Fazendo sabão

Se tem um sentimento que ficou em mim por fazer sabão foi o entusiasmo. Fiquei eufórica por ver a transformação química acontecer na minha frente, por ver que consigo fazer algo, e também por depois poder usar algo que fiz com as mãos e que deu certo.

É claro que eu poderia falar de toda a vantagem do uso do óleo que seria descartado no sistema de esgoto, da economia de se produzir seu próprio sabão em casa, da satisfação de saber que a lavagem das roupas e das louças não vai ser feita eutrofizando rios, e da quantidade de embalagem que agora não precisa mais ir pro lixo, e tudo isso seria verdade; mas o caso é que o principal não é isso. Fazer sabão é divertido, é alegre, e se parece com uma pequena diversão de menina. É o tipo da coisa que pouca gente hoje em dia faz e dificilmente você precisa fazer, mas que eu realmente quero fazer de quando em quando na minha vida.

Criar um modo diferente de viver, ao contrário do que as vezes pode parecer, não é se deixar guiar pela culpa com sua pegada ecológica, ou pelo medo da catástrofe ambiental iminente. O processo criativo tem muitas descobertas pra gente se deixar centrar nesses sentimentos, não vale a pena.

Isso de perceber em nós o quanto estamos contentes por criar algo e fazer as coisas com as próprias mãos é uma coisa que aprendi com a filósofa Isabelle Stengers, no livro No tempo das catástrofes. Ter a coragem de admitir que existe alegria na criação desse novo mundo, que ele não é apenas ter que abrir mão das coisas fáceis e boas que já existem é uma das maiores afrontas que a gente pode pacificamente realizar.

De minha parte, penso que fazer sabão é uma coisa que foge tanto das coisas imateriais das tarefas do dia-a-dia que fazer algo que você possa tocar, cheirar, transformar chega a ser a um alento. No final do processo você tem uma coisa concreta que você produziu, e isso é maravilhoso. É um pouco como preparar comida.

Eu aproveito que o processo não é comum de se ver hoje em dia e chamo os amigos pra participar. A gente abre uma cerveja, liga uma música, conversa, e se sente muito especial de estar fazendo isso. É um evento – e claro, a gente faz uma quantidade grande, de modo que demora a nos reunirmos com essa finalidade de novo, mantendo a cara de coisa excepcional e diferente que a gente faz.

Por me divertir tanto, resolvi compartilhar esse processo de se fazer sabão. Primeiro vou explicar o passo a passo com algumas imagens, e no final desse post, responder algumas perguntas que entendi serem comuns e que me fizeram quando mostrei o sabão pronto no twitter.

Eu aprendi a fazer sabão com a mãe de uma amiga, que fez uma enorme caixa de sabão na minha frente me explicando tudo e depois generosamente me deu ela de presente; e depois, no ano seguinte, a minha amiga Anna, que é química, participou do encontro pra produzir sabão pras nossas casas e teve toda a paciência de conversar comigo sobre o processo, melhorando ainda mais o que eu sabia.

Você vai precisar de :

Óleo usado
Álcool 90o.
Soda cáustica
Água

2 baldes
Balança (pode ser de cozinha, ou daquelas de pesar malas)
Um pedaço de pau ou uma colher de pau de cabo longo velha
Uma caixa de papelão
Um plástico grosso que cubra todo o fundo da caixa de papelão


Passo 1. Arrume óleo usado

Adoro coisas fritas, mas não faço fritura em casa pelo simples motivo de preguiça. Então, na verdade, eu nunca tenho óleo usado guardado. O que fiz foi ir até a barraca de pastel da feira e perguntar o que eles faziam com o óleo. A senhora que faz os pastéis me explicou que ela também faz sabão e eventualmente vende o que produz, mas que poderia me vender um pouco do óleo. Paguei $5 reais num balde de 20l (aqueles de margarina pra restaurante/comércio). Isso é óleo à beça. Vale negociar óleo em algum estabelecimento que você frequenta, pode ser até que você consiga de graça.

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Gordura que arranjamos na barraca de pastel. Colocamos no balde vermelho para pesar e coar (passo 2 e 3) e depois fizemos o sabão na bacia verde maior.

Passo 2. Calcule as quantidades de ingredientes

Essa é uma parte delicada e importante, porque você não quer que sobrem ingredientes quando for fazer a reação. Um dos erros mais comuns de se fazer sabão é colocar soda cáustica (hidróxido de sódio) demais, e o sabão ficar “ardido” (mais alcalino do que neutro, que seria o ideal). Isso é ruim porque além de deixar a pele sensível quando você o usa, no caso da lavagem de roupas ele tem o potencial de desgastar os tecidos mais rápidos. Por outro lado, sabão alcalino (com alta quantidade de soda residual) costuma lavar as coisas melhor. Chegar no ponto ótimo de eficácia e segurança é uma questão matemática.

Pra não ter erro no cálculo, eu uso uma calculadora de sabão online bem simples. Você coloca o tipo de sabão que quer fazer (sólido ou líquido), a quantidade de gorduras não saponificáveis (o superfatting, que o site recomenda deixar em 5%), o tipo de óleo que você vai usar (no meu caso era óleo de soja) e a quantidade dele. Há uma lista imensa de tipos de óleo diferentes, com certeza você vai encontrar o seu (e você pode usar mais de um tipo misturados também). A calculadora vai te retornar a quantidade de soda e de líquidos necessárias pro processo dar certo.

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Como o programa mostra os resultados. Aqui, calculei a quantidade de soda cáustica e líquidos pra 5kg de óleo de soja.

A calculadora tem a opção de adicionar fragrâncias – você pode, por exemplo, colocar óleo essencial no sabão. Eu optei por fazer um sabão simples porque uso pra tudo em casa (lavo louças, roupas, banheiro, e o que mais aparecer) e preferi que ele fosse neutro. Adicionar fragrâncias torna o processo mais delicado, mas também não parece impossível. O site tem uma lista extensa desses aditivos também.

Pro melhor resultado possível é importante que você tenha uma medida boa da quantidade de óleo que você tem. A gente usou uma balança de cozinha pra fazer isso.

O único inconveniente do site é que ele está em inglês. Existem muitos outros, e em português – tem até aplicativos para celular – mas esse é dos mais simples de usar e por isso me agradou muito.

 

Passo 3. Coar o óleo

Dependendo do óleo que você está usando pra fazer seu sabão, pode ser que você precise coar alguns pedacinhos de restos de comida que podem sobrar nele. O óleo de fritar pastel que usamos tinha bastante impureza e estava no estado sólido á temperatura ambiente. Ficar em estado sólido à temperatura ambiente é um indicativo de que a gordura está muito saturada, resultado de ser reutilizado em tantas frituras. Embora isso não seja bom pra se comer, é um óleo ótimo pra se fazer sabão – a reação acontece mais rápido e o sabão endurece melhor.

Não tem mistério: se ele está sólido e precisar coar, coloque o óleo numa panela, ligue o fogo, ele vai derreter. Em seguida passe por uma peneira. Se o óleo que você está usando ainda estiver líquido, basta passar na peneira. E se ele já estiver límpido, ignore completamente este passo.

 

Passo 4. Dissolva a soda cáustica em água

Essa instrução costuma vir até na embalagem da soda. Da quantidade de líquidos que a calculadora retornar, considere que metade deverá ser de água, e a outra metade deverá ser de álcool 90o. Pese a quantidade de soda cáustica que o site te indicar pra sua gordura, e acrescente a metade do líquido (somente água) na soda para dissolver. Lembre de abrir as janelas e deixar ventilar pra fazer isso. Não é preciso esquentar a água, use-a em temperatura ambiente.

 

Passo 5. Acrescente a soda na gordura e mexa

Arrume um pedaço de pau ou uma colher de pau velha e separe só pra fazer isso. Vá acrescentando devagar e mexa sem parar. A reação vai começar a acontecer.

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Essa é a minha amiga Anna misturando a gordura com a soda cáustica (passo 5) enquanto colocamos o álcool devagar (passo 6)

Passo 6. Derrame o álcool bem devagar na mistura de gordura + soda cáustica

Faça isso bem devagar. O álcool é um catalisador e ajuda a acelerar o processo, mas você não quer que o processo vá rápido demais. Você vai notar que a vasilha aonde você está fazendo isso vai esquentar naturalmente, mesmo não estando no fogo (mágica!). Se você colocar o álcool rápido demais, a mistura pode chegar a ferver e espirrar, e você não quer isso. Então, seja paciente.

Não pare de mexer enquanto vai colocando o álcool aos poucos. Esse processo deve levar cerca de 30 minutos, e o sabão vai se tornando progressivamente mais duro. Quando começar a ficar pesado de se mexer, está pronto.

 

Passo 7. Coloque o sabão em uma forma

Arrume uma caixa de papelão firme. Aqui pegamos uma no supermercado. Forre com um plástico grosso – não use uma sacola plástica, pense num plástico mais grosso como o do saco de arroz de 5kg. A ideia é que você isole o papelão do sabão, pra que ele não fique úmido e mole, e seja fácil de você retirar o sabão depois. Aqui reutilizamos o mesmo plástico de um ano a outro. Procure um plástico firme (talvez você encontre algo também no supermercado)

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Uma caixa de papelão forrada com um plástico, e o sabão dentro

Passo 8. Espere 30 dias

Esse período a gente chama de cura do sabão. Não há o que fazer, só aguardar o tempo. Deixe a caixa aberta e de preferência em local ventilado.

 

Passo 9. Corte

Depois de 30 dias o sabão está pronto para ser cortado em barrinhas e utilizado.

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Depois de 30 dias, sabão pronto pra ser cortado

ALGUMAS PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE O PROCESSO DE FAZER SABÃO

1.Posso usar o óleo que sobra de frituras da minha cozinha?

Claro! Mas o melhor óleo pra se fazer sabão é o óleo mais velho que você tiver, aquele que chega a ficar no estado sólido em temperatura ambiente. O óleo velho é mais saturado, e isso facilita a reação de acontecer. Se você quer aproveitar seu óleo velho mas não vai fritar coisas até ele ficar nesse estado lastimável, o máximo de problema que pode ocorrer com óleos novos é você ter mais dificuldade de fazer com que o sabão fique na consistência final correta, mas isso não é um impeditivo (além do que, um tempo de cura maior pode ajudar a resolver esse problema).

 

2. É difícil/caro achar álcool 90o. onde moro. Posso usar o álcool 46o, mais comum?

Dá sim. Você só vai precisar recalcular a proporção álcool e água da equação. O álcool 46o. significa que pra cada 100ml de líquido, 46ml são de álcool e o restante é água. O álcool 90o, então, tem 90 ml de álcool em 100ml de líquido, o que é muito mais álcool. Como metade dos líquidos que a calculadora aponta devem ser de álcool, você vai precisar diluir a soda numa quantidade menor de água no início pro processo funcionar, mas calculando direitinho vai dar certo sim. O único álcool que não dá pra usar é o em gel.

 

2. Dá pra fazer sabão em apartamento?

Depende. Se a sua cozinha ou aŕea de serviço tem um tamanho razoável, ou mesmo se na garagem tem algum espaço que dá pra você colocar um banco ou circular, dá com certeza. Você pode fazer em outros cômodos, mas sempre tem o risco do óleo derramar ou acontecer algum outro pequeno acidente. É claro que um apartamento muito pequeno você vai ter mais dificuldade de fazer, mas ainda assim não é impossível. Tenha em mente que você vai precisar de um lugar ventilado, e de vasilhas grandes dependendo da quantidade de sabão que você esteja fazendo. No mais, nem fogão você precisa porque o processo é à frio.

 

3. Quando se faz sabão tem cheiro ruim ou fumaça?

Não. No entanto, quando você estiver colocando água na soda cáustica, é importante que você abra as janelas e evite ficar respirando muito em cima da mistura porque ela libera gases que podem fazer mal se inalados. Não é nada demais. Lembre-se que muita gente usa soda cáustica pra desentupir canos, é uma substância vendida livremente (o princípio ativo do diabo verde também é a soda cáustica, por exemplo). É só ter um pouco de cuidado mesmo.

 

4. Fazer sabão faz muita sujeira?

Não. Uma dica preciosa pra evitar a sujeira é tomar o cuidado de derramar o álcool na mistura (passo 5) bem devagar. O álcool é um catalisador, ou seja, ele ajuda a reação de saponificação a acontecer mais rápido, mas você não quer que ela aconteça rápido demais. Quando colocado rápido demais, o sabão esquenta muito e isso pode fazer ele respingar, como se estivesse fervendo no fogo – fazendo a sujeira que a gente quer evitar. Se isso acontecer, também não é um problema. Lembre-se: o que respingar é sabão. É só jogar água. Além do cuidado com esse passo, a sujeira quase se limita às vasilhas que você usar pra fazer a mistura.

 

5. O processo é muito demorado?

Depende do quanto você acha que é demorado. A parte de se mexer a mistura leva entre 30-40 minutos, mas se você for contar o tempo de pesar os ingredientes, jogar na calculadora, colocar na caixa, limpar as vasilhas usadas e ainda esperar os 30 dias pra que o sabão cure, o processo é um pouco demorado. De minha parte, eu faço de tudo pra que ele seja o tempo mais prazeroso possível. Abra uma cerveja, faça uma jarra gostosa de suco, chame algum amigo que goste desse tipo de coisa ou seja ao menos curioso e faça disso uma desculpa memorável pra uma reunião. Te garanto que você nem vai ver o tempo passar.

Nem todo grão de mostarda é igual

Já tinha escrito aqui sobre como fazer mostarda em casa, mas nesses últimos dias, ao fazer uma nova remessa do molho pra mim, fiz uma pequena descoberta: existem grãos de mostarda diferentes no mercado. Conhecia a mostarda marrom, que não se acha fácil pra comprar no Brasil, e sabia que ela era feita com grãos mais escuros, mas não sabia ainda que os grãos amarelos tinham variação (e que o mercado não avisa pra gente):

Os grãos maiores (à esquerda na foto que abre essa postagem) tem um sabor mais forte e pungente. O molho de mostarda feito com ele tem um sabor que lembra muito raiz forte. Não achei muito bom pra essa finalidade, mas os grãos maiores pareceram adequados pra fazer o massala do arroz (pilau) indiano (que começa com uma fritada até “pipocar”, com a panela tampada, de grãos de mostarda em óleo), ou pra colocar no repolho pra deixar ele fermentar até virar chucrute. Já os grãos mais miúdos (à direita) são muito saborosos sem serem tão amargos. É o melhor pra fazer molho de mostarda.

Infelizmente os grãos não são identificados como tipos diferentes na hora que a gente vai comprar. O mais comum é que um local tenha apenas um dos tipos, então cabe a gente que está comprando tentar discernir no escuro (não soa um absurdo a gente não ter direito de saber o que estamos levando?).

Uma forma de você saber se o grão de mostarda é maior ou menor é comparando. Um grão muito parecido com o menor é o grão da quinoa:

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À esquerda a mostarda do grão pequeno e à direita, mais claro, a quinoa: tamanhos bem parecidos.

Então, se você não tiver certeza de que grão de mostarda se trata, na hora de comprar dê uma olhada na quinoa, coloque as duas lado a lado. Se a quinoa for menor, você já sabe que é o grão de mostarda grande, e que o resultado do molho vai ficar melhor com as sementes menores. Melhor tentar encontrá-las em outro lugar.

 

O coração do chuchu e dos nossos hábitos

Você come essa parte branco-amarelada aí do meiozinho do chuchu, o caroço?

Na minha casa sempre tiramos e jogamos fora. Aprendi que era assim que se fazia, e que isso era duro e amargava.

Conversando com uma amiga esses dias, aprendi outra coisa. Ela me contou que na casa dela rolava uma pequena disputa pra ver quem ficava com o coração do chuchu. Era a parte nobre do legume, o coração do dito cujo. Fiquei intrigada, não entendi nada!

A curiosidade foi tanta que na mesma semana resolvi experimentar. Fiz uma sopa – anda frio esses dias – e dessa vez não tirei o miolo escavando, como sempre fiz. Piquei tudo em cubos e joguei na panela, com aquele sentimento de estranheza de quem faz uma coisa meio errada. Tantos anos desprezando aquela parte. Quando provei, achei que a textura do coração do chuchu lembrava palmito fresco. Era uma delícia mesmo.

A gente faz tanta coisa por hábito, por nunca parar pra se perguntar por que é que a gente faz assim mesmo. Mas cada vez que conseguimos nos perguntar por que é mesmo que é assim, a gente acaba parando, refletindo, tentando de outros jeitos. As mudanças aparecem é de sabermos fazer as perguntas muito mais do que de saber dar respostas.

A gente aprende muito com a experiência dos outros porque cada um tem uma experiência. Perguntando no twitter, descobri que um monte de gente já comia o coração do chuchu, outro tanto não. E porque a experiência é tão variada, tem coisas que nós mesmos é que temos que experimentar e decidir o que é bom pra gente.

Coração de chuchu aqui em casa, a partir de agora, se come sim.

Ginger Ale e o mundo invisível

Quando era pequena, eu e minha irmã ganhamos um daqueles kits de química que vinham com vários materiais, tubos de ensaio, e cartões dizendo o-quê-misturar-com-o-quê pra dar um composto novo.

A gente nunca teve muita paciência com os cartões e via de regra a gente misturava tudo-com-tudo.

Talvez a gente só tenha sido crianças normais querendo brincar de fazer os próprios experimentos ao invés de seguir os experimentos da caixa. Mas eu gosto mais de pensar que isso diz muito sobre o nosso gosto por experiências. Ou que foi ali que eu comecei a confiar que o “mundo invisível” iria agir e transformar tudo numa coisa linda.

As vezes saíam compostos bem fedorentos e desagradáveis, é verdade, mas a gente fazia tudo outra vez porque gostava do processo, acima de tudo.

Fazer Ginger Ale lembra muito a brincadeira dos kits de química porque a gente coloca tudo no tubo de ensaio, espera reagir e … depois de uns dias aparecem borbulhas!

O Ginger ale é uma bebida gaseificada naturalmente, feita com limão e gengibre. É bem popular nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. O “processo mágico” que está no seu feitio que faz as bolhas aparecerem é a fermentação.

Existem muitas receitas nesse mundo chamado internet, e, como eu nunca curti os cartões do brinquedo, vivo testando novos jeitos meus de fazer as coisas. A essa altura, eu até tenho um jeito preferido, mas vou partir do princípio que você também vai gostar de brincar de fazer o seu Ginger Ale sem os cartões. Por isso, eu vou explicar pra que serve cada coisa, e daí você monta seu experimento. Vou sugerir umas quantidades lá no fim, mas por favor, não se prenda a elas. Brinque.

O que você vai precisar pro experimento

 

Uma garrafa vazia — Eu uso uma garrafa de vidro de suco de uva reaproveitada. É essa verde que você está vendo nas fotos e ela tem capacidade pra 1,5l. Você pode usar uma PET de plástico de 2l, ou qualquer outra vasilha com tampa. O importante é você saber que como vai rolar uma reação química que vai produzir gás carbônico — as tais  borbulhas que eu tinha mencionado  — você sempre precisará deixar um espaço vazio no alto. Nessa garrafa de 1,5l, por exemplo, eu acabo produzindo só 1l de Ginger ale. Além disso, é bom saber que as garrafas de plástico vão sofrer deformação quando o gás começar a se formar. Nas de vidro, a pressão deve se concentrar na tampa, de modo que ela talvez estufe. Em ambas vale a pena ficar atento e eventualmente liberar o gás que se forma pra não correr risco de acidentes.

Não é preciso ter medo. A garrafa de vidro não vai explodir: a pressão na tampa é muito maior do que a pressão no restante da garrafa. Apenas vigie, e abra a tampa rapidamente pra liberar o gás durante o processo uma única vez, e o risco será mínimo.

Funil — não é indispensável, mas facilita de você colocar os ingredientes na garrafa.

Gengibre — o gengibre é o que vai dar o gosto do Ginger Ale (ok, era óbvio, mas eu precisava dizer). Tem quem goste muito de gengibre, tem quem não curta tanto o sabor picante dele e prefira as coisa mais suaves. Corte um pedaço e rale. Não se importe com as fibras: use tudo porque no final vamos coar. Esse da foto é o tamanho que ponho na garrafa de 1,5l.

Limão — o limão é usado por dois motivos: a) pra dar gosto; b) pra criar um meio ácido que facilita a multiplicação do “mundo invisível” dos microorganismos, tornando mais rápido o processo. A gente está tentando selecionar as bactérias que provocarão a fermentação. O limão é amigo das bactérias que a gente quer, e inimigo de bactérias que a gente não quer. Ele está aqui pra dar uma mão pra gente. Pra 1l eu uso suco de 2–3 limões (dá 1/4 de xícara de chá).

Açúcar — Aqui a opção não é única. Você pode colocar açúcar branco ou açúcar mascavo; pode colocar melado, rapadura, ou mesmo mel. A ideia desse ingrediente é ser “comida pro mundo invisível”. As bactérias irão processar os açúcares, e transformá-los em ácido láctico e gás carbônico. O resultado disso é que seu Ginger Ale ficará mais azedinho e menos doce com o tempo, e vai se tornar progressivamente gaseificado como um subproduto do processamento. Se tiver um pouco mais de paciência e ousadia, você pode esperar mais alguns dias e deixar que o mundo invisível também produza álcool pra você. Pra isso, não é preciso fazer mais nada além do que estou explicando. Só deixar um pouco mais de tempo a garrafa fermentando.

Quanto mais processado o açúcar, mais rápida é a reação, e mais rápido o Ginger Ale vai ficar pronto. Eu sou paciente (ou gosto de pensar que sou), e por isso prefiro fazer com mel. Se você também quiser exercitar a paciência, o mel é uma ótima escolha por conta do gosto que ele acaba adicionando. No verão o processo todo com mel leva 4–5 dias. Com açúcar branco, seu Ginger Ale deve ficar pronto em 2 dias.

Água — É só colocar na garrafa, nada demais. Na garrafa de 1,5l eu uso 1l de água.

Tem uma única coisa que, caso você esteja se sentindo à vontade na brincadeira, pode ser legal considerar. Pra fazer Ginger ale é melhor quando a água não tem cloro. Isso é um pequeno problema, pois a água que sai das nossas torneiras têm cloro por conta do processo de tratamento que elas passam. Faz todo sentido: o cloro é inibidor do processo bacteriano. Se a gente põe água com cloro, a gente mata as bactérias nocivas, mas isso também afeta em alguma medida o “mundo invisível” que a gente gosta do nosso Ginger Ale. A solução é bem simples: use água que passou por filtro de carvão aditivado. O elemento filtrante dos filtros comuns, aqueles de barro, fazem isso. Se você tiver um desses, sua água do filtro já é declorada. Se não tiver, da próxima vez que for comprar o elemento filtrante, você pode prestar atenção nisso. Outra alternativa — menos sustentável — é usar água mineral.

Mas ó: se hoje você não tiver como arrumar água sem cloro em casa, faça Ginger ale assim mesmo. Lembra do espirito de misturar tudo com tudo e confiar, né? Vai dar certo também, e eu já fiz assim, viu.

Sal marinho não-iodado — Esse é o item mais difícil de se arrumar. Mas caso você não tenha sal não-iodado, a solução é das mais simples: pule esse ingrediente da receita. Ele é dispensável, e eu já brinquei de fazer uma garrafa com sal e outra sem pra ver o que acontecia. As duas viram Ginger ale. Os sabores são diferentes, e eu gosto do resultado com sal, de modo que me sinto tentada a te oferecer a melhor versão do meu experimento. Só por isso pus esse item exótico aqui. E vou te explicar o porquê do sal (e porque ele deveria ser sem iodo pra esses casos).

Pela legislação brasileira, todo sal comercializado deve ser iodado pra prevenir o bócio endêmico. O iodo, no entanto, também funciona como um inibidor bacteriano. Você já viu tintura de iodo na farmácia, ou mesmo o mertiolate? O iodo neles previne infecções bacterianas em machucados. Só que aqui a gente não quer “prevenir bactérias”; a gente precisa delas. Por isso, o sal a ser adicionado deveria ser sem iodo. A sua função é ajudar a formar um meio favorável para as bactérias pra produção de CO2. Os sabor final do Ginger ale que levou sal costuma ser mais pungente.

Se a legislação brasileira proíbe, como conseguir sal sem iodo? Você pode comprar sal importado — o sal rosa do himalaia é razoavelmente encontrável, embora não seja barato — ou você pode comprar pela internet. Quem mora em cidade com salinas também tem facilidade de conseguir o produto. Gasta pouquinho: pra 1l, uso 1/2 colher de chá.

Fermento ou “o mundo invisível” — Minha sugestão é que você use fermento biológico seco, daqueles que se usam para fazer pão. Coisa simples de achar em qualquer mercado, e dá um bom resultado. 1/2 colher de chá é suficiente pra 1l. Se você estiver se sentindo mais valente, use soro de leite. Eu sempre tenho aqui em casa, e é o que eu uso, porque faço queijo e iogurte. Pra entender como você pode conseguir soro de leite, eu explico aqui. 2 colheres de soro pra 1l funciona bem.

Soro de leite ou fermento fresco de pão dão resultados diferentes de Ginger Ale. O fermento de pão costuma fazer um Ginger Ale bastante gaseificado. Já o soro de leite é mais sutil, mas o Ginger Ale parece que fica mais saboroso. O negócio é brincar (e descobrir de que experimento você gosta mais).

A experiência

A garrafa com tudo dentro, no fundo.

Jogue tudo na garrafa, tampe com uma tampa que vede e deixe em um lugar fresco, longe do sol. E fique de olho, porque em alguns dias o líquido vai começar a formar gás. Como o processo é variável, e você pode escolher diferentes ingredientes pra ter diferentes resultados, sua principal tarefa vai ser prestar atenção todos os dias. Aperte a tampa, veja se ela estufou. Ou mais fácil: abra-a para se certificar. Se ouvir o tsssss do gás, é sinal de que seu Ginger Ale está evoluindo e já começou a fermentar. Se não sair gás, espere mais alguns dias. O tempo mínimo pra ficar pronto é de 2 dias. Não há tempo certo, pois você é quem escolhe o ponto que acha mais interessante. Não tem perigo também de passar do ponto. O máximo que vai acontecer de errado é seu Ginger Ale se transformar em um delicioso vinagre de gengibre. E isso levaria pelo menos 2 meses, aliás.

Não se assuste se a garrafa de plástico der uma leve deformada. Isso é sinal de que o mundo invisível muda mais coisas do que a gente imagina.

Quando decidir que está pronto, coloque a garrafa na geladeira. No ambiente gelado, o processo de fermentação diminuirá, e você pode levar vários dias até beber. Quando achar que é hora de saborear, abra e coe com uma peneira antes de servir no copo.

Faça mais vezes e permita-se ser criativo. O gostoso é sempre experimentar. Nada é fixo por aqui. Até ginger ale sem gengibre é possível! Quem decide até onde a brincadeira vai é você.

Não se esqueça do brinde. O de hoje é dedicado às bonitas transformações que o mundo invisível traz pra gente. Tim-tim!


Uma listinha pra sua consulta rápida

Para uma garrafa de 1,5

1 pedaço de 3 cm de gengibre, ralado
1/4 de xícara de suco de limão
1/2 xícara de mel
1/2 colher de chá de sal não-iodado (ou pule essa parte!)
1/2 col de chá de fermento biológico seco OU 2 col de sopa de soro de leite
1l de água

E não se prenda à listinha! Faça sua versão.

Iogurtes, DIY e um pouco de diversão

Devia ter uns 15 anos quando tentei fazer iogurte pela primeira vez. Vi numa daquelas revistas de vendas tipo avon um pacotinho que prometia fazer iogurte caseiro e comprei. Talvez você já deva ter visto um desses por aí, senão numa revista, numa loja de produtos naturebas.

Foi um fracasso retumbante. Eu comprei uma caixinha de leite, coloquei numa panela, levei ao fogo. Do jeitinho que falava a instrução. Não rolou. No outro dia, eu tinha a mesma panela com um tanto de leite. E uma sensação de fracasso.

Tudo bem. Eu nunca gostei muito de leite mesmo. Procurando aqui pela memória, eu não tenho a mínima ideia de porque havia me interessado em tentar fazer iogurte nessa época. E não tentei de novo, até uns meses atrás. Eu até tento consumir menos leite e derivados aqui em casa — e teve épocas muito bem sucedidas nesse intento. Mas quando a gente veio pro interior, a vaca foi pro brejo.

Passamos a ter acesso a leite cru, tirado no dia, orgânico, não pasteurizado, de produtores que tem poucas vacas, criadas soltas. Você não tem ideia do que é tomar leite assim. Para mim, que não curto leite, é quase insuportável. Tem gosto de leite. Mesmo.

O fato é que acabei me animando de fazer umas experiências com o leite, mesmo não gostando muito. Pelo prazer da experiência. E o problema foi que acabei gostando. Não só da experiência, mas do leite também.

Meu ânimo com esse experimento de fazer iogurte em casa veio particularmente depois de ler Wild Fermentation. É um livro genial porque nos ensina a reconhecer nosso lado o wild; ou seja, sem frescura, sem complicação, equipamentos especiais, ou qualquer coisa do gênero. Alimentos fermentados tão aí desde que o mundo é mundo e não tinha nem eletricidade. O que importa é acreditar no processo e se divertir durante ele, esperando as coisas se transformarem.

A receita do livro é a que sigo:

Equipamentos necessários: 
uma panela
uma garrafa pet cheia de água quente

Ingredientes:
2 l de leite
2 col. sopa de iogurte (ou de soro de leite)

Você começa colocando o leite na panela pra esquentar. Essa parte, aliás, é dispensável, especialmente se você vai usar leite de saquinho/caixinha. (aliás, recomendo não usar leite de caixinha, se você tiver qualquer outra opção. Há imensas controvérsias sobre ele por conta do processo de ultrapasteurização — UHT). Essa etapa serve para eliminar bactérias que estejam no leite, e que vão concorrer com os lactobacilos que você vai inocular. A etapa de esquentar o leite é dispensável também com o leite cru, mas você corre o risco do iogurte ficar menos firme, ou demorar mais pra chegar no ponto exatamente porque vai haver essa concorrência. Se você não fizer, ninguém vai morrer.

Você deve esquentar bem lento, no fogo mais baixo possível, até que pequenas bolhas comecem a se formar na parede da panela. Não deixe ferver, ninguém quer chorar o leite derramado.

Leite na panela, nata se formando em cima, bolhas na borda são o sinal que você estava esperando

 

Deixe amornar naturalmente sobre o fogão. Vai levar cerca de 2h para isso acontecer. Quando o leite chegar a uma temperatura em que você consegue colocar o seu dedo e for suportável o calor, está na hora de colocar o iogurte. Se você gosta de tudo muito medido, e tem um termômetro, essa temperatura que o seu dedo vai conseguir ficar dentro do leite é em torno de 43–42º. Eu não tenho esse instrumento, e confio apenas no meu tato. Dá tudo certo também.

Porque colocamos o iogurte nessa hora? Porque essa é a temperatura ótima que os lactobacilos se reproduzem: eles gostam de estar em ambientes com temperatura entre 43º e 36º. Mais do que isso, eles podem morrer; menos, eles se reproduzem muito devagar.

Coloque as duas colheres de iogurte. (ou quantas colheres forem, uma para cada litro de leite).

Se você colocar mais, não vai ser melhor, nem mais rápido. Aliás, pode haver mais competição e os lactobacilos se reproduzirem mais devagar. 1 colher de sopa por litro de leite é uma quantidade ótima.

Agora é só esperar. É bom reparar como está a temperatura do dia. Se estiver um dia quente, você pode realmente só esperar. Pode colocar a panela tampada num lugar quente (por exemplo, seu forno desligado). A mágica vai acontecer em umas 8h-12h. Se o dia está frio, pode ser necessário dar uma mão para a temperatura se manter constante na panela. Eu tenho um forno que consigo regular para ficar ligado com 40º. Posso deixá-lo ligado nessa temperatura, por exemplo. Mas isso não é necessário — eu só fiz isso no início, quando tinha medo da coisa não funcionar. Você pode encher garrafas pet com água bem quente, e colocar sua panela numa caixa de isopor, numa caixa térmica, ou algo do gênero. Não tem caixa térmica? Tudo bem. Pode colocar essas mesmas garrafas no forno, junto com a panela. Tem quem coloque uma coberta de lã em volta da panela, pra que ela perca o calor mais devagar. Pode parecer ridículo, mas dependendo da temperatura do dia é suficiente. E se funciona, eu não tenho nada contra. A criatividade é o que conta aqui. Use o que estiver à mão.

Também não precisa ficar muito desesperado com o tempo. O que acontece é que quanto mais o tempo passa, mais os lactobacilos irão consumir a lactose (açúcar do leite), e mais o iogurte vai ficar azedinho. Se você gosta do sabor azedo no iogurte, ou quer um teor menor de lactose, pode ser desejável mesmo deixar mais do que 8h. Isso é entre você e o seus lactobacilos.

Gosto de deixar essas 8h de espera à noite. É bem legal acordar e abrir a panela pra ver se deu certo. Eu já fiz um monte de vezes, e ainda acho uma coisa deliciosamente mágica. Cada vez que eu abro esboço um sorriso. É um pouco como a redenção pela vez, na adolescência, que tudo deu errado.

Esse iogurte, se você quiser, você pode bater no liquidificador ou um mixer para ficar bem homogêneo. Ou com alguma fruta, se quiser que ele tenha algum sabor específico — nesse caso é melhor bater na hora, ou armazenar por pouco tempo. Pode colocar uma colher de mel, e misturar na mão mesmo antes de tomar. E é só. O iogurte puro dura aí uns bons 10–15 dias na geladeira. O gosto vai se tornando mais azedinho progressivamente.

Ou — e isso é o que eu mais gosto de fazer — você pode coar esse iogurte pra ele ficar muito cremoso. Dá um pouquinho a mais de trabalho, mas fica muito acima da média. Isso, aliás, é o iogurte grego ou labne. Não o que te vendem no supermercado, que é engrossado com amido, carragena, goma xantana, gelatina. Eles só não vendem assim como estou contando que faço porque, imagine, sai mais caro. Só tem leite, afinal.

Você vira o iogurte que você acabou de fazer em uma peneira forrada com um pano de algodão, dos tipos que se fazem pano de prato. Na vasilha embaixo vai escorrer um líquido transparente: é o soro do leite. E em cima, vai ficar apenas o iogurte, muito muito cremoso.

A vasilha com um escorredor ou peneira; Na segunda foto, cobri a vasilha com o pano; e na última, o iogurte está no pano, escorrendo.

Só não se empolgue muito com o resultado e coma tudo. Guarde uma colher do seu iogurte pra fazer a próxima fornada. Daí você nem vai precisar recorrer ao supermercado pra comprar o iogurte da receita. Ou, se você se animou de tentar o iogurte grego, guarde o soro do leite. Ele é útil em outras receitas de pão, biscoito, bebidas fermentadas, e claro, na próxima fornada de iogurte como cultura láctica.

Esse é o soro do leite, sendo colocado pelo funil numa garrafa. Dá pra usar em outras receitas substituindo leite, e na sua próxima fornada de iogurte. Também é um ótimo adubo de planta (sério!)

E porque anos atrás meu iogurte não deu certo? Eu não sei, pra falar a verdade. Não tem problema; eu não fico me corroendo pra entender. A verdade é que muita coisa dá errado na cozinha. A graça não está só no resultado: você tem de se divertir um pouco também no processo. E isso eu entendo toda vez que faço iogurte, ou quando divido com alguém como se faz.

Divirta-se!