ia ser gostoso, nem entendia como conseguiam tomar aquilo no calor. Perdi a conta de quantas vezes me ofereceram chimarrão e eu não quis nem provar. Chimarrão, meus amigos, não. Eu sou do povo do café.

Com o tempo, no entanto, eu comecei a ter menos medo de algumas dessas coisas. Comecei a gostar dos amigos, do ritmo da vida. Da possibilidade de conhecer quem planta minha comida. Da disponibilidade pra conversa, dos cafés — que assim seja, respeitando quem eu ainda acho que sou. E por conta desse ir gostando, o inverno da estação e da alma passou, e eu resolvi experimentar um tereré.

Os gaúchos vão achar uma heresia, mas foi por aí que eu me rendi. O elemento é menos gauchesco, e talvez por isso, fiquei com menos medo. Tereré é a versão paraguaia (do Paraguai mesmo, e não “falsificada”) do mate, com a particularidade de que se bebe com água gelada. Muitas vezes se adiciona limão, hortelã, ou boldo junto à erva. A bomba (o “canudinho” metálico para se tomar o tereré ou chimarrão) é colocada no copo, seguida da erva, e depois se completa com a água. A erva mate do tereré é triturada bem mais grossa em comparação com a do chimarrão, e a gente deve preencher com ela entre metade e 2/3 de um copo. Também é diferente o recipiente utilizado: não é preciso a cuia de porongo — que é uma espécie de cabaça — para apreciar a bebida. A cuia do tereré é chamada de guampa, que também significa “cuia” mas costuma ser feita de chifre de boi. Mas ao menos por essas bandas dá pra usar um copo tranquilamente sem parecer um absurdo. E como por aqui o tereré não é sinônimo exatamente de tradição, também aparece a liberdade de se avacalhar: tem quem ponha suco de pozinho, refrigerante e outras coisas do gênero.

Socialmente, beber tereré é bem parecido com beber chimarrão. O copo ou a guampa circula entre os que conversam, e cada um que pega o copo o completa com a água gelada, e bebe até terminar. Chegando no fim, se passa pro próximo, que faz de novo a mesma coisa. Ah! E nunca, não, em tempo algum, por favor, não mexa na bomba. Mexer na bomba pode levar a um entupimento dela e estragar a diversão. E parece, também quebra a tradição.

Tive coragem de aceitar o tereré pela primeira vez na casa de um amigo, numa roda de umas 8 pessoas que conversavam sentadas no quintal, no fim de uma tarde de verão. Era uma tarde fresca. Essa amigo tinha assado um pão, e eu levei uma torta salgada e uma pasta de berinjela pro o encontro. Abrimos primeiro um vinho branco, e tudo parecia tão bucólico e descontraído. Quando a garrafa de vinho acabou, apareceu um copo de tereré, e não sei se foi efeito do vinho, ou ter me sentido tão parte de tudo que me levou a provar a bebida.

Depois desse dia, passei a perguntar um pouco mais sobre como preparar tereré, e que erva comprar, ou como escolher uma bomba. E quando achei que aprendi, passei a incorporar um copo de tereré às minhas tardes, enquanto lia e escrevia.

***

Me dei conta do quanto pode ser difícil se render às tradições do gosto quando minha mãe veio passar suas férias conosco. Eu tinha uma caixa de erva para tereré, e ofereci da gente tomar. Ela aceitou, provou e gostou. Pediu no outro dia outro copo. Assim, ó: “faz outro tereré pra mim”. Não havia nada demais naquele copo. Era só o compartilhar de uma descoberta com a filha. A partilha, logo ela, que é o coração dessa tradição de cuias e bombas, foi quem deixou mais claro porque eu tinha tanta aversão em provar chimarrão, e qual era o meu medo: me dissolver no novo e ficar perdida, entre o que se foi e o que será, entre minas e o paraná, e não ser absolutamente nada. Paranada.

As férias da minha mãe coincidiram com o fim do verão. Eu já estava com medo dos dias frios voltarem, e pra falar a verdade a essa altura eu me ressentia de não ter aproveitado mais tempo as tardes de verão paranaenses com tereré. Mas para contrariar as expectativas, o outono não deu as caras quando era sua vez e esses dias de férias foram muito quentes, uma rebarba do verão. A gente pôde saborear vários tererés. Era um pouco a mistura do novo e do velho: a estação que passou na estação que já deveria ter vindo, e a família mineira curtindo as tarde paranaenses, tomando tereré com um pedaço de queijo. Nem tudo desaparece sem deixar rastro quando o novo chega, embora as vezes possa ser meio difícil engolir o novo. Mas ao que tudo indica, no próximo inverno, pode ser que eu finalmente aceite algum convite pra compartilhar o chimarrão. Torçam por mim, ou me convidem.