Guia Prático de PANCs

A querida Sofia Soter me deu a dica, e achei tão boa que quis registrar por aqui. O Instituto Kairós, uma entidade sem fins lucrativos que fomenta o desenvolvimento da Economia solidária e a Agricultura Camponesa/Familiar disponibilizou uma cartilha gratuita e muito bonitinha sobre PANCs.

Na abertura da cartilha, tem uma sessão bacana de perguntas e respostas com dúvidas comuns: toda PANC vai pra salada? Vai ter gosto ruim/amargo? O consumo das PANCs é seguro? entre outras.

No miolo, fotografias coloridas que ajudam a identificar as plantas e suas parte não-convencionais e um texto rapidinho sobre o gosto e os modos mais comuns de consumo (cru, cozido, como tempero, etc).

Muito explicativo também é esse gráfico, que encontrei por lá:

comaPANC

Ele ajuda a entender o quanto de uniformidade existe por trás da aparente variedade do supermercado. E também é um ótimo lembrete pra gente perder o medo de experimentar: olha quantos sabores existem que a gente não conhece. Mas tá em tempo!

A curadoria de plantas e textos da cartilha é do Guilherme Ranieri, do blog Matos de Comer. Vale também acompanhar o blog dele.

Os fracassos que não exibimos






Uma série de fotografias, pra escolher alguma melhorzinha e mostrar ao mundo.

as listas de melhores não são um bom resumo de qualquer ano

No final de ano, quando as listas de melhores (livros, filmes, séries, fotos, momentos, etc) começam a aparecer, sempre me sinto um pouquinho peixe fora d’agua. Sou lembrada de que é humanamente impossível dar conta de todas as coisas, e invariavelmente tem sempre coisas que não vi, não li, e nem ouvi falar.

Acredito que listas de melhores são feitas com boas intenções, e podem ser úteis como referência pro próximo ano. Mas não consigo evitar o sentimento de que estou um pouco atrasada, e perdi algumas coisas que parecem legais. Sempre fico um pouco encolhida, pensando se simplesmente não estou fazendo escolhas erradas.

Semana passada fui escrever sobre uma tarefa que me dei em 2016 — a de escrever todos os meses sobre minhas experiências lendo livros. Falei um pouco de como esses escritos foram gratificantes pra mim, e como eu espero que eles possam ter sido interessantes pra quem lê do outro lado da tela. Fechei meu texto fazendo algumas listas, que não eram dos melhores livros, porque não consigo acreditar que existem “os melhores”. Se o que eu estava fazendo nos textos era falar de experiência, conclui que minha lista, além de pessoal, também é uma nota sobre o momento que vivo. E seria difícil escolher o melhor momento, pois todos se somam pra formar o que experimentei.

Difícil comparar entre minhas próprias leituras; imagine então comparar com as leituras alheias. Listas de melhores não seriam simplesmente arbitrárias, mas tarefa impossível sem considerar o contexto da escolha. Melhor em quê, pra quem?

Resolvi essa questão criando um pouco de contexto. Fiz listas que chamei de aletórias, nas quais separei livros que abandonei, que não tive coragem de abandonar, livros que li que falavam sobre comida, livros que li enquanto viajava, ou que indiquei a alguém pelas mais diversas razões que não somente porque ele era “o melhor”. Tentei não pensar em nenhum tipo de hierarquia, pra diminuir o nível de competitividade e o sentimento de estar meio por fora de qualquer um que topasse com meu texto por aí.

Quando escrevo sobre comida, involuntariamente estou desenhando um pequeno ponto de uma lista de coisas que sei fazer bem, que gosto de fazer, ou que me sinto à vontade para falar sobre. É compreensível. Não falamos daquilo que fazemos mal, das coisas que não entendemos ao menos um pouco ou daquilo que deu errado. Como uma lista de melhores de final de ano, um blog sobre comida é uma lista pronta, pensada durante todo o tempo, pra mostrar coisas interessantes.

Não acho que mostramos nossos melhores, e escondemos nossos piores só por respeito à quem vem em busca de ideias, aprendizagem ou boa conversa. Também não acredito que reconhecer o fracasso é importante porque pra termos sucesso temos que ter tido milhares de fracassos antes. Os fracassos são mais que isso: são partes da vida, das nossas experiências, e não pedras no meio do caminho pro sucesso que uma hora podemos alcançar. O sucesso não é o fim, e pode inclusive nunca vir (o que é sucesso, aliás?). A lista de melhores, portanto, não é um bom resumo de qualquer ano.

Sempre tenho esperança de que as coisas que publico possam deixar uma vontade de se pensar sobre o ato de cozinhar, e todas as coisas que ele envolve: a importância das nossas microescolhas na cadeia cultural, afetiva, econômica, e a importância política de um trabalho que quase nunca é visto como um trabalho. Sempre me pergunto se consigo (ou conseguirei algum dia) fazer germinar essas ideias em atos práticos, de encorajamento, que levem outras pessoas não só a pensar sobre comida, mas a efetivamente valorizá-la, e fazê-la.

Mas em que medida, enquanto falo sobre as coisas que eu mesma faço eu não intimido? Quanto mais insisto em me mostrar, ou mostrar o meu melhor, mais a cozinha pode parecer distante, e impossível de ser feita. A minha lista de melhores, ou tudo aquilo que eu publico, é também uma lista que precisa de contexto: as melhores coisas que eu, a carla que mora em Pato Branco, não tem um emprego formal, cozinha há 20 anos, e se interessa pelo assunto, consegue fazer (e achar fácil).

Tive um blog há quase 10 anos atrás, que também não tinha receitas: eu só fotografava tudo o que cozinhava, contava os ingredientes, e esperava que aquelas ideias servissem de inspiração pra quem me lia. Embora muitas coisas tenham mudado nesse tempo, eu ainda penso muito sobre não criar regras sobre comida, e sobre receitas tão abertas quanto qualquer texto literário. Acima de tudo, nesses anos todos, continuo achando importante falar do assunto. Cozinhar exige certa coragem de arriscar, mesmo sabendo que o resultado pode sair errado. Nenhuma receita garante nada: é que nem na vida. Se o que eu publico tocar quem lê, fizer ter mais coragem, e se sentir mais livre pra errar e também acertar, vou conseguir aquilo que queria. E isso realmente não depende de que eu mostre apenas o que dá certo.

Como um antídoto pontual, contraponto das listas de melhores internet afora, e da lista contínua dos meus melhores que vou publicando a conta-gotas por aqui, resolvi fechar o ano falando das coisas que não deram certo. Aquelas coisas que fiz e que não ficaram boas, e não contei, mas que fazem parte da vida, porque mesmo que qualquer sucesso seja possível, elas continuarão a existir. Precisamos aprender a conviver com elas. Falar foi o jeito que encontrei pra pensar sobre esse ano:

Foco no lugar errado, escura, mas divertida: tirei na mesma sessão das fotografias que abriram a postagem. Você imaginaria que perto da comida tinha uma gata danada, em cima da mesa?

Seis pratos difíceis de engolir que inventei de cozinhar em 2016:

1.Caldo verde feito com almeirão pão-de-açúcar — Em minha defesa, quero dizer que eu gosto de verduras mais amargas. E não tinha couve em casa. Tentei colocar esse almeirão de nome irônico, e achei que poderia sair um prato interessante, mas nossa. Foi como tomar uma sopa de purgante. Ficou horrível, o caldo inteiro ganhou um sabor muito amargo. Melhor nem fazer se não tiver couve.

2. Api — Em janeiro de 2016, aproveitando minha posição privilegiada de moradora quase da fronteira, passei 15 dias numa viagem de carro rumo ao noroeste Argentino, nas províncias de Salta e Jujuy. Trouxe de lá Api, que no meu portunhol sofrível, parecia farinha de milho vermelho, que eu deveria usar pra fazer uma bebida fermentada. Não era isso. Era um preparado em pó (feito suco em pó) de milho vermelho, mas cheio de açúcar e nem imagino mais o quê. Nada parecido com as Chichas que tomei por lá. Andei 1500km com meu achadinho, pra jogar tudo fora no Brasil.

3. Chuños — Nessa mesma viagem, comprei umas batatas desidratadas chamadas chuños. É um método de conservação dos incas, fiquei muito curiosa. A senhora que me vendeu tentou me avisar: era difícil fazê-las. Não escutei, trouxe, e ficaram parecendo papel cozido. Não sei se não soube usar, pois nem sei que gosto deveriam ter. A internet não foi capaz de me ensinar.

4. Massa fresca para 4 pessoas — Tem mais de um ano que só como macarrão feito em casa. O mais frequente, claro, é que eu faça só pra mim e pro meu companheiro. Fica muito bom, e a gente faz uma propaganda danada. Convidamos amigos pra participar do almoço, e erramos o ponto do macarrão horrivelmente: cozinhou demais, ficou grudento, parecia que a gente nem sabia fazer o negócio. blé.

5. Fermentado de amora — Comprei umas duas caixas de amoras, por pura gulodice. Uma delas foi ficando na geladeira, e achei que o melhor seria fazer um suco e deixar fermentar, pra ficar gaseificado. Não sei o que aconteceu, mas a consistência ficou levemente gelatinosa. Sentimos nojo enquanto bebíamos. irc!

6. Keffir — Ganhei mudas de keffir, uma colônia que fermenta leite e transforma em uma bebida parecida com iogurte (mas diferente). Trouxe de Belo Horizonte até o interior do Parará. Me animei a fazer, mas… não me animei a comer. Eu não gosto de leite, e o resultado final me deixou torcendo o nariz pro cheiro e pra aparência, e fiquei me perguntando: porque diabos inventei de fazer isso?


Que venham as experiências boas e ruins de 2017!

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PANC é punk

Costumo folhear despretensiosamente este livro da foto quando estou entediada, e isso é um elogio. Rapidamente me entretenho com os detalhes, e começo a pensar nas plantas ainda sem nome à minha volta.

O nome do livro é Plantas Alimentícias Não-Convencionais (PANC) no Brasil. Assim, com acrônimo e tudo. Tem muita folha, mas também tem flor, tem frutas, diversos palmitos que não são de palmeiras, berries brasileiros legítimos, verduras com gosto de cogumelo, legumes, sementes. Todas são plantas que servem para comer, mas nem todo mundo sabe que são comestíveis, ou nem todo mundo conhece, que nem alface ou tomate.

A partir dele passei a identificar plantas nas ruas, nas feiras, em jardins e nos quintais de amigos. Usei esse livro também para conversar com feirantes e agricultores sobre algumas plantas que eu tinha interesse que eles trouxessem para mim .Já tive acesso a muitos ingredientes diferentes, com sabores diversos, e gosto de brincar dizendo que um dia eu ainda vou provar de um tudo que está ali.

Nem sempre essas plantas tem um nome muito claro; variam de região pra região do Brasil. E, na maioria das vezes, são chamados mato, inço, praga, daninhas. Sem nome próprio, mas o sabor, esse é único. Este livro é um catálogo de tesouros.

 

PANC?

O termo é criação do autor, mas foi acolhido web afora. Outros termos poderiam ter sido escolhidos — como “Hortaliças tradicionais”, “Ervas comestíveis espontâneas”, “Plantas alimentícias alternativas” — mas nenhum deles traduz totalmente o conceito. Afinal, há mais que hortaliças ou ervas (frutas, flores, legumes também fazem parte); também não são uma alternativa, mas sim um acréscimo de sabores; e tradição é um conceito meio difícil de definir, vago. É por isso que PANC acabou ficando.

O livro que carrega esse nome é resultado da pesquisa de doutorado do Prof. Valdely Ferreira Kinupp, pela UFRGS. É uma edição muito bem trabalhada, daquelas que a gente vê o carinho em cada página. Valeu cada centavo meu. Tem 768 páginas em couché brilhante — aquele papel bom — , colorido e cheio de fotos. Em cada conjunto de duas páginas, você encontra um tipo diferente de planta, uma descrição e as fotos dessa planta em detalhe. As fotos são muito bem feitas, e há sempre mais de uma, o que faz com que você realmente consiga identificar as plantas comentadas. Já emprestei este livro para uma agricultora orgânica da minha cidade e foi o que mais chamou a atenção dela: ela conseguia efetivamente ir olhando e identificando as espécies com clareza, e por isso se interessou em ter um livro desses também.

O caruru e a sua respectiva página, com receitas

Se na primeira página ele identifica a planta, a segunda trata de ensinar como prepará-la. Afinal, o livro é um catálogo de plantas comestíveis — então temos que saber como comê-las. São três sugestões de receitas para cada planta, e as receitas também recebem cada uma a sua foto. Isso é importante porque como elas não são convencionais, não são ingredientes que estamos a preparar todo dia. Mas para mim, as receitas são só um ponto de partida pra me aventurar na prova. Me dão uma vaga noção de como usar aquilo e o resto é comigo. Eu adoro esse espaço criativo (e detesto livro de receita)! E essa história de me dar liberdade individual me leva pra essa ideia do título…

Punk?

A primeira vez que vi a brincadeira de que PANC é punk (tão óbvia, e tão genial) foi no blog Matos de Comer. O Guilherme Ranieri, que é quem escreve por lá, organizou uma espécie de festa gastronômica em SP com esse nome. PANC tem um quê de punk, e não é só a sonoridade. PANC são punks porque carregam em si uma independência maior das empresas que ditam o que se planta através da venda de sementes — eu diria que elas são anticapitalistas por natureza. São sabores menos globalizados. Comer PANC é uma forma de rebeldia aos sabores convencionados como os que eu deveria comer. E sem essa imposição do que está nos supermercados, abre-se um leque gigante de novas delícias.

E não é só isso. Se há outra coisa que essas plantas tem em comum com a cultura punk é o modo como elas se propagam. Elas são o ápice culinário doDo It Yourself”: Grow by themselves. Crescem por elas mesmas, espontâneas, a despeito da ordem que você quer dar pro seu jardim. PANC são livres, não aceitam nossa imposição de cultivos, não se conformam com nossa autoridade. PANC é aquela planta que teima em nascer no seu vaso de manjericão. E que podem ser surpreendentemente gostosas também.

Outras PANC podem não crescer sozinhas, mas são espontaneamente passadas entre vizinhos, amigos, agricultores, e é assim que se propagam num determinado lugar. Não se vendem: se dão, se trocam com o grupo. Não vejo nome mais apropriado para isso do que cultura: aquilo que se cultiva ao longo do tempo entre um grupo de pessoas e que se incorpora como hábito. E é uma cultura dupla: de plantas e de costumes.

Comer PANC também pede a quebra de um bocado de ideias cristalizadas. Pessoas mais velhas as vezes as desprezam porque as associam com “comida de pobre”, de tempos da roça onde não havia mais nada pra comer. Como se fosse pecado gostar do que dá no seu quintal. Pessoas mais novas, por outro lado, torcem o nariz porque são desconhecidas, e estão muito longe do gosto globalizado que a indústria — alimentar e agrícola — nos oferece. Como se fosse pecado gostar do que dá no seu quintal. Que coincidência.

Por isso, Plantas Alimentícias Não-convencionais (PANC) no Brasil é um livro um bocado iconoclasta. E isso por si — vou ser sincera — , já acho um deleite. Lógico, ele não tem poderes mágicos: quebrar preconceitos depende muito da gente mesmo. Ter coragem de experimentar é uma estratégia pra fazer essa mágica acontecer. Pra mim, o livro funciona como um mapa, um jeito de me fazer entrar na brincadeira. E do pouco que provei — ainda estou longe do objetivo que me dei de provar tudo — deu pra perceber: nesse mato tem delícia.

Pra não dizer que não falei de flores: se você considerar comprar o livro em algum momento da vida, faça-se um favor pra combinar com o conteúdo PANC (punk?) do livro: compre direto na editora.