O cuidado dos orgânicos precisa ser coletivo ou não será

Vivenciei duas situações nesse período eleitoral que me deixaram muito assustada. A primeira foi uma situação pontual de constrangimento em uma loja, em que o vendedor aleatoriamente começou um discurso pró-militarismo bastante intimidatório. Mas a segunda foi mais sentida pois foi muito inesperada: aconteceu no grupo de whatsapp da feira orgânica da cidade. Um professor da universidade federal local, que faz parte da organização da feira, fez um comentário comemorando o fato de uma pessoa do seu grupo na universidade ter sido selecionada pra apresentar o trabalho com os orgânicos que tem sido feito aqui na região no exterior. Em seguida, ele parabenizava o grupo de pesquisa e extensão – que é responsável também pela organização e existência dessa feira que eu frequento, e que serve a toda a comunidade da cidade – e mencionou que isso era um esforço de muitos e muitos anos, que só foi tornado concreto com algumas mudanças trazidas pelos governos Lula e Dilma.

O comentário dele sobre o governo era só uma menção sutil muito bem contextualizada, e bastante consistente. E no entanto, logo em seguida a essa postagem, ele foi expulso do grupo e o grupo foi fechado, podendo postar agora somente o moderador (um outro professor da universidade).

O silêncio do grupo de orgânicos, que foi abrupto mas também ao menos na sua aparência “pacífico”, me parece sintomático, especialmente por saber que existe um combinado nesse mesmo grupo de que “não se fala sobre política”. São pessoas que, de algum modo, partilham do ideal de um alimento justo e saudável, mas que não desejam discutir sobre as relações de poder que estabelecemos na sociedade – a política, afinal, não é só isso de partidos e eleições, tem uma acepção e uma consequência bem mais ampla.

O caso é curioso porque o que rege essa relação entre o agronegócio e a agroecologia, o alimento envenenado e alimento sadio, a oferta e a regulação dos preços é tão somente isso: a política. As forças sociais, a administração dos conflitos de interesse, a governança das vontades de cada um de nós que estamos nesse mundo. As relações de poder acontecem quer a gente discuta quer não.

Muitas pessoas aderem aos orgânicos e se tornam defensores da compra ou da prática por reconhecerem que é importante pra saúde delas. Que os venenos utilizados são perigosos, são potenciais cancerígenos, e que seria mais prudente consumir alimentos que garantiriam maior bem-estar. E acreditam que esse é o foco principal que deve ser levado em conta quando se fala sobre alimentação.

Embora eu entenda esse apelo pela saúde – quem não se interessa por ser saudável? -, percebo também como esse argumento esconde um aspecto muito perverso. A forma como o discurso da saúde e da nutrição é apropriado pela indústria alimentícia, pelo mercado, pela mídia e por todos nós é bastante reducionista. Desconsiderar outros aspectos que condicionam o porquê das coisas serem como são, isoladas do contexto, do mundo que vivemos, das pessoas que estão envolvidas com a questão é não ser capaz de compreender o que significa comer e as várias dimensões que o assunto traz.

O que as pessoas se esquecem nesse reducionismo é que não adianta tentar salvar somente a si próprio cuidando daquilo que entra na sua casa e na sua boca. O veneno não fica só no alimento. Ele entra no solo, contamina as águas. As águas evaporam, caem em forma de chuva. Os insetos e outros animais morrem envenenados, o que traz desequilíbrio pro ambiente e mais veneno é necessário pra dar conta de “salvar” a produção. Os trabalhadores rurais envenenados adoecem e deixam de produzir alimentos, e a produção passa pras mãos de empresas cada vez maiores e que se importam menos conosco e com a qualidade e variedade daquilo que comemos.

Morando num interior bem no meio da grande produção de soja e milho do agronegócio, esse problema passou a ser muito real pra mim, pra muito além dessa imagem da contaminação generalizada. Eu tenho que lidar com aviões de pulverização enquanto passo nas estradas – é uma imagem assustadora, acreditem -, a cidade as vezes tem um cheiro estranho e os olhos da gente ficam lacrimejando sem uma razão aparente, e quando fui comprar um lote pra construir minha casa tive de verificar o quão perto ele ficava de plantações. Tudo isso é concreto e triste demais, mais do que vocês podem imaginar.

Tudo existe em forma de cadeia, entrelaçado. Não há possibilidade de defendermos os orgânicos sem exigir que seja uma realidade generalizada, pra todos. Acreditar que é possível se defender ou se livrar do agrotóxico comprando orgânicos pra sua casa é se enganar. O autocuidado só faz sentido se ele é, em alguma medida, também coletivo porque nós somos parte de um todo.

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A jornalista e escritora Laurie Penny no ensaio Life-Hacks on Aimless: on negociating the false idols of neoliberal self-care faz uma reflexão semelhante a esta sobre os orgânicos pra falar de vários tipos de autocuidado pralém da alimentação. Ela chama a atenção como nesse discurso de autocuidado a gente sempre precisa fazer mais: cuidar mais da nossa alimentação, da saúde mental, do sono, e até amar mais o próprio corpo, como uma forma de demonstrar que está bem e ajustada.

Essa sensação de que estamos em débito permanente não é mera coincidência. Amar-se e cuidar de si é um discurso bastante colonizado pela lógica do ciclo de produção, 24/7, incessante, como se fossemos máquina.

O modo como o capital nos impõe esse tipo de cuidado gira sempre em torno de uma responsabilidade individual. O discurso é sempre direcionado à pessoa como se cada um não estivesse tomando a sua parte corretamente nessa engrenagem chamada mundo produtivo. É fácil se sentir culpado quando as coisas não funcionam como deveriam se não somos capazes de enxergar que o problema é da engrenagem. É assim que nos tornamos muito mais vulneráveis e incapazes de mudar as coisas que não funcionam no sistema.

Laurie Penny não é leviana e entende que o autocuidado é relevante e faz todo sentido, porém o que ela quer mostrar é que é preciso ter um pouco de cautela ao se abraçar a ideia. Ela chama a atenção de que sua importância deve ser coletivizada para se tornar realmente efetiva e uma resistência. “Vivemos num mundo cuja lógica abusiva quer que você não veja problemas estruturais, mas apenas problemas consigo mesmo ou com os mais marginalizados e vulneráveis do que você. O verdadeiro amor, o tipo que acalma e dura, não é um sentimento, mas um verbo, uma ação. É sobre o que você faz para outra pessoa ao longo de dias, semanas e anos, o trabalho colocado para cuidar e investir. Esse é o tipo de amor que somos terrivelmente ruins em nos dar, ela diz.

Não adianta se iludir com a ideia de que consumindo orgânicos você vai conseguir se resguardar. Não existe barreira de uma pessoa só, elas são frágeis demais. Na medida em que tento resguardar o outro é que eu também acabo sendo protegido de alguma forma. Quando eu me importo que o trabalhador rural não esteja submetido à situação de ter de trabalhar diariamente com veneno e acabar com a sua saúde, consequentemente isso pode reverberar na minha mesa. O problema da falta de mão de obra no campo é grande e real. Ninguém quer trabalhar em condições insalubres e desvalorizadas. Se as condições mudam, mudam também as coisas as quais eu vou ter acesso. Então essa luta também deve ser de todos nós que comemos. Quando eu comemoro que a merenda escolar seja orgânica – como acontece hoje em São Paulo a partir da gestão do governo Haddad – mesmo que eu não tenha uma criança em idade escolar na escola pública e nem mesmo more em São Paulo, é porque sei que isso pode atrair agricultores interessados no sistema orgânico, já que o governo vai comprar sua produção. Vai haver mais prática, quem sabe também mais pesquisa. E desse jeito, sei que a oferta de orgânicos num preço justo pode aumentar pra mim também.

É preciso ter em mente que provavelmente essas mudanças serão todas muito lentas, mas também serão consistentes. São mudanças que impactam no todo e o todo é sempre maior do que as partes.

Essa lógica da importância das ações de cuidado não se limitarem ao individual mas se preocuparem com o coletivo também é verdade quando se pensa no processo democrático. Eu senti muito medo quando vi a pessoa do grupo de whatsapp sendo expulsa. Chorei muito. Eu tenho muito medo de dizer sobre o meu posicionamento político na cidade onde vivo, que é uma cidade pequena onde eu sou facilmente marcada e reconhecida por coisas tão prosaicas como “a menina que leva sacolas próprias pro supermercado (sério)”, e tive de enfrentar esse medo inclusive pra publicar este texto. Pra mim, esse medo é um forte indício de que alguma coisa não vai muito bem.

Existe em curso um silenciamento forte, pela força, que não está permitindo que as pessoas conversem. E esse silenciamento é uma das promessas de campanha de um candidato, que já deixou claro que é a favor de um governo pela força: uma ditadura. Algumas pessoas acreditam que a situação que vivemos justifica esse tipo de ação e por isso pedem a volta de um governo militar. A questão é que não adianta achar que calando as vozes das pessoas que te incomodam, por qualquer razão que seja, você vai aumentar a possibilidade da sua voz ser ouvida. É como a água envenenada por agrotóxicos: o silenciamento vai respingar sobre você, vai contaminar rios, solo, chuvas, tudo por onde passar. Não seja ingênuo de achar que se você se proteger não vai acontecer com você.

Não permita que o seu incômodo seja só com o que está na sua mesa, nem que seja só com o que acontece a você. Há sempre muito mais coisa em jogo do que a gente consegue se dar conta.

 

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