Eu sou o umbigo do mundo

Essa PANC não é novidade pra quem é de Minas Gerais: é o umbigo de banana. Também tem quem chame por coração de banana ou mangará. É o que fica pendurado no final do cacho de bananas, e que geralmente se corta depois que as penquinhas de banana já se formaram, pra dar força pras bananas se desenvolverem, e se joga fora. Pois aqui a gente faz a festa.

Acho que o gosto lembra um pouco palmito fresco, e a textura se parece com a do alho poró. Quando peço na feira pra trazerem um umbigo pra mim, fica todo mundo curioso, e eu faço questão de contar como uso, explico a receita (e já até levei na semana seguinte uma vasilha com a receita pronta pra levarem pra casa e experimentarem). Eles quase sempre me dão o umbigo de presente – até nisso as PANCs propõe uma nova relação, que é menos comercial e mais de trocas afetivas e curiosas.

Em Minas o mais comum é usarem de recheio pra pastel de angu – um pastelzinho frito cuja massa é feita de angu bem durinho e empanado. Como eu tenho preguiça de fritar qualquer coisa, resolvi explicar como fazer um antepasto, que dá pra comer como salada depois de fria ou como um complemento em cima de um pão, feito um canapé. Enviei essa receita na newsletter #20, junto com algumas ideias sobre alfabetização verde e PANCs. Dá pra assinar aqui e receber as próximas edições. Pra quem perdeu essa barbada, fica a receita:

Antepasto de umbigo de banana

1 umbigo de banana (em alguns lugares também se fala “coração” ou mangará)
1 cebola branca
1 cenoura média ralada
2 colheres de sopa de manteiga
1 colher de sopa de açúcar
1/2 xíc de chá de castanha de caju picada
1/2 xíc de chá de uva passas pretas (deixe hidratar em vinho tinto por 1h antes de usar)
Sal à gosto

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Picando e colocando rapidamente em uma vasilha com água+limão (o passo 2)

Como usar o umbigo de banana:

1. Se houver folhas mais soltinhas, abertas, como que despencando, descarte, pois elas geralmente estão duras. Deixe o “umbigo” somente com a parte que estiver compacta e mais firme como na foto que abriu a postagem;

2. Pique bem fininho, e vá colocando o que for picado numa vasilha com água e um limão espremido. O umbigo de banana oxida muito rápido, e a gente faz isso pra que ele não escureça. Deixe descansar ali por uns 30 minutos.

3. Em seguida, vamos tirar o amargo do umbigo: jogue na água fervente, e cozinhe por 5 minutos. Escorra e prove, e se ainda achar amargo repita este processo mais uma vez. Uma fervida, no entanto, costuma ser suficiente. Isso varia do tipo de espécie de banana que você está usando.

Agora você pode fazer a receita:

4. Pique as cebolas em meia-lua, para ficarem em um formato semelhante ao corte do umbigo de banana. Doure devagar na manteiga, em fogo baixo, por pelo menos uns 10 minutos.

5. Quando as cebolas já tiverem murchado um bocado, acrescente o açúcar para ajudar a realçar a caramelização;

6. Acrescente a cenoura ralada, deixe amaciar. Você pode aproveitar e tirar o fundo queimadinho da panela com um pouco de vinho branco. Em seguida coloque o umbigo de banana já previamente fervido, refogue rapidamente e desligue o fogo.

7. Para finalizar, acrescente as castanhas de caju quebradas e as passas. Acerte o sal e regue com azeite.

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Eu sei, deu água na boca. Pois tava muito bom mesmo.

Cozinhe, simplesmente porque você pode


Gastamos tempo demais pensando sobre o que poderá acontecer se a gente fizer as coisas que queremos.

Uma vez eu achei uma receita de um pão de cebola com missô que parecia muito simples de ser feita, apesar de me sentir intimidada com a sova. Eu fiquei com vontade de fazer, mas como nunca tinha tentado fazer pão, e pão sempre me parecia uma coisa difícil de se fazer, eu deixei pra lá.

Muito tempo depois, quando eu já tinha aprendido a fazer pão, eu me lembrei daquela receita perdida, e resolvi tentar, agora já mais segura de que aquilo ali podia dar certo.

Fui confiante tentar a receita, mas quando fui fazer deu tudo errado. Apesar de ter ficado com um gosto muito bom, o pão embatumou, não cresceu quase nada. Eu nem sabia muito bem dizer o que tinha dado errado. Precisei criar mais coragem e tentar outra vez, até que desse certo.

Fiquei pensando sobre todo o tempo que esperei pra ter as habilidades e o conhecimento necessário pra me “atrever” a fazer aquele pão. E que mesmo assim, aquilo não tinha sido suficiente pra produzir algo perfeito. Todo o atraso na minha tentativa se resumia às minhas expectativas. Eu esperava que fazer pão ia ser uma tarefa difícil, e por isso tinha deixado de tentar. Não tinha certeza de que eu tinha habilidade suficiente pra experimentar, e por isso, eu não tentava. Eu tinha medo de que o pão não desse certo, e isso me fez desistir. E quando criei coragem real, nem o fracasso da primeira tentativa me fez desistir daquela receita. Eu continuei fazendo até que fiquei satisfeita.

Nós não precisamos de nenhuma razão concreta pra tentar fazer as coisas, nem na cozinha, e nem na vida. Gastamos muito tempo tentando ter certeza de que tudo dará certo, de que temos as razões e as habilidades certas que vão garantir que o resultado será bom. Mas a verdade é que não existe nenhuma garantia. Nem receita, nem balança, nem termômetro. Essas coisas só servem pra nos dar uma sensação de segurança, mas mesmo cercados de todas elas, estamos sempre sujeitos ao fracasso. Não temos controle de nada.

Acho que qualquer um que já seguiu uma receita sabe do que eu estou falando.

Escrevi na minha última newsletter que cozinhar nunca é sobre fazer o melhor prato. Cozinhar é sempre sobre nós mesmos e como nos colocamos nesse mundo. Digo isso porque apesar de tentarem nos convencer do contrário, a graça de cozinhar nunca esteve no resultado. Comida gostosa é só uma consequência, do qual a gente nunca vai ter inteiro controle. O gesto de fazer comida, no entanto, é libertador: nos damos conta de que o que importa não é o que sai das nossas cozinhas, mas as nossas tentativas, erros, ousadias, e acertos. O que importa é sentir-se livre pra fazer. Isso sim é ser livre.


Todas os meses, na minha newsletter eu convido quem está nessa conversa comigo a agir e experimentar alguma coisa na prática, pra vivenciar um pouco do que estou falando por lá. Nesse mês, em que falei de se livrar das expectativas, não quis convidar a fazer nada específico, mas apenas a fazer. Fazer, assim, sem complemento. Cozinhar, apenas porque podemos.

Você não precisa de razões para tentar. Não perca tempo procurando as razões. Faça, simplesmente porque você pode. Apenas faça. Não importa se é porque você acha que ficará bom, ou que dará certo. Não gaste tempo pensando se você vai gostar, ou se os outros vão gostar do que você vai tirar do seu forno. Tempo nenhum fará você ter mais certeza de que o resultado será favorável pra você. Você não precisa se concentrar nos resultados pra ter coragem de tentar. A vontade de fazer é suficiente pra que você tente.

Esse movimento começa pequeno, dentro das nossas cozinhas, mas é uma atitude que depois de experimentada nos faz pensar sobre as outras coisas que não tentamos no mundo. Tudo bem sentir medo de que seu prato não vai ficar bom, ou um pouco de vergonha do que sair de lá. Mas se você não tentar, realmente você não vai sentir vergonha, nem medo, mas também não vai ter a oportunidade de estar lá fazendo, rindo e experimentando.

Vá, cozinhe. Faça, simplesmente porque você pode.


Ah, sim. Meu convite pra você fazer se estende pra você também experimentar minha newsletter. Você pode ler a edição de novembro e depois assinar.

3 ideias bobas de chás

Flores de camomila estão aparecendo aos montes na feira que frequento no mês de outubro. E são lindas!

Pense fora das caixinhas (de chás) dos supermercados

Essa história da gente achar que chá é o que vendem nas caixinhas no supermercado é muito limitante. Nossa relação fica muito cerceada por aquilo que nos é oferecido, e a gente deixa de criar, de inventar, e de experimentar.

Comidas (e bebidas) são um universo muito grande de possibilidades, muito maiores do que aquilo que nos é vendido. E é muito gostoso perceber que nossos sabores são muito mais interessantes dos que os disponíveis nessas relações puramente comerciais com os supermercados.

Se limitar ao que é comumente vendido, rotulado, e anunciado impede que a gente mergulhe fundo na nossa inventividade. O meu convite é pra você exercitar essa “visão além do alcance” das prateleiras do supermercado numa xícara de chá.

Pra isso, tudo o que você vai precisar é esquecer das caixinhas de chá com sabores e quantidades pré-determinadas que vendem no supermercado e abrir os olhos pras possibilidades ao redor de você.

Aqui eu resolvi te dar 3 ideias bobas, pra você entender como elementos insuspeitos se revelam quando colocados em contato com a água quente. Não se apegue a essas ideias, apenas pense nelas como pontos de partida pra você explorar as suas ideias. O mais importante é se sentir à vontade, e estar se divertindo enquanto inventa.


1. Capim Limão (ou capim cidreira, capim santo)

Croquete, o papa capim

Eu não entendo porque usamos tão pouco capim limão, juro. Eu uso inclusive em comida salgada, e as pessoas sempre se surpreendem com isso. O fato de que essa é uma das plantas preferidas dos gatos é o maior indício de que isso é coisa boa (ok, capim limão talvez perca pro catnip, mas o croquete pede todo dia pra ir na varanda do capim limão e não no vaso de catnip, de modo que as vezes tenho impressão que o capim limão ganha).

Só de rasgar uma folha na mão a gente já percebe: é fresco, tem um cheiro mesmo que lembra limão, mas é mais sutil, suave.

Não é fácil achar capim limão fresco pra vender, e por isso a melhor maneira de você conseguir fazer essa experiência é arrumando uma muda. Que sorte!

Diferente da caixinha do supermercado, quando você arranca uma folha logo brota outra. Então vá, arrume um(a) amigo(a) e peça uma muda, ou compre uma em uma flora. Você estará levando pra casa uma caixinha de chá infinita. E um presente pro seu gato (pra quem é de gato).

E olha, quando plantar, insista. As vezes o capim parece que não vai pegar, vai se arrastando feinho, e de repente começam a sair brotos novos. E não se preocupe com o tamanho do lugar onde colocá-los. Um vaso pequeno já serve.

2. Cascas de abacaxi

Uma fruta tropical, que começa a aparecer por aí assim que o verão chega. Portanto, estamos quase lá.

Descascar abacaxi pode ser meio chato, mas sério: assim que você terminar estará prestes a provar um chá maravilhoso. Coloque parte da casca na água quente e você não vai se arrepender. Um chá com sabor delicado de fruta, levemente azedinho, e bem refrescante.

Você pode incrementar com um um pouco de hortelã, poejo, erva doce ou qualquer outra erva que achar que quer misturar. Não tem regra, como nunca teve. As vezes esquecem de nos contar.

Se te parecer quente demais pra tomar chá, não tem problema: depois de uns 15 minutos em infusão, coloque na geladeira. Chá gelado também é uma delícia.

3. Gengibre

Eu segurando um gengibre. Isso dá pra umas 2-3 xícaras de chá.

Gengibre fresco dura meses na geladeira e por isso é fácil que você sempre tenha um à mão. Apenas algumas fatias fininhas colocadas na água quente e você tem um dos melhores chás possíveis. Chá de gengibre perfuma a casa toda.

Mas o que eu mais gosto no gengibre é a versatilidade pra se misturar com outros chás. Independente do sabor que estou fazendo, quando quero um chá um pouco diferente, coloco uma fatia de gengibre e de repente o chá ganha uma picância delicada. (aliás, gengibre com capim limão, e gengibre com cascas de abacaxi são ótimas ideias, hein)


Abra sua geladeira, veja o que você tem. Converse com um(a) amigo(a) que gosta de plantas e arrume uma muda. Ou preste atenção dá próxima vez que você for à feira comprar coisas frescas. Sempre tem ideias boas dando uma sopa, não se atenha às minhas. É só prestar atenção. E é indispensável se divertir.

Bom chá!


Esse texto é parte do convite da edição #10 da minha newsletter. Se você quiser brincar comigo, é só se inscrever. Eu envio um email a cada 3 domingos. Anima?

Newsletter: Edições Passadas

Uma vez por mês envio uma cartinha pro seu email, com uma conversa e links sobre alguma temática em torno da comida, da vida, dos afetos, das coisas que vi por aí. As vezes tem receita, mas o convite é mesmo pra prosear e refletir. Os textos das cartinhas não são publicados no blog. Se quiser conhecer o que já andei enviando, é só ir clicando nas imagens aí embaixo.

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