O nome que a gente dá pras coisas

Durante o trajeto de ida da viagem, enquanto olhávamos a paisagem passando pelas janelas do carro, falamos um bom tempo sobre como em cada lugar damos nomes diferentes a uma mesma coisa. Uma plantação de bergamota em Minas Gerais não existe: é plantação de mexerica. Um potreiro no sul se transforma num pasto no sudeste. E tá vendo ali aquele jipão? Pois ele é fogão de lenha, construído de alvenaria, porque os de ferro que são mais comuns no sul nem se encontram mais pra cima.

Essas curiosidades me faziam pensar sobre a quantidade de pequenas dobras linguísticas que acabo sendo obrigada a fazer por morar em outro lugar. São pequenas, quase sempre invisíveis, e parecem mera curiosidade, motivo de riso, mas também são lembranças do quanto estou fora do meu lugar. Dobre a língua, menina, antes de falar.

Tirei essa foto dos limões em BH, no Mercado Central, como mais uma lembrança dos tortuosos caminhos das palavras. Em BH, esse limãozinho é difícil de encontrar. Certo mesmo, que eu soubesse, só no Mercado Central, mas as vezes via em feiras, as vezes ele aparecia vindo de algum sítio.  Eu ouvia chamarem que nem mostra a placa, de capeta, e sempre me fazia pensar que esse limão era mais ácido que o outro, aquele verde que a gente achava em qualquer lugar.

Aqui no interior do Paraná chamam ele de “limão”. Assim, sem nenhum adjetivo, porque ele é besta, comum, quase todo mundo tem um pé no quintal. Adjetivo quem merece são os outros, mais raros e por isso mais ilustres.

Andei perguntando no twitter que nome as pessoas davam a esse limão e adorei as respostas que apareceram: limão rosa, que descreve bem a cor laranja-rosado da casca; limão cravo, e acho um nome muito bom, porque me fala do quanto ele é aromático; limão galego, que muita gente ficou em dúvida se era ou não certo, mas se tanta gente dá esse nome, certo fica sendo; e teve até quem me dissesse que no RS isso se chama limão gaúcho, e me fez achar graça do conhecido bairrismo desse povo (mineiro não pode falar muito pois também somos bem bairristas, então melhor eu ficar quieta).

Gosto de ficar olhando pra essas diferenças linguísticas porque elas dizem de jeitos diferentes de conceber e viver as coisas. Enfatizam alguma coisa em especial: a pungência, a cor, o aroma, a frequência ou o apreço pelo regionalismo.

Os motivos pra se nomear algo nunca são puramente linguísticos. Nas PANCs a gente percebe bem uma característica desse processo de dar nome às coisas. Se várias espécies consideradas PANC recebem nomes que terminam com “do mato”, “de anta”, “de macaco”, “de pobre” é porque carregam uma desvalorização em vista de outras plantas, mas que não condizem com a realidade dos seus sabores, texturas e cores.  A ênfase, como se vê, fica em outros aspectos. Nomear algo, afinal, é uma ferramenta poderosa para ordenar e estruturar como percebemos o mundo. Diferente do limão, os nomes de PANC não enchem os sentidos, mas sim nossa cabeça de desconfianças. Então, pra conhecer e falar do gosto, do cheiro, da riqueza ou do uso é preciso superar o destaque dado na frequência, na relação econômica e na vulgaridade que os nomes sugerem pra gente. Conhecer os nomes é bom, mas também engana. Nesses casos, é preciso botar o nomeado na mão, no nariz, na boca, no prato.

 

Os fracassos que não exibimos






Uma série de fotografias, pra escolher alguma melhorzinha e mostrar ao mundo.

as listas de melhores não são um bom resumo de qualquer ano

No final de ano, quando as listas de melhores (livros, filmes, séries, fotos, momentos, etc) começam a aparecer, sempre me sinto um pouquinho peixe fora d’agua. Sou lembrada de que é humanamente impossível dar conta de todas as coisas, e invariavelmente tem sempre coisas que não vi, não li, e nem ouvi falar.

Acredito que listas de melhores são feitas com boas intenções, e podem ser úteis como referência pro próximo ano. Mas não consigo evitar o sentimento de que estou um pouco atrasada, e perdi algumas coisas que parecem legais. Sempre fico um pouco encolhida, pensando se simplesmente não estou fazendo escolhas erradas.

Semana passada fui escrever sobre uma tarefa que me dei em 2016 — a de escrever todos os meses sobre minhas experiências lendo livros. Falei um pouco de como esses escritos foram gratificantes pra mim, e como eu espero que eles possam ter sido interessantes pra quem lê do outro lado da tela. Fechei meu texto fazendo algumas listas, que não eram dos melhores livros, porque não consigo acreditar que existem “os melhores”. Se o que eu estava fazendo nos textos era falar de experiência, conclui que minha lista, além de pessoal, também é uma nota sobre o momento que vivo. E seria difícil escolher o melhor momento, pois todos se somam pra formar o que experimentei.

Difícil comparar entre minhas próprias leituras; imagine então comparar com as leituras alheias. Listas de melhores não seriam simplesmente arbitrárias, mas tarefa impossível sem considerar o contexto da escolha. Melhor em quê, pra quem?

Resolvi essa questão criando um pouco de contexto. Fiz listas que chamei de aletórias, nas quais separei livros que abandonei, que não tive coragem de abandonar, livros que li que falavam sobre comida, livros que li enquanto viajava, ou que indiquei a alguém pelas mais diversas razões que não somente porque ele era “o melhor”. Tentei não pensar em nenhum tipo de hierarquia, pra diminuir o nível de competitividade e o sentimento de estar meio por fora de qualquer um que topasse com meu texto por aí.

Quando escrevo sobre comida, involuntariamente estou desenhando um pequeno ponto de uma lista de coisas que sei fazer bem, que gosto de fazer, ou que me sinto à vontade para falar sobre. É compreensível. Não falamos daquilo que fazemos mal, das coisas que não entendemos ao menos um pouco ou daquilo que deu errado. Como uma lista de melhores de final de ano, um blog sobre comida é uma lista pronta, pensada durante todo o tempo, pra mostrar coisas interessantes.

Não acho que mostramos nossos melhores, e escondemos nossos piores só por respeito à quem vem em busca de ideias, aprendizagem ou boa conversa. Também não acredito que reconhecer o fracasso é importante porque pra termos sucesso temos que ter tido milhares de fracassos antes. Os fracassos são mais que isso: são partes da vida, das nossas experiências, e não pedras no meio do caminho pro sucesso que uma hora podemos alcançar. O sucesso não é o fim, e pode inclusive nunca vir (o que é sucesso, aliás?). A lista de melhores, portanto, não é um bom resumo de qualquer ano.

Sempre tenho esperança de que as coisas que publico possam deixar uma vontade de se pensar sobre o ato de cozinhar, e todas as coisas que ele envolve: a importância das nossas microescolhas na cadeia cultural, afetiva, econômica, e a importância política de um trabalho que quase nunca é visto como um trabalho. Sempre me pergunto se consigo (ou conseguirei algum dia) fazer germinar essas ideias em atos práticos, de encorajamento, que levem outras pessoas não só a pensar sobre comida, mas a efetivamente valorizá-la, e fazê-la.

Mas em que medida, enquanto falo sobre as coisas que eu mesma faço eu não intimido? Quanto mais insisto em me mostrar, ou mostrar o meu melhor, mais a cozinha pode parecer distante, e impossível de ser feita. A minha lista de melhores, ou tudo aquilo que eu publico, é também uma lista que precisa de contexto: as melhores coisas que eu, a carla que mora em Pato Branco, não tem um emprego formal, cozinha há 20 anos, e se interessa pelo assunto, consegue fazer (e achar fácil).

Tive um blog há quase 10 anos atrás, que também não tinha receitas: eu só fotografava tudo o que cozinhava, contava os ingredientes, e esperava que aquelas ideias servissem de inspiração pra quem me lia. Embora muitas coisas tenham mudado nesse tempo, eu ainda penso muito sobre não criar regras sobre comida, e sobre receitas tão abertas quanto qualquer texto literário. Acima de tudo, nesses anos todos, continuo achando importante falar do assunto. Cozinhar exige certa coragem de arriscar, mesmo sabendo que o resultado pode sair errado. Nenhuma receita garante nada: é que nem na vida. Se o que eu publico tocar quem lê, fizer ter mais coragem, e se sentir mais livre pra errar e também acertar, vou conseguir aquilo que queria. E isso realmente não depende de que eu mostre apenas o que dá certo.

Como um antídoto pontual, contraponto das listas de melhores internet afora, e da lista contínua dos meus melhores que vou publicando a conta-gotas por aqui, resolvi fechar o ano falando das coisas que não deram certo. Aquelas coisas que fiz e que não ficaram boas, e não contei, mas que fazem parte da vida, porque mesmo que qualquer sucesso seja possível, elas continuarão a existir. Precisamos aprender a conviver com elas. Falar foi o jeito que encontrei pra pensar sobre esse ano:

Foco no lugar errado, escura, mas divertida: tirei na mesma sessão das fotografias que abriram a postagem. Você imaginaria que perto da comida tinha uma gata danada, em cima da mesa?

Seis pratos difíceis de engolir que inventei de cozinhar em 2016:

1.Caldo verde feito com almeirão pão-de-açúcar — Em minha defesa, quero dizer que eu gosto de verduras mais amargas. E não tinha couve em casa. Tentei colocar esse almeirão de nome irônico, e achei que poderia sair um prato interessante, mas nossa. Foi como tomar uma sopa de purgante. Ficou horrível, o caldo inteiro ganhou um sabor muito amargo. Melhor nem fazer se não tiver couve.

2. Api — Em janeiro de 2016, aproveitando minha posição privilegiada de moradora quase da fronteira, passei 15 dias numa viagem de carro rumo ao noroeste Argentino, nas províncias de Salta e Jujuy. Trouxe de lá Api, que no meu portunhol sofrível, parecia farinha de milho vermelho, que eu deveria usar pra fazer uma bebida fermentada. Não era isso. Era um preparado em pó (feito suco em pó) de milho vermelho, mas cheio de açúcar e nem imagino mais o quê. Nada parecido com as Chichas que tomei por lá. Andei 1500km com meu achadinho, pra jogar tudo fora no Brasil.

3. Chuños — Nessa mesma viagem, comprei umas batatas desidratadas chamadas chuños. É um método de conservação dos incas, fiquei muito curiosa. A senhora que me vendeu tentou me avisar: era difícil fazê-las. Não escutei, trouxe, e ficaram parecendo papel cozido. Não sei se não soube usar, pois nem sei que gosto deveriam ter. A internet não foi capaz de me ensinar.

4. Massa fresca para 4 pessoas — Tem mais de um ano que só como macarrão feito em casa. O mais frequente, claro, é que eu faça só pra mim e pro meu companheiro. Fica muito bom, e a gente faz uma propaganda danada. Convidamos amigos pra participar do almoço, e erramos o ponto do macarrão horrivelmente: cozinhou demais, ficou grudento, parecia que a gente nem sabia fazer o negócio. blé.

5. Fermentado de amora — Comprei umas duas caixas de amoras, por pura gulodice. Uma delas foi ficando na geladeira, e achei que o melhor seria fazer um suco e deixar fermentar, pra ficar gaseificado. Não sei o que aconteceu, mas a consistência ficou levemente gelatinosa. Sentimos nojo enquanto bebíamos. irc!

6. Keffir — Ganhei mudas de keffir, uma colônia que fermenta leite e transforma em uma bebida parecida com iogurte (mas diferente). Trouxe de Belo Horizonte até o interior do Parará. Me animei a fazer, mas… não me animei a comer. Eu não gosto de leite, e o resultado final me deixou torcendo o nariz pro cheiro e pra aparência, e fiquei me perguntando: porque diabos inventei de fazer isso?


Que venham as experiências boas e ruins de 2017!

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Geléia de pêssego, pessegada e mensagens jogadas ao mar em garrafas

Os pêssegos que ganhei em uma foto um pouco desfocada

Não há nada errado em escrever sobre comida

Ganhei duas sacolas imensas de pêssego. Havia muito tempo que eu não ganhava frutas assim, de época, de quem tem quintal, sítio, e árvores frutíferas.

Nunca tinha ganhado pêssegos, de modo que nunca precisei saber o que fazer com muitos deles.

A primeira ideia que tive foi de fazer uma geléia, porque já fiz geléia de outras frutas e sabia que o processo era o mesmo pra todas.

Descasquei os pêssegos, e fui com carinho colocando cada um deles em uma vasilha com água com meio limão espremido — pra não deixar que os pêssegos escureçam enquanto descascava. Pesei os pêssegos — eu tinha 1,5kg, assim, limpos — , e pesei em seguida 1/3 do que tinha de pêssegos em açúcar. Levei tudo na panela, pus a outra metade do limão que sobrou — essencial pra dar o ponto de geléia. Abri um a um meus potes com especiarias, e quando cheirei o cravo da índia tive a intuição de que era aquele o que iria bem com os pêssegos. O líquido no fogo aos poucos engrossou, e a gotinha que tirei com a colher da panela caiu num pires sem se espalhar, e tive certeza que minhas frutas tinham virado geléia.

Mas eram muitos pêssegos mesmo. E eu precisava ir além do que eu sabia fazer assim, de cor-ação.

Joguei no google, e achei essa receita. O blog se chamava Quitandas de Minas, e mineira que sou, achei por bem tomar isso como um sinal dos céus. Segui a receita da anônima Tia Cecy, de Entre Rios de Minas, não sem antes dar minha modificada. Achei inútil o passo de ferver os pêssegos e por isso ignorei. E embora eu tenha mesmo uma peneira de taquara que a receita adverte que eu deveria usar, a minha é um enfeite muito amado, comprado no mercado central de BH, e que fica pendurado na parede da sala. Assim, acabei usando um passe-vite, um instrumento manual que se usa pra amassar legumes e fazer sopa, e estava resolvida. Apreciei especialmente as instruções da receita sobre o ponto da pessegada, e fiquei muito sorridente quando enfiei a faca no doce que ferveu por horas no fogão e o ele não se soltou da faca nas costas da minha mão.

Virei tudo improvisadamente numa forma de bambu japonesa forrada previamente com papel manteiga, que via de regra só uso pra cozinhar legumes ao estilo oriental. Achei bonito. Parei, tirei uma fotografia. Joguei no twitter.

Ainda não cortei o doce, mas desde então não sai da minha cabeça o blog aleatório em que confiei pra fazer essa pessegada.

Eu me furto muitas e muitas vezes de escrever receitas, modos de fazer, ou mesmo histórias sobre comida simplesmente porque julgo que quem lê pode enxergar nessa escrita uma coisa menor, pequena. Talvez nem achem que falar de comida, ou escrever histórias de receitas é escrita. E aí pensei nesse blog, tão aleatório, e assim mesmo tão relevante pra mim naquele dia. Pensei na Tia Cecy, e na Rosaly Senra, a autora do blog que até então jamais antes tinha ouvido falar. Me dei conta do quanto aquela receita de pessegada se parecia com uma mensagem numa garrafa jogada ao mar, escrita assim, despretensiosamente, como quem envia beijos, desejos, pedidos de socorro ou saudades mar afora, e espera quem a encontre. Ou não se espera nada, apenas que a garrafa flutue e navegue pelas águas.

Senti uma vontade súbita de agradecer pelas mensagens na garrafa que encontro mundo afora. E de soltar algumas outras mensagens por aí. Não sei quem apanhará, apenas acredito que vai existir alguém por aí que não vai ficar indiferente ao que escrevi. Alguém que vai achar que receitas podem ser formas bonitas de escritas, que cozinha não é assunto menor, e que o cotidiano é tão significante e insignificante ao mesmo tempo, como somos todos nós.

Não, não há nada errado em escrever receitas ou histórias de receitas. Não há nada errado ou menor em escrever sobre comida. Assim sendo, deixo aqui minhas garrafas boiando, levanto da cadeira, e só resta me deliciar com essa pessegada.


Escrevo outras mensagens na garrafa sobre comida na minha newsletter. Se sentir vontade de apanhar alguma por aí nesse mar, é só assinar: http://eepurl.com/bY94QL

Cozinhe, simplesmente porque você pode


Gastamos tempo demais pensando sobre o que poderá acontecer se a gente fizer as coisas que queremos.

Uma vez eu achei uma receita de um pão de cebola com missô que parecia muito simples de ser feita, apesar de me sentir intimidada com a sova. Eu fiquei com vontade de fazer, mas como nunca tinha tentado fazer pão, e pão sempre me parecia uma coisa difícil de se fazer, eu deixei pra lá.

Muito tempo depois, quando eu já tinha aprendido a fazer pão, eu me lembrei daquela receita perdida, e resolvi tentar, agora já mais segura de que aquilo ali podia dar certo.

Fui confiante tentar a receita, mas quando fui fazer deu tudo errado. Apesar de ter ficado com um gosto muito bom, o pão embatumou, não cresceu quase nada. Eu nem sabia muito bem dizer o que tinha dado errado. Precisei criar mais coragem e tentar outra vez, até que desse certo.

Fiquei pensando sobre todo o tempo que esperei pra ter as habilidades e o conhecimento necessário pra me “atrever” a fazer aquele pão. E que mesmo assim, aquilo não tinha sido suficiente pra produzir algo perfeito. Todo o atraso na minha tentativa se resumia às minhas expectativas. Eu esperava que fazer pão ia ser uma tarefa difícil, e por isso tinha deixado de tentar. Não tinha certeza de que eu tinha habilidade suficiente pra experimentar, e por isso, eu não tentava. Eu tinha medo de que o pão não desse certo, e isso me fez desistir. E quando criei coragem real, nem o fracasso da primeira tentativa me fez desistir daquela receita. Eu continuei fazendo até que fiquei satisfeita.

Nós não precisamos de nenhuma razão concreta pra tentar fazer as coisas, nem na cozinha, e nem na vida. Gastamos muito tempo tentando ter certeza de que tudo dará certo, de que temos as razões e as habilidades certas que vão garantir que o resultado será bom. Mas a verdade é que não existe nenhuma garantia. Nem receita, nem balança, nem termômetro. Essas coisas só servem pra nos dar uma sensação de segurança, mas mesmo cercados de todas elas, estamos sempre sujeitos ao fracasso. Não temos controle de nada.

Acho que qualquer um que já seguiu uma receita sabe do que eu estou falando.

Escrevi na minha última newsletter que cozinhar nunca é sobre fazer o melhor prato. Cozinhar é sempre sobre nós mesmos e como nos colocamos nesse mundo. Digo isso porque apesar de tentarem nos convencer do contrário, a graça de cozinhar nunca esteve no resultado. Comida gostosa é só uma consequência, do qual a gente nunca vai ter inteiro controle. O gesto de fazer comida, no entanto, é libertador: nos damos conta de que o que importa não é o que sai das nossas cozinhas, mas as nossas tentativas, erros, ousadias, e acertos. O que importa é sentir-se livre pra fazer. Isso sim é ser livre.


Todas os meses, na minha newsletter eu convido quem está nessa conversa comigo a agir e experimentar alguma coisa na prática, pra vivenciar um pouco do que estou falando por lá. Nesse mês, em que falei de se livrar das expectativas, não quis convidar a fazer nada específico, mas apenas a fazer. Fazer, assim, sem complemento. Cozinhar, apenas porque podemos.

Você não precisa de razões para tentar. Não perca tempo procurando as razões. Faça, simplesmente porque você pode. Apenas faça. Não importa se é porque você acha que ficará bom, ou que dará certo. Não gaste tempo pensando se você vai gostar, ou se os outros vão gostar do que você vai tirar do seu forno. Tempo nenhum fará você ter mais certeza de que o resultado será favorável pra você. Você não precisa se concentrar nos resultados pra ter coragem de tentar. A vontade de fazer é suficiente pra que você tente.

Esse movimento começa pequeno, dentro das nossas cozinhas, mas é uma atitude que depois de experimentada nos faz pensar sobre as outras coisas que não tentamos no mundo. Tudo bem sentir medo de que seu prato não vai ficar bom, ou um pouco de vergonha do que sair de lá. Mas se você não tentar, realmente você não vai sentir vergonha, nem medo, mas também não vai ter a oportunidade de estar lá fazendo, rindo e experimentando.

Vá, cozinhe. Faça, simplesmente porque você pode.


Ah, sim. Meu convite pra você fazer se estende pra você também experimentar minha newsletter. Você pode ler a edição de novembro e depois assinar.

3 ideias bobas de chás

Flores de camomila estão aparecendo aos montes na feira que frequento no mês de outubro. E são lindas!

Pense fora das caixinhas (de chás) dos supermercados

Essa história da gente achar que chá é o que vendem nas caixinhas no supermercado é muito limitante. Nossa relação fica muito cerceada por aquilo que nos é oferecido, e a gente deixa de criar, de inventar, e de experimentar.

Comidas (e bebidas) são um universo muito grande de possibilidades, muito maiores do que aquilo que nos é vendido. E é muito gostoso perceber que nossos sabores são muito mais interessantes dos que os disponíveis nessas relações puramente comerciais com os supermercados.

Se limitar ao que é comumente vendido, rotulado, e anunciado impede que a gente mergulhe fundo na nossa inventividade. O meu convite é pra você exercitar essa “visão além do alcance” das prateleiras do supermercado numa xícara de chá.

Pra isso, tudo o que você vai precisar é esquecer das caixinhas de chá com sabores e quantidades pré-determinadas que vendem no supermercado e abrir os olhos pras possibilidades ao redor de você.

Aqui eu resolvi te dar 3 ideias bobas, pra você entender como elementos insuspeitos se revelam quando colocados em contato com a água quente. Não se apegue a essas ideias, apenas pense nelas como pontos de partida pra você explorar as suas ideias. O mais importante é se sentir à vontade, e estar se divertindo enquanto inventa.


1. Capim Limão (ou capim cidreira, capim santo)

Croquete, o papa capim

Eu não entendo porque usamos tão pouco capim limão, juro. Eu uso inclusive em comida salgada, e as pessoas sempre se surpreendem com isso. O fato de que essa é uma das plantas preferidas dos gatos é o maior indício de que isso é coisa boa (ok, capim limão talvez perca pro catnip, mas o croquete pede todo dia pra ir na varanda do capim limão e não no vaso de catnip, de modo que as vezes tenho impressão que o capim limão ganha).

Só de rasgar uma folha na mão a gente já percebe: é fresco, tem um cheiro mesmo que lembra limão, mas é mais sutil, suave.

Não é fácil achar capim limão fresco pra vender, e por isso a melhor maneira de você conseguir fazer essa experiência é arrumando uma muda. Que sorte!

Diferente da caixinha do supermercado, quando você arranca uma folha logo brota outra. Então vá, arrume um(a) amigo(a) e peça uma muda, ou compre uma em uma flora. Você estará levando pra casa uma caixinha de chá infinita. E um presente pro seu gato (pra quem é de gato).

E olha, quando plantar, insista. As vezes o capim parece que não vai pegar, vai se arrastando feinho, e de repente começam a sair brotos novos. E não se preocupe com o tamanho do lugar onde colocá-los. Um vaso pequeno já serve.

2. Cascas de abacaxi

Uma fruta tropical, que começa a aparecer por aí assim que o verão chega. Portanto, estamos quase lá.

Descascar abacaxi pode ser meio chato, mas sério: assim que você terminar estará prestes a provar um chá maravilhoso. Coloque parte da casca na água quente e você não vai se arrepender. Um chá com sabor delicado de fruta, levemente azedinho, e bem refrescante.

Você pode incrementar com um um pouco de hortelã, poejo, erva doce ou qualquer outra erva que achar que quer misturar. Não tem regra, como nunca teve. As vezes esquecem de nos contar.

Se te parecer quente demais pra tomar chá, não tem problema: depois de uns 15 minutos em infusão, coloque na geladeira. Chá gelado também é uma delícia.

3. Gengibre

Eu segurando um gengibre. Isso dá pra umas 2-3 xícaras de chá.

Gengibre fresco dura meses na geladeira e por isso é fácil que você sempre tenha um à mão. Apenas algumas fatias fininhas colocadas na água quente e você tem um dos melhores chás possíveis. Chá de gengibre perfuma a casa toda.

Mas o que eu mais gosto no gengibre é a versatilidade pra se misturar com outros chás. Independente do sabor que estou fazendo, quando quero um chá um pouco diferente, coloco uma fatia de gengibre e de repente o chá ganha uma picância delicada. (aliás, gengibre com capim limão, e gengibre com cascas de abacaxi são ótimas ideias, hein)


Abra sua geladeira, veja o que você tem. Converse com um(a) amigo(a) que gosta de plantas e arrume uma muda. Ou preste atenção dá próxima vez que você for à feira comprar coisas frescas. Sempre tem ideias boas dando uma sopa, não se atenha às minhas. É só prestar atenção. E é indispensável se divertir.

Bom chá!


Esse texto é parte do convite da edição #10 da minha newsletter. Se você quiser brincar comigo, é só se inscrever. Eu envio um email a cada 3 domingos. Anima?

Ginger Ale e o mundo invisível

Quando era pequena, eu e minha irmã ganhamos um daqueles kits de química que vinham com vários materiais, tubos de ensaio, e cartões dizendo o-quê-misturar-com-o-quê pra dar um composto novo.

A gente nunca teve muita paciência com os cartões e via de regra a gente misturava tudo-com-tudo.

Talvez a gente só tenha sido crianças normais querendo brincar de fazer os próprios experimentos ao invés de seguir os experimentos da caixa. Mas eu gosto mais de pensar que isso diz muito sobre o nosso gosto por experiências. Ou que foi ali que eu comecei a confiar que o “mundo invisível” iria agir e transformar tudo numa coisa linda.

As vezes saíam compostos bem fedorentos e desagradáveis, é verdade, mas a gente fazia tudo outra vez porque gostava do processo, acima de tudo.

Fazer Ginger Ale lembra muito a brincadeira dos kits de química porque a gente coloca tudo no tubo de ensaio, espera reagir e … depois de uns dias aparecem borbulhas!

O Ginger ale é uma bebida gaseificada naturalmente, feita com limão e gengibre. É bem popular nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. O “processo mágico” que está no seu feitio que faz as bolhas aparecerem é a fermentação.

Existem muitas receitas nesse mundo chamado internet, e, como eu nunca curti os cartões do brinquedo, vivo testando novos jeitos meus de fazer as coisas. A essa altura, eu até tenho um jeito preferido, mas vou partir do princípio que você também vai gostar de brincar de fazer o seu Ginger Ale sem os cartões. Por isso, eu vou explicar pra que serve cada coisa, e daí você monta seu experimento. Vou sugerir umas quantidades lá no fim, mas por favor, não se prenda a elas. Brinque.

O que você vai precisar pro experimento

 

Uma garrafa vazia — Eu uso uma garrafa de vidro de suco de uva reaproveitada. É essa verde que você está vendo nas fotos e ela tem capacidade pra 1,5l. Você pode usar uma PET de plástico de 2l, ou qualquer outra vasilha com tampa. O importante é você saber que como vai rolar uma reação química que vai produzir gás carbônico — as tais  borbulhas que eu tinha mencionado  — você sempre precisará deixar um espaço vazio no alto. Nessa garrafa de 1,5l, por exemplo, eu acabo produzindo só 1l de Ginger ale. Além disso, é bom saber que as garrafas de plástico vão sofrer deformação quando o gás começar a se formar. Nas de vidro, a pressão deve se concentrar na tampa, de modo que ela talvez estufe. Em ambas vale a pena ficar atento e eventualmente liberar o gás que se forma pra não correr risco de acidentes.

Não é preciso ter medo. A garrafa de vidro não vai explodir: a pressão na tampa é muito maior do que a pressão no restante da garrafa. Apenas vigie, e abra a tampa rapidamente pra liberar o gás durante o processo uma única vez, e o risco será mínimo.

Funil — não é indispensável, mas facilita de você colocar os ingredientes na garrafa.

Gengibre — o gengibre é o que vai dar o gosto do Ginger Ale (ok, era óbvio, mas eu precisava dizer). Tem quem goste muito de gengibre, tem quem não curta tanto o sabor picante dele e prefira as coisa mais suaves. Corte um pedaço e rale. Não se importe com as fibras: use tudo porque no final vamos coar. Esse da foto é o tamanho que ponho na garrafa de 1,5l.

Limão — o limão é usado por dois motivos: a) pra dar gosto; b) pra criar um meio ácido que facilita a multiplicação do “mundo invisível” dos microorganismos, tornando mais rápido o processo. A gente está tentando selecionar as bactérias que provocarão a fermentação. O limão é amigo das bactérias que a gente quer, e inimigo de bactérias que a gente não quer. Ele está aqui pra dar uma mão pra gente. Pra 1l eu uso suco de 2–3 limões (dá 1/4 de xícara de chá).

Açúcar — Aqui a opção não é única. Você pode colocar açúcar branco ou açúcar mascavo; pode colocar melado, rapadura, ou mesmo mel. A ideia desse ingrediente é ser “comida pro mundo invisível”. As bactérias irão processar os açúcares, e transformá-los em ácido láctico e gás carbônico. O resultado disso é que seu Ginger Ale ficará mais azedinho e menos doce com o tempo, e vai se tornar progressivamente gaseificado como um subproduto do processamento. Se tiver um pouco mais de paciência e ousadia, você pode esperar mais alguns dias e deixar que o mundo invisível também produza álcool pra você. Pra isso, não é preciso fazer mais nada além do que estou explicando. Só deixar um pouco mais de tempo a garrafa fermentando.

Quanto mais processado o açúcar, mais rápida é a reação, e mais rápido o Ginger Ale vai ficar pronto. Eu sou paciente (ou gosto de pensar que sou), e por isso prefiro fazer com mel. Se você também quiser exercitar a paciência, o mel é uma ótima escolha por conta do gosto que ele acaba adicionando. No verão o processo todo com mel leva 4–5 dias. Com açúcar branco, seu Ginger Ale deve ficar pronto em 2 dias.

Água — É só colocar na garrafa, nada demais. Na garrafa de 1,5l eu uso 1l de água.

Tem uma única coisa que, caso você esteja se sentindo à vontade na brincadeira, pode ser legal considerar. Pra fazer Ginger ale é melhor quando a água não tem cloro. Isso é um pequeno problema, pois a água que sai das nossas torneiras têm cloro por conta do processo de tratamento que elas passam. Faz todo sentido: o cloro é inibidor do processo bacteriano. Se a gente põe água com cloro, a gente mata as bactérias nocivas, mas isso também afeta em alguma medida o “mundo invisível” que a gente gosta do nosso Ginger Ale. A solução é bem simples: use água que passou por filtro de carvão aditivado. O elemento filtrante dos filtros comuns, aqueles de barro, fazem isso. Se você tiver um desses, sua água do filtro já é declorada. Se não tiver, da próxima vez que for comprar o elemento filtrante, você pode prestar atenção nisso. Outra alternativa — menos sustentável — é usar água mineral.

Mas ó: se hoje você não tiver como arrumar água sem cloro em casa, faça Ginger ale assim mesmo. Lembra do espirito de misturar tudo com tudo e confiar, né? Vai dar certo também, e eu já fiz assim, viu.

Sal marinho não-iodado — Esse é o item mais difícil de se arrumar. Mas caso você não tenha sal não-iodado, a solução é das mais simples: pule esse ingrediente da receita. Ele é dispensável, e eu já brinquei de fazer uma garrafa com sal e outra sem pra ver o que acontecia. As duas viram Ginger ale. Os sabores são diferentes, e eu gosto do resultado com sal, de modo que me sinto tentada a te oferecer a melhor versão do meu experimento. Só por isso pus esse item exótico aqui. E vou te explicar o porquê do sal (e porque ele deveria ser sem iodo pra esses casos).

Pela legislação brasileira, todo sal comercializado deve ser iodado pra prevenir o bócio endêmico. O iodo, no entanto, também funciona como um inibidor bacteriano. Você já viu tintura de iodo na farmácia, ou mesmo o mertiolate? O iodo neles previne infecções bacterianas em machucados. Só que aqui a gente não quer “prevenir bactérias”; a gente precisa delas. Por isso, o sal a ser adicionado deveria ser sem iodo. A sua função é ajudar a formar um meio favorável para as bactérias pra produção de CO2. Os sabor final do Ginger ale que levou sal costuma ser mais pungente.

Se a legislação brasileira proíbe, como conseguir sal sem iodo? Você pode comprar sal importado — o sal rosa do himalaia é razoavelmente encontrável, embora não seja barato — ou você pode comprar pela internet. Quem mora em cidade com salinas também tem facilidade de conseguir o produto. Gasta pouquinho: pra 1l, uso 1/2 colher de chá.

Fermento ou “o mundo invisível” — Minha sugestão é que você use fermento biológico seco, daqueles que se usam para fazer pão. Coisa simples de achar em qualquer mercado, e dá um bom resultado. 1/2 colher de chá é suficiente pra 1l. Se você estiver se sentindo mais valente, use soro de leite. Eu sempre tenho aqui em casa, e é o que eu uso, porque faço queijo e iogurte. Pra entender como você pode conseguir soro de leite, eu explico aqui. 2 colheres de soro pra 1l funciona bem.

Soro de leite ou fermento fresco de pão dão resultados diferentes de Ginger Ale. O fermento de pão costuma fazer um Ginger Ale bastante gaseificado. Já o soro de leite é mais sutil, mas o Ginger Ale parece que fica mais saboroso. O negócio é brincar (e descobrir de que experimento você gosta mais).

A experiência

A garrafa com tudo dentro, no fundo.

Jogue tudo na garrafa, tampe com uma tampa que vede e deixe em um lugar fresco, longe do sol. E fique de olho, porque em alguns dias o líquido vai começar a formar gás. Como o processo é variável, e você pode escolher diferentes ingredientes pra ter diferentes resultados, sua principal tarefa vai ser prestar atenção todos os dias. Aperte a tampa, veja se ela estufou. Ou mais fácil: abra-a para se certificar. Se ouvir o tsssss do gás, é sinal de que seu Ginger Ale está evoluindo e já começou a fermentar. Se não sair gás, espere mais alguns dias. O tempo mínimo pra ficar pronto é de 2 dias. Não há tempo certo, pois você é quem escolhe o ponto que acha mais interessante. Não tem perigo também de passar do ponto. O máximo que vai acontecer de errado é seu Ginger Ale se transformar em um delicioso vinagre de gengibre. E isso levaria pelo menos 2 meses, aliás.

Não se assuste se a garrafa de plástico der uma leve deformada. Isso é sinal de que o mundo invisível muda mais coisas do que a gente imagina.

Quando decidir que está pronto, coloque a garrafa na geladeira. No ambiente gelado, o processo de fermentação diminuirá, e você pode levar vários dias até beber. Quando achar que é hora de saborear, abra e coe com uma peneira antes de servir no copo.

Faça mais vezes e permita-se ser criativo. O gostoso é sempre experimentar. Nada é fixo por aqui. Até ginger ale sem gengibre é possível! Quem decide até onde a brincadeira vai é você.

Não se esqueça do brinde. O de hoje é dedicado às bonitas transformações que o mundo invisível traz pra gente. Tim-tim!


Uma listinha pra sua consulta rápida

Para uma garrafa de 1,5

1 pedaço de 3 cm de gengibre, ralado
1/4 de xícara de suco de limão
1/2 xícara de mel
1/2 colher de chá de sal não-iodado (ou pule essa parte!)
1/2 col de chá de fermento biológico seco OU 2 col de sopa de soro de leite
1l de água

E não se prenda à listinha! Faça sua versão.