Prazeres permitidos

Uma mulher mergulhando num lago de leite condensado

Não sei direito se me tornei uma pessoa anacrônica, mas eu realmente sinto saudades daqueles sorvetes de iogurte que tinham aos montes uns anos atrás. Eu já imaginava que uma hora eles desapareceriam – não tinha como tanta loja de frozen yogurt sobreviver num mesmo lugar -, mas eu não ia achar ruim se algumas delas continuassem por aí. Por conta desse saudosismo, tentei ver se ainda restava alguma loja daquilo, e o google me contou que ainda tinha uma no shopping aqui perto persistindo. Achei que poderia ser gostoso ir até lá.

Fiquei assustada quando olhei o cartaz na loja contando o preço que cobram agora pelo sorvete – eu me lembrava que eles não eram baratos, mas acho que ficou ainda pior, como tem acontecido com quase tudo que a gente compra nos últimos tempos. Parecia que ia ser uma oportunidade única: quase não existem mais lojas e eu não sei quando elas vão acabar desaparecendo de vez; e nem sei se eu teria coragem de novo de pagar tanto assim por um sorvete. Era bom que eu pensasse bem na cobertura que eu ia escolher pra acompanhar.

Fiquei um tempo calculando – eu me lembro que gostava dessa calda de chocolate, ela era bem gostosa. Mas eu quase nunca escolhia ela porque, hmmm, é um sorvete de iogurte. Parecia pra mim que fazia mais sentido tomar ele com uma fruta, que seria uma escolha mais “correta”.

Essa ideia já não faz mais sentido pra mim agora, mas quanto mais eu pensava em pedir a calda de chocolate, mais achava que não era ela exatamente o que eu queria naquele momento. Era difícil chegar numa conclusão tomando por base um sentimento de que agora eu podia transgredir uma coisa que eu não me permitia no passado, mas também queria muito perceber boca de quê eu tava sentindo ali, na porta da loja.

Acabei pedindo pedacinhos de manga. O sorvete era um pouco mais aguado do que eu me lembrava, mas era mesmo muito do meu gosto. Enquanto comia, fiquei pensando como realmente estava gostoso – ele exatamente assim, com uns cubinhos de fruta. E não era uma escolha porque os ingredientes pareciam corretos, mas porque eu entendi que gosto realmente dessas coisas e queria elas assim naquele momento.

Petite Luxures, Intrincations e prazeres

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Talvez seja um pouco estranho pensar no prazer de comer um sorvete de iogurte com alguns pedaços de manga como uma coisa satisfatória porque a gente passou a associar que o prazer, prazer mesmo de verdade, só pode estar numa coisa proibida feito a calda de chocolate.

A Nigella Lawson tem um texto no Cook, Eat, Repeat, livro lançado em 2021 e ainda sem tradução, em que ela fala sobre como ela detesta a ideia de guilty pleasures, esses prazeres que a gente tem mas sente vergonha de assumir que sentimos. Pra ela, esse é um conceito bastante estranho: não tem como você sentir prazer de fato se você está inundada por uma sensação de remorso ou vergonha. Pra algumas pessoas, essa lógica de um prazer que não é plenamente assumível pode ter alguma coisa de rebeldia, de estar desafiando a moral das coisas, mas ainda assim fica um pouco daquele sentimento de “eu não deveria, mas …”, que, no fundo, é uma crítica internalizada.

Eu sempre achei a Nigella uma figura que encarna nos seus programas pra TV exatamente a libertação desse tipo de relação desconcertante com a comida. Ela cozinha coisas maravilhosas, que a nossa cultura ensina que são proibidas, e o fetiche que ela interpreta pras câmeras é comer com a boca mais boa encarando e atravessando a tela com um olhar de imenso prazer por estar devorando aquelas coisas.

Tem algo de muito obsceno no que ela faz. Mas a obscenidade dela não está no fato dela ser uma mulher bonita com um gestual sensual, que é o que costumam falar dela, e sim porque as coisas que ela faz ali nós aprendemos que deveriam ficar fora de cena. Ela vai na raiz do que significa ser obsceno, e sua imagem aparece sempre demonstrando um prazer imenso fazendo algo que pra tanta gente parece pura perversão.

Nos programas, Nigella parece estar sempre muito consciente do quanto apreciar uma boa comida é uma satisfação. E ela não restringe essa performance a uma boa comida eventual, uma coisa rara que deve ser poupada pra ocasiões especiais. Ela tenta mostrar que comer é uma oportunidade diária que a gente tem de inundar com entusiasmo os nossos sentidos, de se sentir plena, satisfeita, grata por poder desfrutar coisas boas com o nosso corpo no tempo em que estamos vivos. Em cada mordida, a Nigella parece celebrar a própria vida.

Petite luxures, Rorscharch

Comer dessa forma, pra muitas pessoas, é algo assustador. Eu não culpo quem sinta medo de se aproximar desse prazer com tanta regularidade. Nós vivemos em um ambiente que nos ensina controle e comedimento na satisfação dos desejos, pra não corrermos o risco de parecermos desgovernados. A relação que estabelecemos com o corpo é de desconfiança. Passamos a acreditar que se não nos vigiarmos, com certeza vamos escolher sempre as caldas de chocolate e outras coisas que nos ensinam que não são tão boas assim.

É verdade que a indústria alimentar se aproveita muito dessa relação estranha que a gente desenvolve com o corpo. Ela enfatiza a necessidade de só acreditar na comida com rótulo e que tenha determinados nutrientes, enquanto por outro lado cria um monte de guloseimas que tentam enganar as nossas percepções. Há tanto a comida desenhada pra confundir o nosso corpo e fazer a gente desejar de um jeito intenso e estranho, quanto o simulacro: a comida que é feita pra ser um substituto da coisa real, e que a gente custa a perceber o quanto ela não satisfaz porque não substitui nada.

Mas justamente porque esses agentes externos tentam nos confundir se torna ainda mais importante aprender a reconhecer que existe uma certa inteligência no corpo. Essa inteligência nasce com a gente, mas também se transforma, e a gente precisa aprender a decodificar e a entender. Ela está lá no bebezinho, que chora instintivamente quando precisa mamar, e mama o tanto que é preciso. Mas ele não sabe que o nome disso é fome.

Ele aprende logo a procurar o peito, mas, ao longo do tempo, essa relação vai sendo atravessada por um monte de coisas que fazem parte das relações – as que ele tem com a mãe, as que a mãe tem com outras pessoas de fora, e as que os dois vão cultivando com o mundo ao qual eles pertencem. É impossível não ter de se haver em algum momento com as expectativas, com as próprias e com as dos demais. Em algum momento, ele vai esbarrar naquilo que acham que é certo e errado, e com a arbitrariedade desses julgamentos, que vão fazendo ele se sentir confuso sobre o que o corpo precisa pra ficar bem.

Petite Luxures, Bourrasque

É assim que se para de acreditar no que se sente e vai acreditando que é preciso um controle externo, alguém ou alguma coisa mais confiável que diga as porções, os ingredientes, os nutrientes, ou qualquer coisa que faça a gente se sentir um pouco mais confortável pra entender o que precisa.

O conceito de que existem comidas que achamos que não deveríamos comer – ou que os outros acham que não deveríamos estar comendo – nos mostra como achamos que uma comida, assim como as escolhas, podem ser boas ou ruins. E esse julgamento tem uma relação bem interessante com o prazer que ela proporciona. O prazer, por essa lógica, parece ser uma coisa que faz a gente perder o controle, e querer sempre mais, sem limite. Já o controle é o oposto: é uma coisa séria, que se parece mais com austeridade, porque o corpo não é lugar que a gente deveria permitir qualquer tipo de devassidão.

Mas quem já provou um copo d’água num momento em que estava com a língua seca de tanta sede sabe como é delicioso poder sentir a umidade enchendo a boca inteira. A água não tem cheiro, não tem cor e nem tem gosto, e ainda assim, beber um copo d’água pode ser uma coisa muito prazerosa. Sentir sede é só um mecanismo que nos permite nos mantermos vivos, e o único propósito de sentir essa vontade é saciar esse desejo. O prazer é o corpo nos assegurando de que era o que precisávamos, e que vamos seguir bem e vivos.

Essa inteligência que o corpo guarda, no meio de tanto ruído e de expectativas, precisa de tempo e de uma escuta cuidadosa, mas não é algo que a gente deveria ignorar. É só tendo a coragem de experimentar sem culpa todas essas coisas que parecem obscenas e proibidas que você também pode reconhecer o prazer que existe num copo de água ou em pedaços de manga. Quando nos permitimos parar de nos alimentarmos de expectativas é mais fácil se libertar do controle e acreditar e ouvir a sabedoria da carne.

Petite Luxures, Fortune cookie, vários prazeres

A escritora e artista plástica Julia Cameron, quando fala sobre a tarefa de ensinar o processo criativo no livro O Caminho do Artista, conta uma pequena anedota que serve bem pra pensar sobre o que nos autorizamos. Toda vez que ela explica pra alguém que o trabalho dela é ser escritora e dar aulas de criatividade, as pessoas ficam intrigadas: “Como você consegue ensinar criatividade?” “Não consigo”, ela responde. “Eu ensino as pessoas a se permitirem ser criativas”. Toda vez que nos entregamos inteiramente a uma obra, ao espírito ou ao prazer, nós nos permitimos acreditar no que a gente já é. Eu não sei muito bem como se faz pra criar uma relação nova com o corpo em que não é preciso mais tanto controle e tenha um espaço confortável de aceitação dos desejos, mas sinto que tem qualquer coisa parecida com um salto de fé. É preciso dar um voto de confiança de que o prazer é capaz de te levar a escolhas boas, e isso só se faz se permitindo sentir prazer.

Escolher pelo que você deseja não vai te levar à calda de chocolate sempre, mas quando você se deparar com ela, aprecie, ela é a escolha certa da vez. Saber desfrutar é um treino, que torna muito mais fácil perceber o quanto os pedaços de manga também são algo que você ama. Mas isso só é possível se você se der a chance de se agradar. Em cada refeição você tem uma nova oportunidade, e não tentar aproveitar talvez seja a única coisa que você poderia se arrepender. Confiar que o prazer é um guia pra integralidade e não pra degeneração é abrir mão de um controle fictício, pra que comer uma coisa boa deixe de ser assim tão obsceno, pelo menos pra você.

Petite Luxure, Um mergulho na taça de espumante. Prazeres

As imagens que ilustram essa cartinha são do trabalho Petites Luxures in Big Apple, do artista francês Petites Luxures.

Texto originalmente publicado na newsletter em novembro de 2021. Dá pra assinar aqui se quiser receber as próximas.