Cidreira não é só pra chá

A cidreira é um nome popular que, como muitos outros nomes populares, acabam se repetindo para nomear várias plantas diferentes e por isso podem confundir a gente.

Ao menos 3 plantas recebem o nome de cidreira. Todas elas tem em comum um leve sabor cítrico, e por isso a designação. As três são de cultivo fácil e usadas comumente pra se fazer chá, mas não precisamos nos restringir a esse uso. Ela também fica muito bem batida com frutas. Se uma planta é segura pra comer, o negócio é experimentar.

Esta cidreira das fotos especificamente é a da espécie Lippia Alba, e é conhecida também como cidreira de árvore, cidreira de folha ou cidreira brasileira. Apesar do “de árvore” que acompanha seu nome, ela é apenas um arbusto, e dá pra cultivar em espaços pequenos. Em geral você vai encontrar informações por aí recomendando que essa cidreira precisa ser plantada no chão pra dar, mas posso dizer que venho cultivando cidreira de árvore em vasos há mais de 5 anos e me deliciando com elas.

O que você precisa garantir é que ela tome algumas horas de sol por dia – 3 horas é suficiente, mas o ideal seriam cerca de 5 horas. Quanto mais sol, mais aroma as folhas devem ter.

O vaso pra cultivo, no entanto, não pode ser muito pequeno. Essa cidreira solta galhos compridos e flexíveis, que podem ficar caídos, e por isso podem ficar bem interessantes em um vaso grande ou jardineira na janela, por exemplo. É como sempre tenho cultivado, e o único cuidado é não deixar o galho entrar na janela do vizinho.

Ela não é uma planta exigente com solo, e por isso produz muito sem tanto cuidado. Gosta de água e tem uma floração muito bonita, em forma de pequenos buquês cor-de-rosa. A folha é levemente peluda, e só da gente tocar sentimos o cheiro. Dá vontade de encostar toda vez que passamos, e nada melhor do que uma coisa assim pra gente ter em casa.

Fazer muda também é muito fácil: é só enterrar parcialmente um galho que ele logo brota (este processo se chama estaquia). E o melhor de se cultivar é que a gente acaba ficando criativo pra poder aproveitar tanta folha que vem.

Além dos chás, um uso bem interessante pras folhas de cidreira é nos sucos.

Suco de maracujá com cidreira é uma experiência. O gosto dos dois combinam bem demais. A cidreira é levemente amarga, então é bom não exagerar na quantidade de folhas. No suco, o amargo não é o que predomina; o aroma lembra discretamente o lúpulo. É só bater a polpa do maracujá com as folhas, adoçar com mel ou o que você preferir, e coar, para retirar os pedaços de semente. É simples, mas é algo tão memorável que não podia deixar de registrar.

O estranho caso da pimenta rosa

Se você parar pra prestar atenção nas árvores da sua cidade entre novembro e janeiro é muito provável que encontre alguma árvore que lembra muito uma chorona, e ela estará carregada de cachos de bolinhas vermelhas bem miúdas. É uma árvore muito comum usada na arborização urbana, mas pouca gente sabe identificar: essas árvores são as aroeiras e as tais bolinhas pimentas rosas.

Essa árvore que se parece uma chorona não é a única espécie de aroeira, mas é a mais comum na região onde moro. Ela tem o nome de Schinus molle, e as pimentas são mais pálidas, clarinhas e de sabor mais doce que as vermelhas que são vendidas em casas de especiarias. São várias as espécies que produzem a pimenta mais avermelhada,e por isso a gente encontra elas pelo país inteiro: cada espécie se adapta a um clima e por isso elas estão em toda parte.

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Uma aroeira Schinus molle pela minha cidade
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Eu colhendo pimenta rosa na aroeira do tipo Schinus Molle que encontrei

A pimenta rosa é um caso curiosíssimo. Ela é um tempero nativo da América do sul, muito usado na arborização urbana brasileira de norte a sul do país, mas quase toda pimenta rosa que a gente consome é importada. E custa uma fortuna (em dez/2017, era algo em torno de 120reais/kg). É muito pouco compreensível porque não se tem um cultivo local voltado pro consumo interno ou até mesmo porque não pegamos nas árvores das nossas cidades. Tornar a pimenta rosa mais acessível seria um ótimo caminho pra gente começar a fazer mais uso dela.

As aroeiras e seus frutinhos comestíveis estão aos montes à nossa volta, pra quem sabe ler a paisagem verde.

Procurar aroeiras pelo espaço urbano é um exercício muito interessante de se perceber mais conectado com a cidade, a vegetação, a vida à sua volta. Desde que aprendi a identificar a aroeira, vejo ela em todo lugar. Me pergunto como eu nunca tinha reparado nessas árvores antes.

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Outra espécie de aroeira e as inconfundíveis pimenta rosas: esfregue uma bolinha na mão e sinta o cheiro!

O sabor da pimenta rosa é doce e aromático. Apesar do nome “pimenta” ela não arde. Vai bem com pratos doces (chocolate e pimenta rosa é uma combinação sem erro; colocar pimenta rosa no brigadeiro branco então…) e também com pratos salgados. Pra usar as pimentas rosas, o melhor a se fazer é socar as bolinhas em um pilão, ou mesmo bater com martelo ou outro instrumento de cozinha as bolinhas enroladas em um pano de prato sobre a tábua de corte. A ideia é esfarelar em pedacinhos pequenos pra que o sabor não fique muito concentrado.

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Um bom jeito de usar as pimentas é socar no pilão antes de acrescentar nas receitas

Pra quem estiver curioso pra experimentar e ainda não sabe muito bem o que fazer com o tempero, a sugestão do dia é uma salada refrescante e saborosa, no qual a pimenta rosa é marcante e faz toda diferença:

 

SALADA DE MANGA COM BALSÂMICO E PIMENTA ROSA (IDEAL PARA SERVIR COM SALADA VERDE)

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1 manga cortada em cubos
2 colheres de sopa de pimenta rosa socadas em pilão (ou soque sobre a tábua de corte usando um pano de prato pra envolver as pimentas)
Vinagre balsâmico
Uma pitada de sal

  1. Lave as folhas e reserve;
  2. Descasque e corte a manga em cubos médios, que seja possíveis de serem levados à boca sem precisar cortar mais.
  3. Tempere a manga com vinagre balsâmico e pimenta rosa previamente socada. Deve sobrar uma quantidade de caldo de manga + balsâmico pra funcionar como um molho. Realce os sabores com uma pitada de sal.
  4. Jogue a manga por cima de uma salada de folhas verdes, ou sirva acompanhando uma. Use as folhas de sua preferência. Opcionalmente você também pode grelhar as mangas antes de colocar os temperos, pra realçar o adocicado do prato.

 

 

 

De comer e de enfeitar: a flor do alho poró

Esta PANC tem a maior cara de primavera, e é de comer e de enfeitar: a flor do alho poró.

Apesar de lindas e do alho poró ser uma planta comum, que encontramos com alguma facilidade pra comprar, não duvido nada que você nunca tenha visto esta flor. O caule do alho poró é a parte que costumamos comer; as folhas, apesar de vendidas junto com o caule, usamos bem menos, mas são ótimas pra fazer caldo de legumes ou fundo de risoto: basta ferver lentamente as folhas sozinhas ou com outros legumes para aromatizar a água. Mas as flores, ah, essas daí eu tive que encomendar porque os agricultores as descartam.

No entanto, dá pra ver que elas são lindíssimas. O alho é um bulbo que floresce na primavera, como várias outros bulbos não comestíveis – as palmas, os lírios, as amaryllis, e tantas outras. As flores duram muito em vaso. No ano passado, chegaram a ficar quase um mês muito vistosas antes de abrirem e começarem a murchar.

O melhor, no entanto, é que depois de servirem de enfeite elas também podem ir pra panela. Elas tem um gosto de alho bem suave. São boas para se jogar por cima, ao final do cozimento, temperando e enfeitando o arroz, pra finalizar risotos, ou temperar e enfeitar legumes assados. Além do gosto que lembra alho, as coisas ficam com uma aparência incrível e sofisticada com esses salpicos florais roxos.

Como as flores do alho poró são suaves, é possível jogá-las por cima cruas, para que não percam a cor. Não exagere, pois mesmo sendo suave o sabor do alho é muito marcante. A temperatura quente do restante do prato vai ajudar a exalar o aroma e dispensar que você leve as flores ao fogo. Nada impede que você refogue as flores, mas lembre-se de que nesse caso elas perderão parte da cor e da forma.

O alho poró também é um ótimo exemplo de como a jardinagem poderia fazer uso paisagístico de plantas comestíveis, mas que pouco vemos ser usado. Imagine um jardim de alhos poró floridos, que coisa bonita 💚

Por ser uma planta muito cultivada, o meu conselho é que você converse com quem planta. Pergunte sobre essas flores, encomende, valorize. Muitas vezes eles sabem que se come, mas não vendem porque acreditam que os compradores vão achar estranho ou que não vai vender. Muita coisa boa por aí não chega até nós por puro medo dos nossos preconceitos.

E não se preocupe: a casa não fica com cheiro de alho com os arranjos nos vasos. As flores só exalam quando a gente as esfrega.