Flor de agrião também se come: como fazer uma água aromatizada com elas

Na última quarta recebi por WhatsApp uma foto feita por um amigo agricultor e feirante me mostrando o seu campo de agrião todo florido, lindíssimo. Ele queria saber se as flores de agrião também são comestíveis e se ele podia vender os molhos floridos.

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A foto que recebi no WhatsApp: como ficam lindas as touceiras de agrião floridas ❤

A pergunta dele me fez voltar a pensar como mesmo plantas consideradas comuns tem muitas partes que a gente despreza ou não utiliza, como já falei por exemplo do coração do chuchu, da flor do alho poró, ou do umbigo da bananeira.

O caso do agrião é um pouco diferente desses exemplos porque não é uma parte usual da planta que a gente despreza, ele é uma parte desprezada que nem chega na nossa mesa pois se faz um esforço por parte de quem cultiva pra que as flores nunca saiam.

O agrião gosta de climas mais frios, e por isso é considerado uma hortaliça de inverno, e as flores costumam aparecer na primavera/verão, quando de um modo geral a qualidade da hortaliça acaba diminuindo, com maiores perdas e mais folhas amareladas. É a época que muitas vezes o agrião até some das feiras e mercado, ou tem o preço elevado.

As flores do agrião, no entanto, apesar de quase nunca desejadas, e muito menos comercializadas, são comestíveis e de sabor semelhante ao da folha. E são lindas.

Em muitos lugares as flores comestíveis tem aparecido como uma tendência em gastronomia, porém como qualquer coisa que apareça como tendência, também são supervalorizadas economicamente. A flor do agrião deixa claro como esses preços altos são uma bobagem: as flores são partes comuns e podem ser usadas inclusive pra driblar uma entressafra. É uma forma de valorizar a existência de estações e ciclos diferentes.

O feirante acabou me dando de presente um molho do agrião florido – depois da minha resposta por WhatsApp ele colheu vários molhos e levou pra feira, e me disse que a aceitação foi grande. Ele explicou pra quem comprava que dava pra fazer saladas floridas com elas, e o apelo estético deve ter ajudado bastante.

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Flores do agrião bem de pertinho: em forma de buquê, com 4 pétalas cada e bem delicadas, tanto que facilmente as pétalas caem. O sabor é parecido com as folhas, mas um pouco mais sutil

Aproveitei o presente que ganhei pra criar algo diferente com as flores do agrião, e gostei tanto que achei que valia o registro. Fiz uma infusão à frio com elas, que a gente também pode chamar de água aromatizada. Tem um gostinho sutil, como um chá muito delicado e frio, e ficou bem refrescante. É aquele tipo de coisa que chega no estômago como um carinho. A flor do agrião, além do gosto delicadamente picante, também é ótima pra dar uma acalmada no estômago:

ÁGUA AROMATIZADA COM FLORES DE AGRIÃO

Flores de agrião
Rodelas de laranja
Canela em pau
Água

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1. Coloque as flores de agrião em uma jarra, junto com as rodelas de laranja e alguns poucos pedaços de canela em pau. Aqui usei 500ml de água pra 2 punhados de flores, 3 rodelas de laranja e uns 5 pedacinhos menores de canela em pau quebrada, que estavam no fundo do pacote. Isso é suficiente pra deixar a água muito saborosa, mas fica a seu critério usar maiores ou menores quantidades;

2. Deixe essa água descansar pelo menos por 1 ou 2 horas antes de servir;

3. Você pode repor a água nessa mesma jarra algumas vezes. A bebida vai ficando progressivamente mais fraca, mas ainda é muito saborosa.

4. Se quiser deixar da noite pro dia pra beber pela manhã também é possível, mas o tempo menor deixa a água com um sabor mais fresco.

O trevinho e a infância

Com a estação saindo do inverno e entrando no verão, as mudanças pelas ruas e pelos lotes já começaram a ficar visíveis. As serralhas, nabiças e o mentruz começaram a dar espaço pra uma diversidade enorme de matos. Essa é uma época super farta de delícias.

Mas há coisas mais sutis que a proliferação de matos que acontece nessa sucessão de estações. Uma dessas sutilezas são os trevinhos (Oxalis latifolia), aqueles com três folhas em forma de coração, que estão por aí o ano todo, mas que nessa época começam a florir.

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Essa é a flor do trevinho: vem num pendão com flores bem miúdas, com tons de rosa e violeta

É dessas sutilezas que a gente, que passa correndo pelas mesmas ruas com a cabeça cheia pensando em qualquer outra coisa muito-muito-importante que nem vagamente tem a ver com estar ali, não vê. Prestar atenção no mato já é raro; reparar que o mato tem flores tão pequenas e discretas com as florzinhas do trevinho é coisa de quem consegue enxergar o mundo com o olhar de criança, deslumbrado com toda descoberta que faz.

Trevinhos, aliás, acho que é uma planta que tem muito a ver com a infância. Quase todo mundo tem alguma história de colocar plantinhas na boca – colocar as coisas na boca é um dos primeiros jeitos pelos quais a gente tenta experimentar o mundo. E o trevinho é uma dessas plantas que costumam atrair pela curiosidade da forma e depois pelo azedinho agradável na boca.

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Trevinhos molhados de orvalho: que tal colocar alguns no meio de outras folhas verdes da salada? Num suco verde? Ou só brincar de experimentar o sabor azedinho comendo um recém arrancado?

É claro que no meio do caminho sempre aparece alguém pra ensinar a não colocar plantas desconhecidas na boca, e arrancam da gente essa experiência muito curiosa e sensorial. E eles têm razão mesmo, pode ser perigoso botar na boca o que a gente não conhece. A questão não é a interdição. O triste é que a gente não saiba, que não nos ensinem, que a gente não tenha uma alfabetização verde de fato. Convivemos tão pouco com as plantas a ponto de não as reconhecermos e termos medo delas.

Um dos efeitos colaterais mais bonitos da gente conhecer um pouco mais de plantas – e saber nomear, aprender a reconhecer a forma, as épocas e as preferências de cada uma delas, além de poder apontar as que são comestíveis e dizer do sabor – é que esse é um jeito também de alterar a vivência da infância. Dar espaço pras crianças poderem experimentar sabores e conhecer plantas é reconhecer que a aprender é uma brincadeira natural.

A sutileza dos trevinhos floridos da primavera são uma oportunidade. Uma oportunidade de aprender sobre o terreno ou o vaso onde eles aparecem – trevinhos que brotam espontaneamente são bioindicadores muito seguros de uma alta quantidade de matéria orgânica em um vaso. Eles só vêm quando há matéria orgânica em excesso. É também uma oportunidade de provar uma flor comestível. Assim como os próprios trevinhos, elas podem ser comidas – apesar de terem ácido oxálico, como várias outras espécies (cacau, carambola, tomate, pra ficar apenas em coisas bem comuns) elas são perfeitamente seguras, desde que não sejam um alimento diário. São uma ótima chance da gente poder voltar a brincar com a comida. Que tal enfeitando docinhos? Ou só pra colocar na boca meio de brincadeira?

Mas a maior oportunidade de reparar e ficar curiosa com trevinhos é que esse é um jeito também de resgatar a infância.

PANC para cultivar em casa: capuchinha

Tenho andado bem impressionada com a facilidade de cultivo da capuchinha, aquela florzinha alaranjada que tem um gosto bem ardido, que lembra a raiz forte. As mudinhas pegaram rápido, saíram novas folhas em 15 dias, e quase não tenho trabalho regando.

Capuchinha é uma flor que tem ganho popularidade por ser comestível e em alguns lugares já se encontra pra vender – mas quase sempre o preço é meio amargo. Pra quem tem um vasinho e se interessa pela flor, uma coisa que recomendo é cultivá-las. Produzem bem e é tão fácil que mesmo quem não tem prática de cuidar de plantas tem chance de fazer a plantinha ir pra frente.

As minhas mudas consegui arrancando alguns ramos de uma touceira que ficava no lote do vizinho. Por aqui, capuchinha é mato, e achei isso um bom presságio do quanto o cultivo não ia mesmo me dar trabalho.

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Catando capuchinha no lote do vizinho

Foi bem fácil plantar. Tirei as folhas não muito bonitas, deixando o caule mais exposto pra enraizar, e dividi em 4 partes com duas folhas ao menos. Quando a planta é mais delicada, é bom deixar na água pra criar raízes antes de plantar, mas esse não é o caso da capuchinha. Coloquei direto na terra. Em poucas horas ela ficou viçosa e daí a 15 dias comecei a ver as primeiras folhas novas saindo. Nenhuma muda morreu nesse processo.

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Mudinhas ainda meio murchas, no dia em que plantei. Um ramo grande foi dividido em 5 mudas e colocados em um vaso largo

Vale dizer que a capuchinha cria raízes a partir de caules (esse processo que fiz, que se chama estaquia), mas também pode ser plantada por sementes.

Como qualquer outra planta que produz flores, ela vai precisar de um pouco de sol direto pra florir. O ideal são 4 horas, mas a partir de 2 ou 3 elas costumam responder com algumas flores. Não precisa se preocupar tanto com rega, pois a capuchinha resiste bem à seca. Deixe pra molhar apenas quando a terra não estiver mais úmida –  o que varia de acordo com a região onde você mora e a estação do ano (pra você ter ideia: aqui no inverno do Paraná estou molhando uma vez por semana).

E a melhor parte: capuchinha é uma planta maravilhosa pra você plantar no mesmo vaso ou canteiro que tomate, pepino ou rabanete, pois ela repele pragas e funciona como uma planta companheira para essas outras, melhorando a produção. Mesmo que você não tenha nenhuma dessas outras plantas, cultivar capuchinha é uma ótima forma de controle orgânico do jardim. Ela também atrai certos insetos que controlam pragas da couve e de outras plantas, mesmo que não estejam plantadas no mesmo canteiro.

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Um mês depois de plantadas já tem várias folhas novas, e estão todas viradas pro sol. Logo vem flores ❤

Além do cultivo fácil e da ajuda que ela dá no manejo dos vasos e jardins, dá pra aproveitar toda a planta no prato. As flores são mais famosas, mas as folhas arredondadas também têm o mesmo gosto ardido, que geralmente se compara com o agrião – mas que particularmente acho mais parecido com a raiz forte. As vagens arredondadas  podem ser fermentados em vinagre ou salmoura e viram conservas, e mesmo as sementes (que ficam dentro das tais vagens arredondadas) podem ser moídas e são mais picantes que pimenta do reino. Nenhuma dúvida de que é uma plantinha linda, saborosa e super versátil.

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Estas são as vagens arredondadas da capuchinha. Dentro delas ficam as sementes. Você pode tanto fazer conserva com elas, quanto secar pra usar as sementes no moedor de pimenta

De comer e de enfeitar: a flor do alho poró

Esta PANC tem a maior cara de primavera, e é de comer e de enfeitar: a flor do alho poró.

Apesar de lindas e do alho poró ser uma planta comum, que encontramos com alguma facilidade pra comprar, não duvido nada que você nunca tenha visto esta flor. O caule do alho poró é a parte que costumamos comer; as folhas, apesar de vendidas junto com o caule, usamos bem menos, mas são ótimas pra fazer caldo de legumes ou fundo de risoto: basta ferver lentamente as folhas sozinhas ou com outros legumes para aromatizar a água. Mas as flores, ah, essas daí eu tive que encomendar porque os agricultores as descartam.

No entanto, dá pra ver que elas são lindíssimas. O alho é um bulbo que floresce na primavera, como várias outros bulbos não comestíveis – as palmas, os lírios, as amaryllis, e tantas outras. As flores duram muito em vaso. No ano passado, chegaram a ficar quase um mês muito vistosas antes de abrirem e começarem a murchar.

O melhor, no entanto, é que depois de servirem de enfeite elas também podem ir pra panela. Elas tem um gosto de alho bem suave. São boas para se jogar por cima, ao final do cozimento, temperando e enfeitando o arroz, pra finalizar risotos, ou temperar e enfeitar legumes assados. Além do gosto que lembra alho, as coisas ficam com uma aparência incrível e sofisticada com esses salpicos florais roxos.

Como as flores do alho poró são suaves, é possível jogá-las por cima cruas, para que não percam a cor. Não exagere, pois mesmo sendo suave o sabor do alho é muito marcante. A temperatura quente do restante do prato vai ajudar a exalar o aroma e dispensar que você leve as flores ao fogo. Nada impede que você refogue as flores, mas lembre-se de que nesse caso elas perderão parte da cor e da forma.

O alho poró também é um ótimo exemplo de como a jardinagem poderia fazer uso paisagístico de plantas comestíveis, mas que pouco vemos ser usado. Imagine um jardim de alhos poró floridos, que coisa bonita 💚

Por ser uma planta muito cultivada, o meu conselho é que você converse com quem planta. Pergunte sobre essas flores, encomende, valorize. Muitas vezes eles sabem que se come, mas não vendem porque acreditam que os compradores vão achar estranho ou que não vai vender. Muita coisa boa por aí não chega até nós por puro medo dos nossos preconceitos.

E não se preocupe: a casa não fica com cheiro de alho com os arranjos nos vasos. As flores só exalam quando a gente as esfrega.