Outra PANC para se ter em casa: bertalha-coração

Já falei aqui sobre como a ora-pro-nobis é uma PANC genial pra se ter em pequenos espaços e apartamentos por conta do pouco cuidado que exige e da alta produtividade mesmo num vasinho bobo.

Outra PANC que é uma boa de se considerar em ter em casa pelas mesmas razões é a bertalha.

Se na ora-pro-nobis os mineiros é que podiam se indignar pois a verdura é conhecida, consumida e popular no estado, com a bertalha é a vez do pessoal do Rio de Janeiro terem causos e memórias com a verdura e não acreditarem que ela seja PANC. Mas a verdade é que em outras partes do país ela costuma ser uma ilustre desconhecida.

O gosto da bertalha é terroso, e a folha quando refogada é viscosa, como a ora-pro-nobis ou o quiabo. No Rio o mais comum é se refogar com ovos. A folha crua também é ótima pra ser adicionada em saladas – é o jeito que mais gosto de comer. Além das folhas, também são comestíveis as raízes: são tubérculos como qualquer batata, e podem ser cozinhados, fritos, assados.

A bertalha é uma trepadeira, e por isso precisa de tutoreamento pra crescer. O caule dela vai se agarrando a qualquer coisa que encontra. Pra ajudar a planta, por aqui coloco  pregos na parede e amarro barbante nesses pregos para guiá-la. Assim, a planta acha o caminho até a rede de proteção que tenho na sacada.

 

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Pertinho do vaso coloco um caminho de pregos com barbante e as bertalhas tratam de se agarrar e seguir seu rumo dali

 

A planta cresce se enroscando e tornando a parede verde, fica muito agradável permanecer na varanda. E no auge do verão, ela ainda abre longas pistões com flores miudinhas brancas muito cheirosas.

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Olha que lindeza as bertalhas no verão, subindo pelas paredes e pela rede ❤ Dá pra encher os olhos e a barriga

Depois da florada, no outono, elas param de soltar novas folhas, as antigas se amarelam e nessa fase é uma boa arrancar todos os ramos que se enroscaram por aí. Não se preocupe: quando terminar o inverno, a planta brota de novo. No caule você vai ver que vários tubérculos aéreos começam a se formar. Embaixo da terra ela produz uma quantidade ainda maior, que ficam aguardando pra voltar à vida. Os tubérculos – tanto aéreos quanto rizomáticos – são a forma mais fácil de se conseguir uma muda de bertalha, embora ela também crie raízes a partir de um galho.

A bertalha gosta muito de água mas não aprecia tanto sol. Procure colocá-la em um local que pegue apenas aquele solzinho morno do início da manhã ou do final da tarde. Se as folhas começarem a amarelar é sinal de sol demais.

Com um único vaso eu não consigo aproveitar todas as folhas tamanha é a produção. Vale muito a pena ter a planta, é linda e se aproveita demais. Essa receita aqui embaixo é apenas uma sugestão pra você experimentar bertalha na salada crua, equilibrando bem o sabor doce com o terroso e o amargo:

SALADA VERDE DE BERTALHAS COM MOLHO DE CEBOLA TONTA

Alface americana
Alface roxa
Radicchio (ou outra folha ligeiramente amarga)
Bertalha

Para o molho de cebola tonta
8 cebolas roxas miúdas cortadas ao meio
1 colher de sopa de manteiga
1 colher de sopa de açúcar
1/3 copo de vinho tinto
pimenta do reino à gosto
1 pitada de sal

Lave as folhas, escorra, rasgue com as mãos e reserve.

Para o molho, coloque numa panela a manteiga e as cebolas em fogo baixo. Vá vigiando e de vez em quando mexa. O ideal é que o fundo da panela comece a ficar marrom. Depois de pelo menos 10 minutos no fogo, acrescente o açúcar, aguarde mais alguns minutos a cebola murchar. Jogue o vinho tinto. Essa etapa deverá soltar o fundo escuro, acrescentando mais sabor doce às cebolas. Deixe o vinho secar e engrossar ligeiramente, mas ainda mantendo bastante umidade antes de desligar a panela. O molho deve ficar viscoso. Jogue uma pitada de sal apenas para realçar o sabor adocicado e coloque pimenta do reino à gosto. Assim que amornar (não é necessário ficar frio), jogue todo o conteúdo da panela sobre a salada verde. O sabor doce das cebolas tonteadas fica maravilhoso junto do terroso das bertalhas.

 

Uma PANC pra se ter em casa: ora-pro-nobis

a Nem todo mundo dispõe de muito espaço em casa, mas mesmo com pouco ou uma janela é possível ter a oportunidade de se deliciar com o cultivo de plantinhas comestíveis. Este, inclusive, foi o assunto da minha newsletter#21, que por acaso dei o nome de ‘medicina do mato’: cuidar de plantas é uma forma de remediar muita cegueira e descompasso que andamos vivendo coletivamente. Esse contato nos permite retomar a vivência da terra, dos ciclos, a proximidade com outros seres, com o nascer e com o morrer, a aprendizagem pela tentativa e erro sem medo.

Resolvi retomar um pouco dessa conversa por aqui com uma sugestão inusitada de plantio em pequenos espaços: a ora-pro-nobis. Quem é de Minas Gerais como eu até se ofende em saber que a verdura é não-convencional, mas é. Em Minas as pessoas possuem pés nos quintais e não é muito difícil encontrar as folhas à venda nas feiras. Há pratos tradicionais da culinária mineira que fazem uso, e Sabará, cidade da região metropolitana de BH, sedia um festival anual dedicado às delícias produzidas com a planta. Mas fora do estado, pouca gente conhece ainda.

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Meu cultivo em uma varandinha. O vaso do tipo jardineira tem 30x35x60cm apenas

É a planta mais produtiva que tenho em casa. No verão como tranquilamente ora-pro-nobis a cada 10-15 dias. Somos duas pessoas por aqui, e quando colhemos usamos uma quantidade absurda – nós gostamos muito. Então posso garantir que ela solta folhas e galhos com fartura.

Cuidar da ora-pro-nobis não exige muito esforço. Primeiro porque ela é um cacto, o que significa que se você é daqueles que se esquecem de aguar não vai passar muito aperto: ela não precisa de tanta rega e sobreviverá a algum esquecimento. Não precisa de muito sol – 2 ou 3 horas diárias são suficientes, o que geralmente a torna uma planta amigável pra se ter em apartamento. A ora-pro-nobis também não é muito exigente com solo, e não é tóxica para gatos ou cachorros. Ela cresce realmente como um mato, sem quase nenhum cuidado.

Fazer uma muda também não é difícil. Se você tiver a sorte de encontrar alguém que tenha ora-pro-nobis, peça um galho e coloque na água. A raiz se desenvolve em poucos dias e ela está pronta para ser colocada na terra e se transformar numa planta nova. Também não é difícil procurar a planta em viveiros, pois ela tem ganhado fama pela facilidade de cultivo e a abundância de proteínas.

E depois ela é bem versátil. Dá pra fazer simplesinha refogada no alho, na sopa, em recheio de torta ou até comer crua. O que a sua criatividade inventar. Vou deixar por aqui minha receita de canjiquinha vegetariana com ora-pro-nobis, um prato que vale muito a pena tentar:

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CANJIQUINHA VEGETARIANA COM ORA-PRO-NOBIS (para 2 pessoas)

6-8 cebolas miúdas
1 colher de sopa de manteiga
2 cenouras médias
1/2 copo de quirera de milho amarelo bem miúda (canjiquinha)
1 maço grande de ora-pro-nobis
100g de queijo provolone
sal e salsinha à gosto

Comece refogando as cebolas inteiras e as cenouras cortadas em rodelas na manteiga em fogo baixo. Se tiver um pouco de vinho branco, jogue um pouco para soltar o fundo escuro que se forma na panela (deglaçar). Essa etapa, no entanto, não é indispensável. Em seguida, acrescente a quirera e coloque o triplo de água, como se fosse fazer uma sopa. Fique atento: a quirera vai cozinhar por cerca de 30-40 minutos, absorvendo bastante água e pode ser que você precise colocar mais. A consistência final deve se parecer com a de uma sopa bem grossa. Prove o milho. Quando estiver macio, acrescente as folhas da ora-pro-nobis inteiras e o queijo provolone. Salgue, jogue um pouco de salsinha, desligue e sirva. É um prato único, completo e rústico; não precisa de acompanhamento.

 

 

 

 

Batatinha quando nasce

No inverno do ano passado, eu resolvi misturar algumas cascas e folhas secas num vaso grande em que tenho um pé de louro, pra servir de adubo quando chegasse a primavera. Uns meses depois, começou a crescer alguma coisa junto do louro, e fui observando a folha. Era batata-doce. Provavelmente algum pedacinho de casca que joguei resolveu virar uma planta nova ao invés de se decompor. E eu teimei junto com a planta. Joguei água, guiei as ramas das folhas que vinham, ia deixando aquela planta crescer.

Depois de um ano, era hora de podar e adubar de novo – esse ritual corriqueiro de inverno de quase todo mundo que resolve ser jardineiro. E aí decidi que era hora de cavucar pra chegar nas batatinhas.

Eu sei, não vai matar a fome nem nada, mas tem tanta coisa bonita que eu experimentei ao ver essa batatinha crescendo que me sinto alimentada. Penso na relação diferente com a jardinagem, que as vezes deixa a gente com tanto medo de matar as plantinhas, mas se mostra ali quase uma coisa inexplicável de tão viva. No jeito diferente de perceber o lixo, que pode ser aproveitado nos vasos, mas tem tanto valor que pode se transformar numa nova planta e em alimento. Na resiliência da casca, no tamanho do ciclo pra se produzir uma batata – lá se foi um ano! Na mão suja de terra procurando as batatas e as unhas pretas, que me lembraram que plantar dá trabalho e é bem diferente do que se vê no supermercado. No querer muito cozinhar também as folhas – elas são uma PANC incrível, macia, saborosa – porque você não quer perder nada dessa experiência assombrosa de ter conseguido produzir uma batata-doce, umazinha que seja, num vaso em casa.

Insistir em ter plantas comestíveis em casa é das coisas mais gratificantes e poéticas que consigo pensar.

Como era pouca, eu assei com junto com outras batatas-doces compradas, temperadas com curry, sal e azeite. Eu separei as batatas que nasceram aqui em casa pra saber quando comesse – estava curiosa. É claro que a minha batata era a mais macia e a mais gostosa.

Esta tarde eu comi morangos que plantei na minha varanda

Ano passado, quando me mudei pro interior do Paraná, resolvi comprar umas mudinhas de morangos. Já que era pra morar nessa lasqueira de frio, que eu aproveitasse as coisas boas que esse clima permite.

A tentiva de cultivar morangos, no entanto, foi um fracassão. Minhas mudinhas saiam uma folha, e em seguida alguma antiga morria. Depois foram parando de nascer novas folhas enquanto as vivas insistiam em continuar morrendo, até que o morangueiro desapareceu. Nunca vi nem flor.

Nesse novo inverno, no entanto, não me deixei desanimar pela experiência de fracasso do ano passado.

Tava tão corajosa que comprei 6 mudas ao invés das 3 do primeiro ano. E ó, tão aí os morangos. Comi hoje a tarde uma meia dúzia, e os pés continuam cheio de frutas verdes, pra me divertir nas próximas semanas.

Seis mudas distribuídas nesses quatro vasos: duas em cada um dos vasos maiores, e um em cada vaso de xícara.
 
Os morangueiros crescendo: as mudas recém plantadas, as primeiras folhas, depois as flores, e quando as pétalas da flor caem, os miolinhos amarelos vão esverdeando e se transformando em morangos (dá pra ver o primeiro morango na última foto)

Cuidar de plantas não tem nada daquela lenda do “dedo verde”. Tem muito mais a ver com estar a fim de fazer isso. Ter “dedo verde” nada mais é do que a gente ter um pouquinho de experiência de cultivar plantas. “Dedo verde”, eu acho, devia ser encarado só como um outro jeito de dizer hábito.

Por isso que o 1 ano que separam as duas experiências fizeram diferença. O hábito me ajudou a “escutar” melhor minhas plantas. Foi só ter presença, olhar bem de perto todo dia, e seguir cuidando. Foi fácil principalmente porque era uma coisa que eu estava com muita vontade de fazer.

Também foi importante ter noção que muita planta vai morrer nesse meio do caminho. Sério, não é culpa sua, nem é coisa minha. Se você tiver a oportunidade de conversar com alguém que planta pra viver vai ouvir isso: faz parte. Mesmo com toda experiência, plantar é cuidar de vida. E a vida está sempre sujeita às coisas imprevisíveis que acontecem no mundo.

Também é legal ter noção que cada planta que você aprende a cuidar se potencializa na possibilidade de cuidar de outras plantas mais difíceis. Cada manjericão que sobreviveu aumentou minha chance de dar conta desses morangos. E eles tão aí pra mostrar que pode dar certo.

Mas valeu a pena. Ver esse aprendizado florescendo junto com os morangos avermelhando é muito gratificante. Comi com gosto.

No final, o melhor de tudo nem foi comer os morangos. Foi transformar minha relação com o processo.

Vá plantar com a Sementeria


Site de troca e doação de sementes, pra quem gosta de fazer comida do zero, literalmente.

Por um mundo mais verde: esse é o mote do Sementeria, site de troca e doação de sementes criado pelo casal gaúcho Rosana Kunst e Thiago Locks. Uma ótima tanto pra quem não tem medo de botar a mão na terra e procura cultivos diferentes e raros, quanto pra dar um empurrão em quem está começando — mesmo que tenha aquele medo de matar todas as plantas.

O Sementeria ainda é novo — foi ao ar na primeira quinzena de fevereiro de 2016 — mas já tem possibilitado boas experiências. O funcionamento é muito simples: você cria um perfil, e coloca as sementes que você tem disponível: uma descrição, a foto da planta ou da semente, e se aceita somente troca ou se as doa. E está pronto.

A gente conversou com a Rosana Kunst, uma das desenvolvedoras do Sementeria. Segundo ela, de fevereiro até hoje já se inscreveram 1019 usuários e são 376 sementes cadastradas. A ideia surgiu a partir de uma disciplina de Linguagem de Programação Java, que o Thiago, seu parceiro em uma empresa de TI e companheiro, cursava na faculdade de Sistemas para Internet:

ele queria fazer algum projeto que fosse útil. Como sempre conversávamos muito sobre horta/orgânicos e sempre enfrentávamos problemas em conseguir sementes orgânicas, acabamos chegando nessa ideia. Nos inspiramos em algumas bibliotecas de sementes que lemos na internet que existem pelo mundo, mas nenhuma em específico. E só uma adendo: antes de lançarmos, Thiago refez todo o site em outra tecnologia porque não gostou de Java.

Apesar de ser muito jovem — são pouco mais de dois meses no ar — Rosana e Thiago estão animados com a continuidade da proposta: “já listamos diversas melhorias a serem feitas.”, conta Rosana. “Para se ter uma ideia, a curto prazo temos 22 itens de melhorias previstos. Como o site é sem fins lucrativos, conseguimos mexer só em nosso tempo livre, então a coisa anda mais devagar do que gostaríamos. Mas a ideia é deixá-lo o mais autossuficiente possível.”. Experiência os dois tem de sobra. Além do Sementeria e da sociedade na Zira (uma pequena empresa de desenvolvimento web), Rosana também administra o site Como Fazer Horta.

A ideia do Sementeria é interessante porque possibilita algo que os agricultores sempre fizeram, mas que tem se tornado difícil no mundo contemporâneo: salvar as sementes para cultivo no ano seguinte, e trocar com os vizinhos do campo as variedades cultivadas. O mundo contemporâneo passou a ser dominado pela agroindústria, no qual há o predomínio de monoculturas, e muitas variedades acabam perdendo espaço. Nesse cenário, as sementes, de modo geral, são controladas por empresas gigantes que as patenteiam e vendem. E essas sementes não podem ser salvas para a próxima safra, seja por regulação estatal, ou porque as sementes não geram novas sementes férteis (como é o caso dos transgênicos). Salvar suas próprias sementes, nessa lógica, é um ato subversivo.

No contexto em que algumas pessoas têm se voltado para as coisas essenciais, a alimentação e o cultivo têm ganhado proeminência e os movimentos de hortas urbanas também têm crescido. O Sementeria oferece um jeito de encontrar pessoas que se interessam por cultivo, e facilitar essas trocas de espécies diferentes. Parece um ótimo jeito de semear encontros.




Minhas sementes disponíveis no Sementeria: coentro, milho preto de pipoca colonial e tagetes.

Minha experiência no Sementeria

Estou testando a ferramenta desde o seu lançamento. Cadastrei 4 sementes que eu tinha disponível: coentro comum, endro (ou dill), milho preto de pipoca colonial, e tagetes. Coloquei inicialmente como doação, pois no momento tenho mais semente que espaço pra plantar. Logo nas primeiras horas recebi pedidos. O grande problema é que foram muitos pedidos (3 no primeiro dia, outros 5 ou 6 no segundo) e em todos eles as pessoas não me mandavam nem ao menos mensagens… Chegava apenas a mensagem padrão. Achei isso um pouco chato. Fiquei com o pé atrás, mas a sensação era de que as pessoas não sabem muito bem lidar com aquilo que é dado de graça. A facilidade do site também ajudava. Bastava clicar no botão “eu quero” que o pedido chegava no meu email. Resolvi esse problema disponibilizando as sementes como troca. Geralmente nesses casos, as pessoas acabavam me escrevendo algo, e o número de pedidos diminuiu drasticamente. Do meu ponto de vista, essa relação pode ser melhorada pela mediação do Sementeria, e eu suponho que seja alguma das propostas de modificação que a Rosana nos contou. De toda forma, enviei alguns envelopes com sementes, e também recebi algumas. Minhas escolhas foram todas de espécies mais raras: recebi feijão lab lab (PANC), manjericão tailandês (que tem gosto de anis), e almeirão roxo (também considerada PANC). Duas delas vou deixar para semear na próxima primavera, e uma já semeei na última semana. O site, no entanto, tem semente para todos os gostos, como ervas, hortaliças, e flores — (incluindo sementes comuns que se compram em pacotinhos) e sementes de árvores frutíferas — que são chamados de pés-francos, e em geral, não costumam ser boas escolhas para se plantar. Pés-francos podem não produzir, e quando produzem demoram mais de 10 anos para começar. O que quero dizer é que, embora eu ache que o site é uma boa para quem está começando a se aventurar na jardinagem e cultivo de alimentos em pequena escala, entender um pouco de cultivo também torna as interações mais efetivas: você vai oferecer sementes melhores, e pedir sementes com mais possibilidades de dar certo.

De toda forma, gosto muito da possibilidade de doar excedentes de sementes, e também de encontrar sementes raras. Como efeito colateral, o Sementeria também me motivou a manter minha caixa de sementes mais organizada (sim, eu já tinha uma antes do site) para poder fazer futuras trocas. Vale a pena experimentar!

http://sementeria.com.br/

Analfabetismo verde

Foto: G. Gazzola, 2013.

Saber ler as plantas ao redor se transformou numa habilidade razoavelmente rara nos grandes centros urbanos. Somos os novos analfabetos verdes.

Costumamos nos lembrar anedoticamente daquela história de que os esquimós possuiriam mais de 50 nomes para se referir à cor branca. Para o povo esquimó, seria uma questão de sobrevivência conseguir nomear nuances de brancos diferentes, seja para identificar ou comunicar probabilidades de cair num buraco ou de conseguir comida. Daí, eles não poderiam deixar de espressar os vários tons de branco na linguagem.

Embora essa história seja mesmo quase verdade, e que seja contada por muitas pessoas como uma curiosidade, eu nunca ouvi muita gente parando para pensar em como nós usamos as palavras para nos referirmos às cores. Segundo o professor e pesquisador John Warren, muitas das línguas ocidentais contemporâneas possuem uma gama imensa de palavras para se referir à nuances de uma cor em específico. Nem notamos, mas é provável que tenhamos mais palavras para uma cor do que qualquer outra: o verde.

Isso acontece, segundo Warren, porque vivemos em um planeta dominado pela cor verde, e portanto, faz sentido que as forças naturais de seleção tenham nos equipado com olhos que são particularmente sensíveis à luz verde do espectro.

É basicamente a mesma história do esquimó. Porém, Warren afirma que a adaptabilidade nesse caso não é somente linguística, mas também biológica. Teríamos maior sensibilidade na retina para a cor verde. Por termos essa sensibilidade, Warren afirma que também as nossas telas (como a TV, o cinema e as câmeras fotográficas, por exemplo) são calibradas para terem maior espectro verde, e assim, serem mais “reais”, mais da forma como estaríamos acostumados a ver.

Mas pense bem: se você é biologicamente adapatado para reconhecer o verde em todas as suas nuances, mas não consegue nem distinguir entre a salsa e o coentro na feira, será que você está aproveitando toda a potencialidade que a seleção natural te deu? A salsa e o coentro, claro, é só um pequeno exemplo. Pense no número de árvores espalhadas pela sua cidade. Os jardins. Uma praça. Pense ao menos no matinho que nasce no meio fio da calçada. Você consegue dizer o nome de quantas dessas plantas? Ou seriam todas elas “mato”, assim, sem nenhuma distinção?

Por essa lógica adaptativa, dá para pensar que quando não usamos essa aptidão estamos desperdiçando o que a natureza nos deu. Ficamos meio analfabetos. Não sabemos ler o ambiente no nosso entorno e por isso jogamos uma habilidade espetacular fora. Também é verdade que parece que precisamos cada vez menos saber distinguir entre espinafres e rúculas. O mundo no qual você nasceu é dominado de cinza, e dominado por pessoas que produzem os alimentos, os cosméticos, os remédios, as fibras do vestuário e uma infinidade de outros produtos vegetais para nós. É bem fácil mesmo nunca termos tido a chance desse aprendizado. Somos os meninos bobos da cidade grande. E tal e qual o roceiro precisou se alfabetizar ao migrar do campo para viver nas nossas metrópoles, a gente deveria ter de se alfabetizar para poder dar conta de viver com o verde. Principalmente porque o verde está — ou deveria estar — em todo lugar. Mesmo nas metrópoles mais cinzas, ele ainda resiste. Movimentos de guerrilas gardening, hortelões urbanos, entre outros, e a crescente preocupação com questões ambientais não me deixam mentir que essa resistência está aí, nos trend topics do mundo.


Quanto cinza, e quanto verde… Foto: Miss inoperative, 2015.

Há muita beleza escondida em conseguir desenvolver esse letramento verde. Comecei essa saga alfabetizante há algum tempo. Talvez há muito. Posso dizer que sou um pouco privilegiada. Talvez desde os tempos em que minha avó tinha um sítio e ia eu, menina, apreciar e cuidar da hortinha, esse aprendizado já tinha começado. Pode até parecer pouca coisa, mas acredite: existem crianças nos nossos dias que não sabem o nome dos legumes, verduras e frutas. Só que alfabetização verde vai além da feira, do supermercado, e mesmo da horta.

Você consegue identificar alguma planta nessa foto? Foto: Miss inoperative, 2015.

Quando falo de uma alfabetização verde, penso em conseguir identificar plantas numa paisagem qualquer. Há muito mais coisa para se conhecer do que temos noção. É uma coisa bonita de se apreciar alguém que consegue ler a paisagem, que sabe os usos, os gostos, os cheiros. Que anda por um mundo indistinto de folhagens e consegue dar significado para os verdes à sua volta. Não é muito diferente do mundo das letras e da habilidade de interpretar um texto.

Nessa minha saga, eu tenho me sentido como criança descobrindo as letras, formando as palavras e fazendo sentido. E por isso, acho que olho para as plantas com encantamento. Eu aponto e, não sem antes exibir um sorriso de canto de olho, me sinto importante porque sei o nome daquele “mato”.

Outro dia andando por uma praça, olhei uma árvore, reparei na folha, no porte, e também reparei num pendão com pequenas bolinhas avermelhadas que estavam por toda a sua copa. Liguei os pontos, me lembrei de uma foto de um livro meu — que comprei mesmo com o propósito de me ‘alfabetizar’ — e pensei: isso é pimenta rosa? Puxei um galho, provei uma das bolinhas. Bingo! Quanto tempo essa árvore estava ali? Um tempero que costuma ser vendido caro, frequentemente importado, ali, na praça. São dois quarteirões da minha casa. A árvore é bonita, e é usada em centros urbanos de maneira ornamental mesmo. Na semana seguinte dessa descoberta, fiz uma viagem, e encontrei um parque com dezenas de pés de pimenta rosa, que dessa vez reconheci de cara. Me deu a certeza de que já estava um pouco mais alfabetizada.


Quantas árvores de pimenta rosa devemos ter ignorado durante toda a nossa existência? E quantas vezes as nossas habilidades de dar significado para o mundo ficam adormecidas e nem nos damos conta?


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