PANC para cultivar em casa: capuchinha

Tenho andado bem impressionada com a facilidade de cultivo da capuchinha, aquela florzinha alaranjada que tem um gosto bem ardido, que lembra a raiz forte. As mudinhas pegaram rápido, saíram novas folhas em 15 dias, e quase não tenho trabalho regando.

Capuchinha é uma flor que tem ganho popularidade por ser comestível e em alguns lugares já se encontra pra vender – mas quase sempre o preço é meio amargo. Pra quem tem um vasinho e se interessa pela flor, uma coisa que recomendo é cultivá-las. Produzem bem e é tão fácil que mesmo quem não tem prática de cuidar de plantas tem chance de fazer a plantinha ir pra frente.

As minhas mudas consegui arrancando alguns ramos de uma touceira que ficava no lote do vizinho. Por aqui, capuchinha é mato, e achei isso um bom presságio do quanto o cultivo não ia mesmo me dar trabalho.

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Catando capuchinha no lote do vizinho

Foi bem fácil plantar. Tirei as folhas não muito bonitas, deixando o caule mais exposto pra enraizar, e dividi em 4 partes com duas folhas ao menos. Quando a planta é mais delicada, é bom deixar na água pra criar raízes antes de plantar, mas esse não é o caso da capuchinha. Coloquei direto na terra. Em poucas horas ela ficou viçosa e daí a 15 dias comecei a ver as primeiras folhas novas saindo. Nenhuma muda morreu nesse processo.

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Mudinhas ainda meio murchas, no dia em que plantei. Um ramo grande foi dividido em 5 mudas e colocados em um vaso largo

Vale dizer que a capuchinha cria raízes a partir de caules (esse processo que fiz, que se chama estaquia), mas também pode ser plantada por sementes.

Como qualquer outra planta que produz flores, ela vai precisar de um pouco de sol direto pra florir. O ideal são 4 horas, mas a partir de 2 ou 3 elas costumam responder com algumas flores. Não precisa se preocupar tanto com rega, pois a capuchinha resiste bem à seca. Deixe pra molhar apenas quando a terra não estiver mais úmida –  o que varia de acordo com a região onde você mora e a estação do ano (pra você ter ideia: aqui no inverno do Paraná estou molhando uma vez por semana).

E a melhor parte: capuchinha é uma planta maravilhosa pra você plantar no mesmo vaso ou canteiro que tomate, pepino ou rabanete, pois ela repele pragas e funciona como uma planta companheira para essas outras, melhorando a produção. Mesmo que você não tenha nenhuma dessas outras plantas, cultivar capuchinha é uma ótima forma de controle orgânico do jardim. Ela também atrai certos insetos que controlam pragas da couve e de outras plantas, mesmo que não estejam plantadas no mesmo canteiro.

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Um mês depois de plantadas já tem várias folhas novas, e estão todas viradas pro sol. Logo vem flores ❤

Além do cultivo fácil e da ajuda que ela dá no manejo dos vasos e jardins, dá pra aproveitar toda a planta no prato. As flores são mais famosas, mas as folhas arredondadas também têm o mesmo gosto ardido, que geralmente se compara com o agrião – mas que particularmente acho mais parecido com a raiz forte. As vagens arredondadas  podem ser fermentados em vinagre ou salmoura e viram conservas, e mesmo as sementes (que ficam dentro das tais vagens arredondadas) podem ser moídas e são mais picantes que pimenta do reino. Nenhuma dúvida de que é uma plantinha linda, saborosa e super versátil.

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Estas são as vagens arredondadas da capuchinha. Dentro delas ficam as sementes. Você pode tanto fazer conserva com elas, quanto secar pra usar as sementes no moedor de pimenta

Pepino-melancia, uma PANC rústica que produz pequenos bibelôs

Fiquei conhecendo o pepino-melancia porque ele estava dando sopa na cerquinha do lote que comprei pra construir minha casa. Ele estava por lá, pendurado, gracioso, com certeza sem ninguém ter semeado, que nem o alecrim dourado da música.

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Gracioso, pendurado na cerca

Esse pepino (Melothria cucumis Vell.) leva esse nome por conta da casca rajadinha, que lembra realmente a melancia. Pepinos e melancias, aliás, são ambos da mesma família das cucurbitaceaes, e este aqui obviamente é parente deles.

Ele é uma planta alimentícia não convencional (PANC) rústica, espontânea, que dá quase sempre assim como o encontrei, perdido em áreas de mata, quintais e cercas. É encontrado em grande parte do país: do Rio Grande do Sul até o sul da Bahia. A área mais comum de ocorrência, no entanto, é nesse pedaço mesmo onde moro: no sudoeste do paraná, oeste catarinense, e oeste do Rio Grande do Sul, se estendendo inclusive pra parte da Argentina e Paraguai. No pedaço dos países vizinhos, o pepino melancia recebe um nome espirituosíssimo, que me faz rir um bocado: melancia de rato.

O gosto desse pepino é muito semelhante com o do pepino comum, porém a casca é ligeiramente mais grossa. Por conta do tamanho, que fica sempre mini, é muito apreciado pra fazer conservas: basta colocar os pepinos em salmoura (com cerca de 10% de sal) e esperar maturar por uma semana. A casca mais espessa ajuda que a conserva sempre saia crocante, o que nem sempre é simples de ser feito com pepinos comuns.

Uma curiosidade que percebi experimentando os pepinos foi quando cortados longitudinalmente (“de comprido”), eles exalam um cheiro diferente que lembra o melão. Por conta desse aroma, quando preparo pratos dou preferência a esse corte. Neste caso, servir cru apenas temperado com azeite e sal costuma ser uma boa pedida, pois o aroma é suficientemente atraente pra que você não precise de muito malabarismo.

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Vai servir pepinos melancia? Prefira cortar assim pois exalam mais aroma. E prefira servir cortado, pois a casca mais dura que o pepino comum não favorece que sejam servidos inteiros.

Quanto ao cultivo, o pepino melancia parece preferir áreas de pleno sol, mas também aceita bem viver em meia sombra – estes, inclusive, estão na cerca embaixo de uma árvore e produzem bem. Aqui eles brotam espontaneamente assim que termina o inverno e as geadas (por volta de agosto) e os frutos são encontrados entre dezembro e fevereiro. A planta solta flores minúsculas, amarelas, e em poucos dias os frutos se desenvolvem.

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A florada do pepino-melancia

A propagação pode ser feita por sementes. Elas se parecem muito com as sementes do pepino comum, são apenas um pouco menores e mais achatadas. Aqui tem outras informações sobre cultivo do pepino-melancia, mas pelas fotos a gente vê que é um pepino mini semelhante, também nativo e da mesma área de ocorrência, mas não o mesmo. De toda forma, é provável que esse também se beneficie do mesmo tipo de cuidado.

***

Aproveitei que encontrei no lote alguns pepinos já secos, com a casca bem fininha e as sementes vazando dos frutos e andei enviando essas sementes a alguns amigos do twitter. Alguns vão tentar o cultivo em vasos grandes, na área urbana, e outros em zonas que não são as de ocorrência natural. São experiências que a gente não acha muita informação sobre, e por isso estou curiosa pra ver o que eles me contam sobre o pepino melancia crescendo por aí. Quando tiver notícias, eu volto pra contar.

Cidreira não é só pra chá

A cidreira é um nome popular que, como muitos outros nomes populares, acabam se repetindo para nomear várias plantas diferentes e por isso podem confundir a gente.

Ao menos 3 plantas recebem o nome de cidreira. Todas elas tem em comum um leve sabor cítrico, e por isso a designação. As três são de cultivo fácil e usadas comumente pra se fazer chá, mas não precisamos nos restringir a esse uso. Ela também fica muito bem batida com frutas. Se uma planta é segura pra comer, o negócio é experimentar.

Esta cidreira das fotos especificamente é a da espécie Lippia Alba, e é conhecida também como cidreira de árvore, cidreira de folha ou cidreira brasileira. Apesar do “de árvore” que acompanha seu nome, ela é apenas um arbusto, e dá pra cultivar em espaços pequenos. Em geral você vai encontrar informações por aí recomendando que essa cidreira precisa ser plantada no chão pra dar, mas posso dizer que venho cultivando cidreira de árvore em vasos há mais de 5 anos e me deliciando com elas.

O que você precisa garantir é que ela tome algumas horas de sol por dia – 3 horas é suficiente, mas o ideal seriam cerca de 5 horas. Quanto mais sol, mais aroma as folhas devem ter.

O vaso pra cultivo, no entanto, não pode ser muito pequeno. Essa cidreira solta galhos compridos e flexíveis, que podem ficar caídos, e por isso podem ficar bem interessantes em um vaso grande ou jardineira na janela, por exemplo. É como sempre tenho cultivado, e o único cuidado é não deixar o galho entrar na janela do vizinho.

Ela não é uma planta exigente com solo, e por isso produz muito sem tanto cuidado. Gosta de água e tem uma floração muito bonita, em forma de pequenos buquês cor-de-rosa. A folha é levemente peluda, e só da gente tocar sentimos o cheiro. Dá vontade de encostar toda vez que passamos, e nada melhor do que uma coisa assim pra gente ter em casa.

Fazer muda também é muito fácil: é só enterrar parcialmente um galho que ele logo brota (este processo se chama estaquia). E o melhor de se cultivar é que a gente acaba ficando criativo pra poder aproveitar tanta folha que vem.

Além dos chás, um uso bem interessante pras folhas de cidreira é nos sucos.

Suco de maracujá com cidreira é uma experiência. O gosto dos dois combinam bem demais. A cidreira é levemente amarga, então é bom não exagerar na quantidade de folhas. No suco, o amargo não é o que predomina; o aroma lembra discretamente o lúpulo. É só bater a polpa do maracujá com as folhas, adoçar com mel ou o que você preferir, e coar, para retirar os pedaços de semente. É simples, mas é algo tão memorável que não podia deixar de registrar.

As feiras e seus achados: araticum do mato

Se alguém me perguntasse qual a coisa mais relevante que experimentei na mudança de uma capital para uma cidade de menos de 100mil habitantes, eu falaria sobre a possibilidade de frequentar uma feira feita por agricultores (seria isso e também o trânsito, ah, que maravilha chegar em qualquer lugar em 5 minutos).

As feiras são lugares subestimados. Ir a uma feira, em qualquer cidade, não é sobre comprar legumes e verduras. É também sobre encontrar pessoas, conversar, desenvolver um olhar pras coisas que estão à sua volta. Dependendo do lugar da feira, é também tomar um solzinho, caminhar ao ar livre, ver as pessoas passarem.

Pra mim a feira também é sobre descobertas. Cada semana eu passo procurando coisas novas (ou perguntando por coisas que tenho curiosidade de conhecer). Essa semana dei de cara com o Araticum. Ela me foi apresentada aqui assim, com esse nome, mas em Belo Horizonte eu conhecia uma outra fruta de nome araticum e ela era inconfundível: tinha uma cheiro muito característico e forte, eu diria até um pouco enjoativo.

Então, quando a feirante me deu esse nome eu sabia que estávamos falando de tipos diferentes de araticum. E isso é muito comum quando a gente fala de plantas alimentícias não-convencionais, porque os nomes também não tem uma uniformidade. Eles refletem o caráter regional e informal que essas plantas ainda tem (e isso é bastante divertido).

Eu fiz o que costumo fazer: levar, voltar pra casa e procurar nos meus livros ou na internet por descrições. Dessa vez, quem me ajudou a desvendar o mistério foi esse livro do Helton Muniz, um fruticultor-pesquisador-colecionador do interior de São Paulo, que é conhecido por ser o maior colecionador de frutas do Brasil.

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Eu já falei sobre o Helton em uma newsletter. Eu tive a oportunidade de conhecer a propriedade dele, e ser recebida com o maior carinho por lá. Era inverno, então não tinha tantas frutas pra serem provadas, mas a visita não era só sobre provar. Eu queria muito entender como o Helton foi construindo tanto conhecimento.

Nesse livro do Helton estão listadas informações de 100 frutas diferentes, sendo a maioria delas nativas. Helton passou mais de 20 anos pesquisando, procurando, conhecendo, e esse livro é fruto de todo esse conhecimento que o Helton construiu autonomamente.

Existem outros livros do Helton – um deles, inclusive um só sobre a família dos araticuns, as annonaceae. Ou seja, tem muitas frutinhas semelhantes por aí, mas cada uma com sua particularidade, e a maioria de nós nem sabe que existe.

No livro, ele frisa sobre o potencial dessas frutas. O Araticum do mato, se fosse cultivado, poderia ter a mesma qualidade das maças, peras e ameixas cultivadas na Europa, ele escreve. Se a pessoa escolher uma terra boa, a frutificação se dará mais rápido e o fruto de melhor sabor, e não duvido que se possa conseguir variedades melhores por meio de mudas e enxertos com fruta do conde (annonna scamosa) e condessa (annona reticulata).

O araticum do mato (rollinia sylvatica) é nativa do Brasil e se espalha pelo bioma de mata atlântica, com ocorrências desde o litoral de Pernambuco até o Rio Grande do Sul. Tem uma forma e sabor parecidos com as frutas dessa família, como as pinhas, araticum, fruta do conde (que são mais conhecidas): tem a polpa esbranquiçada, translúcida, de sabor doce, mas levemente azedinho. O tamanho das frutas, nessa espécie, é pequeno, e a polpa da fruta é bastante agarradinha à semente – a gente acaba tendo que fazer certo esforço pra chupar. As flores aparecem logo no início da primavera, e os frutos amadurecem de janeiro a abril.

O Helton produz, vende e despacha mudas de frutíferas incomuns pro Brasil inteiro. É um trabalho muito incrível de descrição, preservação e disseminação desse conhecimento. De uma forma diferente, é também o que fazem as feiras livres que existem espalhadas em cada cidade. E o mais importante: tanto o Helton quanto as feiras nos ensinam que esse trabalho de conhecer as coisas que existem não se esgotam, é uma riqueza pra ser cultivada por uma vida inteira.

 

Risoto de taioba com banana da terra

Taioba é uma PANC que mora no coração de muitos mineiros; no meu com certeza. É uma folha que se parece com várias outras folhas ornamentais, e principalmente se parece com as folhas do inhame. A folha do inhame, no entanto, não é comestível e a gente sente bem que não é taioba pois folha de inhame pinica na boca. Ela é uma verdura que se come refogada, e que tem de ficar um tempinho na panela maior que a couve. Fica bem macia, com uma textura muito aveludada na boca.

Saindo de Minas e de alguns lugares no interior do Rio de Janeiro, não é muito comum encontrar a taioba (em São Paulo, o Daniel, no twitter, me contou que em feiras especializadas de orgânicos também se acha, mas se não chegar cedo elas acabam). É das comidas que mais me lembram de casa, e por isso quando eu vim de mudança pro Paraná tratei logo de colocar umas batatinhas na mala pra trazer e multiplicar por aqui.

Eu coloquei num vaso do tipo jardineira, retangular e bem grandinho, mas a verdade é que independente do manejo que tenho ela não produz bem na varanda. Taioba é uma planta que gosta de muita água, ótima pra se colocar na beira de algum alagado, por exemplo. Em Minas, época boa pra achar taioba – nos quintais e também nas feiras – é de outubro a março, estação chuvosa.

Como meu vaso produz muito mal taioba – não recomendo ter em apartamento com pouco espaço, existem escolhas melhores por mais que taioba seja uma verdura que mora no meu coração – , precisei arrumar outra solução pra comer taioba no Paraná. Trouxe mais mudas de Minas e dei de presente pra um amigo feirante. Meu único pedido: “traz folha de taioba pra vender pra mim quando elas produzirem”.

Na semana passada, um ano depois das mudas dadas, eis que ele trouxe pra mim o molho de taiobas mais farto do mundo e deixou escondidinho na barraca, pra me entregar quando eu passasse. Achei tão bonito que isso tenha sido possível. Plantar não é mesmo só cultivar vegetais.

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O molho de taioba que ganhei

Matamos a saudade fazendo um risoto de taioba com banana da terra. É um prato que não é comum em Minas – lá a gente come taioba refogada com arroz, feijão, quiabo. Mas a gente adora porque só suja uma panela, leva 30 minutos pra ficar pronto, tem cara de sofisticado, mas os ingredientes são muito nossos (que saudades de Minas <3):

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RISOTO DE TAIOBA COM BANANA DA TERRA (para 2 pessoas)

1 cebola média picada em cubos bem pequenos
1 colher de manteiga
1/2 xícara de arroz arbóreo (arroz de risoto)
1/3 xícara de vinho branco seco
2-3 bananas da terra cortada em cubos médios
4 folhas de taioba (em torno de 1/2 molho)
Lascas de Queijo Minas bem curado

  1. Comece aquecendo um caneco com água em uma das bocas do fogão. Se você tiver algumas folhas de alho poró (a parte de cima do bulbo, que geralmente descartamos), ou caldo de legumes caseiro coloque nesta água. Caso não tenha, não se preocupe, a água sozinha é suficiente pra fazer o prato. A água precisa estar fervendo para colocarmos no risoto;
  2. Em outra panela, refogue a cebola na manteiga em fogo baixo até que o fundo da panela comece a ficar com um agarradinho escuro;
  3. Coloque o arroz, deixe torrar por 1-2 minutos, e jogue o vinho branco para soltar o fundo da panela;
  4. Assim que o vinho secar, comece a colocar a água que você deixou ferver sobre o arroz. Não despeje tudo. Coloque um pouco até o arroz ficar envolto em água, mexa, cozinhe por mais alguns minutos esperando que ela evapore, e em seguida coloque mais um pouquinho. Essa operação vai precisar ser repetida de 3 a 4 vezes até que o risoto fique pronto;
  5. Depois de colocar a primeira água, coloque metade da quantidade de banana da terra picada. Ela deverá praticamente se desmanchar no risoto, dando bastante sabor pro arroz;
  6. Quando perceber que o arroz está mudando de cor e ficando cozido (na última água), coloque o restante da banana. 1 ou 2 minutos depois, coloque as folhas de taioba previamente picadas bem fininhas;
  7. Acerte o sal, desligue o fogo e jogue as lascas de queijo Minas por cima. É desejável que não se seque muito o risoto, e que ele fique bem molhadinho.

Bom apetite!

 

Outra PANC para se ter em casa: bertalha-coração

Já falei aqui sobre como a ora-pro-nobis é uma PANC genial pra se ter em pequenos espaços e apartamentos por conta do pouco cuidado que exige e da alta produtividade mesmo num vasinho bobo.

Outra PANC que é uma boa de se considerar em ter em casa pelas mesmas razões é a bertalha.

Se na ora-pro-nobis os mineiros é que podiam se indignar pois a verdura é conhecida, consumida e popular no estado, com a bertalha é a vez do pessoal do Rio de Janeiro terem causos e memórias com a verdura e não acreditarem que ela seja PANC. Mas a verdade é que em outras partes do país ela costuma ser uma ilustre desconhecida.

O gosto da bertalha é terroso, e a folha quando refogada é viscosa, como a ora-pro-nobis ou o quiabo. No Rio o mais comum é se refogar com ovos. A folha crua também é ótima pra ser adicionada em saladas – é o jeito que mais gosto de comer. Além das folhas, também são comestíveis as raízes: são tubérculos como qualquer batata, e podem ser cozinhados, fritos, assados.

A bertalha é uma trepadeira, e por isso precisa de tutoreamento pra crescer. O caule dela vai se agarrando a qualquer coisa que encontra. Pra ajudar a planta, por aqui coloco  pregos na parede e amarro barbante nesses pregos para guiá-la. Assim, a planta acha o caminho até a rede de proteção que tenho na sacada.

 

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Pertinho do vaso coloco um caminho de pregos com barbante e as bertalhas tratam de se agarrar e seguir seu rumo dali

 

A planta cresce se enroscando e tornando a parede verde, fica muito agradável permanecer na varanda. E no auge do verão, ela ainda abre longas pistões com flores miudinhas brancas muito cheirosas.

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Olha que lindeza as bertalhas no verão, subindo pelas paredes e pela rede ❤ Dá pra encher os olhos e a barriga

Depois da florada, no outono, elas param de soltar novas folhas, as antigas se amarelam e nessa fase é uma boa arrancar todos os ramos que se enroscaram por aí. Não se preocupe: quando terminar o inverno, a planta brota de novo. No caule você vai ver que vários tubérculos aéreos começam a se formar. Embaixo da terra ela produz uma quantidade ainda maior, que ficam aguardando pra voltar à vida. Os tubérculos – tanto aéreos quanto rizomáticos – são a forma mais fácil de se conseguir uma muda de bertalha, embora ela também crie raízes a partir de um galho.

A bertalha gosta muito de água mas não aprecia tanto sol. Procure colocá-la em um local que pegue apenas aquele solzinho morno do início da manhã ou do final da tarde. Se as folhas começarem a amarelar é sinal de sol demais.

Com um único vaso eu não consigo aproveitar todas as folhas tamanha é a produção. Vale muito a pena ter a planta, é linda e se aproveita demais. Essa receita aqui embaixo é apenas uma sugestão pra você experimentar bertalha na salada crua, equilibrando bem o sabor doce com o terroso e o amargo:

SALADA VERDE DE BERTALHAS COM MOLHO DE CEBOLA TONTA

Alface americana
Alface roxa
Radicchio (ou outra folha ligeiramente amarga)
Bertalha

Para o molho de cebola tonta
8 cebolas roxas miúdas cortadas ao meio
1 colher de sopa de manteiga
1 colher de sopa de açúcar
1/3 copo de vinho tinto
pimenta do reino à gosto
1 pitada de sal

Lave as folhas, escorra, rasgue com as mãos e reserve.

Para o molho, coloque numa panela a manteiga e as cebolas em fogo baixo. Vá vigiando e de vez em quando mexa. O ideal é que o fundo da panela comece a ficar marrom. Depois de pelo menos 10 minutos no fogo, acrescente o açúcar, aguarde mais alguns minutos a cebola murchar. Jogue o vinho tinto. Essa etapa deverá soltar o fundo escuro, acrescentando mais sabor doce às cebolas. Deixe o vinho secar e engrossar ligeiramente, mas ainda mantendo bastante umidade antes de desligar a panela. O molho deve ficar viscoso. Jogue uma pitada de sal apenas para realçar o sabor adocicado e coloque pimenta do reino à gosto. Assim que amornar (não é necessário ficar frio), jogue todo o conteúdo da panela sobre a salada verde. O sabor doce das cebolas tonteadas fica maravilhoso junto do terroso das bertalhas.