Fominismo

Cheguei em Belo Horizonte um dia antes de um encontro que aconteceria num Café, promovido pela Quintal Edições, com a participação da tradutora do livro e do Grupo Saliva, um grupo de estudos local que se reúne periodicamente pra falar sobre comida.

Apesar de não ter podido participar, fiquei satisfeita com a iniciativa e interesse pelo assunto. Falar de comida é falar de uma teia muito complexa, que envolve muitas relações sociais e de poder. E não acho que é um assunto que dê pra não se interessar porque todos nós precisamos comer.

Gosto muito de pensar sobre essa relação entre a comida e as mulheres que o livro Fominismo propõe. Durante um tempo escrevi uma coluna de cartas sobre o assunto porque recebo muita coisa à partir da minha newsletter sobre essa relação que acho que merecem ser conversadas. E não é à toa a inquietação: a maioria dos assinantes e de quem me segue nas redes sociais, por exemplo, são mulheres. Seja porque historicamente viemos (ou fomos obrigadas) a nos dedicarmos à tarefa do preparo da comida, seja porque também somos nós as que são bombardeadas com mensagens sobre o nosso corpo – e o controle deve passar por aquilo que adentra a boca – são as mulheres que costumam prestar mais atenção quando o assunto é comida.

Existem, no entanto, outros aspectos menos óbvios dessa ligação mulheres e comida do que a questão das tarefas domésticas e da relação com o corpo, e é nesses lugares que o livro Fominismo parece mais interessante e desafiador.

Fominismo tem 5 ensaios diferentes, que podem ser lidos em qualquer ordem. Além dessas duas temáticas – a injustiça da divisão do trabalho, que deixa sobre as mulheres uma parcela considerável do trabalho doméstico não remunerado, e da relação entre o patriarcado, aquilo que se come e os ditames estéticos – Nora Boauzzouni também toca em outros pontos menos visíveis.

O ensaio que abre o livro pontua o fazer da comida profissional – o fato de que mulheres continuam fora das cozinhas estreladas, e que a profissão continua notoriamente sendo um campo hostil e machista. Na frança, país da autora, a disputa continua sendo pelo reconhecimento das mulheres como cheffe, grafado assim mesmo com dois efes e um e, uma feminização da palavra francesa chef que continua sendo pouco usada. Já aqui no Brasil, muitas mulheres pleiteiam seu reconhecimento não como chefes, mas como cozinheiras. É uma diferença interessante pois também passa pelo reconhecimento da atividade não do ponto de vista hierárquico (chef, afinal, é um cargo, não o nome de uma profissão), mas parece lembrar que merece-se um reconhecimento mais generalizado à tarefa da cozinha, seja ela profissional ou não.

Outro ensaio aponta pro fato de as mulheres são 43% da mão de obra agrícola no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação (FAO), mas elas são apenas 20% das proprietárias das terras. Além disso, a divisão de trabalho nessa área também condena as mulheres aos trabalhos mais servis e invisíveis: enquanto homens exploram, administram as transações comerciais e tomam as decisões, as mulheres colhem, transformam, descascam, acondicionam, estocam, preparam a terra, conservam as sementes, trazem a água e madeira que são indispensáveis às tarefas domésticas e agrícolas. E é claro que toda essa desigualdade tem um impacto na autonomia e valorização dessas mulheres campesinas.

Há ainda um capítulo dedicado às práticas de consumo – o homem continua a ser associado com a ingesta da carne, e com uma necessidade de alimentos maiores do que as mulheres. Os dados, porém, mostram coisas um pouco diferentes: não é só uma diferença biológica que explica o dismorfismo sexual (os homens, em média, seriam mais altos que as mulheres). A alimentação é um dos fatores que levam a essa diferença. Nossos corpos seriam, assim, a expressão concreta de uma desigualdade imposta a milênios. Foi bastante surpreendente me deparar com esse dado.

E não é só uma questão de se comer mais, mas também de se comer mais daquilo que é considerado mais nobre. A carne é considerada um privilégio – do ser humano sobre os outros animais e do rico sobre o pobre, por exemplo. Questionar o sistema patriarcal significa questionar os privilégios dos homens e é também por isso que o vegetarianismo tem toda uma dificuldade de aceitação. O vegetarianismo é visto como uma espécie de feminilização da sociedade – por isso quem é homem e vegetariano ouve tanta piadinha  que questionam sua virilidade e até a sexualidade. A justificativa e a normalização da dieta carnívora são construções culturais tanto quanto o patriarcado.

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Apesar de bastante espinhosos, o tom da autora é bem humorado e carregado de ironias. É um livro bem interessante, e faz a gente sair com um outro olhar sobre a comida. Como qualquer outra esfera da vida, nossa alimentação é muito atravessada pelas questões de gênero. Livros como esse são muito importantes pra nos ajudar a estar atento ao que comemos, e nos manter ativamente pensando e agindo sobre o que compramos, quem quem compramos, e o que falamos. É um olhar e uma conversa que precisam ser mais presentes e naturalizados. Tem uma coisa muito paradoxal na nossa relação com a comida. Comer é uma atividade tão fundamental, que a gente faz com tanta frequência, mas não dá pra pensar nisso como sendo uma coisa banal. Tem muita coisa aqui pra se pensar sobre isso.

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