Nabiças em Portugal, nabo forrageiro no Brasil e que prato fazer com ela

Agora que o frio vem chegando, é fácil de enxergar o nabo forrageiro por todos os lotes vagos da cidade, especialmente aqui no sul do país.

Primeiro, é bom não confundir: o nome é parecido mas o nabo forrageiro, também chamado de nabiças, não é a mesma planta que dá o legume nabo que a gente acha pra comprar na feira. As folhas dos nabos também são comestíveis e muito parecidas com as do nabo forrageiro, mas são duas plantas diferentes. O nabo forrageiro eventualmente até dá pequenos frutos a partir das flores, mas não tem uma raiz tuberosa. O que ele mais produz são folhas e flores.

No Brasil ele é muito usado como adubação verde, especialmente em propriedades orgânicas, que não podem usar fertilizantes químicos. Planta-se porque ele ajuda a incorporar nitrogênio ao solo, e a folhagem exuberante e que cresce em pouquíssimo tempo é cortada e misturada à terra pra se decompor e devolver mais minerais ao solo. Também usam bastante pra alimentar os animais (e obviamente, aproveitar o adubo que eles produzirão).

O caso é que de tanto plantar o nabo forrageiro, ele se tornou subespontâneo – isto é, agora ele cresce quando as condições são favoráveis sem que ninguém precise semear. Então achar nabo forrageiro dando sopa por aí é bem comum. Aqui chego a ver lotes inteiros floridos no inverno, totalmente tomados pela planta.

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Uma moita de nabo forrageiro floridas num lote vago

O curioso é que apesar da gente aqui no Brasil não dar valor nenhum a essa planta como alimento, em Portugal ela é uma verdura tradicional, vendida nas feiras, supermercados, e que se encontra até congelado. Só que lá eles chamam a planta de nabiça (e me parece um nome bem mais simpático). É mais um caso interessante que nos faz perceber que uma coisa não convencional em um lugar pode ser convencional em outro. As vezes o que nos falta é conhecer, experimentar, e perceber que não é demérito gostar do que dá fácil no quintal da gente.

Reconhecer as nabiças é muito fácil: a folhagem lembra muito a do rabanete. São ligeiramente ásperas, com uma folha mais arredondada na ponta, e com recortes quando mais próximas da raiz. Costumam soltar flores brancas ou rosadas, e as flores também servem pra ir pra panela. O gosto é ligeiramente amargo; pra quem já provou as folhas do rabanete (que também se comem) o gosto é parecido, mas mais intenso e saboroso.

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A folhagem do rabanete. Repare como ela se parece com a das nabiças

Olhar pra outras culturas ajuda a gente a perder o preconceito de experimentar coisas diferentes, mas também coloca em perspectiva o quanto não estamos falando de plantas comestíveis novas. PANC é só um nome que nos ajuda a falar sobre essas plantas que nós conhecemos pouco no nosso dia-a-dia, mas que nem sempre são desconhecidas dos outros. A razão disso ainda não ter aparecido nos nossos pratos certamente não é não ser gostoso.

Também é uma peça fundamental entender que quem produz esse tipo de coisa vai ser sempre o pequeno produtor, que via de regra tem uma variedade muito maior de coisas, que nunca é possível na monocultura. A agricultura tradicional na verdade costuma combater essas plantas espontâneas com agrotóxicos, como se fossem daninhas, porque não se interessa pela variedade e sim por transformar a terra numa esteira de fábrica, com a maior produtividade por metro quadrado que for possível.

E já que falei sobre como as nabiças são comuns nas feiras de Portugal, acho que uma boa maneira de experimentá-las é preparando um prato típico português. A receita de hoje é do esparregado de nabiças – mas traduzindo, aqui a gente diria purê de nabo forrageiro, e ele aparece como acompanhamento de um monte de pratos. É assim que eles fazem:

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Bora preparar um esparregado com as nabiças

 

ESPARREGADO DE NABIÇAS (ou PURÊ DE NABO FORRAGEIRO)

1 molho de nabiças ou nabo forrageiro
3 a 5 dentes de alho
1 colher de sopa de farinha de trigo integral
1 colher de sopa vinagre balsâmico
azeite e sal

1. Comece dourando o alho no azeite;

2. Em seguida, refogue as nabiças na panela – não é preciso se preocupar em picar as folhas. Coloque também o vinagre e deixe as folhas murcharem;

3. Misture a colher de farinha de trigo em cerca de 1/4 de copo de água, até que ela se dissolva completamente. Essa mistura deve ser acrescentada às folhas refogadas, e servem para dar consistência ao purê;

4. Bata com um mixer diretamente na panela, ou leve essa mistura ao liquidificador. Dependendo do tamanho do molho de verdura, pode ser necessário acrescentar um pouco mais da mistura água + farinha;

5. Coloque a verdura batida de volta ao fogo, e vá observando até que engrosse e ganhe uma textura cremosa. Quando acontecer, acerte o sal e está pronto pra comer.

 

Caldo verde com cará-moela

Contamos enquanto comíamos: lá se vão 3 anos. Tive poucas oportunidades de experimentar caldo verde em Portugal, pois na maioria das vezes ele vinha com chouriço. E eu sou vegetariana.

Das vezes que tive a oportunidade de provar, a maioria das vezes creio que tenha sido no restaurante universitário da Universidade de Coimbra. Claro, nenhum primor, como seria de se supor. Era sempre ralinho, mas muito do meu gosto: adoro sopa rala. O tempero era suave, como parece sempre apetecer aos portugueses temperar tudo. Era servido sempre com broa de milho ou algum pão.

Outro caldo verde que mais me lembro de comer em Portugal é o meu próprio. Comprava couve na feira — que já vem picadinha, pois eles a passam nas máquinas na sua frente. E comprei um passevite, já que não tinha nenhum utensílio que servisse para fazer sopa. Não queria gastar em nenhum eletrônico, porque eu tinha algumas coisas já no Brasil, e foi assim que esse instrumento apareceu na minha vida. Não tem nenhum segredo: colocam-se as batatas cozidas, roda-se a manivela, e aos poucos a batata (ou qualquer outro legume) vai passando amassada pelos furinhos. A textura final do caldo, no entanto, é a minha maior memória afetiva desses dias. Não fica homogênea como se batido por liquidificador ou mixer; pequenos pedacinhos acabam restando, e parecem pequenos concentrados de sabor. Longe de ser uma falha na sopa, é uma delícia que deixa brincar de adivinhar do que ela é feita.

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Meu passevite que veio de Portugal

 

E vejam, que lindo: ele tem uma alcinha que é feita para se acoplar à panela, que vai recebendo a batata amassada sobre o alho dourando. Nada mais caseiro, com cara de cozinha do dia-a-dia.

Aqui no Brasil, para mim, o caldo verde sempre costumava ser de mandioca, e na maioria das vezes é assim mesmo que eu faço. Mas no domingo resolvi usar os cará-moelas pra experimentar um caldo verde diferente. Foi assim que esse caldo surgiu:

CALDO VERDE DE CARÁ MOELA

4 carás moela médios (em torno de 400g)
1 maço de couve
1–2 dente de alho
sal
azeite, quando o prato já estiver pronto

O pão de acompanhamento, dessa vez, faltou. Não é muito diferente o gosto do caldo verde original feito com batatas, embora tenha uma amarguinho de fundo bem interessante. É bom que a sopa não seja sempre a mesma, embora, é claro, é sempre bom ver um elemento ou outro de uma receita tradicional que perdure ao longo do tempo.

A memória afetiva é um pouco assim, desse jeito: é uma delícia recordar, e a gente tem medo que aquele tempo bom não volte nunca mais. É uma delícia poder lembrar desse tempo em Portugal, mas eu espero que novas memórias deliciosas apareçam. E só tem um jeito de deixar que isso aconteça: é experimentando coisas novas.