Ciabatta com flor de alho poró

As flores do alho poró que colhemos na última primavera secaram e guardamos em um pote. Nos surpreendeu como elas conservaram bem. O aroma de alho não se perdeu, e a cor também ficou muito bonita; tem um potencial enorme dessas flores poderem ser comercializadas como tempero. As flores secas tem um gosto que lembra alho frito, e é tão maravilhoso que estamos fazendo planos de secar toneladas de flores na próxima oportunidade, em setembro.

Dentre os testes que fizemos com as flores, incorporar na massa da ciabatta foi de um resultado tão impressionante que resolvi compartilhar por aqui. Se você não tem flor de alho poró mas está interessado em fazer pão mesmo assim, neste post tem algumas dicas preciosas pra fazer pão num forno comum doméstico.

_DSC0832.JPG
As flores secas armazenadas em um pote: mantém a cor e o aroma por um longo tempo

Pra ser justa, eu preciso dizer que não sou eu quem faz os pães na casa mas o marido, que é um padeiro de mão cheia.

Gustavo faz pães de fermentação natural e de todos os jeitos que você imaginar, mas a massa das ciabattas não é a massa mais simples de se aventurar pra quem não tem nenhuma experiência em fazer pães. Ela é uma massa muito hidratada, e por isso é difícil de dar forma e gruda bastante nas mãos. Não é impossível, mas se for sua primeira aventura na padaria não se desespere se as coisas não parecerem tão sob controle.

Também por conta da moleza da massa, Gustavo tem optado por fazer ciabattas com fermento biológico seco, dos comprados. É que aqui usamos o fermento natural só uma vez a cada 15 dias em média, e por isso ele nunca fica muito ativo. Como o fermento natural pede um tempo de fermentação muito longo, com a massa mais hidratada e mole ficaria ainda mais difícil de dar forma. Por isso fazemos a opção pelo fermento biológico seco: ele tem dado melhores resultados com as condições que nós temos. Não é uma regra, é o caso de você avaliar as variáveis que você tem pra fazer pão.

A ciabatta com flor de alho poró fica com a massa completamente perfumada de alho. É um cheiro mais sutil que o de um pão de alho, mas que se espalha pelo pão inteiro. É o tipo de pão que você não precisa de nada pra acompanhar de tão gostoso. É claro que você pode fazer essa mesma receita sem usar as flores, ou usar outros tipos de ervas que char interessante. Nós fizemos assim:

CIABATTA COM FLOR DE ALHO PORÓ


680g (5 xícaras e 1/2 aproximadamente) de farinha de trigo branca
10g (2 col. de chá) de sal marinho
7g (2 col. de chá) de fermento biológico seco
540 ml (2 xícaras e 1/4 aproximadamente) de água
30 mol (2 col. de sopa) de azeite
5 colheres de sopa de flores secas de alho poró

 

1. Numa vasilha, coloque a farinha, o fermento e o sal e misture. Se você tiver uma balança, é melhor usar as medidas em gramas do que confiar nas medidas caseiras, especialmente se você não tiver muita familiaridade com fazer pães;

2. Em seguida, despeje o azeite e aǵua sobre os secos e misture tudo até ficar homogêneo. Não é preciso sovar;

3. Espere 5 minutos;

4. Unte a bancada com azeite e coloque a massa sobre ela. Unte também as mãos de azeite, fica mais fácil trabalhar assim;

5. Vamos fazer esse pão numa técnica que não precisa de sova. É uma técnica de dobras muito incrível chamada Stretch and fold. Ela foi criada e publicada no livro Peter Reinhart’s Artisan Breads Every Day, mas é suficientemente útil você assistir os vídeos com o próprio Peter explicando como se faz. Ele também tem um TED sobre a arte de fazer pão que é bastante inspirador e que vale colocar na lista e assistir qualquer hora.

No Stretch and fold, você deve pegar a massa sobre a bancada untada, esticar levemente com as mãos, e dobrar no meio no sentido latitudinal, como se faz com um papel. Em seguida, puxe e dobre novamente no sentido longitudinal. Ao todo, serão 4 dobras alternadas (duas em cada sentido) para cada sessão. Depois deixe a massa descansar coberta por um pano por 5 minutos;

6. Repita o processo anterior de dobras + 5 minutos de intervalo por 4 vezes. Você vai notar que a cada ocasião que você faz a dobra, a massa vai ficar mais firme, e vai ser mais difícil esticar, além de algumas bolhas de ar aparecerem nesse processo. Isso significa que o glúten necessário pra massa crescer está se desenvolvendo, está tudo indo pelo caminho certo;

7. Antes de fazer a 3a. dobra, espalhe as 5 colheres de sopa de flores de alho poró por cima da massa. Faça o movimento de esticar e dobrar como das outras vezes; as flores vão ser incorporadas à massa aleatoriamente;

8. Depois da 5a. (e portanto última) vez fazendo as dobras, cubra com um pano e deixe a massa descansar por 1h. Ela vai dobrar de tamanho nesse período;

8. Depois do tempo de descanso, divida a massa em 4 pedaços, faça 4 pequenos rolinhos e coloque para a assar. Evite manipular ou amassar a massa, pois você não quer que o ar que está dentro dela saia e o pão não cresça. Opcionalmente você pode tentar fazer formatos com o pão, mas não é necessário.

_DSC0826.JPG

Para assar em forno caseiro e ter um resultado ótimo duas dicas são preciosas: A primeira é que você deveria arrumar uma pedra para assar seus pães. Aqui nós usamos um pedaço de granito que sobrou de uma obra. Mandamos cortar em um tamanho que cabe no forno (30cmx30cm), e é nele que assamos os pães e pizzas. Isso é importante porque a pedra retém o calor do forno, e ajuda a elevar a temperatura geral pra assar adequadamente. Fornos domésticos chegam no máximo a uma temperatura de 230-250o, e quando você abre a porta para colocar o pão, ele rapidamente resfria para 210o. A estrutura de um forno de lenha ou de um forno de lastro mantém o calor melhor e tem menos variação, e por isso um pão no forno de lenha sai tão diferente.

A segunda dica é que na hora de pré aquecer seu forno, deixe um tabuleiro vazio de metal no andar de baixo. Na hora de colocar o pão no forno, entorne um copo d’água delicadamente sobre esse tabuleiro. Vai fazer barulho e uma parte da água vai evaporar. Isso é importante porque o vapor d’água ajuda a criar aquela casquinha crocante no pão, mas mantendo o miolo macio. Num forno de lenha, a umidade vem da lenha. Num forno combinado profissional, você programa calor úmido. Em casa, esta é uma técnica para conseguir um resultado profissional sem um equipamento especial.

Quando PANC se transforma em fetiche (mas não deveria)

Sou menina da cidade grande, sei como funciona a vida nesses lugares, mas agora que moro no interiorzão fico bastante isolada, e por mais que eu veja o que rola por aí pela internet e outras telas, nunca vai ser a mesma coisa.

Passeando na feira orgânica do Bom Fim em Porto Alegre durante uma viagem, foi ótimo pra botar um monte de coisa sobre PANC em perspectiva. Nessa feirinha do Bom Fim tinha muita coisa PANC disponível, assim, sem pedir pros feirantes nem nada (que é a forma como eu consigo as coisas por aqui). Eu nem tinha ideia que a coisa andava tão pop assim.

DSC_0147.JPG
Um panfleto que peguei andando pela feira em PoA: tem pizza PANC

Vi vários molhos de verduras que não eram comuns de serem vistos uns anos atrás – vi folha de batata doce, almeirão de cavalo, peixinho da horta – frutas, legumes – me lembro especialmente de mini-pepinos – , flores de hibiscos e de sabugueiro, entre outras. Achei isso incrível.

No entanto fiquei atenta também ao modo como essas coisas eram ofertadas. Os molhos de verduras vinham em tamanhos razoáveis e preços compatíveis com outras verduras orgânicas numa capital, o que não significa exatamente barato, mas já as flores e frutas eram tão bibelôs que vinham em microcaixinhas. Dava pra perceber que esses itens tinham preços diferenciados.

Uma coisa que supostamente é pra fazer repensar a nossa relação com a comida de repente estão na MESMA lógica. Um fetiche, em caixas minúsculas, em lugar de refletirem a abundância, o localismo e a facilidade de cultivo que essas plantas teriam.

DSC_0129.JPG
Mais ervas frescas diferentes na feira: para chá

Recentemente tive a oportunidade de participar de uma oficina de PANC, em uma faculdade de gastronomia, e foi um outro momento de pensar sobre a interpretação que damos aos ingredientes. Na oficina, um dos ingredientes apresentados era o genipapo, uma fruta nativa da América do Sul, muito usada para fazer sucos e licores principalmente nos estados do Nordeste. Quando colocado no fogo e em presença de proteína, o genipapo é um corante natural de cor azul, uma cor muito rara de se encontrar naturalmente. E por isso, ele tem sido muito valorizado como um ingrediente muito especial.

Na oficina, trabalhamos com genipapo produzindo bolo, brigadeiro e uma massa fresca recheada, todos azuis. A minha primeira pergunta, no entanto, foi “onde vocês conseguiram genipapo?”. A oficina acontecia no sul do país, no sudoeste paranaense fronteiriço com SC, local em que o genipapo não cresce — ele é uma fruta tropical, de calor, e aqui é uma zona temperada. A minha pergunta refletia sobre essa forma fetichizada que estabelecemos com os ingredientes. Que sentido há em exaltar um ingrediente que vai ser caro, raro, indisponível onde moro, tal e qual como qualquer coisa importada da Itália? Como posso me apropriar de fato de uma receita e colocá-la dentro da minha realidade? Como a história contada em uma receita pode fazer sentido pra mim?

O problema não é existirem receitas e técnicas com genipapo e elas serem ensinadas, mas é de insistirmos em um uso que não condiz com o contexto. Uma receita não é uma prescrição, mas uma história sendo contada: ela tem que servir a quem faz uso dela, à sua realidade ou ela nunca fará sentido. Conhecer várias receitas é entrar em contato com histórias diversas, mas não necessariamente todas as histórias nos tocam e dizem da nossa experiência. A minha pergunta, dado o contexto em que estávamos na oficina, era porque contar a história do genipapo e não outras histórias que são desse lugar?

É uma pergunta válida porque se não construímos uma crítica dos ingredientes e da forma como a gente se relaciona com eles, corremos o risco de apenas criar novos fetiches e jeitos prescritivos do que é a boa cozinha e, assim, perdemos a riqueza que existe na multiplicidade de elementos e jeitos de experimentar a vida.

Quando escrevo, no fundo, eu falo de um lugar muito específico, dum interiorzão onde eu realmente tô falando de mato, de coisa que cresce à rodo, e de coisa que só tem aqui. Que eu frequentemente ganho de graça, colho no quintal dos outros, leio na paisagem urbana, coisas assim.

Acho que é importante registrar e multiplicar esses achados, o modo de fazer e de cultivar porque é claro que é possível compartilhar memórias e existirem achados comuns com outras pessoas e outros lugares. O lugar do qual eu falo provavelmente não é possível de se repetir numa cidade grande, mas serve de inspiração, informação e principalmente, de convite pra experimentação e pra fazer suas próprias descobertas. Nunca deveria ser lido como uma prescrição do estilo você precisa provar isso.

Não deveríamos fetichizar nenhuma PANC. O principal é desenvolver um olhar pra enxergar variedade e a abundância que é própria de cada lugar. Também é bom estar atento de que ninguém está inventando a roda ao falar dessas plantas consideradas não-convencionais. Existem espécies comestíveis novas sendo descobertas? Algumas sim. Mas majoritariamente nós estamos falando de resgate de coisas que nós conhecíamos no passado, que alguns grupos faziam uso costumeiro, e que acabou esquecido pela desvalorização imposta pela uniformização alimentar que o capital promove. Não caia na ilusão de achar que PANC é só sobre provar novos sabores e a gourmetização da vida cotidiana, nem que sejam itens exóticos ou diferenciados. Se eles estiverem sendo oferecidos dessa forma pra você, pare e reflita: exotismo pra justificar preço é só mais do mesmo, então infelizmente tem algo errado nisso aí.

Pepino-melancia, uma PANC rústica que produz pequenos bibelôs

Fiquei conhecendo o pepino-melancia porque ele estava dando sopa na cerquinha do lote que comprei pra construir minha casa. Ele estava por lá, pendurado, gracioso, com certeza sem ninguém ter semeado, que nem o alecrim dourado da música.

DSC_0258.JPG
Gracioso, pendurado na cerca

Esse pepino (Melothria cucumis Vell.) leva esse nome por conta da casca rajadinha, que lembra realmente a melancia. Pepinos e melancias, aliás, são ambos da mesma família das cucurbitaceaes, e este aqui obviamente é parente deles.

Ele é uma planta alimentícia não convencional (PANC) rústica, espontânea, que dá quase sempre assim como o encontrei, perdido em áreas de mata, quintais e cercas. É encontrado em grande parte do país: do Rio Grande do Sul até o sul da Bahia. A área mais comum de ocorrência, no entanto, é nesse pedaço mesmo onde moro: no sudoeste do paraná, oeste catarinense, e oeste do Rio Grande do Sul, se estendendo inclusive pra parte da Argentina e Paraguai. No pedaço dos países vizinhos, o pepino melancia recebe um nome espirituosíssimo, que me faz rir um bocado: melancia de rato.

O gosto desse pepino é muito semelhante com o do pepino comum, porém a casca é ligeiramente mais grossa. Por conta do tamanho, que fica sempre mini, é muito apreciado pra fazer conservas: basta colocar os pepinos em salmoura (com cerca de 10% de sal) e esperar maturar por uma semana. A casca mais espessa ajuda que a conserva sempre saia crocante, o que nem sempre é simples de ser feito com pepinos comuns.

Uma curiosidade que percebi experimentando os pepinos foi quando cortados longitudinalmente (“de comprido”), eles exalam um cheiro diferente que lembra o melão. Por conta desse aroma, quando preparo pratos dou preferência a esse corte. Neste caso, servir cru apenas temperado com azeite e sal costuma ser uma boa pedida, pois o aroma é suficientemente atraente pra que você não precise de muito malabarismo.

DSC_0231.JPG
Vai servir pepinos melancia? Prefira cortar assim pois exalam mais aroma. E prefira servir cortado, pois a casca mais dura que o pepino comum não favorece que sejam servidos inteiros.

Quanto ao cultivo, o pepino melancia parece preferir áreas de pleno sol, mas também aceita bem viver em meia sombra – estes, inclusive, estão na cerca embaixo de uma árvore e produzem bem. Aqui eles brotam espontaneamente assim que termina o inverno e as geadas (por volta de agosto) e os frutos são encontrados entre dezembro e fevereiro. A planta solta flores minúsculas, amarelas, e em poucos dias os frutos se desenvolvem.

DSC_0262.JPG
A florada do pepino-melancia

A propagação pode ser feita por sementes. Elas se parecem muito com as sementes do pepino comum, são apenas um pouco menores e mais achatadas. Aqui tem outras informações sobre cultivo do pepino-melancia, mas pelas fotos a gente vê que é um pepino mini semelhante, também nativo e da mesma área de ocorrência, mas não o mesmo. De toda forma, é provável que esse também se beneficie do mesmo tipo de cuidado.

***

Aproveitei que encontrei no lote alguns pepinos já secos, com a casca bem fininha e as sementes vazando dos frutos e andei enviando essas sementes a alguns amigos do twitter. Alguns vão tentar o cultivo em vasos grandes, na área urbana, e outros em zonas que não são as de ocorrência natural. São experiências que a gente não acha muita informação sobre, e por isso estou curiosa pra ver o que eles me contam sobre o pepino melancia crescendo por aí. Quando tiver notícias, eu volto pra contar.

Cidreira não é só pra chá

A cidreira é um nome popular que, como muitos outros nomes populares, acabam se repetindo para nomear várias plantas diferentes e por isso podem confundir a gente.

Ao menos 3 plantas recebem o nome de cidreira. Todas elas tem em comum um leve sabor cítrico, e por isso a designação. As três são de cultivo fácil e usadas comumente pra se fazer chá, mas não precisamos nos restringir a esse uso. Ela também fica muito bem batida com frutas. Se uma planta é segura pra comer, o negócio é experimentar.

Esta cidreira das fotos especificamente é a da espécie Lippia Alba, e é conhecida também como cidreira de árvore, cidreira de folha ou cidreira brasileira. Apesar do “de árvore” que acompanha seu nome, ela é apenas um arbusto, e dá pra cultivar em espaços pequenos. Em geral você vai encontrar informações por aí recomendando que essa cidreira precisa ser plantada no chão pra dar, mas posso dizer que venho cultivando cidreira de árvore em vasos há mais de 5 anos e me deliciando com elas.

O que você precisa garantir é que ela tome algumas horas de sol por dia – 3 horas é suficiente, mas o ideal seriam cerca de 5 horas. Quanto mais sol, mais aroma as folhas devem ter.

O vaso pra cultivo, no entanto, não pode ser muito pequeno. Essa cidreira solta galhos compridos e flexíveis, que podem ficar caídos, e por isso podem ficar bem interessantes em um vaso grande ou jardineira na janela, por exemplo. É como sempre tenho cultivado, e o único cuidado é não deixar o galho entrar na janela do vizinho.

Ela não é uma planta exigente com solo, e por isso produz muito sem tanto cuidado. Gosta de água e tem uma floração muito bonita, em forma de pequenos buquês cor-de-rosa. A folha é levemente peluda, e só da gente tocar sentimos o cheiro. Dá vontade de encostar toda vez que passamos, e nada melhor do que uma coisa assim pra gente ter em casa.

Fazer muda também é muito fácil: é só enterrar parcialmente um galho que ele logo brota (este processo se chama estaquia). E o melhor de se cultivar é que a gente acaba ficando criativo pra poder aproveitar tanta folha que vem.

Além dos chás, um uso bem interessante pras folhas de cidreira é nos sucos.

Suco de maracujá com cidreira é uma experiência. O gosto dos dois combinam bem demais. A cidreira é levemente amarga, então é bom não exagerar na quantidade de folhas. No suco, o amargo não é o que predomina; o aroma lembra discretamente o lúpulo. É só bater a polpa do maracujá com as folhas, adoçar com mel ou o que você preferir, e coar, para retirar os pedaços de semente. É simples, mas é algo tão memorável que não podia deixar de registrar.

Cozinhar sem receitas: uma lasanha de umbigo de banana

Há muito tempo que estava com vontade de testar fazer lasanha de umbigo de banana, mas ainda não tinha encontrado a ocasião.

O umbigo de banana é um ingrediente que aceita muito bem os sabores que você adiciona a ele. Tem um leve amargor, que a gente retira em sucessivas fervuras, como expliquei em outra postagem sobre ele. Pra mim, o sabor fica entre o palmito fresco e a berinjela. E foi pela semelhança com a segunda que me ocorreu que fazer lasanha com umbigo de banana poderia ser interessante, pois ficam muito saborosas as lasanhas feitas com recheio de berinjela.

Lasanha é um prato bastante trabalhoso de se fazer – especialmente porque por aqui fazemos a massa, o recheio e o molho. Então pra nós é um prato trabalhoso e de ocasiões especiais. Mas mesmo com essa cara de prato extraordinário, ainda tem espaço pra um pouco de espontaneidade e improviso.

Dividi o trabalho em etapas. O molho foi feito na minha reunião anual do molho de tomate. Neste ano fizemos molho com 70kg de tomates, e congelamos, pra poder usar quando tivermos vontade. E o umbigo, piquei, deixei em água fervente por 5 minutos resfriando em seguida (chama-se branqueamento essa técnica). Fiz o processo de branqueamento duas vezes antes de congelar. É uma forma muito prática de ter umbigo de banana à mão, pois você pode fazer uma quantidade maior e economizar o trabalho, e depois congelar em porções pequenas pra preparar depois.

A ideia de usar umbigo de banana pra rechear uma lasanha foi um plano desde o dia em que branqueei o umbigo e congelei numa porção imensa. Já a receita da lasanha em si foi um improviso. Fiz com as coisas que estavam à mão. Refoguei alho, cebola, cenoura em cubos, e muita pimenta cambuci  – um tipo de pimenta de cheiro, que não arde e é muito saborosa, ao estilo do pimentão mas diferente dele. Com tudo refogado, pus o umbigo de banana previamente branqueado congelado, deixei amolecer. Por fim pus passas hidratadas no vinho, cogumelos portobelo e um pouco de orégano fresco que estavam lindos no vaso da horta. Desliguei o fogo e fui montando o recheio com ele: uma camada de molho, outra de massa, o recheio e um pouco de queijo. E é pouco queijo, que os sabores do recheio são delicados.

DSC_0480.JPG
Lasanha tem gosto de ocasião especial. Essa é a de umbigo de banana.

Nem sempre é preciso seguir receitas pra fazer um prato, e eu sou entusiasta de se pensar em livros de receitas (e também blogs que falem sobre comida) como indicações livres de sabores combináveis mais do que uma lista fixa a se prender. O umbigo de banana no recheio da lasanha realmente funciona bem, assim como a liberdade de inventar suas próprias receitas. Ambos valem uma tentativa.

As feiras e seus achados: araticum do mato

Se alguém me perguntasse qual a coisa mais relevante que experimentei na mudança de uma capital para uma cidade de menos de 100mil habitantes, eu falaria sobre a possibilidade de frequentar uma feira feita por agricultores (seria isso e também o trânsito, ah, que maravilha chegar em qualquer lugar em 5 minutos).

As feiras são lugares subestimados. Ir a uma feira, em qualquer cidade, não é sobre comprar legumes e verduras. É também sobre encontrar pessoas, conversar, desenvolver um olhar pras coisas que estão à sua volta. Dependendo do lugar da feira, é também tomar um solzinho, caminhar ao ar livre, ver as pessoas passarem.

Pra mim a feira também é sobre descobertas. Cada semana eu passo procurando coisas novas (ou perguntando por coisas que tenho curiosidade de conhecer). Essa semana dei de cara com o Araticum. Ela me foi apresentada aqui assim, com esse nome, mas em Belo Horizonte eu conhecia uma outra fruta de nome araticum e ela era inconfundível: tinha uma cheiro muito característico e forte, eu diria até um pouco enjoativo.

Então, quando a feirante me deu esse nome eu sabia que estávamos falando de tipos diferentes de araticum. E isso é muito comum quando a gente fala de plantas alimentícias não-convencionais, porque os nomes também não tem uma uniformidade. Eles refletem o caráter regional e informal que essas plantas ainda tem (e isso é bastante divertido).

Eu fiz o que costumo fazer: levar, voltar pra casa e procurar nos meus livros ou na internet por descrições. Dessa vez, quem me ajudou a desvendar o mistério foi esse livro do Helton Muniz, um fruticultor-pesquisador-colecionador do interior de São Paulo, que é conhecido por ser o maior colecionador de frutas do Brasil.

DSC_0177.JPG

Eu já falei sobre o Helton em uma newsletter. Eu tive a oportunidade de conhecer a propriedade dele, e ser recebida com o maior carinho por lá. Era inverno, então não tinha tantas frutas pra serem provadas, mas a visita não era só sobre provar. Eu queria muito entender como o Helton foi construindo tanto conhecimento.

Nesse livro do Helton estão listadas informações de 100 frutas diferentes, sendo a maioria delas nativas. Helton passou mais de 20 anos pesquisando, procurando, conhecendo, e esse livro é fruto de todo esse conhecimento que o Helton construiu autonomamente.

Existem outros livros do Helton – um deles, inclusive um só sobre a família dos araticuns, as annonaceae. Ou seja, tem muitas frutinhas semelhantes por aí, mas cada uma com sua particularidade, e a maioria de nós nem sabe que existe.

No livro, ele frisa sobre o potencial dessas frutas. O Araticum do mato, se fosse cultivado, poderia ter a mesma qualidade das maças, peras e ameixas cultivadas na Europa, ele escreve. Se a pessoa escolher uma terra boa, a frutificação se dará mais rápido e o fruto de melhor sabor, e não duvido que se possa conseguir variedades melhores por meio de mudas e enxertos com fruta do conde (annonna scamosa) e condessa (annona reticulata).

O araticum do mato (rollinia sylvatica) é nativa do Brasil e se espalha pelo bioma de mata atlântica, com ocorrências desde o litoral de Pernambuco até o Rio Grande do Sul. Tem uma forma e sabor parecidos com as frutas dessa família, como as pinhas, araticum, fruta do conde (que são mais conhecidas): tem a polpa esbranquiçada, translúcida, de sabor doce, mas levemente azedinho. O tamanho das frutas, nessa espécie, é pequeno, e a polpa da fruta é bastante agarradinha à semente – a gente acaba tendo que fazer certo esforço pra chupar. As flores aparecem logo no início da primavera, e os frutos amadurecem de janeiro a abril.

O Helton produz, vende e despacha mudas de frutíferas incomuns pro Brasil inteiro. É um trabalho muito incrível de descrição, preservação e disseminação desse conhecimento. De uma forma diferente, é também o que fazem as feiras livres que existem espalhadas em cada cidade. E o mais importante: tanto o Helton quanto as feiras nos ensinam que esse trabalho de conhecer as coisas que existem não se esgotam, é uma riqueza pra ser cultivada por uma vida inteira.