Geléia de pêssego, pessegada e mensagens jogadas ao mar em garrafas

Os pêssegos que ganhei em uma foto um pouco desfocada

Não há nada errado em escrever sobre comida

Ganhei duas sacolas imensas de pêssego. Havia muito tempo que eu não ganhava frutas assim, de época, de quem tem quintal, sítio, e árvores frutíferas.

Nunca tinha ganhado pêssegos, de modo que nunca precisei saber o que fazer com muitos deles.

A primeira ideia que tive foi de fazer uma geléia, porque já fiz geléia de outras frutas e sabia que o processo era o mesmo pra todas.

Descasquei os pêssegos, e fui com carinho colocando cada um deles em uma vasilha com água com meio limão espremido — pra não deixar que os pêssegos escureçam enquanto descascava. Pesei os pêssegos — eu tinha 1,5kg, assim, limpos — , e pesei em seguida 1/3 do que tinha de pêssegos em açúcar. Levei tudo na panela, pus a outra metade do limão que sobrou — essencial pra dar o ponto de geléia. Abri um a um meus potes com especiarias, e quando cheirei o cravo da índia tive a intuição de que era aquele o que iria bem com os pêssegos. O líquido no fogo aos poucos engrossou, e a gotinha que tirei com a colher da panela caiu num pires sem se espalhar, e tive certeza que minhas frutas tinham virado geléia.

Mas eram muitos pêssegos mesmo. E eu precisava ir além do que eu sabia fazer assim, de cor-ação.

Joguei no google, e achei essa receita. O blog se chamava Quitandas de Minas, e mineira que sou, achei por bem tomar isso como um sinal dos céus. Segui a receita da anônima Tia Cecy, de Entre Rios de Minas, não sem antes dar minha modificada. Achei inútil o passo de ferver os pêssegos e por isso ignorei. E embora eu tenha mesmo uma peneira de taquara que a receita adverte que eu deveria usar, a minha é um enfeite muito amado, comprado no mercado central de BH, e que fica pendurado na parede da sala. Assim, acabei usando um passe-vite, um instrumento manual que se usa pra amassar legumes e fazer sopa, e estava resolvida. Apreciei especialmente as instruções da receita sobre o ponto da pessegada, e fiquei muito sorridente quando enfiei a faca no doce que ferveu por horas no fogão e o ele não se soltou da faca nas costas da minha mão.

Virei tudo improvisadamente numa forma de bambu japonesa forrada previamente com papel manteiga, que via de regra só uso pra cozinhar legumes ao estilo oriental. Achei bonito. Parei, tirei uma fotografia. Joguei no twitter.

Ainda não cortei o doce, mas desde então não sai da minha cabeça o blog aleatório em que confiei pra fazer essa pessegada.

Eu me furto muitas e muitas vezes de escrever receitas, modos de fazer, ou mesmo histórias sobre comida simplesmente porque julgo que quem lê pode enxergar nessa escrita uma coisa menor, pequena. Talvez nem achem que falar de comida, ou escrever histórias de receitas é escrita. E aí pensei nesse blog, tão aleatório, e assim mesmo tão relevante pra mim naquele dia. Pensei na Tia Cecy, e na Rosaly Senra, a autora do blog que até então jamais antes tinha ouvido falar. Me dei conta do quanto aquela receita de pessegada se parecia com uma mensagem numa garrafa jogada ao mar, escrita assim, despretensiosamente, como quem envia beijos, desejos, pedidos de socorro ou saudades mar afora, e espera quem a encontre. Ou não se espera nada, apenas que a garrafa flutue e navegue pelas águas.

Senti uma vontade súbita de agradecer pelas mensagens na garrafa que encontro mundo afora. E de soltar algumas outras mensagens por aí. Não sei quem apanhará, apenas acredito que vai existir alguém por aí que não vai ficar indiferente ao que escrevi. Alguém que vai achar que receitas podem ser formas bonitas de escritas, que cozinha não é assunto menor, e que o cotidiano é tão significante e insignificante ao mesmo tempo, como somos todos nós.

Não, não há nada errado em escrever receitas ou histórias de receitas. Não há nada errado ou menor em escrever sobre comida. Assim sendo, deixo aqui minhas garrafas boiando, levanto da cadeira, e só resta me deliciar com essa pessegada.


Escrevo outras mensagens na garrafa sobre comida na minha newsletter. Se sentir vontade de apanhar alguma por aí nesse mar, é só assinar: http://eepurl.com/bY94QL

Cozinha subversiva

Coração em chamas. Bordado (subversivo) e fotografia: Carla Soares

Uma das lembranças mais bonitas que tenho da temporada morando em Portugal é do contato que tive com os “fazeres femininos” do bordado. Coloco fazeres femininos entre aspas pra lembrar que nada, a não ser a história, é capaz de colar esta produção exclusivamente às mulheres. Mas também não devemos esconder a história.

Foi nesse período que eu aprendi a técnica do arraiolo em tardes ouvindo fado e teci um tapete. Eu ia para uma loja forrada de lãs coloridas que pareciam uma imensa escala pantone que te cercava por todos os lados, e ficava sentada ao pé de uma senhorinha, bordando, enquanto ela reformava tapetes e vendia lãs. E conversava, escutava música, e aprendia. Fui guiada pelas mãos experientes dessa moçambicana de nome quase igual ao meu — era Clara — que vivia a mais de 30 anos em terras portuguesas. Dividiu comigo seus saberes, e também afeto. Me contou histórias de outras mulheres, e também de homens, que bordavam aqueles tapetes, e que cantavam aqueles fados que ouvíamos toda tarde. Fui também a diferentes museus que se dedicavam ao tema dos arraiolos e outras tapeçarias, da produção de lãs, das vestimentas, da ourivesaria e de bordados; conheci publicações, dissertações e historiadores que queriam entender a história desses fazeres. Foi uma vivência muito prazerosa e intensa, e que me fez pensar um bocado.

Um desses escritos sobre bordados que entrei em contato era um livro assinado por Ana Pires, farta e lindamente ilustrado. Ela destacava o quanto esse tipo de produção, por lá, ficou relegada durante muitos anos ao ambiente doméstico. Era visto como mero passatempo, e com pouca valorização. Foi preciso que uma mulher o trouxesse para outros espaços e o transformasse em negócio, em meados da primeira guerra, para que o bordado ganhasse valor.

É bem fácil perceber que parte dessa desvalorização rolava porque bordados são tidos como “trabalho feminino”. Repare bem no tamanho do buraco: é pior que “literatura feminina”, que já arrasta em si um tom pejorativo dado pela necessidade do adjetivo “feminina” pra poder existir, mas que ainda assim consegue manter a alcunha de “literatura”. O bordado não é nem mesmo “arte feminina”. É artesanato, é trabalho, produção, mas não chega a ser arte. Os trabalhos belíssimos, ricos, intrincados, que exigiam um treino muscular repetido com as mãos, tão análogo ao que precisam passar os músicos, que traziam desenhos característicos que se repetiam ao longo do tempo e que contavam histórias sobre grupos e povoados, não são arte. Por que não são?

No fundo, tanto faz a resposta. Isso não vai mudar o fato de que bordados não foram, no passado, vistos como arte, mesmo que a gente reconsidere esse status no futuro. Por isso, acho que a gente pode fazer uma pergunta mais útil, uma que possibilite rever nossa relação com a arte. Eu prefiro perguntar por que é preciso ser arte pra ter valor?


Tenho a impressão que, independente de qualquer status, tem havido uma preocupação em resgatar, valorizar, e exibir esses trabalhos. Uma preocupação em se falar sobre bordados. E o que vale, definitivamente, é o reconhecimento.

Apesar do meu contato mais intenso ter acontecido em Portugal, essa narrativa sobre bordados não tem sido valorizada só por lá. Há uma crescente retomada de bordados no Brasil, no circuito jovem, e em outros países, feita por artesãs que estão lendo e valorizando aquilo que este trabalho já foi e, a partir daí se reapropriam dele, ressignificam, modificam e multiplicam suas possibilidades. Esse movimento não se resume a isso, mas gosto de chamá-lo de bordado subversivo.

Eu dou esse nome, que não corresponde ao todo do movimento de valorização do bordado, porque ele ressoa em mim. Subversão fala de mudança, transgressão, de alterar o que está dado por aí. E pronto: o efeito é que nem quero mais brigar pra que bordado seja arte. A subversão pode ser muito mais interessante.


Escrever e reescrever essa história — que é mal documentada, mal contada, como grande parte do que as mulheres produziram no mundo, mas é tão rica — é um primeiro passo para que ele possa ganhar existência no mundo. É assim também que se existe. Colocar uma coisa em palavras tem o poder incrível, quase inacreditável, de tornar essa coisa real.

E quando a coisa passa a existir, quando ela é real, fica mais fácil de conseguir entender, transformar e produzir algo novo.

Tenho, como essas pessoas que estão resgatando e continuando a história dos bordados, escrito sobre um assunto muito (historicamente) feminino: a cozinha. O que eu gosto de fazer é falar de histórias, e também de afetos. Tenho certeza que muitos vão enxergar minhas narrativas como sendo de uma perspectiva “feminina”, seja lá o que isso signifique. Eu não falo de receitas; eu falo de partilha, da realidade que está à minha volta, de ingredientes que precisam ser mais valorizados porque são nossos. Eu falo de soberania alimentar, e de soberania no cuidado de si. Eu falo de cotidiano.

E como nada é mais cotidiano que relações de poder, eu falo ali, sobretudo, é de política. Eu falo de PANCs como se fossem ingredientes novos, mas que são mais do que velhos. Falo da redescoberta do prazer de plantar, das tradições da fermentação, de conhecimentos de antigamente. É claro que quando eu faço isso, termino por reescrever e transformar essas ideias. Eu enxergo esse saber e esse fazer com os olhos do meu mundo, e por isso acabo construindo outros valores e relações pra esses mesmos ingredientes. É por isso que dei esse nome pro projeto: outra cozinha. Ela é como qualquer outra, mas também não é a mesma.


Blogs sobre comida não são nenhuma novidade, mas tenho a impressão que a cozinha só tem ganhado valor porque soube se tornar espetáculo — nas fotos bem produzidas dos blogs, nas lojas embelezadas que vendem velhos quitutes repaginados com o nome de gourmet, e em realities show em outros espaços. A cozinha se tornou pública e ganhou visibilidade midiática. Ela virou espaço de competição, de trabalho duro e profissionalização, e de um quê de glamourização — isso, que em conjunto se materializa nessa espécie de “gourmetização da vida cotidiana”. O sintoma: não se deseja ser cozinheiro, se deseja ser chef. Não se deseja comer comida boa: se deseja ter “a” experiência, como se comida não fosse cotidiano. Aliás, dizer que uma comida pode ser gourmet é equiparar seu fazer com o das artes: “gourmet” é supostamente alta gastronomia, arte culinária. Por que cozinha também pode ser uma espécie de arte, não é mesmo?

Pois do mesmo jeito que propus outra pergunta sobre arte e bordados, também não vejo muito sentido nessa. Eu prefiro outra: por que é preciso que seja arte para que cozinha seja importante e valha a pena ser discutida?


Eu percebo essa minha escrita como uma oportunidade de reconstruir esses discursos sobre comida. Toda cozinha importa, importa sobretudo discutir cozinha. Escrever sobre comida é uma oportunidade de reivindicar valor ao que historicamente foi desenvolvido por mulheres — mas que eu gostaria que daqui pra frente fosse assunto de todos. Sinto que a resposta não está em transformar o status desse fazer (em arte, por exemplo), nem em terceirizar os cuidados de si (a outras ou à indústria), mas em falar e valorizar o fazer doméstico como algo de todos, do coletivo — especialmente por ser uma necessidade tão básica.

Escrever sobre cozinha é valorizar essa história. Assim como os bordados, não é preciso que dêem determinado status ao que faço e ao que escrevo para que tenha valor. Aliás: não é preciso também que legitimem minha escrita como artística pra que eu seja escritora. Escrever sobre comida é nobre o suficiente. Narrar qualquer história e fazer parte dela tem valor porque a torna real, com significado no mundo. É importante continuar escrevendo e dando visibilidade a esses “assuntos femininos”, e bem assim mesmo, entre aspas. Porque eles não são femininos. Eles apenas foram relegados a mulheres, porque acharam que isso não tinha a menor importância no mundo, feito elas. E se nós não reconhecermos sua importância, vamos apenas reafirmar que o trabalho dessas mulheres não teve valor.

Escrever sobre comida também é uma forma de fazer com que esses assuntos deixem de ser femininos e se tornem assuntos do mundo.

E o que você acha de chamarmos esse movimento de cozinha subversiva?

Carla Soares escreve sobre comida no projeto outracozinha.com.br. É mestre em comunicação social, e também já escreveu como acadêmica e como jornalista.

Texto originalmente publicado na Newsletter Mulheres que Escrevem.