Pepino-melancia, uma PANC rústica que produz pequenos bibelôs

Fiquei conhecendo o pepino-melancia porque ele estava dando sopa na cerquinha do lote que comprei pra construir minha casa. Ele estava por lá, pendurado, gracioso, com certeza sem ninguém ter semeado, que nem o alecrim dourado da música.

DSC_0258.JPG
Gracioso, pendurado na cerca

Esse pepino (Melothria cucumis Vell.) leva esse nome por conta da casca rajadinha, que lembra realmente a melancia. Pepinos e melancias, aliás, são ambos da mesma família das cucurbitaceaes, e este aqui obviamente é parente deles.

Ele é uma planta alimentícia não convencional (PANC) rústica, espontânea, que dá quase sempre assim como o encontrei, perdido em áreas de mata, quintais e cercas. É encontrado em grande parte do país: do Rio Grande do Sul até o sul da Bahia. A área mais comum de ocorrência, no entanto, é nesse pedaço mesmo onde moro: no sudoeste do paraná, oeste catarinense, e oeste do Rio Grande do Sul, se estendendo inclusive pra parte da Argentina e Paraguai. No pedaço dos países vizinhos, o pepino melancia recebe um nome espirituosíssimo, que me faz rir um bocado: melancia de rato.

O gosto desse pepino é muito semelhante com o do pepino comum, porém a casca é ligeiramente mais grossa. Por conta do tamanho, que fica sempre mini, é muito apreciado pra fazer conservas: basta colocar os pepinos em salmoura (com cerca de 10% de sal) e esperar maturar por uma semana. A casca mais espessa ajuda que a conserva sempre saia crocante, o que nem sempre é simples de ser feito com pepinos comuns.

Uma curiosidade que percebi experimentando os pepinos foi quando cortados longitudinalmente (“de comprido”), eles exalam um cheiro diferente que lembra o melão. Por conta desse aroma, quando preparo pratos dou preferência a esse corte. Neste caso, servir cru apenas temperado com azeite e sal costuma ser uma boa pedida, pois o aroma é suficientemente atraente pra que você não precise de muito malabarismo.

DSC_0231.JPG
Vai servir pepinos melancia? Prefira cortar assim pois exalam mais aroma. E prefira servir cortado, pois a casca mais dura que o pepino comum não favorece que sejam servidos inteiros.

Quanto ao cultivo, o pepino melancia parece preferir áreas de pleno sol, mas também aceita bem viver em meia sombra – estes, inclusive, estão na cerca embaixo de uma árvore e produzem bem. Aqui eles brotam espontaneamente assim que termina o inverno e as geadas (por volta de agosto) e os frutos são encontrados entre dezembro e fevereiro. A planta solta flores minúsculas, amarelas, e em poucos dias os frutos se desenvolvem.

DSC_0262.JPG
A florada do pepino-melancia

A propagação pode ser feita por sementes. Elas se parecem muito com as sementes do pepino comum, são apenas um pouco menores e mais achatadas. Aqui tem outras informações sobre cultivo do pepino-melancia, mas pelas fotos a gente vê que é um pepino mini semelhante, também nativo e da mesma área de ocorrência, mas não o mesmo. De toda forma, é provável que esse também se beneficie do mesmo tipo de cuidado.

***

Aproveitei que encontrei no lote alguns pepinos já secos, com a casca bem fininha e as sementes vazando dos frutos e andei enviando essas sementes a alguns amigos do twitter. Alguns vão tentar o cultivo em vasos grandes, na área urbana, e outros em zonas que não são as de ocorrência natural. São experiências que a gente não acha muita informação sobre, e por isso estou curiosa pra ver o que eles me contam sobre o pepino melancia crescendo por aí. Quando tiver notícias, eu volto pra contar.

Batatinha quando nasce

No inverno do ano passado misturei algumas cascas e folhas secas num vaso grande em que tenho um pé de louro, pra servir de adubo quando chegasse a primavera. Uns meses depois, começou a crescer alguma coisa junto do louro, e fui observando a folha. Era batata-doce.

Provavelmente algum pedacinho de casca que joguei resolveu virar uma planta nova em vez de se decompor. E eu teimei junto com a planta. Joguei água, guiei as ramas das folhas que vinham, ia deixando aquela planta crescer.

Depois de um ano, era hora de podar e adubar de novo – esse ritual corriqueiro de inverno de quase todo mundo que resolve ser jardineiro. E aí decidi que era hora de cavucar pra chegar nas batatinhas.

Eu sei, não vai matar a fome nem nada, mas tem tanta coisa bonita que eu experimentei ao ver essa batatinha crescendo que me sinto alimentada. Penso na relação diferente com a jardinagem, que as vezes deixa a gente com tanto medo de matar as plantinhas, mas se mostra ali quase uma coisa inexplicável de tão viva. No jeito diferente de perceber o lixo, que pode ser aproveitado nos vasos, mas tem tanto valor que pode se transformar numa nova planta e em alimento. Na resiliência da casca, no tamanho do ciclo pra se produzir uma batata – lá se foi um ano! Na mão suja de terra procurando as batatas e as unhas pretas, que me lembraram que plantar dá trabalho e é bem diferente do que se vê no supermercado. No querer muito cozinhar também as folhas – elas são uma PANC incrível, macia, saborosa – porque você não quer perder nada dessa experiência assombrosa de ter conseguido produzir uma batata-doce, umazinha que seja, num vaso em casa.

Insistir em ter plantas comestíveis em casa é das coisas mais gratificantes e poéticas que consigo pensar.

Como era pouca, assei junto com outras batatas-doces compradas, temperadas com curry, sal e azeite. Separei as batatas que nasceram aqui em casa pra saber quando comesse – estava curiosa. É claro que a minha batata era a mais macia e a mais gostosa. A grama do vizinho não é mais verde.

Os morangos que plantei na minha varanda

Ano passado, quando me mudei pro interior do Paraná, resolvi comprar umas mudinhas de morangos. Já que era pra morar nessa lasqueira de frio, que eu aproveitasse as coisas boas que esse clima permite.

A tentativa de cultivar morangos, no entanto, foi um fracasso imenso. Saia uma folha da mudinha, e em seguida alguma antiga morria. Depois foram parando de nascer novas folhas enquanto as vivas insistiam em continuar morrendo, até que o morangueiro desapareceu. Nunca vi nem flor.

Nesse novo inverno, no entanto, não me deixei desanimar pela experiência de fracasso do ano passado.

Tava tão corajosa que comprei 6 mudas ao invés das 3 do primeiro ano. E ó, tão aí os morangos. Comi hoje a tarde uma meia dúzia, e os pés continuam cheio de frutas verdes, pra me divertir nas próximas semanas.

Vasos de morango
Quatro vasos na varanda com as mudas de morango: dá pra cultivar em pequenos espaços
Flores de morango
Flor do morango e morangos se formando

Cuidar de plantas não tem nada daquela lenda do “dedo verde”. Tem muito mais a ver com estar a fim de fazer isso. Ter “dedo verde” nada mais é do que a gente ter um pouquinho de experiência de cultivar plantas. “Dedo verde”, eu acho, devia ser encarado só como um outro jeito de dizer hábito.

Por isso que o 1 ano que separam as duas experiências fizeram diferença. O hábito me ajudou a “escutar” melhor minhas plantas. Foi só ter presença, olhar bem de perto todo dia, e seguir cuidando. Foi fácil principalmente porque era uma coisa que eu estava com muita vontade de fazer.

morangos
Morangos verdes e madurando

Também foi importante ter noção que muita planta vai morrer nesse meio do caminho. Sério, não é culpa sua, nem é coisa minha. Se você tiver a oportunidade de conversar com alguém que planta pra viver vai ouvir isso: faz parte. Mesmo com toda experiência, plantar é cuidar de vida. E a vida está sempre sujeita às coisas imprevisíveis que acontecem no mundo.

Também é legal ter noção que cada planta que você aprende a cuidar se potencializa na possibilidade de cuidar de outras plantas mais difíceis. Cada manjericão que sobreviveu aumentou minha chance de dar conta desses morangos. E eles tão aí pra mostrar que pode dar certo.

No final, o melhor de tudo nem foi comer os morangos; foi perceber que se aprende a lidar melhor com os processos.