Temporada da laranja: Frutas cristalizadas feitas com casca de laranja champanhe

Antes que o inverno e as laranjas terminem estou aproveitando o melhor que tem na temporada: cítricos. Expliquei por aqui como fazer uma torta gelada de laranja com uva do japão; e esses dias no meu twitter também expliquei como fazer casquinhas de laranja – registrei o processo bem explicadinho, cheio de fotos do passo a passo. E me deu vontade também de fazer uma compota de frutas cristalizadas. Dois anos atrás, quando resolvemos fazer alguns panetones caseiros com fermentação natural, eu já tinha tido essa iniciativa – e o resultado foi muito bom. É sem dúvida muito melhor do que qualquer fruta cristalizada que você for comprar por aí.

Estava com um par de laranjas diferentes muito gostosas, e aproveitei o processo pra testar nessa compota, que eu já conhecia. Eram laranjas champanhe.

_DSC0804.JPG
Um cesto de laranjas champanhe. Duas laranjas limas junto, pra ficar mais fácil de comparar o tamanho, a cor e o formato

Eu fiquei conhecendo essas laranjas por aqui no sudoeste do Paraná. Elas são bem diferentes, a começar pelo tamanho. Pra fazer essa foto, eu pus do lado duas laranjas peras comuns pra poder ficar melhor de comparar como elas são grandes, mais esverdeadas, e com um formato ovalado no topo. Lembra uma toranja ou até uma laranja baia bem graúda.

O nome champanhe é por conta da cor da polpa, que é bem mais clara e lembra um pouco a bebida. Mas pra mim o mais interessante é o cheiro dessa laranja, que lembra um pouco algo entre o limão siciliano e o limão rosa, e um toque de especiarias – algo como cardamomo, bem sutil, doce e suave. O suco feito com essas laranjas, inclusive, é muito diferente e especial.

São laranjas difíceis de serem encontradas pra vender porque a produção é apenas em pequenas escala. Supostamente ela é fruto do cruzamento natural entre o limão siciliano e a laranja bahia, como informa essa cartilha da Embrapa sobre o cultivo da laranja champanhe. A primeira laranja champanhe que se tem registro apareceu no Rio Grande do Sul, e não há notícia de que ela exista fora do Brasil. É coisa de quintal, na maioria das vezes, mas não é difícil encontrar mudas pra comprar. É especialíssima, mas com um potencial gastronômico e comercial incrível.

Por conta de todo esse sabor, resolvi experimentar fazer uma compota de frutas cristalizadas com as cascas da laranja champanhe, que também são muito cheirosas.

Gosto de usar esses cubinhos de frutas cristalizadas pra rechear panetones no final do ano, e provavelmente esse será o destino destas. As festas parecem longe, mas a razão pra fazer isso agora é que a temporada dos cítricos é no inverno. É a época em que essas frutas estão mais gostosas. E no caso das laranjas champanhe, essa é a única época em que elas são encontradas, já que dificilmente são produzidas em escala comercial. Fazer a compota com essa antecedência não é um problema, porque a compota aguenta tranquilamente 6 meses em geladeira (até mais).

Se você não tem acesso a laranja champanhe, é claro que também pode fazer com qualquer laranja que você tiver. É sempre bom procurar uma com a casca bonita, e que esteja bem gostosa pra que a compota também tenha o melhor resultado. Mas se você tiver algumas laranjas champanhe, experimente usar a casca, pois o resultado é singular.

Além dos panetones, dá pra rechear roscas doces, bolos, e qualquer coisa que você colocaria frutas cristalizadas. A calda de açúcar em que elas ficam conservadas também fica especial e serve pra regar bolos, ou até substituir uma parte do açúcar na hora do preparo deles.

As frutas cristalizadas feitas com a casca da laranja leva alguns dias pra ficar pronta, mas na maioria deles o trabalho não leva mais que 1 minuto. E é uma experiência muito particular se ver envolvida com uma receita longa, que demanda dias, que nos permitem entrar em contato com outras temporalidades diferentes do “pra ontem”.

Pra fazer as frutas cristalizadas, fiz assim:

FRUTAS CRISTALIZADAS FEITAS COM CASCA DE LARANJA CHAMPANHE

DIA 1

  1. Comece separando as cascas. Geralmente faço com as cascas que sobram de laranjas que uso pra suco. Corte cada uma das cascas no meio, separando em quartos. Essa formato também ajuda na hora de tirar o bagaço. E não se esqueça de lavar cada uma delas;

    _DSC0641.JPG
    As metades das laranjas champanhe sendo cortadas em quartos
  2. Com uma faquinha, vá puxando cada um dos bagaços, pra deixar a casca limpa;

    _DSC0538

  3. Durante o corte, pode ser interessante eliminar o “umbigo” das laranjas, que geralmente tem uma casca mais grossa. Sem eles o resultado fica mais caprichado;

    _DSC0651.JPG
    Elimine essa parte do alto da laranja, o “umbigo”
  4. Em seguida, junte tirinhas para cortar em cubos;

    _DSC0652.JPG
    As tiras, juntas, sendo cortadas em pequenos cubinhos
  5. Coloque os cubos de molho em uma vasilha com água, e deixe dentro da geladeira. Ela vai descansar assim pelas próximas 12h. É aconselhável colocar numa vasilha com tampa, porque as cascas da laranja são muito aromáticas e podem deixar um cheiro forte na geladeira.

    _DSC0656.JPG
    As cascas de molho na água prontas pra irem pra geladeira

DIA 2 e 3

  1. Troque a água em que estão as cascas de laranja de 12 em 12h, e volte com elas pra geladeira. Essas trocas são importantes pra tirar o amargor e o sumo que a casca solta. Se quiser, pode fazer por até 3 dias esse passo;

    _DSC0708.JPG
    Escorra e encha a vasilha das casquinhas com água novamente. São dois ou três dias, mas é muito rapidim de fazer

DIA 4

  1. Escorra os cubos de casca de laranja. Encha uma panela grande com água, e assim que ferver, jogue os cubos de laranja nessa água. Deixe por 3 minutos e escorra em seguida;
  2. Faça uma calda de açúcar para cozinhar as laranjas: para cascas de 4 laranjas champanhe use 5 xícaras de água e 2 xícaras de açúcar. Dissolva o açúcar diretamente na água, não o derreta. É uma calda translúcida. Adapte as quantidades de água e açúcar para a quantidade de cascas de cítricos que você for fazer. Não tente fazer uma calda com menos açúcar. Pode parecer muito, mas lembre-se de que essa calda é o que vai conservar a fruta para usarmos daqui a 6 meses;
  3. Coloque uma colher de sopa de suco de limão rosa, para aromatizar. Se quiser, também pode colocar alguma especiaria para cozinhar junto com os cubinhos de frutas;
  4. Deixe cozinhar por pelo menos 1h. Antes de desligar o fogo, prove um cubinho, veja se está macio. Ele deve mudar de cor e ficar transparente;

    _DSC0712.JPG
    As frutas cristalizadas em calda estão prontas
  5. Armazene na geladeira os cubinhos de laranja em um vidro com tampa. Use conforme der vontade. Dura tranquilamente uns bons 6 meses.

 

Conserva de alho feita com a salmoura do kimchi

Quem já foi mordido pelo bichinho da fermentação entende: a animação com a simplicidade e magia do processo faz a gente querer testar fazer um monte de coisas fermentadas, e quando vemos, a gente tá fazendo experimentos e aprendendo processos mais complexos.

O alho nem é o caso de um processo mais complexo ou do cultivo de um inoculante diferente, mas acabei fazendo um processo interessante que achei que valia compartilhar: o reaproveitamento da salmoura da conserva do kimchi.

O kimchi eu já andei mostrando por aqui: é uma conserva tradicional koreana feita com acelga e raízes (eu uso cenoura e rabanetes). O diferente dela é que a gente escorre a salmoura mais cedo e faz uma pasta de temperos deliciosa, que leva gengibre, alho, cebola e muita pimenta. Dá pra ver como fazer o processo do kimchi aqui , e eu recomendo muito a quem gosta de fermentados e coisas picantes porque é realmente singular o resultado.

Como em qualquer fermentado, quando os vegetais do kimchi vão acabando, sempre vai sobrando um pouco de salmoura. E via de regra acabamos descartando essa aguinha que sobra. Só que ela é uma colônia bem estabelecida de lactobacilos e pode muito bem ser aproveitada com um pouquinho de criatividade. E o que eu fiz foi usar a salmoura excedente do kimchi pra criar uma conserva de alho.

Um dos efeitos que acontecem quando você usa essa água de outra fermentação é que você acelera o processo. Mas no caso da salmoura do kimchi, tem outro efeito adicional: você doa o gosto do tempero pra outra conserva. Pra mim, soa como o melhor dos mundos.

_DSC0297.JPG
O único trabalho dessa conserva é descascar alho

O que fiz aqui foi simples: descasquei uma cabeça de alho; depois tirei uma parte da água que estava sobrando no kimchi e joguei sobre os dentes descascados, que já estavam em um vidrinho apropriado. Logo no primeiro dia uma espuma aparece  – sinal de que está fermentando – e exala um cheiro de alho muito forte, mesmo com o pote fechado. A espuma e o cheiro passam, e em 3-4 dias a conserva está pronta pra ser usada.

Preste muita atenção na hora de tirar a água do kimchi, principalmente se você ainda tiver alguns legumes no pote. Não deixe que nenhum legume fique acima da água, pois é a salmoura que protege do apodrecimento. Qualquer parte que fica pra fora da salmoura no vidro fica vulnerável a mofos – a forma mais comum de contaminação de um fermentado.

Alho fermentado fica com sabor muito mais leve do que você imagina. Ele deve ficar crocante (se o seu não ficar tem algo errado), com sabor de alho mas levemente azedinho, e bem mais suave. Com o tempero da salmoura do kimchi, espere que ele fique também picante. É um aperitivo bem interessante pra tomar com cerveja, – sim, é tão suave que dá pra comer puro e aos montes – ou pra usar pra fazer algum tempero ou molho de salada.

E claro: não tem salmoura do kimchi pra fazer conserva de alho? Não tem problema. É só fazer uma salmoura simples (100ml água + 1 colher de sobremesa de sal) e colocar os dentes de alho pra curtir nela por uma semana. Pode adicionar alguns temperos  também (como orégano ou outras ervas). O resultado é semelhante.

Fazendo sabão

Se tem um sentimento que ficou em mim por fazer sabão foi o entusiasmo. Fiquei eufórica por ver a transformação química acontecer na minha frente, por ver que consigo fazer algo, e também por depois poder usar algo que fiz com as mãos e que deu certo.

É claro que eu poderia falar de toda a vantagem do uso do óleo que seria descartado no sistema de esgoto, da economia de se produzir seu próprio sabão em casa, da satisfação de saber que a lavagem das roupas e das louças não vai ser feita eutrofizando rios, e da quantidade de embalagem que agora não precisa mais ir pro lixo, e tudo isso seria verdade; mas o caso é que o principal não é isso. Fazer sabão é divertido, é alegre, e se parece com uma pequena diversão de menina. É o tipo da coisa que pouca gente hoje em dia faz e dificilmente você precisa fazer, mas que eu realmente quero fazer de quando em quando na minha vida.

Criar um modo diferente de viver, ao contrário do que as vezes pode parecer, não é se deixar guiar pela culpa com sua pegada ecológica, ou pelo medo da catástrofe ambiental iminente. O processo criativo tem muitas descobertas pra gente se deixar centrar nesses sentimentos, não vale a pena.

Isso de perceber em nós o quanto estamos contentes por criar algo e fazer as coisas com as próprias mãos é uma coisa que aprendi com a filósofa Isabelle Stengers, no livro No tempo das catástrofes. Ter a coragem de admitir que existe alegria na criação desse novo mundo, que ele não é apenas ter que abrir mão das coisas fáceis e boas que já existem é uma das maiores afrontas que a gente pode pacificamente realizar.

De minha parte, penso que fazer sabão é uma coisa que foge tanto das coisas imateriais das tarefas do dia-a-dia que fazer algo que você possa tocar, cheirar, transformar chega a ser a um alento. No final do processo você tem uma coisa concreta que você produziu, e isso é maravilhoso. É um pouco como preparar comida.

Eu aproveito que o processo não é comum de se ver hoje em dia e chamo os amigos pra participar. A gente abre uma cerveja, liga uma música, conversa, e se sente muito especial de estar fazendo isso. É um evento – e claro, a gente faz uma quantidade grande, de modo que demora a nos reunirmos com essa finalidade de novo, mantendo a cara de coisa excepcional e diferente que a gente faz.

Por me divertir tanto, resolvi compartilhar esse processo de se fazer sabão. Primeiro vou explicar o passo a passo com algumas imagens, e no final desse post, responder algumas perguntas que entendi serem comuns e que me fizeram quando mostrei o sabão pronto no twitter.

Eu aprendi a fazer sabão com a mãe de uma amiga, que fez uma enorme caixa de sabão na minha frente me explicando tudo e depois generosamente me deu ela de presente; e depois, no ano seguinte, a minha amiga Anna, que é química, participou do encontro pra produzir sabão pras nossas casas e teve toda a paciência de conversar comigo sobre o processo, melhorando ainda mais o que eu sabia.

Você vai precisar de :

Óleo usado
Álcool 90o.
Soda cáustica
Água

2 baldes
Balança (pode ser de cozinha, ou daquelas de pesar malas)
Um pedaço de pau ou uma colher de pau de cabo longo velha
Uma caixa de papelão
Um plástico grosso que cubra todo o fundo da caixa de papelão


Passo 1. Arrume óleo usado

Adoro coisas fritas, mas não faço fritura em casa pelo simples motivo de preguiça. Então, na verdade, eu nunca tenho óleo usado guardado. O que fiz foi ir até a barraca de pastel da feira e perguntar o que eles faziam com o óleo. A senhora que faz os pastéis me explicou que ela também faz sabão e eventualmente vende o que produz, mas que poderia me vender um pouco do óleo. Paguei $5 reais num balde de 20l (aqueles de margarina pra restaurante/comércio). Isso é óleo à beça. Vale negociar óleo em algum estabelecimento que você frequenta, pode ser até que você consiga de graça.

img_20180407_154914876
Gordura que arranjamos na barraca de pastel. Colocamos no balde vermelho para pesar e coar (passo 2 e 3) e depois fizemos o sabão na bacia verde maior.

Passo 2. Calcule as quantidades de ingredientes

Essa é uma parte delicada e importante, porque você não quer que sobrem ingredientes quando for fazer a reação. Um dos erros mais comuns de se fazer sabão é colocar soda cáustica (hidróxido de sódio) demais, e o sabão ficar “ardido” (mais alcalino do que neutro, que seria o ideal). Isso é ruim porque além de deixar a pele sensível quando você o usa, no caso da lavagem de roupas ele tem o potencial de desgastar os tecidos mais rápidos. Por outro lado, sabão alcalino (com alta quantidade de soda residual) costuma lavar as coisas melhor. Chegar no ponto ótimo de eficácia e segurança é uma questão matemática.

Pra não ter erro no cálculo, eu uso uma calculadora de sabão online bem simples. Você coloca o tipo de sabão que quer fazer (sólido ou líquido), a quantidade de gorduras não saponificáveis (o superfatting, que o site recomenda deixar em 5%), o tipo de óleo que você vai usar (no meu caso era óleo de soja) e a quantidade dele. Há uma lista imensa de tipos de óleo diferentes, com certeza você vai encontrar o seu (e você pode usar mais de um tipo misturados também). A calculadora vai te retornar a quantidade de soda e de líquidos necessárias pro processo dar certo.

sabao.png
Como o programa mostra os resultados. Aqui, calculei a quantidade de soda cáustica e líquidos pra 5kg de óleo de soja.

A calculadora tem a opção de adicionar fragrâncias – você pode, por exemplo, colocar óleo essencial no sabão. Eu optei por fazer um sabão simples porque uso pra tudo em casa (lavo louças, roupas, banheiro, e o que mais aparecer) e preferi que ele fosse neutro. Adicionar fragrâncias torna o processo mais delicado, mas também não parece impossível. O site tem uma lista extensa desses aditivos também.

Pro melhor resultado possível é importante que você tenha uma medida boa da quantidade de óleo que você tem. A gente usou uma balança de cozinha pra fazer isso.

O único inconveniente do site é que ele está em inglês. Existem muitos outros, e em português – tem até aplicativos para celular – mas esse é dos mais simples de usar e por isso me agradou muito.

 

Passo 3. Coar o óleo

Dependendo do óleo que você está usando pra fazer seu sabão, pode ser que você precise coar alguns pedacinhos de restos de comida que podem sobrar nele. O óleo de fritar pastel que usamos tinha bastante impureza e estava no estado sólido á temperatura ambiente. Ficar em estado sólido à temperatura ambiente é um indicativo de que a gordura está muito saturada, resultado de ser reutilizado em tantas frituras. Embora isso não seja bom pra se comer, é um óleo ótimo pra se fazer sabão – a reação acontece mais rápido e o sabão endurece melhor.

Não tem mistério: se ele está sólido e precisar coar, coloque o óleo numa panela, ligue o fogo, ele vai derreter. Em seguida passe por uma peneira. Se o óleo que você está usando ainda estiver líquido, basta passar na peneira. E se ele já estiver límpido, ignore completamente este passo.

 

Passo 4. Dissolva a soda cáustica em água

Essa instrução costuma vir até na embalagem da soda. Da quantidade de líquidos que a calculadora retornar, considere que metade deverá ser de água, e a outra metade deverá ser de álcool 90o. Pese a quantidade de soda cáustica que o site te indicar pra sua gordura, e acrescente a metade do líquido (somente água) na soda para dissolver. Lembre de abrir as janelas e deixar ventilar pra fazer isso. Não é preciso esquentar a água, use-a em temperatura ambiente.

 

Passo 5. Acrescente a soda na gordura e mexa

Arrume um pedaço de pau ou uma colher de pau velha e separe só pra fazer isso. Vá acrescentando devagar e mexa sem parar. A reação vai começar a acontecer.

img_20180407_171946211.jpg
Essa é a minha amiga Anna misturando a gordura com a soda cáustica (passo 5) enquanto colocamos o álcool devagar (passo 6)

Passo 6. Derrame o álcool bem devagar na mistura de gordura + soda cáustica

Faça isso bem devagar. O álcool é um catalisador e ajuda a acelerar o processo, mas você não quer que o processo vá rápido demais. Você vai notar que a vasilha aonde você está fazendo isso vai esquentar naturalmente, mesmo não estando no fogo (mágica!). Se você colocar o álcool rápido demais, a mistura pode chegar a ferver e espirrar, e você não quer isso. Então, seja paciente.

Não pare de mexer enquanto vai colocando o álcool aos poucos. Esse processo deve levar cerca de 30 minutos, e o sabão vai se tornando progressivamente mais duro. Quando começar a ficar pesado de se mexer, está pronto.

 

Passo 7. Coloque o sabão em uma forma

Arrume uma caixa de papelão firme. Aqui pegamos uma no supermercado. Forre com um plástico grosso – não use uma sacola plástica, pense num plástico mais grosso como o do saco de arroz de 5kg. A ideia é que você isole o papelão do sabão, pra que ele não fique úmido e mole, e seja fácil de você retirar o sabão depois. Aqui reutilizamos o mesmo plástico de um ano a outro. Procure um plástico firme (talvez você encontre algo também no supermercado)

img_20180407_182958535
Uma caixa de papelão forrada com um plástico, e o sabão dentro

Passo 8. Espere 30 dias

Esse período a gente chama de cura do sabão. Não há o que fazer, só aguardar o tempo. Deixe a caixa aberta e de preferência em local ventilado.

 

Passo 9. Corte

Depois de 30 dias o sabão está pronto para ser cortado em barrinhas e utilizado.

_DSC0058.JPG
Depois de 30 dias, sabão pronto pra ser cortado

ALGUMAS PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE O PROCESSO DE FAZER SABÃO

1.Posso usar o óleo que sobra de frituras da minha cozinha?

Claro! Mas o melhor óleo pra se fazer sabão é o óleo mais velho que você tiver, aquele que chega a ficar no estado sólido em temperatura ambiente. O óleo velho é mais saturado, e isso facilita a reação de acontecer. Se você quer aproveitar seu óleo velho mas não vai fritar coisas até ele ficar nesse estado lastimável, o máximo de problema que pode ocorrer com óleos novos é você ter mais dificuldade de fazer com que o sabão fique na consistência final correta, mas isso não é um impeditivo (além do que, um tempo de cura maior pode ajudar a resolver esse problema).

 

2. É difícil/caro achar álcool 90o. onde moro. Posso usar o álcool 46o, mais comum?

Dá sim. Você só vai precisar recalcular a proporção álcool e água da equação. O álcool 46o. significa que pra cada 100ml de líquido, 46ml são de álcool e o restante é água. O álcool 90o, então, tem 90 ml de álcool em 100ml de líquido, o que é muito mais álcool. Como metade dos líquidos que a calculadora aponta devem ser de álcool, você vai precisar diluir a soda numa quantidade menor de água no início pro processo funcionar, mas calculando direitinho vai dar certo sim. O único álcool que não dá pra usar é o em gel.

 

2. Dá pra fazer sabão em apartamento?

Depende. Se a sua cozinha ou aŕea de serviço tem um tamanho razoável, ou mesmo se na garagem tem algum espaço que dá pra você colocar um banco ou circular, dá com certeza. Você pode fazer em outros cômodos, mas sempre tem o risco do óleo derramar ou acontecer algum outro pequeno acidente. É claro que um apartamento muito pequeno você vai ter mais dificuldade de fazer, mas ainda assim não é impossível. Tenha em mente que você vai precisar de um lugar ventilado, e de vasilhas grandes dependendo da quantidade de sabão que você esteja fazendo. No mais, nem fogão você precisa porque o processo é à frio.

 

3. Quando se faz sabão tem cheiro ruim ou fumaça?

Não. No entanto, quando você estiver colocando água na soda cáustica, é importante que você abra as janelas e evite ficar respirando muito em cima da mistura porque ela libera gases que podem fazer mal se inalados. Não é nada demais. Lembre-se que muita gente usa soda cáustica pra desentupir canos, é uma substância vendida livremente (o princípio ativo do diabo verde também é a soda cáustica, por exemplo). É só ter um pouco de cuidado mesmo.

 

4. Fazer sabão faz muita sujeira?

Não. Uma dica preciosa pra evitar a sujeira é tomar o cuidado de derramar o álcool na mistura (passo 5) bem devagar. O álcool é um catalisador, ou seja, ele ajuda a reação de saponificação a acontecer mais rápido, mas você não quer que ela aconteça rápido demais. Quando colocado rápido demais, o sabão esquenta muito e isso pode fazer ele respingar, como se estivesse fervendo no fogo – fazendo a sujeira que a gente quer evitar. Se isso acontecer, também não é um problema. Lembre-se: o que respingar é sabão. É só jogar água. Além do cuidado com esse passo, a sujeira quase se limita às vasilhas que você usar pra fazer a mistura.

 

5. O processo é muito demorado?

Depende do quanto você acha que é demorado. A parte de se mexer a mistura leva entre 30-40 minutos, mas se você for contar o tempo de pesar os ingredientes, jogar na calculadora, colocar na caixa, limpar as vasilhas usadas e ainda esperar os 30 dias pra que o sabão cure, o processo é um pouco demorado. De minha parte, eu faço de tudo pra que ele seja o tempo mais prazeroso possível. Abra uma cerveja, faça uma jarra gostosa de suco, chame algum amigo que goste desse tipo de coisa ou seja ao menos curioso e faça disso uma desculpa memorável pra uma reunião. Te garanto que você nem vai ver o tempo passar.

Dois postais com receitas PANC para imprimir

Quando pedi que o feirante me trouxesse nabos forrageiros, ele ficou em dúvida da quantidade que eu queria e trouxe logo uns 3 molhos. Eu só precisava de um – somos só dois aqui em casa – então sobraram 2 na banca.

Emendei uma conversa com o feirante, que me contou animado que desde a última vez que eu tinha feito essa encomenda, ele tinha provado a verdura pela primeira vez, e havia gostado. Comecei a contar pra ele dos meus planos sobre o que ia fazer com elas, dei receita, e as pessoas do lado foram entrando na conversa.

Em 5 minutos, pah: os outros 2 molhos dos nabos forrageiros foram vendidos.

Quando percebi o que tinha acontecido, voltei pra casa pensativa sobre o quanto as pessoas estão interessadas em coisas diferentes, mas que é preciso saber falar sobre essas plantas não convencionais. Não só na internet, mas também levar isso pra feira.

Resolvi então fazer um impresso colorido simples, pequeno, tipo postal, apresentando os nabos forrageiros, seu gosto, além de dar a receita que publiquei aqui no blog.

postais.JPG

Também fiz um pra batata yacon, dando a receita de yacon com creme gorgonzola, já que agora elas estão sendo colhidas por aqui e também vão precisar de uma mãozinha pras pessoas entenderem coisas que podem ser feitas com ela.

Não sou exatamente designer – tenho uma formação em comunicação social, mas ela passa bem longe de criação visual – mas achei que ficaram simpáticos e resolvi compartilhar os postais PANC para imprimir (sim, pode clicar pra baixar os dois nesse link).

O arquivo contém o postal unitário frente e verso e uma versão organizada pra ser impressa em uma folha de papel A4 (dão 4 postais por folha). Pra imprimir direitinho em casa você tem que escolher a opção de ignorar margens e configurar o papel para ser A4 boundless. Aqui tem um passo a passo pra impressão sair direitinho (apenas configure o papel no tamanho adequado).

Aqui fiz a impressão em papel color set de cores variadas, pra dar um pouco mais de graça. Como os postais estão bem sintéticos, cada um deles tem um QR code pra levar pras postagens que fiz dessas receitas. Agora é levar pra feira e torcer pra que mais gente se interesse em experimentar as nabiças e a yacon, ou que ao menos outras pessoas fiquem com vontade de imprimir e espalhar receitas PANCs por aí (vale imprimir e colocar no caderno de receitas também!)

 


Baixe a versão para impresso do postal das nabiças ❤


 


Baixe a versão para impressão do postal da yacon ❤


 

Nem todo grão de mostarda é igual

Já tinha escrito aqui sobre como fazer mostarda em casa, mas nesses últimos dias, ao fazer uma nova remessa do molho pra mim, fiz uma pequena descoberta: existem grãos de mostarda diferentes no mercado. Conhecia a mostarda marrom, que não se acha fácil pra comprar no Brasil, e sabia que ela era feita com grãos mais escuros, mas não sabia ainda que os grãos amarelos tinham variação (e que o mercado não avisa pra gente):

Os grãos maiores (à esquerda na foto que abre essa postagem) tem um sabor mais forte e pungente. O molho de mostarda feito com ele tem um sabor que lembra muito raiz forte. Não achei muito bom pra essa finalidade, mas os grãos maiores pareceram adequados pra fazer o massala do arroz (pilau) indiano (que começa com uma fritada até “pipocar”, com a panela tampada, de grãos de mostarda em óleo), ou pra colocar no repolho pra deixar ele fermentar até virar chucrute. Já os grãos mais miúdos (à direita) são muito saborosos sem serem tão amargos. É o melhor pra fazer molho de mostarda.

Infelizmente os grãos não são identificados como tipos diferentes na hora que a gente vai comprar. O mais comum é que um local tenha apenas um dos tipos, então cabe a gente que está comprando tentar discernir no escuro (não soa um absurdo a gente não ter direito de saber o que estamos levando?).

Uma forma de você saber se o grão de mostarda é maior ou menor é comparando. Um grão muito parecido com o menor é o grão da quinoa:

DSC_0246.JPG
À esquerda a mostarda do grão pequeno e à direita, mais claro, a quinoa: tamanhos bem parecidos.

Então, se você não tiver certeza de que grão de mostarda se trata, na hora de comprar dê uma olhada na quinoa, coloque as duas lado a lado. Se a quinoa for menor, você já sabe que é o grão de mostarda grande, e que o resultado do molho vai ficar melhor com as sementes menores. Melhor tentar encontrá-las em outro lugar.

 

Como fazer mostarda em casa

Eu sei que tendo tantas mostardas à disposição nos supermercados parece um contrassenso se atrever a fazer a sua, mas depois que experimentei fazer a primeira vez nunca mais deixei de fazê-las. Primeiro, porque descobri que era fácil demais. Depois, porque o sabor compensava, e era melhor do que qualquer outra mostarda que eu já tinha experimentado. Fazer em casa também evitava que eu precisasse descartar novas embalagens de vida tão curtinha. Isso sem contar a experiência de produzir as coisas com as próprias mãos: no processo a gente acaba descobrindo que não dependemos tanto assim desse tipo de produção industrial, distante de nós, e que é possível experimentar o mundo de um jeito bem diferente.

Não é preciso se preocupar com a durabilidade desse molho. Como ele usa uma quantidade grande de vinagre e de mel, estes dois ingredientes funcionam como conservante natural pra mostarda. Você pode deixar na geladeira por meses, como deixaria as mostardas compradas.

Eu fui testando e adaptando essa receita até chegar em uma que agradasse o meu paladar, e aconselho sempre a não seguir receitas e achar o seu jeito. Mas a gente tem que começar por algum lugar, e você pode começar experimentando a minha:

1/3 xícara de sementes de mostarda
1/3 xícara de vinagre de maçã artesanal
1/3 xícara de vinho branco seco de boa qualidade
2 colheres de sopa de mel
1 pedaço de cerca de 3cm de açafrão da terra (cúrcuma) ou 1 colher de chá de açafrão em pó
1/2 colher de chá de sal
1/2 colher de chá de páprica picante

  1. Coloque todos os ingredientes em uma vasilha, cubra com um pano e aguarde 3 dias.
  2. No final de 3 dias, bata os ingredientes em um liquidificador, mas se você não tiver um também pode tentar com um processador de alimentos ou um mixer e até mesmo usar um pilão é possível. Quanto mais potente for o seu aparelho/utensílio, melhor é o resultado em termos de homogeneidade.
  3. Um truque para o caso de você estar com dificuldades de conseguir uma textura sem resíduos da casquinha das sementes de mostarda, ou não ficar satisfeito com a consistência é acrescentar algumas colheres de água morna, até chegar ao ponto que te agrade. 2 ou 3 colheres deverão bastar.

DSC_0743

Esse molho, é bom lembrar, são os de mostardas comum e não o de mostarda de dijon. A mostarda de dijon também é possível de ser feita em casa, mas é um processo mais trabalhoso porque exige cozimento.

Um conselho importante desta receita é procurar usar um vinagre artesanal, ou até mesmo fazer o seu próprio vinagre caseiro. O gosto dos vinagres artesanais é bem diferente dos industriais, e como ele é um ingrediente usado em quantidade nessa receita, faz toda a diferença essa escolha no resultado final.

Uso muito essa mostarda para fazer molho de mostarda com mel e usar em saladas. e também para acompanhar batatas assadas. No caso do molho de salada, para cada colher de mostarda acrescento uma colher de mel e misturo à parte antes de jogar sobre as folhas. É um molho simples, mas prático pra se ter à mão.


Atualização: recentemente descobri (do pior jeito possível) que existem sementes diferentes de mostarda sendo vendidas, embora isso nunca seja identificado no pacote. Essa informação é importante porque os grãos produzem resultados muito diferentes de molho. Então, se você for comprar os grãos, dê uma olhada nessa postagem que fiz sobre grãos de mostarda pra saber como identificar os que vão produzir os molhos bons. O preço delas nem é diferente, então vale a pena prestar atenção.